Novo colunista da Mídia NINJA, Araquém soma mais de 50 anos dedicado à documentação e proteção da natureza brasileira. Em sua estreia, narra o ponto-limite em que chegamos e convoca uma nova forma de encarar a Amazônia.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Neste exato momento, bem diante dos meus olhos, a Amazônia arde no calor das queimadas. Labaredas de fogo se sobressaem na cortina de fumaça e tingem de vermelho o horizonte. O fogo e a fumaça escondem o sol, os olhos ardem de dor, o calor é insuportável.

Percorro mais de dois mil quilômetros na Belém Brasília e não vejo extensão continua de floresta homogênea, só um paredão cinza de fumaça, o cheiro da terra calcinada, animais mortos, o gado pastando em áreas desmatadas, as carvoarias engolindo madeira, a soja avançando sem parar. A cena se repete todo ano, entra governo e sai governo, entra ministro sai ministro.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Só que agora a maior floresta da Terra não tem mais como suportar. Atingiu o seu limite, com graves conseqüências para o clima global. Ela está realmente se fragmentando e já é possível prever uma Amazônia dilacerada, sem produzir chuva e completamente modificada na sua fisionomia original.

A destruição da floresta escancara nosso descaso, nossa conivência com o crime inominável.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Estamos permitindo a desertificação do maior laboratório científico de nossa civilização, sem ao menos conhecê-lo e estudá-lo adequadamente. É possível que lá existam milhares de produtos que podem revolucionar a saúde da Terra.

A Amazônia abriga um terço das florestas tropicais e mais de 20 por cento das 1,5 milhão de espécies vegetais e animais do mundo. É a região mais rica em biodiversidade do planeta, mas suas florestas têm sido dilapidadas sem gerar benefícios sociais e econômicos. Hoje, quase 80 por cento da madeira extraída da Amazônia é ilegal, na base do corte raso, sem pagamento de impostos nem geração de empregos formais.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

A motossera, o grileiro, o boi, a soja e sobretudo uma política ambiental pífia já fizeram com que a Amazônia perdesse 18% de sua cobertura original. Hoje 4% dessa área não serve mais para nada, nem para pasto. Virou deserto. Somos os maiores devastadores do planeta. O desmatamento e as queimadas já respondem por 75 por cento das nossas emissões que contribuem para o efeito estufa.

Não há conhecimento, nem respeito. Os políticos não conhecem a floresta, estão trancados em seus gabinetes e em sua ignorância.

A questão amazônica não encontra eco na sociedade. Parece que a Amazônia é problema dos outros, parece que os 25 milhões de brasileiros que lá vivem não precisam de médico, dentista, mantimentos e dignidade.

Ninguém sabe quem são os verdadeiros proprietários de terra na Amazônia. O código ambiental brasileiro é confuso e permite aos grileiros toda sorte de atalho para fugir da punição. A corrupção é a maior arma dos grileiros. Grupos de políticos, fazendeiros e madeireiros formam quadrilhas que agem como se fossem mais poderosos que o Estado.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Por que não dizemos basta de tanta destruição? Por que somos tão passivos? Por que permitimos que os governos ignorem a ganância dos senhores de terras, a voracidade das grandes madeireiras, o enriquecimento ilícito, as carvoarias e mineradoras ilegais, o garimpo sangrando a terra. Tudo em nome de um progresso que sempre enriqueceu alguns indivíduos e empresas e deixa o povo na mais absoluta miséria.

O que está acontecendo agora na Amazônia é crime de lesa humanidade: trabalho escravo, corrupção, uso de violência, invasão e ocupação ilegal de terras públicas. Destruição que ameaça não apenas a floresta ou as comunidades tradicionais, que dela dependem para sobreviver, mas a integridade da própria Constituição brasileira e o futuro do país.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Por que milhares de quilômetros quadrados de vida, séculos de maravilhosa construção, são destroçados num único gesto?

Por que entra governo e sai governo e a hipocrisia prevalece?

Os cientistas dizem que é urgente que se implante uma moratória nacional e o governo assuma a responsabilidade que lhe cabe de implantar um novo modelo social e econômico voltado para os interesses dos 25 milhões de amazônidas.
É urgente também, dizem os cientistas, que se implemente uma revolução científico-tecnológica na Amazônia, com a formação de técnicos de alta especialização nas mais diversas áreas científicas, para ocupar e conhecer esse laboratório.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

E uma outra revolução mais sutil, mas igualmente importante: o modo como encaramos a Amazônia, o que realmente queremos para a Amazônia. Os estoques de riquezas naturais que ela possui são cobiçados sim pelas potências internacionais e isso exige uma mudança de atitude, uma presença efetiva, um grande esforço de toda a sociedade.

Precisamos lembrar sempre que a Amazônia pode chegar ao ponto trágico da Mata Atlântica que foi praticamente dizimada e antigamente recobria quase toda a faixa do litoral.

Toda a minha obra clama por indignação e atitude.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

 

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