Ainda sobre a economia nacional…

Ainda sobre a economia nacional…

Foto: Mídia NINJA

Por Fernando Sevá e Daniel Zen

A comemoração quase que cotidiana do governo Bolsonaro sobre as altas no principal índice da bolsa de valores, o Ibovespa, carece de um olhar mais atento sobre a base real da economia, a atuação do mercado rentista e também sobre a própria confiança do mercado e da população no atual governo.

À primeira vista, observa-se que o Ibovespa cresceu mais de 14% esse ano, seguindo a tendência das demais bolsas mundiais como, por exemplo, a maior dos Estados Unidos, que cresceu mais de 15% até esta data, segundo o índice Dow Jones. Ocorre, porém, que na terra do Tio Sam, a bolsa segue sua trajetória para cima baseada na melhora significativa das taxas de desemprego (menor que 4%) e crescimento do PIB (acima de 3%), exatamente ao contrário do Brasil, onde estes mesmos índices têm apresentados pioras consecutivas ao longo do ano de 2019, já com o próprio governo admitindo um pífio crescimento da ordem de 0,81% para este ano.

O governo de uma nota só patina e gira ao redor da reforma da Previdência, recém aprovada em 1º turno na Câmara Federal, utilizando para isto do padrão da velha política do “toma lá, dá cá”, aquela que tanto combateu nos palanques e nas mídias sociais. A reforma, a exemplo da já conhecida reforma Trabalhista, tampouco irá impulsionar a economia nem no curto nem no médio prazo, pois servirá apenas e somente para transferir aos trabalhadores brasileiros a conta dos grandes devedores, como o senhor Luciano Hang, das lojas Havan, que mesmo devendo quase R$ 200 milhões de reais ao povo brasileiro se arvorou na defesa da reforma, salvadora para ele e alguns poucos amigos do Rei.

Ainda com relação ao impacto imediato na reforma da Previdência na Economia, este será nulo uma vez que a provável economia não poderá ser utilizada em investimentos públicos, pois desde o ano de 2016, com a entrada em vigor da Emenda Constitucional n° 95, o crescimento do orçamento está limitado apenas à reposição das perdas inflacionárias, sem crescimento real. Em síntese, o dinheiro tirado da população pobre servirá apenas para pagamento do serviço da dívida, indo diretamente ao bolso dos credores da União.

O governo não apresenta nenhum “pacote” ou ao menos uma única e simples proposta sequer de medida que vise a retomada do crescimento econômico. Ao contrário, ocupa todo o seu tempo com medidas supérfluas, irrelevantes, insignificantes e medíocres para a agenda de um presidente da República.

 

Coroando a falta de projeto e de rumo para a Economia o governo chega aos 200 dias com a tentativa “mágica” de usar a liberação de parte dos saldos do FGTS para estancar a queda nos indicadores. Esse remédio, também utilizado no governo Temer em 2017, alivia a dor mas não trata a doença, afinal de contas, vai retirar recursos da já combalida cadeia produtiva da Construção Civil para colocar no consumo de curto prazo.

A popularidade do Governo continua em queda livre, sem previsão para estancar, seja no âmbito geral da população – onde já é o governo pior avaliado da história, em se tratando de seu primeiro semestre, com apenas 33% de aprovação – quer seja no âmbito do próprio “mercado” – onde em pesquisa realizada pela XP Investimentos, no final de maio, já se apontava a queda de 84% para 14% de aprovação junto a seleto grupos de investidores, economistas e afins. Essa queda da popularidade junto ao mercado, em poucos meses, demonstra a desconfiança pelo lado “de dentro” do sistema, reforçado pelo lado “de fora”, como as vaias entoadas no Maracanã, na final da Copa América.

Na contramão de tais fatores, o governo não apresenta nenhum “pacote” ou ao menos uma única e simples proposta sequer de medida que vise a retomada do crescimento econômico. Ao contrário, ocupa todo o seu tempo com medidas supérfluas, irrelevantes, insignificantes e medíocres para a agenda de um presidente da República, tais como desobrigar o uso de cadeirinhas para crianças em veículos automotores, retirar radares de trânsito das estradas, dispensar turistas americanos da obtenção de visto de entrada no Brasil, levar o GP Brasil de Fórmula 1 de São Paulo para o Rio de Janeiro, aumentar o prazo de validade das carteiras de motoristas, mudar as cores das capinhas dos passaportes e carteiras de trabalho, pretender indicar um ministro evangélico para o STF, ameaçar extinguir a Ancine se a agência não puder ter “filtros” culturais ou, a última e mais absurda de todas delas, indicar o próprio filho, um reconhecido néscio, verdadeiro beócio, para assumir o posto máximo da diplomacia no exterior: a embaixada do Brasil nos EUA.

Enquanto o próprio presidente e sua família se aboletam nas regalias e benefícios dos cargos públicos que ocupam, 13 milhões de brasileiros desempregados aguardam por medidas efetivas, eficientes e eficazes do governo para sair da lama; 12,7 milhões de brasileiros passarão a se ver privados do direito ao abono salarial (mais da metade dos atuais beneficiários) com a aprovação da reforma da Previdência; e outros milhões passarão a se ver privados de remédios básicos, cujos subsídios para fabricação e distribuição gratuita acabam de ser cancelados. E o presidente ainda se dá ao trabalho de afirmar que não existe fome no Brasil, nem mesmo nos Estados do nordeste, a cujo povo ele chamou de “paraíbas”.

É o governo onde os pobres ficam mais pobres e os ricos, cada vez mais ricos.

“Quero ver minha filha estudando com pessoas negras”

“Quero ver minha filha estudando com pessoas negras”

Por Artur Nicoceli | Estudante NINJA

Julho é um mês de festividades e comemorações. Écelebrada a revolução constitucionalista de 1932 no dia 09, à liberdade de pensamento no dia 14, e o dia internacional da mulher negra latina americana e caribenha. A marca internacional foi definida em 1992 no primeiro encontro de mulheres afro-latino-americanas e afro-caribenhas. No Brasil, essa data também é o dia nacional de Tereza de Benguela (25 de julho). Ela é um símbolo de luta negra, pois se tornou líder do Quilombo do Piolho após a morte de seu marido, a mesma resistiu à escravidão por 20 anos, quando em 1770 o lugar que liderava foi destruído, logo em seguida Tereza foi aprisionada e morta.

O Brasil matou 23 mil jovens negros por ano segundo o Mapa de violência e são registrados em média uma taxa de homicídios de 40,2 mortes para 100 mil habitantes negros. 71,5% das pessoas que foram assassinadas nos últimos anos eram pretas ou pardas. Existe um crime cometido anualmente pelo governo que é não tentar solucionar os motivos para o genocídioconstante da população negra.

Todavia, as políticas públicas estão sendo implantadas para que o índice de vulnerabilidade, criminalização e violência seja diminuído exponencialmente, em 2012 à política de lei de cotas passou a ser articulado dentro das universidades públicas, entre 2014 e 2016 o Comitê da América Latina e do Caribe (CLADEM), a Comunicação em Sexualidade ECOS e o Instituto da Mulher Negra trouxeram para debate as políticas educacionais no Brasil para a questão de gênero e raça dentro dos espaços educacionais, mesmo assim alguns setores conservadores resistem à implantação e qualquer política inclusiva.

A pesquisadora em direitos humanos e formada em políticas públicas, Jéssica Tavares Cerqueira, afirma que a dificuldade de pessoas negras acessarem o sistema de educação precede a precariedade da vida das pessoas negras e do ensino público que, normalmente eles acessam. “Isso se deve ao fato de que, historicamente esse direito de conseguir diploma no ensino superior nos foi negado, então nós temos apenas quatro gerações em nossas famílias que viveram em liberdade, e que mesmo não escravizados, não tinham o direito à educação garantida, porque suas vidas eram voltadas para a sobrevivência, como conseguir moradia e emprego. E infelizmente, ainda hoje nós não superamos essa realidade totalmente”.

Ela afirma que existe uma necessidade de reparação histórica de acesso à educação que as cotas se propõem a ser, mas não cumprem totalmente a obrigatoriedade, todavia ela reserva um mínimo espaço à intelectualidade para o povo negro. “Existe a construção racista brasileira, de que a educação do negro é voltada para escolarização profissionalizante, fabril, isso para os homens negros, que foram estereotipados como fortes, incansáveis, bons de serviços físicos, por que para as mulheres negras resta o (combo) do racismo e do machismo”.

Estudante Leticia Lua | Foto: Victoria Alves

A estudante Letícia Lua (18), está no segundo ano da escola Antonio Manuel Alves de Lima e afirma que as políticas educacionais fizeram-na desistir, muitas vezes de estudar, principalmente pelas instituições que ela passou. Ela afirma que os salários baixíssimos dos funcionários públicos e os professores desgastados são elementos que afetam diretamente a qualidade da educação. “Não temos estrutura na educação brasileira”. Lua também afirma que o avanço da proposta do “escola sem partido” divulgado em 2004 pelo advogado Miguel Nagib que têm a perspectiva de romper o que os movimentos conservadores definem como: doutrinação ideológica, afeta diretamente o seu ensino. “Essa situação só vai piorar para muitas mulheres negras, o “escola sem partido” exclui o debate de gênero, e de raça. As pessoas não terão conhecimento sobre sua identidade e os ignorantes vão usá-lo para afetar essas pessoas, pela falta de conhecimento”.

Mesmo com toda truculência institucional, ela se imagina estudando em alguma Universidade Federal fazendo economia e lutando pelo direito de outras pessoas entrarem na universidade. “Espero o dia, em que os professores, estudantes e a sociedade, juntem-se, e vão à luta, pelo direito a educação pública e de qualidade, direito a amar, direito a viver. E espero que consigam”.

Já a estudante de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, Bruna Aniez (20), relata que o Brasil está evoluindo a passos lentos, mas está se desenvolvendo. No entanto, ela enfatiza que para uma mudança necessária não se sabe quanto tempo irá demorar. “Me sentia um peixe fora d’água. Ser a única negra em uma escola de gente rica era estranho, parecia que eu estava no lugar errado ou fazendo algo de errado (quando na verdade não). A realidade só bateu na minha porta quando eu me formei e isso foi o mais absurdo. Eu me culpava por estar em um lugar de brancos, quando, na verdade, não deveria existir lugar de branco (ou de negro)”.

Ela também espera que a população negra, principalmente as mulheres tenham mais oportunidades, colocando-as em escolas de alto padrão, e assim aumentando o índice de pretas e pardas nas instituições de ensino. “Quero ver minha filha estudando com pessoas negras. Quero ter uma chefe negra. Quero ser uma chefe. Espero que o futuro seja melhor pra nos, mulheres, negras e negros, e que os anos de sofrimento se reduzam a história e não a realidade”.

Grêmio estudantil é a possiblidade de articulação dos secundaristas

Grêmio estudantil é a possiblidade de articulação dos secundaristas

Por Artur Nicoceli | Estudantes NINJA

Foto: Votação dos alunos do Grêmio Fênix

Os centros acadêmicos (C.as) são organizações de cunho social, sem fins lucrativos que discutem as necessidades educacionais diante das políticas
públicas dentro das universidades. No entanto existe um debate em paralelo que é o adultocentrismo, que significa estabelecer o poder para adultos e
deixando jovens e crianças com menos liberdade de opinião. Perante essa necessidade do debate com menores de idade surgem os grémios estudantis que também são organizações no mesmo formato dos C.as, porem debatem o estatuto interno de uma instituição de secundaristas e a conjuntura nacional que os afeta diretamente. Assim, os estudantes de ensino fundamental e médio já começam a ter opiniões políticas desde a
escola e não precisam mais aguardar entrar nas universidades para que haja debates.

Teresa Pralon Catelli (17) é estudante do Colégio Equipe e integrante do grêmio Pão de Milho, a organização dos estudantes é horizontal, portanto não
existe disputa de chapas anualmente para comandar a gestão e também não tem membros fixos, portanto qualquer um pode aparecer e participar
ativamente dos debates internos da escola e também sobre a conjuntura nacional. “Então, a gente quase sempre se envolveu muito nas questões
internas da escola, como questões estruturais, eventos culturais, enfim, mas recentemente a gente tem tentado se mobilizar para a questão mais política, como a reforma do ensino médio e reforma da previdência, a gente têm tentado chamar mais a galera pra luta, passar nas salas explicando e chamando para os atos”.

Já o estudante Gabriel de Luca (16), estudante do 3º ano do ensino médio da ETEC Lauro Gomes e integrante do grêmio Fênix também acredita que a
administração da organização serve para atuar politicamente e ativamente dentro da sociedade, propondo dentro do ambiente escola debates com pautasecessárias a discussão através da arte, do esporte e da reflexão. “Cada dia mais eu valorizo a importância da formação desse senso crítico dentro da minha instituição, e gostaria muito que ações assim ocorressem com mais frequência em todas as escolas do país”. No entanto, ele afirma que existe uma necessidade da autorização da diretoria perante qualquer atividade que o grêmio se propõe a fazer dentro da instituição, todos os projetos devem ser oficialmente documentados e encaminhados para eles, assim existindo uma burocratização interna da instituição. “Acho que a maior problemática nisso é que a diretoria já possui muitas questões para resolver por si só, por sermos uma instituição grande com um número e uma diversidade de alunos maior que o normal, sendo assim as questões levantadas pelo Grêmio somam e algumas vezes ficam em segundo plano para serem resolvidas”. A estudante do Colégio Equipe também argumentou sobre o não interesse da grande maioria dos estudantes, pois é uma escola privada de um nicho elitista.

A política do colégio é ser construtivista, no qual as pessoas têm opiniões políticas similares, então normalmente, não existem discussões diante de opiniões opostas. “Isso faz com que não tenha um incômodo e as coisas sejam muito confortáveis, a gente tem um diálogo direto e muito pessoal com a coordenação e orientação, então não temos muitas questões estruturais nesse sentido. Acho que tudo isso gera uma preguiça dos estudantes”. A necessidade dos grêmios estudantis dentro das escolas trouxe um panorama social que abarcou diferentes políticas de interesse mútuo aos estudantes, assim quando se unem em prol da construção de um organismo político-social dão voz aos secundaristas e rompem a barreira do adultocentrismo, demonstrando que não é porque eles são menores de idade que não possuem opinião política.

O estudante Thomaz Assaf Pougy hoje universitário da USP-Poli era integrante e presidente do grêmio estudantil do colégio Elvira Brandão afirma que mesmo sendo um colégio pequeno o debate estudantil têm a perspectiva de conscientizar uma sociedade menor de idade sobre fazer parte das políticas internas da faculdade e isso culmina em secundaristas que rumam a universidade com uma mentalidade politicamente ativa não necessitando
começar, mas sim integrando os centros acadêmicos das universidades públicas e particulares.




Criadores autorais do Brasil… cadê vocês?




Criadores autorais do Brasil… cadê vocês?

A moda como foi feita e pensada não interessa mais. Apesar de ser a segunda maior indústria do mundo, com milhões de pessoas envolvidas direta e indiretamente, esse “mundinho fashion” ficou reduzido, muito equivocadamente, a tendências, prisão emocional e roupas. Sabe aquele repertório visual estereotipado desde sempre? fez a passagem! Ganhou repertório poético, vivo.

Economias mais conscientes estão direcionando nossas vidas, e, finalmente, nossos espelhos não estão mais na TV. Já sabemos que trocar com os outros nos movimenta, nos amplia, nos envolve, e que as coisas só estão bem de verdade quando estão bem pra todos. 
Agora o que manda é o estilo verdadeiramente diverso, com jogo de ideias em uma perfeita integração entre a estética e a alma. Agora quem produz estabelece relação ética com o desejo e com a linguagem. E consumir é uma extensão do pensamento, que chega no coração. Então vamos enriquecer a nossa autoestima, integrar nossos ser e ter?

O Brasil íntimo taí, resistindo. E a gente precisa ter certeza que não está sozinho nesse universo da moda, porque moda faz muito parte da nossa vida, o tempo todo. Somos milhões de consumidores e criadores mas não nos conhecemos. Não nos consumimos. 
Por isso está nascendo uma superparceria Mídia Ninja e Mônica Horta, pra conhecer e divulgar aqui no nosso Instagram quem são os criadores de moda autoral brasileira… o quê, como e onde produzem? Se você é um deles vem contar tudo pra gente, enviando um e-mail pra [email protected].

Aí estão os primeiros dez criadores selecionados pela curadoria de Mônica Horta, pra que você possa conhecer o conceito do trabalho de cada um, e se aproximar do que mais tiver a ver com seu estilo. É lindo, necessário, e urgente que priorizemos o que é feito por quem está do nosso lado, por quem sente como a gente, tem preço justo, está atento a todos os corpos, respeita nossa cultura, tem o olhar pro futuro e produz com amor.

Porque é impossível apreciar o que não se conhece, olha só

Bianca Poppi é estilista, jornalista, multifacetada; dessas figuras com olhar raro. Desde 2014 comanda seu “Brechó da Poppi”, precursor no mundo online, superinovador, porque, além de ser um acervo de garimpos selecionados pessoalmente por Bianca, parte dele recebe interferências feitas à mão por ela, que também apresenta virtualmente as peças em looks com produções de moda muito bem cuidadas e inspiradoras. 
Exatamente como dizem seus bordados, é uma marca “vintage, porém moderna”. Única.

Fotos – Divulgação


Lucia Lemos à frente da marca Canarito constrói camisas colecionáveis. Com o slogan “Arte para vestir e histórias para contar” junto a um pensamento refinado, produz pocket coleções de 30 peças de estampas exclusivas, sempre criadas por colaboradores artistas de prestígio, com diferentes atuações. Suas tags contêm informações sobre o número da peça, a imagem da arte original e o nome do artista. A Canarito prova que moda autoral não copia, se propõe.

Legenda
Estampas: Borboletas de Salvador Dali, Orixás de Emerson Rocha, Piranhas de Isaac de Oliveira.

Fotos – André Patroni


Diego Gama acha que “a moda pode ser um campo poderoso de questionamento sobre as formas e os modos com os quais tecemos a realidade”. Para a sua coleção mais recente, construiu milhares de “plumas” de polímeros de silicone, que poderiam ter sido retiradas de um pássaro plástico do seu universo provocativo. Suas apresentações são sempre conceituais, que depois se tornam coleções originais, com peças superusáveis. Na sua passarela já reinaram criaturas vegetais, empoderadas com seus cabelos-planta [aliás, uma das melhores coisas que já vi no mundo da moda dos últimos tempos]. 
Grandes nomes compartilham do seu ecossistema afetivo, como Maria Beraldo, que usa atualmente uma blusa de látex dele em seu trabalho musical “Cavala”.

Fotos – Agência Fotosite


Gustavo Silvestre partiu de Pernambuco pro mundo. Designer e artesão, adotou como linguagem o crochê, e foi com ele que, por exemplo, construiu o provador da loja da Farm em Nova Iorque, e muito mais, desde muito tempo. Suas criações são movidas pelo coração, e sempre produzidas com a aplicação de conceitos sustentáveis.
Ele também é idealizador do Projeto Ponto Firme, com o qual desde 2015, ensina crochê na penitenciária masculina Adriano Marrey, em São Paulo, e já desenvolveu coleções inteiramente incríveis com os alunos. Fazem parte das suas especialidades, outras artes manuais, utilizadas por ele pra explorar a dupla moda e arte, como nos figurinos da Pablo Vittar e Anitta.

Fotos – Divulgação e Danilo Sorrino


Isaac Silva é um ser gigante. Ele veio da Bahia, está há 10 anos em São Paulo, e é superprestigiado por poderosos com conteúdo, como Elza Soares, Liniker, Gaby Amarantos, e mais. Isso deve-se ao fato de que a marca Isaac Silva potencializa a diversidade estética e exalta diferentes corpos, sempre empenhada na ressignificação da imagem do povo negro brasileiro, sempre de maneira livre, colorida, com história; sempre compartilhando o melhor olhar sobre antigas coisas, e dizendo: “acredite no seu axé”. Ele faz moda com pitadas generosas de felicidade.

Fotos – Jack Bones e Agência Fotosite

Ken-gá é uma marca que marca. Desde 2016, apresenta sua luta explícita pelo empoderamento feminino. “Talvez a maior viagem de uma mulher seja pra dentro dela mesma”.”, diz a estilista Lívia Barros, que, ao lado da Janaina Azevedo, acaba de lançar sua coleção mais recente, com o tema “A Boleia Mística”, toda construída em cima da vida da Afrodite, uma caminhoneira de Cuiabá, que assumiu sua mulheridade aos 68 anos. Com o senso de humor habitual, trabalharam elementos iconográficos dos caminhões e das estradas, como dos protetores de bancos e as cores do pôr-do-sol. A coleção também ganhou um documentário. Quem ousa usar Ken-gá exala liberdade.

fotos – Alex Batista e Agência Fotosite

Magna Coeli pensou a REfazenda, há 30 anos, como um modelo de negócio vanguardista. Sua marca se posiciona como uma empresa de comportamento, que se comunica por meio de produtos com conceitos sustentáveis. Suas coleções têm forte contexto sociocultural e argumentos filosóficos, propondo tipo a “renovação diária de ideias”.

Sempre trabalha com parcerias com artesãos e pequenos produtores locais, e acompanha o uso de suas peças para além da compra, influenciando seus consumidores a se estabelecerem como cidadãos do mundo, alongando o ciclo do produto por meio de sugestões de novas formas de vestir. Este ano, a marca foi a única, fora da Europa, convidada pela ONU a contar sua história no Fórum de Recursos Mundiais – o maior fórum sobre sustentabilidade do mundo, que aconteceu na Bélgica.

Fotos – Divulgação e Silvio Crisóstomo

O mundo Renata Buzzo é feito à mão. Sua marca é vegana, slow fashion, trabalha o upcycling, e prioriza matérias primas nacionais sustentáveis e certificadas, como o algodão brasileiro. Para a estilista, “o processo de criação e seus impactos no sistema é tão importante quanto o resultado final de uma roupa”. Por isso, suas criações sempre apresentam soluções estéticas de uso de resíduos, junto a aplicação de bordados e manipulação de superfícies têxteis. Renata foi escolhida pela Vogue Itália para representar o Brasil entre os 7 designers do “The Next Green Talent” – evento de sustentabilidade que aconteceu em fevereiro de 2019 durante a Semana de Moda de Milão.

Fotos – Divulgação e Agência Fotosite


Gabriela Mazepa usa restos de tecidos pra produzir novas coisas com upcycling. Ela não reproduz suas ideias apenas em invenções têxteis, mas as ensina em cursos pelo Brasil. Apesar de ser mais uma a usar essa técnica, seu trabalho tem o valor agregado de um olhar artístico e ao mesmo tempo prático, com inteligência estética funcional, que faz com que sua marca mereça atenção, a começar pelo nome: “o nome Re-roupa vem com esse hífen porque é como se fosse outro espaço para encaixar verbos possíveis, como re-fazer, re-imaginar roupa, re-modelar, re-significar, re-aproveitar. O hífen vem com a ideia de poder encaixar todas as possibilidade de fazer algo novo em um pedaço de roupa”.

Fotos – divulgação e Agência Fotosite


Fabíola Trinca é tingidora natural, pesquisadora, artista contemporânea e figurinista.
Sua história com tingimentos naturais nasceu em 2015, e de lá pra cá vem estimulando todos os melhores sentidos humanos através de suas “Cápsulas Cores”, como são definidas as coleções da sua marca “Studio Trinca”, da qual a primeira foi a Coleção “Paixão mordente”, em que foram trabalhadas 100 peças de roupas de tecidos naturais, garimpadas em brechós e tingidas por ela, em um projeto que durou 6 meses, de forma colaborativa e autoral, contando com a participação de 15 pessoas em funções diversas.
A marca usa apenas fibras naturais, biodegradáveis, cria coleções circulares e atemporais, incentiva o consumo consciente, e tem como um dos seus princípios integrar o artista e o artesão, com a reciclagem e reutilização de peças já existentes no mundo. Fabíola vê o trabalho manual, artesanal e ancestral como fonte máxima de sabedoria.

Fotos – Igor Cabral e Priscilla Haefeli

Cuidado: trojan ameaça as lutas feministas no Brasil e no mundo – e ele pode estar escondido na luta antiporn

Cuidado: trojan ameaça as lutas feministas no Brasil e no mundo – e ele pode estar escondido na luta antiporn

Foto: Mídia NINJA

Um questionamento tem me perseguido há tempos: que sentido pode fazer uma lei que permite que mulheres cobrem por sexo e, simultaneamente, criminaliza quem paga por seus serviços? Confesso que já tentei debater essa ideia em muitos prostíbulos Brasil afora, e fui recebida por minhas colegas com olhares muito mais do que questionadores, incrédulos.

Como funcionaria isso na prática? Cumpriríamos nosso horário de trabalho sem que ninguém nos contratasse, já que pagar por sexo seria um crime? Induziríamos os clientes ao crime?

Por anos, procurei e não encontrei uma resposta clara, até que ontem pela manhã, um longo debate no Instagram com uma garota dita abolicionista elucidou a questão. Eu pergunto a ela o que devo eu, prostituta, fazer no dia seguinte à aprovação do modelo de criminalização do cliente no Brasil. No que devo trabalhar? Conseguiremos todas empregos imediatamente, em especial considerando o momento que o país atravessa? Me responde a menina que isso é uma questão simples de resolver: basta que eu continue exercendo a prostituição até encontrar outra alternativa laboral.

Não fiquei surpresa com a resposta, mas realmente não esperava que ela verbalizasse este pensamento de modo tão canalha, direto e reto. O modelo que ela defende, portanto, é simplesmente inviável, não traz soluções – apenas cria um novo problema para as trabalhadoras sexuais, que a partir dali passam a atuar de modo ainda mais clandestino.

Ela me ameaçava: “prepare-se, este modelo chegará logo por aqui!” Feliz ou infelizmente, ela tem razão: o pl 377/11, que defende modelo similar ao sueco para a regulamentação da prostituição no Brasil, tramita no Congresso desde 2011. Foi arquivado, e recentemente desarquivado. De autoria do deputado João Campos (o mesmo da “cura gay”), usa exatamente os mesmos argumentos das feministas “abolicionistas” em sua defesa. Quando a lembrei disso, me chamou de desonesta – no entanto, são fatos: aqui e no resto do mundo, há vertentes feministas se aliando ao fundamentalismo religioso no que toca a pautas como pornografia, prostituição e direitos das pessoas trans.

Não é um fenômeno recente, aliás, Dworkin e Mackinnon se aliaram ao que havia de mais sinistro na política norte americana dos anos 70/80 para emplacar suas leis antipornografia, rejeitadas por serem consideradas inconstitucionais. Ao mesmo tempo, me parece um fenômeno bem atual: em tempos de avanço brutal do conservadorismo, não é de se estranhar que este tipo de pauta ganhe espaço e apoio.

O radfeminismo, lamentavelmente, tem se mostrado como o cavalo de troia que leva dogmas do fundamentalismo religioso para o seio dos feminismos e das esquerdas. Sob o guarda-chuva muito amplo de defesa dos direitos das mulheres, em algum ponto se lhes tira o direito à escolha e ao livre arbítrio, em nome muitas vezes de um ideal de fragilidade que deveríamos estar combatendo, não reforçando (até por ser uma prerrogativa machista e patriarcal, a suposta fragilidade feminina).

Quando se fala de modelo sueco, duas coisas precisam ser lembradas. A primeira delas é que ele foi implantado na Suécia em 1999. A segunda é que foi implantado como parte de um pacote de medidas que tinham por objetivo estimular a igualdade de gênero, ao contrário do que vem acontecendo em outros países que mais recentemente adotaram o modelo _ que simplesmente o implantaram sem nenhuma medida que realmente vise tirar as mulheres da prostituição, a exemplo do que a minha cara nova não-amiga sugerira em nosso curto e hostil debate.

Pois bem: isso mostra o lado profundamente hipócrita do modelo: se propõe algo que se sabe, não se cumprirá. Mas aparentemente, o cumprimento da lei não é relevante, o que é verdadeiramente relevante é poder dizer: “sim, fizemos algo para tirá-las de baixo de nossos olhos”.

Voltando à Suécia de 1999, é mais ou menos neste momento que surge a internet, e com ela a maravilhosa possibilidade de se anunciar serviços sexuais em sites. É muito fácil perceber que a diminuição da prostituição de rua naquele país se deu muito mais por influência da internet do que de leis de criminalização.

Agora, vamos ao Brasil de 2019. O desemprego assola as cidades, a precarização das leis trabalhistas jogando mais e mais pessoas na informalidade a cada dia. Um plano urgente de combate à miséria crescente é necessário, e no entanto, sabe-se que o atual governo pauta suas ações no sentido oposto.

Lhes pergunto: é neste exato momento que nos uniremos à bancada fundamentalista para apoiar um projeto que visa apenas controlar corpos e comportamentos de mulheres? Eu pensaria melhor antes de defender este modelo com unhas e dentes. Porém, aparentemente, o pensar mais profundo é uma possibilidade indisponível tanto para bolsominions quanto para radfeministas.

De qualquer modo, tenho acompanhado algumas páginas que defendem a “abolição” da prostituição. A implantação do modelo sueco de criminalização do cliente no Brasil não me parece uma realidade distante, e eu voltei a acompanhar essas questões bem de perto. Não como um debate – vocês sabem, como prostituta a minha palavra não é levada a sério, de qualquer modo – mas como observadora.

Eu estranho sempre que as abolicionistas da prostituição não tenham como pauta principal a erradicação da miséria, a meu ver o único caminho para se acabar com a prostituição.

A partir dessas leituras constantes, cheguei a um texto de Sandrine Goldschmidt traduzido para uma página feminista brasileira, cujo título sugere que o modelo abolicionista seria o único que contemplaria plenamente a vontade das prostitutas. Bom, nós aqui precisamos necessariamente nos ater a questões locais: o texto apresenta uma entrevista com a ativista Mickey Meji, que atuou como prostituta na África do Sul – um país onde a prostituição é totalmente criminalizada, ou seja: Mickey enquanto se prostituía, cometia um crime. Passar da condição de criminosa para a condição de uma trabalhadora que pode oferecer um serviço – ainda que seu contratante seja ainda tido como criminoso – pode soar como uma boa vantagem.

Eu lembro que, embora Mickey afirme que as prostitutas sul africanas podem dispor de preservativos em boa quantidade, a posse de preservativos é usados como evidência contra mulheres suspeitas de prostituição naquele país. Isso muitas vezes faz com que elas não os tenham consigo.

A história de Mickey é parecida com a história de muitas de nós: chegou à prostituição por conta da pobreza. Eu estranho sempre que as abolicionistas da prostituição não tenham como pauta principal a erradicação da miséria ao redor do mundo, a meu ver o único caminho para se acabar com a prostituição e com outros trabalhos precários, mas ok, este é outro assunto. Bom, em dado momento, ela tem contato com a SWEAT, um sindicato de trabalhadoras sexuais – o texto em questão usa o termo entre aspas, eu retiro as aspas pois são desrespeitosas.

Mickey conta de sua vivência e divergências com a SWEAT, pois não consegue considerar seu trabalho um trabalho – no entanto, é a partir desse contato que pode finalmente conhecer as leis que regem seu trabalho na África do Sul e no mundo, e isso ampliou seus horizontes, independente de Mickey querer seguir por toda a vida sendo uma trabalhadora sexual ou não. A partir de conhecer a atuação da organização abolicionista Embrace Dignity, me parece que encontra seu caminho no ativismo e passa a defender o modelo sueco de abolição da prostituição.

As questões que ela coloca, sobre a redução da expectativa de vida e todas as dificuldades e violência que cercam nossa atividade, infelizmente são intimamente ligadas à sua ilegalidade e ao estigma que a envolve. Apoio que Mickey e as outras companheiras tenham asseguradas condições de buscar outro tipo de atividade como alternativa à prostituição. Apoio mesmo que Mickey prefira o modelo sueco à total criminalização. Quem sabe eu também não preferiria, se exercesse a atividade num país onde ela é totalmente criminalizada? O que não se pode apoiar é a defesa cega de (mais) um modelo que tem por propósito vigiar os corpos e comportamentos das mulheres, sem falar de seu viés xenofóbico – não há segredo nenhum no fato de que um dos propósitos deste modelo é evitar migração em massa de trabalhadoras sexuais para a Europa.

Acima de tudo, brasileira que sou, vivendo num momento de corte diário de direitos e avanço brutal da violência conservadora, me pergunto: um modelo apresentado e defendido pela bancada fundamentalista pode realmente ser de algum modo considerado um modelo que de algum modo garanta de direitos de mulheres? Em que momento a bancada fundamentalista passou a ser defensora dos direitos das mulheres, que estava eu distraída e não vi? Fica o alerta.

Prendendo maconheiro e blindando doleiro

Prendendo maconheiro e blindando doleiro

Foto: Jorge Ferreira

Enquanto toneladas de maconha prensada e “palha” de lá são importadas e bilhões de dólares são exportados ao Paraguai, os campos de concentração no Brasil, chamados de “presídios”, estão superlotados de milhares de usuários, aviõezinhos e plantadores com menos de 100 gramas de maconha.

No Rio de Janeiro, as Audiências de Custódia só começaram a ser realizadas em 2015 (Resolução TJ/OE/RJ 29/15), apesar de terem sido introduzidas em nosso ordenamento jurídico em 1992, quando o Brasil ratificou o pacto de São José da Costa Rica (Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992). O pacto estabelece que toda pessoa presa deve ser conduzida, sem demora, à presença de um juiz. No entanto, o que deveria ter sido uma conquista não passa de uma ilusão: alguém acusado, por exemplo, de tráfico de maconha, raríssimas vezes é colocado em liberdade, mesmo que seja primário, de bons antecedentes e com residência fixa.

A mesma cidade, conhecida como maravilhosa, recebeu grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O Maracanã foi destruído e as obras foram realizadas de maneira criminosa, tanto que a ciclovia “Tim Maia”, na Avenida Niemeyer, desabou na primeira onda mais forte. Bilhões foram saqueados do Rio de Janeiro. É criminosa também a conduta dos empresários bilionários que se reúnem para combinar quais deles vão ganhar as obras e quantos bilhões serão assaltados dos cofres públicos. A linha 4 do metrô, por exemplo, que custaria 1 bilhão, recebeu 10 aditivos e acabou custando 10 bilhões.

Independentemente da moeda utilizada, as pessoas que lavam bilhões são chamados de “doleiros”. Após toda a operação Lava Jato, com ex-governadores, ex-presidentes e deputados da Assembleia Legislativa, conselheiros do Tribunal de Contas do Estados, empresários e doleiros presos, pensei que ao menos o Rio de Janeiro viesse a receber de volta os bilhões obtidos de forma ilícita.

A pena para os empresários e suas empresas deveria ser a perda dos bens. A propaganda da panfletária mídia do mercado era de que 2 bilhões roubados da Petrobrás foram devolvidos. Agora, vimos que esses bilhões seriam jogados num fundo, que seria gerido pelos procuradores boquirrotos, mas isso foi vetado pela Procuradora-Geral da República. O “juiz ladrão” virou ministro e já se vê que seu pacote contra a corrupção não passa de uma farsa.

Milhões de eleitores acreditaram que o sistema de corrupção do capitalismo periférico brasileiro estaria sendo finalmente combatido. Mas todos agora sabem que foi uma operação seletiva para dar asa aos Tucanos, que não conseguiram “decolar”, e isso acabou levando uma pessoa com o viés ideológico nazista à Presidência da República.

Grande parte da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro participou diretamente de todo assalto ao Estado. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras – COAF, que atua no combate à lavagem de dinheiro e estava investigando o irmão do futuro embaixador fritador de hambúrguer, quase foi confiscado pelo Ministério da Justiça, mas acabou voltando para o Ministério da Fazenda, atual Ministério da Economia.

Agora, o COAF está sendo atacado pelo Supremo Tribunal Federal. Em teratológica e escandalosa decisão, o presidente do STF suspendeu a investigação da movimentação financeira do “foragido” Queiroz, lotado no gabinete do filho do Bolsonaro, e de toda a ALERJ. Não satisfeito, suspendeu o processamento de todos os inquéritos policiais, os procedimentos do Ministério Público Federal e dos estaduais ligados à fiscalização e ao controle do COAF, BACEN e Fisco. Os doleiros de todo o país estão blindados ao menos até o dia 21 de novembro, data para qual o caso foi pautado.

Como dizia minha saudosa avó Virgínia, presa na ditadura militar: “Só falta chover merda no país!”

A Lava Jato e a legalização da maconha!

Posted by André Barros on Tuesday, July 16, 2019

 

André Barros é advogado da Marcha da Maconha, mestre em Ciências Penais, vice-presidente da Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sócio Popular e membro do Instituto dos Advogados Brasileiros

“O governo tem a obrigação de respeitar a individualidade de cada um”, defende Indianara Siqueira, liderança LGBT

“O governo tem a obrigação de respeitar a individualidade de cada um”, defende Indianara Siqueira, liderança LGBT

Foto: Mídia NINJA

Por Eduardo Sá

A pauta LGBTIs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e Intersexuais) teve forte influência nas últimas eleições e é uma das mais polêmicas nesta atmosfera de ódio e intolerância que tomou o país. Embora este comportamento seja algo que existe desde os primórdios da humanidade, até hoje é um ponto sensível na sociedade e gera todo um debate em torno da família, da moral e dos bons costumes.

Enquanto fica essa coisa mal resolvida, algumas estatísticas apontam para um cenário extremamente preocupante. A ONU anunciou nestes dias, por exemplo, que o HIV/AIDS cresceu 7% nos últimos nove anos na América Latina. Os dados apontam que cerca de 100 mil pessoas contraem o vírus a cada ano no continente, sendo que o Brasil responde por mais da metade dos casos. O público LGBTIs é um dos mais atingidos, mas estas estatísticas deixam vulneráveis todos que necessitam do tratamento para esta doença. Além disso, há ainda e principalmente a questão da homofobia cujos dados brasileiros de violência são um dos piores em todo o mundo.

Para falar sobre estes assuntos, conversamos com a ativista transexual Indianara Siqueira, atual presidente do Grupo TransRevolução, que foi vereadora suplente pelo PSOL-RJ, e coordenadora da Casa Nem e do Prepara Nem. Ambos projetos dão abrigo e apoio a travestis e transexuais em situação vulnerável, seja com moradias a pessoas trans que são expulsas de casa ou preparando-as às universidades, dentre outros serviços. O longa-metragem Indianara sobre sua vida foi lançado neste ano no festival de Cannes destacando sua militância e história em defesa dos direitos humanos.

Na entrevista, ela fala sobre as mudanças no tratamento do governo com estes setores e a importância de se mudar nossa estrutura social através da educação. As pessoas reproduzem até inconscientemente esses valores enraizados em nosso sistema, segundo ela, e a mídia tem fundamental importância na reprodução massiva destes valores conservadores introjetados nas pessoas. Nossa cultura, na sua opinião, alimenta a LGBTIfobia.

Qual a sua avaliação sobre a conjuntura atual em relação à pauta LGBT?

Muito ruim, porque o governo atual do Bolsonaro, ligado a milicianos e fascistas, está retirando direitos LGBTs e das mulheres. Num país que mais mata LGBTs, que detém o ranking vergonhoso de assassinatos, também é o quinto país mais violento onde mais se mata mulheres. E o Brasil também mata mais de 68 mil pessoas por ano, o que chega a ser 50%, que muitas guerras matam. Mais de 6 mil mulheres são assassinadas por violência contra a mulher no Brasil, mais de 61 mil são estupradas e mais de 200 mil sofrem violência física, que as tornam deficientes muitas vezes.

E nessas não estão incluídas as mais de 140 pessoas transVestiGeneres assassinadas por violência de gênero/violência contra identidade de gênero. É complicado viver num país violento como este, não adianta a gente discutir a violência social e estrutural desta sociedade se hoje os governantes incentivam esta violência.

Quais são as dificuldades enfrentadas pelo movimento para realizar suas atividades, como a ONG onde você é diretora?

Tem toda uma dificuldade, porque se você pede financiamento no banco tentam te barrar em um monte de coisa. As ONGs deixaram de receber financiamentos, que já não vinham e agora piorou mais ainda, etc. Nossas atividades enquanto ONGs e movimentos sociais, ou pessoas que promovem o bem estar de alguns grupos, estão totalmente cerceadas. A gente não consegue mais fazer os trabalhos que fazíamos antes como, por exemplo, tratamentos com pessoas com HIV/Aids. Eles estão cortando recursos que vão fazer com que não tenhamos medicamentos para estas pessoas, que ficarão em risco grave de vida.

Havia políticas públicas com a distribuição gratuita desses medicamentos, inclusive de materiais de prevenção como preservativos e gel, e agora está sendo tudo cancelado. Então o Brasil que era o país que mais aumentava a taxa de HIV/Aids e já foi referência em tratamento e prevenção, volta agora ao vergonhoso ranking de país onde a Aids se torna novamente uma epidemia entre jovens, LGBTs e populações vulneráveis em geral. Faz parte dessa onda de retirada de direitos contra pessoas LGBTI. Uma ação fundamentalista e religiosa contra nós.

Foto: Mídia NINJA

Como você vê o tratamento da mídia com os movimentos?

A mídia hegemônica é conservadora e quer agradar a população conservadora, que é quem detém o poder, principalmente econômico das grandes fortunas que são os herdeiros. A Globo, SBT e as demais estão preocupadas em agradar essa galera, não em passar a verdade para a população se conscientizar com essas verdades. Eles são comprados e querem passar a reforma da previdência, porque são os maiores sonegadores. Fazem essa propaganda toda nessa pauta porque sonegam, pois a reforma da previdência que tira direitos dos trabalhadores beneficia os empresários e esta grande mídia. A Globo, SBT, o Ratinho, são sonegadores, então para eles é ótimo que passe esta reforma, porque não terão que pagar a dívida de impostos que eles já acumulam ao público outra vez.

Falam que temos tantos trabalhadores contribuindo agora e não sei quantos aposentados, e ficam nessa conta que só eles inventaram: trabalhadores contribuem e trabalhadores se aposentam, só que a reforma da previdência arrecada de tudo até de um palito de dente que você compre. A previdência é a que mais arrecada no Brasil, então na realidade ela tem um superávit, só que esse dinheiro não é usado para o que deveria. O dinheiro é desviado tanto em corrupção, mas ainda que ela não existisse, ele é desviado para outros fins que não a saúde, educação, habitação, etc. A previdência não está em déficit, é uma falácia deste governo e da mídia hegemônica.

Qual a motivação, a raiz do problema, que gera todas estas estatísticas que você citou e preconceito com os LGBTIs?

A sociedade tem uma estrutura heteronormativa, tudo que é construído através dela reproduz as opressões que essa estrutura traz. As agressões que sofremos, seja na família ou em nossa sociedade, estão na estrutura social que constrói todos os seres humanos nesta sociedade. Assim nascem os LGBTIfóbicos, racistas, machistas, etc. Está na estrutura. Precisamos discutir violência contra mulheres e LGBTIs nas escolas e destruir essas estruturas, se não a gente não vai chegar a lugar nenhum. Tem que ser pauta da educação para mudarmos a sociedade.

Tudo o que eu aprendo socialmente traz esses preconceitos, a nossa cultura é LGBTfóbica. Uma criança vai se tornar mais um, enquanto as pessoas que contestam essa cultura vão ser colocadas como população vulnerável, minoria, etc. Às vezes a pessoa não tem culpa porque não contesta essa violência que pratica contra a outra, embora tenha também um pouco, mas a estrutura da sociedade tem mais culpa ainda.

O governo atual está só há pouco mais de seis meses, mas todo esse cenário está aí há décadas. O que de concreto muda nessa transição de governo?

O governo anterior, por mais que tivesse feito alianças com as quais não concordamos, discutia nossas pautas. Então ecoavam as nossas situações, fosse nas universidades, com os secundaristas, etc. No atual governo, não. Isso foi retirado da pauta de discussão.

Você tinha cartilhas informativas, assim como existem cartilhas para catequese e tantos outros temas, que nada mais são que manuais de instrução. Você pode seguir aquilo ou não, estar de acordo ou não. Então é complicado esse governo vir falar que homem é homem e mulher é mulher e não existe outra possibilidade. Eles podem até não ver outras possibilidades, mas todos sabemos que existem muitas outras opções sexuais, identidades de gênero, pessoas não binárias (como eu TransVestiGenere não binária), intersexuais, assexuados, gênero fluído entre outros. O governo tem a obrigação de respeitar a individualidade de cada um, é só isso.

Foto: Mídia NINJA

O discurso mais conservador e reacionário afirma que se a sociedade virar homossexual não nos reproduziremos mais e será o fim da nossa espécie. Como vocês avaliam este tipo de pensamento?

Os LGBTIs são todos estéreis? As pessoas são idiotas. Por que vai acabar a reprodução humana? A espécie dos héteros poderia até acabar, mas a humana não. Os LGBTIs podem fazer inseminação artificial ou transar com homens trans, mulheres bissexuais, lésbicas e pessoas intersexo com útero em perfeito estado de reproduzir e gestar crianças. O que pode acontecer é se tornar uma sociedade mais inclusiva, porque nada vai fazer as pessoas pararem de trepar e se reproduzir.

Que eu saiba, enquanto trans, não sou estéril, então se eu transar com um homem trans com aparelho reprodutor totalmente saudável e engravidar ele, a espécie humana não vai acabar. Isso é falácia e LGBTfobia já que os LGBTIs podem se reproduzir entre eles mas têm várias outras formas. Essas coisas são inventadas através de regras heteronormativas, determinando o gosto das pessoas, mas essas pessoas têm que se amar. Tem pessoas que nem gostam de sexo, então por que pautar tudo com base no sexo?

E nas instâncias de poder, como é a representatividade de vocês e quais são as dificuldades?  

Na política estamos representadas por duas deputadas, a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP) e a Erika Hilton deputada eleita pelo mandato coletivo também por São Paulo, e Robeyonce (PSOL-PE) em Pernambuco. Temos a vereadora Pâmela Volp (PP), de Uberaba (MG), e o David Miranda (PSOL-RJ), que não é trans mas é gay. Nas secretarias e conselhos não temos mais, porque foram extintas, principalmente as de direitos humanos. São vários retrocessos, então estamos perdendo os espaços que estávamos ocupando.

Reforma da Previdência: a luta não acabou

Reforma da Previdência: a luta não acabou

Graças à pressão popular, foi possível retirar pontos importantes da reforma da Previdência. Mas ainda é possível – e urgente – derrota-la por completo.

Foto: Reprodução Instagram Samia Bomfim

Infelizmente, a reforma da Previdência foi aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados. Engana-se quem pensa que a motivação dos deputados foi “sanar as contas públicas”, “cortar privilégios” ou qualquer ladainha desse tipo repetida inúmeras vezes em plenário. Bolsonaro comprou votos para garantir a aprovação do projeto que garante sua boa relação com o mercado financeiro. A conta de manter um mínimo de estabilidade a um governo que – nas palavras do principal fiador da reforma, Rodrigo Maia – é “uma usina de crises” saiu cara:

R$ 40 milhões em emenda por deputado que votasse favorável à reforma, mais centenas de indicações para cargos comissionados. Mas Bolsonaro não ia acabar com a “mamata” e o “toma lá da cá”?

É falso também que a oposição de esquerda tenha sido totalmente derrotada. Graças à pressão popular contra a reforma, foi possível retirar alguns ataques graves à classe trabalhadora do texto final do projeto. Dentre eles, está a capitalização, que previa substituir a Previdência social por um modelo de poupanças individuais compulsórias em instituições privadas. Em todos os países em que foi adotada, a capitalização deixou uma multidão de idosos em situação de miséria mas rendeu lucros bilionários a banqueiros. Não por acaso, esse era o ponto mais importante da reforma da Previdência para Paulo Guedes, o que explica a sua decepção com a redação final. Também foi possível barrar o aumento do tempo de contribuição mínimo necessário para se aposentar, o que impediria boa parte dos trabalhadores brasileiros de se aposentar (sobretudo aqueles que passam longos períodos desempregados ou na informalidade, como mulheres e negros). Uma terceira conquista importante foi barrar a diminuição do Benefício de Prestação Continuada (BPC) pago a idosos em situação de miséria e as novas exigências para aposentadoria de trabalhadores rurais – uma crueldade com os setores mais vulneráveis da sociedade. Professores e policiais federais, graças à forte mobilização dessas categorias, também conquistaram regras de transição um pouco mais vantajosas. Além disso, servidores municipais e estaduais não serão atacados pela reforma, que afetará apenas servidores federais e trabalhadores do setor privado.

Entretanto, evidentemente não é possível afirmar que houve vitória da classe trabalhadora. A reforma da Previdência continua sendo uma aberração econômica e uma tragédia social. Em linhas gerais, ela reduz substancialmente o valor das aposentadorias e pensões. O novo cálculo do valor da aposentadoria passará a ser feito a partir da média de 100% dos salários recebidos ao longo da vida, e não mais a partir de apenas os 80% salários de maior valor. Mas o trabalhador que cumprir apenas o tempo mínimo de contribuição necessário para poder se aposentar receberá apenas 60% do valor de seu benefício. Para atingir 100%, terá de contribuir por 40 anos no caso dos homens e 35 anos no caso das mulheres. Da mesma forma, as pensões por morte serão reduzidas a 60% de seus valores atuais mais 10% por dependente. Dentre outras medidas que reduzem o valor dos benefícios. Além disso, a reforma da Previdência retarda o acesso à aposentadoria para muitos trabalhadores já que impõe a idade mínima de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens. Essa medida afeta especialmente aqueles que começam a trabalhar cedo ou que exercem profissões fisicamente exaustivas, como pedreiros e empregadas domésticas.

Esse conjunto de medidas irá retirar quase R$ 1 trilhão das mãos dos trabalhadores brasileiros – é disso que se trata a tal “economia” que o governo pretende fazer.

Uma economia burra, aliás, já que tira poder de consumo de pessoas que poderiam movimentar a economia, incentivar investimentos e assim gerar empregos. É justamente essa política contracionista (que visa o tempo todo cortar “gastos”) que nos levou a uma crise que parece não ter fim.

Mas a batalha da Previdência ainda não terminou. As conquistas parciais que obtivemos até aqui não devem servir para nos acomodar, mas, ao contrário, elas mostram que com mais mobilização teria sido possível barrar a reforma em seu conjunto. Felizmente, ainda há tempo de intensificarmos nossos protestos. O segundo turno de votação da reforma está marcado para 06 de agosto. Esse é o momento de convencermos mais pessoas a lutar contra a reforma, de nos articularmos em nossos locais de trabalho e irmos para a rua para impedir esse retrocesso monumental nas condições de vida dos brasileiros. Nos vemos nas ruas!

Raça não é só identidade

Raça não é só identidade

Foto: Mídia NINJA

Debates como raça, gênero e sexualidade costumam ser definidos como temas identitários, apenas. O sociólogo Clóvis Moura é peça-chave para compreender como raça, além de ser um elemento constituinte da identidade afro-brasileira, foi e é essencial para entender a formação daquilo que chamamos de Brasil.

Ashley Yates, ativista do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), disse, em entrevista ao Alma Preta, que o Brasil parece viver os anos de 1970 nos EUA, quando a comunidade negra experimentava o auge do Black Power (Poder Negro).

Não há como saber com precisão se isso é verdade, ou mesmo o quão benéfica é essa comparação para os afro-brasileiros, vítimas de uma sociedade diferente da americana.

O que se pode afirmar é que os assuntos de raça, gênero e sexualidade têm ganhado cada vez mais espaço na opinião pública e repercutido com maior intensidade nos movimentos sociais.

O movimento negro, tão diverso quanto a sua comunidade, tem organizações e ativistas que colocam a questão racial como determinante para a formação do capitalismo e para a constituição da sociedade brasileira.

O entendimento desse processo, porém, não parece ser compartilhado por toda a esquerda. Alguns vão se referir a raça, gênero, e sexualidade como políticas identitárias, e não estruturais.

O resultado dessa leitura é a compreensão de que esses tópicos são de menor importância para a superação dos entraves nacionais. Na prática, recorda-se desses marcadores apenas em datas especiais, e/ou os nomeia apenas como setoriais de organizações.

Alguns esquecem, outros só lembram no momento de fazer capas polêmicas, mas o Brasil viveu 388 anos de escravidão. Em 13 de maio de 2018 completamos 130 anos da abolição. Ou seja, passamos muito mais tempo sob o regime escravista do que sob o trabalho livre.

Mas não é apenas isso. A escravidão não se trata do passado, ou de uma memória ainda viva.

Clóvis Moura, sociólogo com uma vasta literatura publicada, é um autor importante para compreender o conceito de raça como elementar para a formação daquilo que hoje chamamos de Brasil.

O pensador, se utilizando das ferramentas marxistas de compreensão da história, é preciso para descrever como o país construiu um sistema econômico capitalista baseado em relações escravistas.

Para essa análise, na sua obra clássica, “Dialética Radical do Brasil Negro”, Clóvis Moura define a escravidão em dois períodos.

O primeiro, o escravismo pleno, que durou de 1530 a 1850, trata-se do ápice desse regime econômico, quando o país recebeu cerca de 10 milhões de pessoas sequestradas pelas nações europeias e mantidas aqui na condição de escravizadas.

Foto: Mídia NINJA

Vale lembrar que a população mundial da época girava em torno das 500 milhões de pessoas. Ou seja, 1/50 do planeta foi capturado e colocado a trabalhar no Brasil até a morte.

Para efeito de comparação, em 2013, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (FNUAP), 7,2 bilhões de pessoas residiam no planeta. De acordo com cálculos matemáticos, 1/50 desse contingente representaria 144 milhões de seres humanos, quantidade maior do que aquela que habita o México, hoje na casa das 127 milhões de pessoas.

Apesar do limite de qualquer comparação histórica, a ilustração serve para materializar a tragédia e a barbárie que foi a escravização dos povos africanos no mundo.

Nesse momento histórico, Clóvis Moura conta como a sociedade brasileira funcionava a partir da existência de duas classes sociais: escravizados e senhores de engenho, oposição essa que funda a luta de classes no país.Todos os demais cargos eram satélites dessas duas, as principais daquele modelo econômico.

O escravismo tardio e a modernização conservadora

O escravismo tardio (1850-1888), mesmo mais curto, é tão importante quanto o período anterior para compreender os dias de hoje.

O sociólogo relata de maneira detalhada como o país passou a ser pressionado pela Inglaterra, pós revolução industrial, para acabar com o regime escravista, não por uma questão de bondade, mas porque a nação europeia queria aumentar o mercado consumidor local.

As revoltas, os quilombos, o suicídio, todas as formas de resistência da população negra construíam uma esfera interna de negação e enfrentamento ao status quo.

O medo de uma revolta escrava era alimentado pela Revolução Haitiana (1791), onde e quando todos africanos daquela nação se rebelaram e mataram os seus antigos algozes/senhores.

O temor e as pressões internacionais fizeram a elite nacional propor uma transição lenta e segura para o fim do escravismo. O objetivo era simples, manter a desigualdade social e racial brasileira.

Para isso, duas leis são essenciais. A primeira é a Tarifa Alves Branco, que permitiu ao Estado taxar as transações internacionais feitas à Inglaterra, e possibilitar ao Brasil gerar uma gordura, responsável por permitir a montagem do parque industrial e incentivar a vinda de imigrantes para cá.

A Tarifa Alves Branco ajuda a compreender que o capitalismo brasileiro foi construído a partir da acumulação feita no regime escravista, e mostra como as elites criaram um país que viveu durante anos com trabalhadores escravizados, enquanto outros eram livres.

Nesse momento histórico, raça foi um fator determinante para decidir quem ocuparia, ou não, o cargo de trabalhador assalariado no projeto industrial que começava a nascer. Raça foi marcador fundamental para definir quais cargos da classe trabalhadora seriam destinados a brancos e a negros. Raça foi essencial para decidir quais corpos seriam mais ou menos explorados pelo sistema capitalista.

Esse projeto também apresenta o desejo da nação de se embranquecer. O Brasil traz para cá um número semelhante de imigrantes brancos europeus ao de africanos escravizados, com o intuito de, por meio da miscigenação, embranquecer o país.

No campo, a Lei de Terras rasgou a população negra como uma chicotada.

O Estado, responsável por conceder a terra durante o escravismo pleno, o fazia apenas aos “homens de bem”, os cidadãos “puros”, o que até os dias de hoje significa “homens brancos”.

Foto: Mídia NINJA

As pressões internas e externas pelo fim do escravismo colocaram a elite branca da época em uma encruzilhada. Será que, pós-escravidão, o Estado será obrigado a conceder a terra para esse povo que foi colocado na condição de escravizado por 388 anos? A resposta, obviamente, foi não.

Decide-se então mudar as regras do jogo. A partir daquele momento, o Estado só poderia vender as terras, não mais as doar. Para complicar, no início, elas só poderiam ser adquiridas à vista.

Diante desse cenário, quem você acha que teve acesso a hectares e mais hectares de terras? Aqueles que já eram detentores dela e puderam acumular, durante a escravidão, o capital suficiente para a compra.

Pronto. O objetivo havia sido completo. Naquele momento era possível acabar com a escravidão, pois a elite branca tinha a garantia de que os seus privilégios permaneceriam, e de que negras e negros estavam excluídos do projeto de nação.

Pós 13 de Maio de 1888, os afro-brasileiros não tiveram acesso ao trabalho, afinal a prioridade dos empregos foi destinada aos imigrantes europeus.

Clóvis Moura diz que o Brasil passou por uma “modernização conservadora”, pois começou a se industrializar a partir de uma sociedade que mantinha a mesma estrutura social escravista.

E o que mudou desde então? Quais foram as rupturas estruturais da sociedade que permitem afirmar que o Brasil superou o problema racial? Nenhuma.

Durante o século XX, o Estado continuou a bancar a política de marginalizar a população negra, de privilegiar o trabalhador branco, e manter uma desigualdade social assustadora.

Pesquisa recente publicada pela Oxfam mostra que os 5% mais ricos do país detêm a mesma riqueza dos 95% mais pobres.

Essa é a estrutura de desigualdade de uma sociedade escravista, que na base, vai encontrar homens negros e, por último, mulheres negras.

A pesquisa também apresenta que só em 2047 as mulheres ganharão o mesmo que os homens, e que só em 2089, os negros ganharão igual aos brancos.

Estudo divulgado pela Exame também é didático para apresentar como classe social não consegue explicar toda a realidade brasileira.

Os pesquisadores analisaram um grupo de brancos e negros graduados, todos com diplomas de nível superior. Os números mostram que os brancos ganham 47% a mais do que os negros.

Ambos trabalhadores, ambos formados, mas com diferentes níveis de exploração por parte do capital.

Não se trata apenas de uma questão identitária. O capitalismo se utiliza do marcador racial como determinante para a exploração do trabalhador, e para a acumulação da mais-valia.

Já dizia Malcolm X, “não existe capitalismo sem racismo”.

A disparidade de violência entre negros e brancos e a constituição do genocídio também são problemas que não conseguem ser explicados por teorias que não abordam o fator racial.

Entre os brasileiros de modo geral, no ano de 2012, 9.667 brancos morreram por armas de fogo enquanto 27.683 negros perderam a vida do mesmo modo. Na população jovem, os números comparativos são de 5.068 brancos contra 17.120 negros. Enquanto a taxa de óbitos para cada 100 mil habitantes de brancos era de 11,8, a de negros, 28,5.

Por isso o movimento negro crava, com razão, que raça foi e ainda é um fator estruturante da sociedade brasileira.

Foto: Mídia NINJA

Quando se refere às questões de raça, gênero, sexualidade, como um debate “identitário”, o campo progressista desvirtua ou simplesmente não compreende aquilo que está posto. Raça é identidade, mas não só.

Analisar a classe trabalhadora como algo homogêneo parece um desejo de ver representada a imagem do sujeito universal, o homem branco, e esquecer que o Brasil é um país de maioria negra.

Em todos os segmentos sociais, seja na questão da terra, moradia, educação, os principais prejudicados serão, primeiro, os homens negros e, por último, as mulheres negras.

Se para transformar o mundo é preciso entendê-lo, o campo progressista precisa avançar na leitura social e compreender que não é possível lançar um projeto para o Brasil sem o entendimento da questão racial como fundante do debate.

Não basta construir um setorial para discutir o tema, as questões de raça e gênero devem estar presentes em todas os campos de disputa, como a comunicação e a economia. Cabe a nós pressionar e compor esses espaços de discussão.

Deixar determinados assuntos de lado, ou mesmo acreditar que existam temas de “branco”, caso das grandes disputas políticas e da corrupção, é deixar esses segmentos que sempre governaram o país em posição muito confortável. Os debates nacionais, mais do que de qualquer outro grupo social, são nossos também.

O caminho ainda é longo. Maior exemplo disso é a não compreensão social de que um dos principais problemas do país é o genocídio, mesmo quando os números apontam para o aumento da morte e do encarceramento de mulheres e homens negros.

Impossível crer em uma sociedade democrática onde dezenas de milhares de vidas são exterminadas todos os anos, e que parte significativa delas seja por meio da ação do Estado. Inadmissível não enfrentar esse problema como ele merece, como um dos principais, senão o maior do país.

Mas para isso, é preciso criar o consenso de que vivemos numa sociedade racializada, de que os tabus do regime escravista precisam ser superados, que raça não é apenas uma questão identitária, mas sim determinante para a compreensão do que é o Brasil.

Preta-Rara: o fracasso me humaniza

Preta-Rara: o fracasso me humaniza

Foto: Arquivo pessoal

Hoje vim aqui com esse sorriso no rosto pra falar que já fracassei, já errei, já fui preconceituosa, já tive raiva, já guardei rancor e uma série de sensações ruins humanas.

É Zentee, tá tudo bem errar, o foda é persistir no erro.

Vivemos nessa onda cibernética no qual o tempo todo estamos conectados (mesmo não querendo) a parecer ser, ou ser o que não é (que dá no mesmo).

Não vendo receita diárias de autoamor nos meus stories, quem me acompanha diariamente sabe qto to mal quando exponho essa realidade. Pq o fracasso me humaniza.

Em tempos de redes sociais as pessoas escolhem seus heróis virtuais, é tipo líder religioso que geral venera e fala que não tem erros e santifica a pessoa.

Recebo inúmeras msg que são mais um apelo gigantesco de socorro, pq as pessoas assistem às conquistas das outras e tentam assemelhar com a realidade que vivem e não consegue enxergam frações de felicidades que a façam feliz.

Acaba gerando uma dependência, ansiedade e depressão levando alguma a interromper suas próprias vidas.

Aos criadores de conteúdo, sejamos empáticos e cuidadosos com o que compartilhamos nas redes e aos demais entendam que as pessoas que vc segue têm os mesmos ou outros problemas igual a vc, ela só não expõem.

Essa perfeição que a gente cria só tá na nossa cabeça.

Hoje eu comemoro até meus fracassos pq foi através deles que eu construí coisas melhores e qdo estou triste acredito que é o meu momento de cura pra dar continuidade no caos/ordem da vida.

E você consegue ver perspectiva no fracasso? Sua ansiedade te trava?

Procure ajuda, fale com alguém, se precisar estou aqui, às vezes demoro pra responder pela quantidade de msg, mas respondo!

Com inserção na literatura, ialorixás ensinam caminhos de resistência

Com inserção na literatura, ialorixás ensinam caminhos de resistência

Mãe Valnizia, do Terreiro do Cobre. Foto: João Alvarez

Por Cleidiana Ramos

Conhecimento é poder. As elites econômicas do Brasil levam esta lição à risca na medida que sabotam, sob as mais variadas estratégias, o acesso à educação das populações negras e indígenas em suas várias nuances e representações. Não é à toa que ações afirmativas como as cotas de caráter étnico nas universidades brasileiras são bombardeadas em uma guerra sem fim desde que começaram a ser adotadas.

Projetos de poder autoritários e elitistas brasileiros tentam desarticular as redes de educação porque ela tem sido a âncora para as exceções que subvertem a lógica de exclusão. Os movimentos negros, por meio das suas várias faces, sempre buscaram atrelar suas demandas aos mecanismos educativos: grupos de formação, oficinas, rodas de conversa, apoio ou articulação de uma mídia independente e, nos últimos anos, incentivo para o acesso às tecnologias digitais. A professora-doutora Nilma Lino Gomes tem um livro que analisa essas estratégias: O movimento negro educador.

Ainda assim, as nossas intervenções no campo da indústria cultural, incluindo-se a mídia e a literatura, são ainda mínimas diante da nossa condição de maioria no Brasil. Daí que é sempre recompensador quando altas sacerdotisas do candomblé protagonizam ações de produção literária.

Guardiãs de um saber e fazer religioso centrados na oralidade, estas grandes senhoras das religiões de matrizes africanas também dominam as bases dos nossos códigos escritos. E com maestria transportam uma forma de fazer ciência, sobretudo a filosófica e antropológica, para os cânones literários ainda profundamente imbuídos, infelizmente, do eurocentrismo. Assim vão contribuindo para descolonizar a literatura de uma forma sutil e elegante, mas não menos poderosa.

Em 1937, por exemplo, Eugênia Anna dos Santos, conhecida como Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá enviou para o II Congresso Afro-brasileiro organizado por Edison Carneiro em Salvador, um texto sobre alimentação ritual. Mãe Aninha é autora da frase-inspiração: “Todo negro com anel no dedo deve colocá-lo aos pés de Xangô”. Em uma batalha tão árdua, foi o orixá da Justiça, que se levanta como um raio para acabar com a infâmia dos injustos, que Mãe Aninha apontou como patrono de algo que nos tempos do seu governo no Afonjá, nas primeiras décadas do século XX, parecia ainda mais distante das suas filhas e filhos de santo.

Anos mais tarde, Mãe Stella de Azevedo Santos, a quinta ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, conseguiu instalar uma escola formal na área do terreiro. A escola Eugênia Anna dos Santos é hoje referência na rede pública de ensino soteropolitano com pedagogia inovadora adotada a partir do trabalho da doutora em educação, Vanda Machado, que também é uma sacerdotisa da casa: uma ebomi, o título que se dá àquelas que conquistaram um estágio avançado na formação religiosa e por isso são também chamadas de “mais velhas”, nas comunidades de terreiro, em entendimento que transcende a idade biológica.

Abertura de caminhos

Mãe Stella de Oxóssi foi até aqui a ialorixá brasileira com o maior número de títulos literários lançados: ela produziu textos sobre o candomblé como Oxóssi, o caçador de alegrias, mas também atuou na imprensa diária. De 2011 a 2013, foi articulista do jornal A Tarde, sediado em Salvador e um dos mais antigos do Brasil, fundado em 1912. Tanto que ocupou a cadeira nº 33 da Academia de Letras da Bahia (ALB).

A posse de Mãe Stella foi uma cerimônia emocionante. O auditório estava lotado, uma sala tinha telão e ainda assim a multidão espalhou-se pelo jardim da sede da ALB. Mãe Stella também recebeu o título de doutora honoris causa das duas mais antigas universidades sediadas na Bahia – a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Estadual da Bahia (UNEB). Esta última lhe fez uma concessão para a entrega do título. Mãe Stella usou na cerimônia não a beca preta, mas na cor azul turquesa, que é associada ao seu orixá regente, protetor das matas, da biodiversidade e magia que elas comportam.

Quando Mãe Stella de Oxóssi deixou, em 2014, o posto de articulista em A Tarde foi sucedida por Mãe Valnizia Bianch. Filha do orixá Ayrá, senhor da Justiça e da Sabedoria, Mãe Valnizia é a líder do Terreiro do Cobre, onde eu tive a sorte de ser aceita para me reconectar com a minha ancestralidade. Aos 60 anos recém completados, Mãe Val, como também é chamada, assumiu a responsabilidade de continuar a tradição de uma casa que, por 50 anos, ficou fechada.

A ialorixá assumiu o Cobre aos 28 anos com a missão de reconstruir inclusive a estrutura física de um templo que perdeu 99% da área original e, que teve como uma das regentes, sua bisavó, Flaviana Bianch, conhecida como “A grande”. Iyá Flaviana foi também uma personagem importante da Bahia do início do século como indicam as referências a ela feitas por Edison Carneiro, Jorge Amado e um capítulo do livro A Cidade das Mulheres, de autoria da antropóloga Ruth Landes.

Há dez anos, quando completou 50 anos, Mãe Valnizia decidiu lançar um livro. Estava, como sempre nos lembra, disposta a escrever sua própria história e não contá-la para que alguém com título acadêmico o fizesse. E assim nasceu Resistência e Fé, sua autobiografia. Dois anos depois publicou Aprendo Ensinando, uma narrativa sobre como se dá uma relação de mútuo aprendizado no espaço de terreiro entre uma liderança e sua comunidade.

“Mãe Val e outras escritoras lideranças do candomblé, ao tomar a literatura, criam processos insubmissos em relação à natureza e a função desta enquanto arte, ciência e área de conhecimento, ao desempenharem a tarefa de explicitar trajetórias de conhecimento invisibilizados, discriminados pelo preconceito racial no Brasil. Demonstram, com a relação com a oralidade como fonte histórica, respeito pela palavra proferida, portadora de força”, destaca Isabelle Sanchez, doutora em estudos étnicos e africanos, autora da tese Onde eu me acho no direito de escrever: Reflexões sobre obras literárias de autoria de mulheres lideranças religiosas do candomblé e sua inserção na escola, defendida sob a orientação da professora América César.

Os dois livros de Mãe Valnizia foram viabilizados com recursos levantados em sistema de mutirão com a participação de pessoas do terreiro e uma rede de apoio externa. Chegamos, portanto, a uma questão-chave sobre a ocupação de espaço na indústria cultural por mulheres negras: a estrada mais viável é recorrer a redes de solidariedade. Editais públicos aparecem, agora cada vez menos, mas várias barreiras alimentam a exclusão neste campo – regras complexas, exigências burocráticas, geralmente inacessíveis de resolução pelas comunidades religiosas, dentre outras.

Daí que se a trajetória das nossas e nossos é feita para desbravar caminhos que nos parecem fechados, neste 2019, que é tão especial para Mãe Valnizia e sua comunidade religiosa, decidimos invadir o campo das novas possibilidades digitais. Com a ajuda de dois amigos da publicidade, Vítor Paranhos, da agência Ative, e Mirtes Santa Rosa nos lançamos no campo do crowdfunding. Criamos uma campanha para arrecadação dos fundos necessários para publicar o livro Reflexões – Escritas de Mãe Valnizia Bianch, uma coletânea com seus artigos. Neles, Mãe Valnizia apresenta, por meio de uma narrativa fluida e muito próxima da etnografia, as reminiscências do que viveu e vive no Engenho Velho da Federação, um dos quilombos urbanos de Salvador e que é a sua casa desde que nasceu.

As narrativas nos levam a natais embalados pelo cheiro de folhas de pitanga que enfeitavam as casas até a descrição de uma receita de molho nagô para acompanhar o xaréu que o pessoal do bairro ganhava dos pescadores do Rio Vermelho em dia de puxada de rede. Nas narrativas de Mãe Valnizia o passado se mistura ao presente e também ao futuro nas lições que ela continua passando às gerações que se renovam sob a sua liderança no Terreiro do Cobre.

Este projeto é a defesa de um legado que tem Mãe Valnizia como protagonista mas que é a continuidade também daquelas que não usaram a escrita, mas abasteceram tantas outras: Olga de Alaketo que ganhou a assinatura póstuma no livro A comida de Santo numa casa de Queto da Bahia, obra organizada pelo antropólogo-referência Vivaldo da Costa Lima e Doné Ruinhó, do Bogum, que morreu um dia após, já centenária, conceder uma entrevista para Nelson Pereira dos Santos. Desbravar caminhos e mostrar um trânsito seguro e rico entre dois códigos – o da oralidade e o da escrita – é mais uma das lições de resistência nesta tradição das grandes senhoras dos terreiros do candomblé baiano.

Quem quiser conhecer o projeto e colaborar com ele é só clicar no link: https://www.catarse.me/reflexoesmaeval

Cleidiana Ramos é doutora em antropologia, professora visitante no Campus XIV da Uneb (Conceição do Coité), professora na Faculdade 2 de Julho em Salvador e publisher do projeto Flor de Dendê.

As mensagens secretas da Lava-jato: lucros e dividendos

As mensagens secretas da Lava-jato: lucros e dividendos

Foto: arquivo

As revelações dos jornais Folha de São Paulo e The Intercept Brasil de hoje, domingo, 14/07, no âmbito da série de reportagens denominadas “As mensagens secretas da Lava-jato” são as mais graves até agora.

Os procuradores da República Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon cogitaram utilizar as esposas como “laranjas” em uma empresa que visava auferir lucros com palestras remuneradas. A participação das esposas serviria para evitar que ambos fossem alvos de questionamentos. Os dois procuradores chegaram a debater a elaboração de um plano de negócios para a empresa, que atuaria na esteira da fama e dos contatos conseguidos durante a Operação Lava-jato. A principal finalidade da empresa seria ampliar as receitas obtidas com palestras, que Dallagnol já realizava, como pessoa física, desde o início da operação.

Esse fato não pode ser analisado isoladamente, senão à luz do conjunto das demais mensagens da #VazaJato e de um outro fato que veio à tona em março deste ano: a notícia de que a Força-tarefa da Operação Lava-jato fora agraciada com uma doação de R$ 2,5 bilhões, oriundos do acordo de leniência celebrado entre a Força-tarefa, a Petrobrás e o Departamento de Justiça dos EUA, que deveriam ser geridos por uma fundação de direito privado, a ser constituída para, supostamente, executar projetos de combate à corrupção e de avaliações periódicas de “compliance” de empresas. Dentre as ações concretas desses projetos estariam palestras e cursos nababescamente pagos e ministrados, sabem por quem? Justamente, por membros da Força-tarefa da Lava-jato.

A época, assinalei, em artigo, que Lula, FHC e outras autoridades auferiram significativas somas de recursos ministrando palestras após suas saídas da presidência da República ou de suas funções públicas. Há, contudo, uma diferença abissal na prática dos ex-presidentes com a dos procuradores da República em questão: ambos os ex-presidentes eram contratados e pagos por empresas privadas e já não estavam no exercício de seus cargos eletivos. A “Fundação Lava Jato” iria contratar e pagar, com dinheiro público, membros do Ministério Público Federal e da Justiça Federal em pleno exercício de suas funções para fazer um trabalho pelo qual eles já são remunerados pelo erário.

Uma fundação privada só é constituída a partir de um patrimônio privado. As fundações públicas, por sua vez, são constituídas a partir de iniciativa do Poder Executivo, com aprovação de lei complementar pelo Poder Legislativo. A “Fundação Lava Jato” seria constituída à margem destes marcos legais: uma excrescência jurídica, verdadeira aberração. Corrupção e lavagem de dinheiro institucionalizadas, livres de qualquer investigação ou controle externo. Ladronagem às escâncaras, nas barbas da PGR, do STF, de todo mundo. Como disse, à época, o jornalista Luis Nassif, tinha cheiro de campanha eleitoral para Sérgio Moro.

A suposta empresa das esposas de Dallagnol e Pozzobon teria a finalidade de “agenciar” a participação dos mesmos nesse mercado milionário, pago com recursos da tal fundação, mercado este constituído, em muitos casos, como forma de lavar dinheiro oriundo de atividades ilícitas ou beneficiar autoridades que, em virtude de suas atuações como servidores públicos, passam o gozar de prestígio e, em função dele, auferir renda na iniciativa privada. É ilegal, imoral, antiético e engorda.

Revelações como essas servem para desfazer o mito de que a corrupção está somente na política, nos políticos. Aí também estão verdadeiros corruptos: bandidos de toga.

Judith Butler: O neofascismo é uma reação, não uma regressão

Judith Butler: O neofascismo é uma reação, não uma regressão

Colagem da Mídia NINJA sob foto de Wikimedia Commons

Esta entrevista é fruto de uma parceria entre o jornalista Juan Manuel P. Domínguez, que escreve para a Mídia NINJA, e George Yancy, que escreve para o The New York Times.

Judith Butler tem desenvolvido um vasto trabalho sobre teoria e ética política, como “Contingência, hegemonia e universalidade” (desenvolvido junto com Ernesto Laclau, da Argentina, e Slavoj Zizek). É também uma referência em termos de estudos de gênero e teoria feminista. Livros como “O Gênero em Disputa”, “Corpos que Importam” ou “Desfazendo o Gênero”, são leitura obrigatória para interessados ​​em teorias feministas e são um marco nos debates e nas perspectivas dos movimentos contra um tipo de opressão institucionalizada que se conhece como patriarcado.

Ela é professora de Filosofia nos Departamentos de Retórica e Literatura Comparada da Universidade da Califórnia, Berkeley, embora sua notoriedade tenha alcançado outros campos acadêmicos e movimentos sociais. Tornou-se um referencial teórico chave do movimento queer, que na década de 1990 surgiu como contrapartida pós-moderna da cooptação do feminismo liberal e tecnocrática que foi incorporada nas agências governamentais dos estados e governos.

Em novembro de 2017, durante o auge crescente das mobilizações da ultra direita cristã e o neo fascismo conservador, que resultariam na eleição de Jair Bolsonaro, Judith foi alvo de protestos por causa da sua participação como mediadora num seminário no SESC Pompeia chamado “Os Fins da Democracia”. Cartazes com frases de extremismo religioso, bíblias para cima e até uma boneca de bruxa com a cara da Judith decoraram o protesto contra a filósofa. Nas palavras de Christiam Dunker, um dos maiores psicólogos do Brasil “Foi significativo que uma intelectual tão prestigiada, que veio a compartilhar com estudantes e interessados, suas teorias sobre a violência, tenha sido alvo dessas tentativas de ser impedida de falar”. Ao iniciar sua fala, Judith agradeceu que o SESC não tivesse cancelado o evento. Os protestos finalizaram com um grupo queimando sua foto e o boneco com a cara dela ao grito de “bruxa, vai para o inferno!”. Algumas das suas palavras finais no Brasil foram “Me acusam de espalhar algo chamado de ideologia de gênero… Se você diz para uma menina que, se ela nasceu mulher, tem de continuar mulher. E que ela tem de ser heterossexual. E que, então, terá de se casar com um homem, ter filhos com ele e criar uma família também hétero… Isso, sim, é ‘ideologia de gênero’.”

Esse ano, a filosofa foi para Argentina, convidada pela “Universidad de Tres de Frebrero”, para a “Semana da Arte” aonde também a importância de uma educação pública e gratuita para o fortalecimento da democracia. Debateu junto a integrantes do coletivo “Ni una menos”, um movimento pelo qual Judith Butler sente uma manifesta admiração. No encontro Butler, que chegou com o guardanapo verde símbolo das lutas pela legalização do aborto naquele pais, ressaltou que os “Movimentos ativistas feministas ao redor do mundo observam e aprendem com o ativismo argentino. É muito inspirador. É uma construção coletiva que promove a mudança cultural”. Logo continuaria “A criminalização do aborto é a maneira que o Estado encontrou para penalizar a liberdade sexual. A questão do aborto é central, porque questiona quem pertence ao corpo da mulher. A resposta é simples: é individual, o corpo pertence a mim. Eu decido”.

Butler destacou que “um feminismo que exclui as trans e as travestis não é feminismo”. E acrescentou “O feminismo precisa debater sobre suas desigualdades internas e articular mecanismos de solidariedade para com as mulheres pobres. O inimigo é o sistema patriarcal, homofóbico e capitalista. Seria um erro colocar o indivíduo no centro, lutamos contra as opressões institucionalizadas”. Confira a entrevista:

Judith em sua casa de Berkeley. Foto: Brian L. Frank para The New York Times.

É possível ensinar filosofia sem fazer política?

Quando falamos sobre o político, às vezes nos referimos a partidos e políticas partidárias. Mas às vezes falamos sobre a condição em que os seres humanos se reúnem para decidir a melhor maneira de serem governados. Às vezes, o primeiro é chamado de “política” e o segundo, “o político”. Então, se você me perguntar se uma filosofia não política é possível, não sei se você está perguntando se uma filosofia apartidária é possível ou se é possível ter filosofia sem filosofia política. Eu acho possível, enquanto sejamos cientes dessa diferença.

O Neofascismo de hoje é uma reação às lutas pela feminização do mundo?

Eu diria que o neofascismo hoje é produzido por uma precariedade econômica radical, uma condição na qual o trabalho, o abrigo, a assistência à saúde nem sempre são garantidos. São muitas as formas: a oposição aos migrantes, ao socialismo, aos direitos LGBT, e também ao movimento feminista. Na minha opinião, o neofascismo é uma reação, não uma regressão. Aqueles que se levantam contra o gênero e a liberdade e igualdade sexual estão tentando impedir os avanços feitos pelos movimentos sociais para estabelecer a igualdade de gênero e a despatologização (e descriminalização) da sexualidade gay, bissexual ou lésbica ou das vidas das pessoas trans. Somos acusados de desestabilizar seu mundo, mas a desestabilização que eles sentem é induzida pelo sistema econômico que abraçam e pela ascensão do autoritarismo neofascista. Esta última é uma forma de governança que explora e induz a instabilidade entre a população.

Você está familiarizada com o movimento ativista multinacional Ni Una Menos. O movimento, que abrange vários países da América Latina, está combatendo muitas formas de violência, em particular o feminicídio, que é a matança intencional de mulheres e meninas por causa de seu gênero. (Um exemplo: na Argentina, uma mulher é assassinada a cada 30 horas.) Nos Estados Unidos, é claro, temos o movimento #MeToo. O que você faz dessas mobilizações diferentes, mas semelhantes?

É importante ressaltar que existem muitos feminismos agora (como sempre houve) e eles diferem em relação ao seu foco e estrutura. O “Ni Una Menos” é um movimento que trouxe milhões de mulheres para as ruas da América Latina para combater a violência contra as mulheres, as pessoas trans e os indígenas. O slogan “nem uma a menos” significa que nem mais uma mulher será perdida pela violência.

Este é um chamado que é pronunciado por um coletivo: “Nenhum outro será perdido da classe de mulheres, esse coletivo em expansão que resiste à violência dirigida contra eles”. Mas também: “Como mulheres, não perderemos outra”. O movimento não é baseado em uma ideia estreita de identidade, mas é uma coalizão forte e intensificada que atrai apoio de mulheres e pessoas trans que são trabalhadores, que pertencem a sindicatos e igrejas, que podem ou não ter qualquer relação com universidades.

A feroz oposição coletiva ao assassinato de mulheres é primordial, mas também existe violência contra pessoas trans, especialmente mulheres trans, e “as travestis” (que nem sempre se identificam como trans). É por isso que às vezes é referido como um movimento contra o feminicídio – todos aqueles feminizados ou considerados femininos. Isso é importante porque não é apenas que o assassinato é cometido com base no gênero; A violência contra as mulheres é uma forma de estabelecer a feminilidade da vítima. A violência coloca a classe “mulher” como ser dispensável; é uma forma de definir a própria existência da vida das mulheres como algo decidido pelos homens, como uma prerrogativa masculina.

O movimento é igualmente uma luta pela liberdade e pela igualdade e luta pelo direito ao aborto, o direito à igualdade salarial e a luta contra a economia neoliberal que está intensificando a precariedade, especialmente para as mulheres, os indígenas e os pobres. O direito ao aborto é baseado no direito de cada mulher individual de afirmar a liberdade sobre seu próprio corpo, mas segue as demandas coletivas das mulheres para poder viver livremente seus desejos sem intervenção estatal e sem o medo da violência, retribuição e prisão.

O movimento distinguiu-se dos modos individualistas de feminismo baseados na liberdade pessoal e nos direitos do sujeito individual. Isso não significa que histórias e histórias individuais não importam. Eles o fazem, mas as formas de feminismo que não envolvem uma crítica do capitalismo tendem a reproduzir o individualismo como uma questão natural. Os coletivos são formados por meio da realização de uma condição social comum e de um vínculo social, que reconhece que o que está acontecendo com uma vida, seja violência, dívida ou sujeição à autoridade patriarcal, também está acontecendo para os outros. E embora possam acontecer de maneiras diferentes, os padrões estão lá, e assim também são os fundamentos da solidariedade.

Nos Estados Unidos, “#MeToo” tem sido muito poderoso em expor o caráter difuso de assédio sexual e agressão em todo tipo de local de trabalho. Não há como fechar os olhos a quanto tempo as mulheres sofreram com o assédio, a retaliação e a perda de suas carreiras – a perda de confiança naqueles de quem dependem com frequência para o trabalho. Mas o “eu” no #metoo não é o mesmo que o coletivo nós, e um coletivo não é apenas uma sequência das histórias dos indivíduos. A base para a solidariedade, para a ação coletiva, exige que nos afastemos da presunção do individualismo; nos Estados Unidos, a tendência é reafirmar esse princípio do liberalismo político em detrimento de laços coletivos fortes e duradouros. Na Argentina, Ni Una Menos está de certa forma assumindo a obrigação ética e política de “Nunca Mas!” Ou “Nunca Mais!” Forjada após a ditadura.

A destruição e o desaparecimento das vidas de milhares de estudantes e ativistas da esquerda levaram a uma forte oposição à censura, à repressão e à violência do Estado. O assassinato de mulheres é igualmente horrível, muitas vezes auxiliado e instigado pela polícia e pelos tribunais que não reconhecem o crime e por um governo que se recusa a afirmar a igualdade de direitos das mulheres para viver suas vidas em liberdade e sem o medo da morte.

As razões para esses dois movimentos estão ligadas a estruturas políticas e econômicas que marginalizam e oprimem as mulheres. Estruturas políticas e econômicas estão inexplicavelmente ligadas ao machismo, o sentido tóxico da identidade masculina que se traduz no direito masculino ao corpo da mulher; na verdade, ligado ou não as mulheres vivem ou morrem. Fale sobre as dimensões performativas do machismo.

Eu não tenho mais certeza do que conta como performativo, mas minha opinião é que uma razão pela qual os homens se sentem livres para se desfazer da vida das mulheres é por estarem ligados uns aos outros através de um silencioso pacto de fraternidade.

Eles olham para o outro lado; eles dão permissão uns aos outros e concedem um ao outro a impunidade. Em muitos lugares, a violência cometida contra as mulheres, incluindo assassinatos, nem sequer é conceituada como crime. São “o caminho do mundo” ou “atos de paixão” e essas frases revelam atitudes arraigadas que naturalizaram a violência contra as mulheres, ou seja, faziam parecer que essa violência é uma parte natural ou normal da vida cotidiana. Quando homens feministas quebram esse pacto de solidariedade, eles correm o risco de serem excluídos por algumas comunidades, e ainda assim esse tipo de deserção das fileiras é exatamente o que é necessário.

Em Barcelona, ​​um homem bem-intencionado disse-me que não tinha o direito de participar de uma manifestação feminista contra a violência. Mas eu discordei dele. Bem, talvez eu concorde com ele: a participação não é um direito; é uma obrigação. Mas os homens que se unem nessa importante luta contra a violência contra as mulheres e as pessoas trans precisam seguir a liderança das mulheres. Se estão unidos contra o pacto letal de fraternidade que permite, desvia e exonera, eles o fazem em primeiro lugar, confrontando outros homens e formando grupos que rejeitam a violência e afirmam a igualdade radical. Afinal, quando as vidas das mulheres e das minorias de todos os tipos são tomadas, isso é um sinal de que essas vidas não são tratadas como igualmente valiosas. A luta contra a violência e a luta pela igualdade estão ligadas.

De que maneira a sua discussão sobre a não-violência aborda nossa prática cultural predominante da violência especificamente masculina?

Essa é uma boa pergunta. Para mim, a violência não é masculina ou masculina. Eu não acho que isso vem dos recessos dos homens ou está embutido em uma definição necessária de masculinidade.

Podemos falar sobre estruturas de dominação masculina, ou patriarcado, e nesses casos são as estruturas sociais e suas histórias que pedem para serem desmanteladas.

É difícil saber como entender atos individuais de violência dentro de estruturas sociais que encorajam, permitem e exoneram tais atos. Pode ser que nós somos criaturas sociais cujas vidas são vividas em estruturas sociais que temos algum poder de mudar. Então, eu não acho que homens individuais possam apontar para “estruturas sociais” como uma desculpa, ou seja, “a estrutura social da dominação masculina me fez cometer esse ato de violência”.

Ao mesmo tempo, é toda nossa responsabilidade nos perguntar como estamos vivendo, reproduzindo ou resistindo a essas estruturas. Assim, embora a mudança possa acontecer em um nível individual, os modelos de justiça restaurativa nos dizem que os indivíduos mudam no contexto de comunidades e relacionamentos, e é assim que novas estruturas de relacionamento são construídas e as mais antigas são desmanteladas. Por sua vez, isso significa que a ética tem que se tornar mais do que um projeto individual de auto-renovação, uma vez que vidas são renovadas na companhia de outras pessoas. Essas relações são o que nos sustentam e, como tal, merecem nossa atenção e compromisso coletivo.

*parte dessa entrevista foi publicada por George Yancy no jornal The New York Times no dia 10/07/2019
Colaboração especial de Paulo Ferrareze Filho.

A força do Quilombo do Grotão e o samba de André Jamaica

A força do Quilombo do Grotão e o samba de André Jamaica

Foto: Acervo pessoal

Por Eduardo Sá

O Quilombo do Grotão, que fica na periferia de Niterói (RJ), é um local de resistência cultural. Dentre diversas outras atividades, todo mês é realizado um samba de raiz no terreno em meio a floresta localizada no Parque Estadual da Serra da Tiririca. Cerca de 60 pessoas moram no quilombo reconhecido em 2016 pela Fundação Cultural Palmares. A valorização dos saberes e práticas ancestrais estão na base de todo trabalho desenvolvido no local. Para falar sobre este movimento, conversamos com o músico André Jamaica, durante um tributo ao sambista Zé Katimba, que promove há cinco anos o Samba de Fé todo primeiro domingo do mês em homenagem a um orixá da religião africana.

Jamaica é nascido e criado na Baixada Fluminense, estudou na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, em São Gonçalo, e está há anos em Niterói desde quando começou a trabalhar com música na UFF. Já tocou em algumas casas culturais da cidade e com diversos sambistas cariocas. Cantor e compositor, traz em seu trabalho uma reverência às religiões africanas. Segundo ele, o momento político atual de intolerância religiosa não é muito favorável ao samba. Por outro lado, complementou, as raízes deste gênero musical já estão fincadas na cultura popular e tem tudo para se perpetuar através das próximas gerações.

Na capital carioca temos a famosa Pedra do Sal, qual a diferença de tocar num quilombo?

A importância de fazer um samba aqui é poder juntar e verdadeiramente fazer parte desta diáspora africana, que é muito importante aqui no Brasil. Somos um país extremamente africano, fundado tanto economicamente quanto culturalmente, então quando a gente faz um samba nesse quilombo partilhamos de toda essa diáspora, todo esse conhecimento e legado, toda essa proposta que a cultura africana trouxe ao Brasil.

Qual sua avaliação sobre o samba atual?

O samba se estabeleceu de uma forma definitiva. As redes sociais são contributivas nesse sentido, porque ajudam a ramificá-lo de uma maneira mais abrangente e rápida. Vivemos a informação do tempo real, e o samba toma partido e tira proveito disso no melhor sentido da palavra. Ele sempre esteve aí, mesmo no período da década de 70 com essa coisa da música da discoteca e americana. É justamente nessa época que Beth Carvalho vendeu muitos discos, por exemplo, assim como Clara Nunes, João Nogueira e muitos outros. Então, o samba sempre esteve bem firme ali fincado.

E você atribui isso a quê?

Porque o samba é muito verdadeiro. Ele tem uma tradição que vem muito do candomblé, que é essa coisa de respeito aos mais velhos e às raízes. Respeito de onde você vem, uma coisa muito familiar, é diretamente ligado ao candomblé e a umbanda. Cada terreiro que se estabeleceu ou se estabelece, de uma forma direta o samba também está neste contexto. Nunca perdemos esse foco e é bom ver hoje o samba tão abrangente, que ele chega a todo mundo: quem tem grana e não tem.

Falando em religiosidade, vivemos uma fase de expressiva ascensão das religiões evangélicas. Como funciona isso neste cenário, inclusive de intolerância religiosa?

O samba já foi oficialmente proibido no Rio de Janeiro. No início o João da Baiana, que é uma referência, dizia o seguinte: samba é macumba com letra profana. Ou seja, são os ritmos da macumba, do candomblé, da umbanda com letras que falam do amor, do dia a dia, do cotidiano ou outras coisas que não as religiosas. Nesse momento que a gente vive de muita intolerância religiosa, o samba é um componente agregador da religião de matriz africana, não tem como separar uma coisa da outra. Na medida em que o samba vem disso, todo reduto deste gênero musical acaba se tornando um quilombo urbano. Se a gente entender que quilombos são locais de resistência, qualquer lugar proponha samba é também um quilombo urbano. Por isso, essa relação hoje é muito forte do samba com as religiões afros.

Quando você fala dessa relação, de certa forma associamos a questão da negritude também. O samba embranqueceu ou perdeu qualidade nos últimos anos?

Sou agregador por natureza, quando falamos em embranquecimento talvez tenhamos no sentido da frequência das pessoas, o público que participa. Acho que essa galera vem se chegando e entendendo. Vejo algumas pessoas, como o Lucio Sanfilippo, que é branco mas referência nesse samba ligado às religiões de matriz africana. Temos uma compositora maravilhosa que é a Manu da Cuíca, uma das compositoras do samba vencedor da Mangueira, que é branca e soma junto. Temos um Luiz Antônio Simas, que é um historiador fantástico e também compositor com um trabalho belíssimo sobre as religiões de matriz africana. Temos a Stela Guedes também, uma escritora que trabalha muito nesse sentido, então a palavra embranquecimento talvez tenha um cunho pejorativo. Eu chamaria de uma abrangência da diáspora africana, que está conseguindo chegar a lugares que antes não conseguia.

Dialogando ainda com os intérpretes do Brasil, como Gilberto Freire, ainda dentro do processo de miscigenação nacional?

Com certeza ainda faz parte, a miscigenação é fundamental neste sentido e contribui bastante. É uma soma de forças.

Um samba mais de raiz e de quilombo enfrenta maior dificuldade para ter visibilidade?

A música não deixa de ser uma mercadoria, muita gente vê o samba como um produto. Existem formas de se fazer o samba que são mais palatáveis ao mercado, com uma melodia fácil, refrão e letra que pegam na cabeça, porque isso vende no mercado. É difícil fazer o samba de raiz, porque é com outra proposta melódica e poética. Existe essa diferença, porque a linguagem do mercado é mais acessível. A gente procura trabalhar algo que valorize os mestres Cartola, Candeia, Noel Rosa, essa galera que fazia com uma proposta de fazer o melhor samba possível.

E o que marcou essa mudança de vendas de milhares de discos e aparições frequentes na TV pro que o samba é hoje na nova geração?

Mudou com a rede social, ela é muito relacionada à modernidade que as vezes é diretamente e equivocadamente relacionada a jovialidade. As pessoas acham que o que é moderno precisa ser jovem, precisa ter esse rosto jovial. Por isso alguns compositores ou sambistas que têm já muita vivencia e são mais maduros, como Zé Katimba, Monarco ou como era Dona Ivone, talvez fiquem fora da mídia porque não tem essa capa e invólucro jovial. O samba continua sendo a referência rítmica do Brasil, lá fora você fala que é brasileiro e as pessoas te associam diretamente a samba e futebol. O que talvez tenha mudado é que essa imagem que o mercado gosta de levar para fora é a desse samba mais jovial, que está ligada aos cantores mais jovens.

Fala um pouco mais do trabalho desenvolvido aqui no Quilombo do Grotão.

Há dez anos realizamos aqui esse movimento cultural no quilombo, enfrentamos muitas dificuldades para obter o registro definitivo de território por estarmos dentro do Parque Estadual da Serra da Tiririca. Mas já existe há bastante tempo, é da família do Renatão que é o responsável. O sítio se chama Manoel Bonfim, o avô dele, que herdou essa terra após trabalhar para um senhor dono de muitas terras na região. O Grotão está há bastante tempo aqui como resistência e polo cultural, divulgando a diáspora, tem roda de capoeira, já fez jongo e continua mantendo a roda de samba há muito tempo. Se tornou uma referência de resistência não só em Niterói como no Rio.

Tem também muitos produtos de ervas medicinais, culinária e artesanatos e pinturas a venda para o público, né?

Não é só o samba em si, o quilombo envolve essas outras questões como o artesanato ligado a essa temática. Os doces de coco, cocada, de origem africada, quindim, que tem muito a ver com a África e Portugal. Envolve roupas, há pouco tempo tinha um rapaz do Senegal que vendia camisas da sua terra natal. O quilombo faz questão de manter isso, não só a música e culinária mas que tudo seja de alguma maneira ligada à questão africana ou a sustentabilidade. Toda a estrutura do quilombo é feita para interagir com o ambiente, tudo de madeira e muita planta.

Tem algo que não tenha sido citado que você acha importante ressaltar?

O mais importante é a gente conseguir falar. Vivemos um momento político no país muito delicado, precisamos ter muita atenção com todas essa questões e somar forças.

 

O pacote antimaconheiro do Moro

O pacote antimaconheiro do Moro

Foto: Mídia NINJA

Sergio Moro, atual Ministro da Justiça e Segurança Pública, apresentou Projeto de Lei denominado “Pacote Anticrime”. Esse vem sendo objeto de grande propaganda da mídia do mercado. Uma de suas propostas, que vem passando desapercebida, é terrível para milhares de brasileiros.

Para ser mais claro, venho apresentar um dos muitos casos em que atuei como advogado na defesa de consumidores e plantadores de maconha acusados de tráfico de drogas. Um jovem plantador de maconha tinha dentro do armário no seu quarto uma pequena estufa, que continha pouco mais de quarenta mudinhas de três centímetros em pequenos copos de café de plástico e outras dez mudas de 5 a 15 centímetros, sendo que nenhuma delas sequer se apresentava em estado de floração. Havia ainda dois potes de flores diferentes da última colheita e dois outros potes contendo apenas folhas, que servem para “engrossar” o baseado, pois não possuem THC. Ao todo, eram 40 gramas de maconha nesses potes. O jovem tinha uma relação religiosa com a planta e a utilizava para fins medicinais, devido a graves doenças descritas em laudo médico. Durante todo o processo, declarou que as plantas jamais seriam para a venda, pelo contrário, ele dizia que plantava justamente para não ter de comprar do tráfico.

No entanto, pelo fato de plantar maconha, o jovem foi denunciado pelo Ministério Público em dois crimes, tráfico de drogas e plantio para o tráfico. O juiz, que presidiu toda a instrução criminal e fez a oitiva de todas as testemunhas, absolveu o jovem plantador. Inconformado com a absolvição, o Ministério Público recorreu e a Câmara Criminal condenou o jovem a 12 anos de reclusão em regime fechado. Dois desembargadores votaram pelos 12 anos e um dos desembargadores também condenou, mas a 4 anos no regime aberto, substituindo a pena privativa de liberdade por duas penas restritivas de direito. Como um dos votos era divergente, ou seja, pela condenação sem pena de prisão, o mandado de prisão do jovem não foi imediatamente expedido. Desse modo, coube mais um recurso, chamado “Embargos Infringentes e de Nulidade”, previsto no parágrafo único do artigo 609 do Código de Processo Penal. Esse recurso é julgado por outra Câmara Criminal e, no caso, a outra Câmara deu provimento ao recurso e, por 5 X 0, prevaleceu o voto vencido do julgamento anterior. Os cinco desembargadores declararam que não o absolveram somente porque o recurso é adstrito ao voto vencido. Portanto, ao final, o jovem foi condenado por tráfico, mas sem a pena privativa de liberdade.

O pacote do Moro quer restringir os “Embargos Infringentes e de Nulidade” somente a casos de absolvição, ou seja, quando o voto vencido for pela absolvição. Segundo o pacote, no caso aqui relatado, o jovem plantador não teria direito aos “Embargos Infringentes e de Nulidade”, teria sido preso imediatamente e cumpriria 12 anos de prisão em regime fechado, conforme os dois votos majoritários descritos no Acórdão.

Trata-se de caso corriqueiro em relação às maconheiras e aos maconheiros. Em torno de 70% dos presos por tráfico de maconha estavam com menos de 100 gramas, 50 % com menos de 50 gramas e 20%, pasmem, com menos de 10 gramas! Muitos casos caem nessa situação limite e os desembargadores divergem em relação à quantidade da pena. Se for até 4 anos, na grande maioria das vezes, cabe a substituição da pena de prisão por duas penas restritivas de direito, tais como prestação de serviço à comunidade e limitação de fim de semana. Porém, quando a interpretação teratológica vai no sentido de combinar tráfico e associação para o tráfico, são aplicadas penas altíssimas, de 8 a 25 anos de prisão. Em casos desse tipo, quando há voto divergente, esses “Embargos Infringentes” livram milhares de pessoas das nossas cadeias, que são verdadeiros campos de concentração. Estabelecer que os “Embargos Infringentes” serão aplicados somente em caso de absolvição é a maior demonstração do sadismo desse dito “Pacote Anticrime” do ex-juiz Sérgio Moro.

Assista o programa Fumaça do Bom Direito de André Barros

O pacote antimaconheiro do Sérgio Moro

Posted by André Barros on Tuesday, July 9, 2019

 

Os Deuses estão em festa: Gilberto Gil em Berlim!

Os Deuses estão em festa: Gilberto Gil em Berlim!

Foto: Fátima Lacerda

Certamente quando em turnê pelo Velho Continente, Londres há de ser campeã invicta em simbologia na trajetória de Gil. Além do cunho político dos tempos de exílio, as influências musicais angariadas ao DNA sonoro gilberteano, o elevaram para o patamar do transcendente. Os sons de Bobby Marley e Jimmy Hendrix o fizeram substituir o violão pela guitarra elétrica que, por sua vez, lá atrás quando Gil ainda morava na Bahia, substituíra o acordeon, depois dele ouvir nas ondas da Rádio Bahia, no final de 1959, ecoar “Chega de Saudade” de João Gilberto. “A partir dali, tremeu tudo”, revela Gil em entrevista ao programa “Som do Vinil” no Canal Brasil em 2014. Depois do almoço ele foi ao armazém que ficava ao lado, procurou na lista telefônica o número da Rádio Bahia e indagou sobre a música que acabara de ser tocada. “Tocou tudo em mim, o violão em especial. As notas lisas, sem vibrato, mas em especial mesmo o violão. Isso me fez, logo em seguida, tomar coragem para pegar o violão pela primeira vez”.

A influência africana, especialmente aflorada depois da viagem a Luanda, quando esse país ainda era desconhecido do mapa seria enriquecida, mais tarde, nas viagens de Gil durante as filmagens do documentário, “Viramundo”, do suíço Pierre-Yves Borgeaud.

Se espalha nos campos derrubando as cercas…

Berlim não tem como desbancar Londres, ainda muito menos encarar a disputa com a riqueza do continente africano, mas é nesta cidade que Gil é recebido como um ídolo. Poucas vezes os alemães conseguem expressar emoção: talvez sejam Tina Turner, Gil e David Bowie as únicas exceções. Quando Gil toca em Berlim, ele faz questão que seja na Casa das Culturas do Mundo, não muito pelo nome que angaria respeito, mas pelo lugar no qual ele já construiu um livro de histórias.

Pelo segundo ano consecutivo (e isto já é como 13 pontos na loteca) o baiano Gil volta a Berlim e se apresenta no centro cultural de maior relevância do país.

Em 2006, como ministro da cultura do governo Lula (2003-2008), o maior embaixador cultural que o Brasil já teve, fez um show no auditório para qual os ingressos se esgotaram em duas horas. Para compensar e fazer jus à eletricidade que emanava em Berlim naquele verão durante a Copa da Alemanha, foi agendado um show do lado de fora, no coração verde de Berlim que reuniu e transformou o jardim da “Casa” em um formigueiro humano (fontes não oficiais falam de 5.000 pessoas). Neste dia estavam no palco ou ao seu redor, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Margareth Menezes e até o colunista Anselmo Góis. Foi uma festa popular como eu nunca vi naquele local. Nem antes, nem depois.

Em 2018, (depois de um jejum de 7 anos), Gil chegou a Berlim com o som de Refavela40. Uma banda imensa com músicos jovens, desconhecidos e dotados de eletrizante talento e simpatia.

Gil é para Berlim na área da música o que Fernanda Montenegro representa para a área do cinema. A cidade se ajoelha, reverencia, chora, canta.

Em tempos sombrios quando no Brasil a arte, ciência e cultura foram declaradas inimigas do povo, o melhor embaixador que se pode desejar é Gil, que joga na liga de músicos imortais desde sempre, como Carlos Santana, Miles Davis, John Coltrane, BB. King, Wayne Shorter, George Duke, sim, será um afago para brasileiras e brasileiros, como de praxe, mas Gil se espalha nos campos derrubando cercas e muros e o mal humor crônico dos berlinenses.

Em 2019 em Berlim será mais do que “somente” um bem-vindo afago na alma brasileira, mas um presentão para todos ali que anseiam serem alimentados com a eletricidade e sonoridade gilbertiana à céu aberto, à beira do Rio Spree, no terreno que é a espinha dorsal político-cultural da hoje Capital da República. Mas Gil conhece Berlim de outros carnavais. Um dia depois do Brasil ser campeão da Copa de 1994, Gil e Caetano tocaram em Berlim promovendo o “Tropicália”. Um dia depois do Brasil ser campeão em 2002, exatamente contra os alemães (que tempos bons aqueles!), Gil deu o ar de sua graça em local também histórico, o jardim da Ilha dos Museus. Super solícito, evitou de esbravejar a alegria da conquista da Seleção e ficou até sem jeito. Um diplomata de primeira linha!

Em 2019, com o Brasil sendo governado por um extremista de direita e já com o Ministério da Cultura extinto, Gil é ainda mais o gostinho de um Brasil quase apagado da nossa percepção, o gosto de um Brasil feliz. O solo berlinense não poderia ser mais propício.

Em sua última passagem por aqui, tentando tirar duas fotos, voltei ao camarim. Ele, sentado na mesa redonda e acompanhado de músicos olhou pra mim com olhar interrogativo. Super sem graça eu cheguei a ele e disse: “Gil, a foto não vingou, faz outra comigo?”. Ele levantou da mesa, veio até a mim e disse,: “Fátima, agora tem dar certo…”., disse ele em tom como daquele professor solícito mas que acaba de corrigir a redação e ainda vê potencial de otimização.

Pente fino no Velho Continente

Gil se tornou um Workaholic. Tem o programa semanal “Amigos, Sons e Palavras” no Canal Brasil, fez a trilha sonora do novo espetáculo do “Grupo Corpo” de Belo Horizonte do qual lançamento será no Teatro Alfa, São Paulo, dia 8 de agosto. No final de junho, Gil esteve pessoalmente em BH para acompanhar os ensaios. Ainda gravou o disco “OKOKOK”. A turnê passa o pente fino na Europa. Iniciou em Viena, passou por Londres e no momento de finalização desse artigo, a equipe já estava a caminho de Rotterdam, na Holanda.

Depois de Berlim, onde se apresenta no domingo, dia 14, Gil passa por Portugal e Espanha e ainda volta à Alemanha para shows em Munique (22) fechando as datas em solos alemães em grande estilo, dia 11/08 na prestigiosíssima Filarmônica de Hamburgo. Dia 13/08 é Grande Finale em Oslo, na Noruega.

Gil chega a Berlim com uma banda repleta de músicos talentosos, alguns deles, “Prata da casa” e com sonoridade de alto caráter percussivo.

Danilo Andrade – teclado

Diogo Gomes – Trompete /Flügelhorn

Thiago Queiroz – Sax (alto e barítono)/flauta

José Gil – percussão/bateria

Domenico Lancellotti – percussão/bateria

Bruno Dilullo – baixo

Bem Gil – guitarras e direção musical

Nara Gil – back vocal

Participações especiais: Roberta Sá e Flor Gil Demasi (neta de Gil)

Te desafio a conhecer o funk

Te desafio a conhecer o funk

Somos mais de 20 milhões de funkeiras e funkeiros espalhados por todo território nacional. Ou seja, cerca de 10% da população brasileira unida em torno de um mesmo movimento. Antes de qualquer coisa, te convidamos a conhecer a nossa história.

Foto: Mídia NINJA

Por Bruno Ramos e Andressa Oliveira

O dia 7 de julho é oficialmente o dia do Funk no estado de São Paulo. E para nós, é dia não somente de comemoração, mas de reflexão. A data foi escolhida em memória do MC Daleste, grande nome do Funk Paulista, que perdeu a vida no palco, no dia 7 de julho 2013. Mc Daleste é o único artista brasileiro a ter sido baleado durante um show. Um episódio que marcou não somente a história do funk, mas da música nacional como um todo. A data serve para homenageá-lo ao mesmo tempo em que nos lembra da responsabilidade que temos como movimento de evitar que situações como essa venham a se repetir. Além, claro, de se tornar mais um momento para discutirmos as tentativas de criminalização e repressão contra o Funk.

Grande parcela da sociedade conhece a cultura funk somente pelas letras mais polêmicas, mas é importante dizer que muita coisa vem passando despercebido.

Este texto não é para falarmos mais uma vez sobre os ataques que sofremos ou sobre as mazelas que colocam na nossa conta. É, na verdade, um desafio, um convite para que VOCÊ se permita conhecer o Funk, sua essência e pluralidade.

A expansão do funk para espaços antes inacessíveis vai além da novela das oito, do programa do Faustão e das baladas da classe média alta. Hoje, estamos no cinema, no teatro, no audiovisual, na dança contemporânea e na academia, disputando narrativas e somando não apenas como objetos de estudo, mas como intelectuais.

Estamos no centro das atenções também quando o assunto é visibilidade nas plataformas digitais ou nas redes sociais. Estamos até na Forbes! Os números atingidos no Youtube, plataforma que derrubou a era analógica dos “discos vendidos” e consolidou a era digital dos “milhões de views”, são impressionantes, começando pelos resultados do Canal Kondzilla, que hoje é o maior canal do Brasil, está no top 10 do mundo e já tem na conta o 1° vídeo do Brasil a bater 1 bilhão de views: MC Fioti – Bum Bum Tam Tam. A música foi produzida pelo próprio MC, que transformou a famosa flauta de Bach, da música erudita, em beat. O funk também foi pioneiro em outros recordes no Youtube, como o primeiro 1 milhão de vizualizações com MC Boy do Charmes – Megane e o primeiro 100 milhões, com MC João – Baile de Favela.

Diversidade

A cena feminina também está cada vez mais forte. Apesar de ocuparem os palcos em menor número, são muitas as mulheres com grande impacto e importância em toda a história do funk, da nossa rainha Tati Quebra Barraco à Anitta, que hoje é a maior artista internacional do país e a 2º maior da América Latina.

Se pensarmos no polêmico “funk putaria/ funk ousadia” outra ideia pré-concebida aparece: a de que apenas homens constroem essa vertente objetificando o sexo feminino. Mas a real é que mulheres de peso desenvolvem essa tendência há muitos anos, falando elas mesmas sobre o que querem, gostam ou esperam não só no campo da liberdade sexual, mas da autonomia financeira e do poder feminino em suas distintas formas. Quem não conhece as letras de Valesca Popozuda, Ludmilla, MC Byana, Deize Tigrona, MC Carol e Mc Marcelly está desconectado do mundo.

A ONErpm analisou recentemente os dados de 130 canais de funk no Youtube e descobriu que as mulheres hoje já são quase maioria do público somando 49,5%. Para se ter uma ideia, em 2014 esse número era apenas de 32%. Músicas como MC Pocahontas – Não Sou Obrigada e MC Rebecca – Cai de Boca são ótimos exemplos desse sucesso.

E não só as mulheres têm ganhado espaço na cena funk. Bem antes do universo LGBTQI+ cair no gosto da indústria cultural brasileira, o Funk já tinha figuras como Lacraia e a Mulher Feijoada.

E é, ainda hoje, um dos poucos estilos musicais que abraçam a comunidade e permitem que figuras como Jojo Todyynho, MC Loma, Linn da Quebrada, Kaya Conky, Pepita, MC Trans, MC Carol, MC Xuxu e muitas outras, tenham espaço para desenvolver e apresentar seu talento. São pessoas negras, gordas, LGBTs, nordestinas, fora dos padrões estéticos e comportamentais e que têm, de fato, a cara da nossa sociedade que as mídias tradicionais tanto tentaram esconder.

A (r)evolução dos beats

Em toda a história do funk uma das grandes transformações é a própria musicalidade, mais especificamente a produção, que hoje é quase sempre 100% digital. Entre os anos 90 e os anos 2000 a batida era o Volt Mix, primeiro beat de funk criado no Brasil e que ganhou força com Cidinho & Doca – Rap da Felicidade, Mc Marcinho – Rap do Solitário e Tati Quebra Barraco – Boladona. Na sequência, se tornando cada vez mais brasileiro, letra e produção foram se organizando em vertentes junto a chegada a São Paulo. Entramos aí em uma nova fase: o tamborzão, com sua maior expressão nos sucessos Gaiola das Popozudas – Agora eu sou solteira, Mc Daleste – Gosto Mais do que lasanha 2, Samuka e Nego – Ta bombando.

Com a variação dos beats veio a variação das danças. Depois do rebolado, quem manda é o Passinho, que também conta com um time de representantes de peso: Imperadores da Dança, Bonde das Maravilhas, Dream Team do Passinho, além de dançarinos-referência de Fezinho Patatyy (Passinho do Romano/SP) até ao MV Oliveira (Malado/BH). O Passinho – e suas várias caras pelo Brasil afora – é hoje reconhecido em Pernambuco como patrimônio cultural do estado através do Brega Funk. O que nos leva mais a fundo na reflexão, podendo considerar o Passinho “o primeiro estilo brasileiro de dança urbana” como diz a Companhia Suave, ao apresentar seu espetáculo CRIA.

Ocupando TODOS os espaços

Além da música, a criatividade e capacidade de inovação desse movimento têm nos levado longe. Funkeiras e funkeiros criam e criam muita Coisa Boa. Começando pelas profissões que “tomamos de assalto” para produzir nossos próprios conteúdos. Costumamos dizer que, não adianta perguntar o que uma pessoa quer ser na vida quando as profissões que a cercam são pedreiro, padeiro, cabeleireiro, etc. Quando não se tem referências, dificilmente a resposta será médico, cineasta, empresário. Ao aproximar design, fotografia, audiovisual e jornalismo para o movimento de forma tão intensa, o funk tornou essas profissões possíveis, atuando como um mecanismo de transformação social. Para entender mais do que estamos falando, procure conhecer o trabalho dessa galera Beco Filmes, Doug Filmes, Jeferson Delgado, Portal Kondzilla, Funk TV.

No campo político, a atuação vem muito antes das letras do chamado “funk consciente”. As equipes de som tiveram um papel fundamental no histórico de luta do movimento ao organizar politicamente o Funk desde o final dos anos 1980. Apesar da forte repressão do estado pela polícia militar nos anos 1990, grupos como Espião, Cash Box, Dudas, Pipo’s, Crazy Music, Las Vegas e Pitt Bull chegaram aos anos 2000 organizando grandes bailes e até competições de equipes principalmente em clubes cariocas. Essas equipes defendem pautas como a ocupação do espaço público, geração de renda para a comunidade, liberdade de expressão e direito ao lazer (direito assegurado pela nossa constituição), atuando contra a repressão policial do Estado, o extermínio e genocídio da juventude negra e contra o olhar manipulado e conservador de boa parte da mídia.

As equipes de São Paulo têm seguido a mesma linha de organização carioca, buscando se reunir dentro de espaços fechados onde possam ter mais tranquilidade na hora da festa, sem precisar sair correndo da polícia, como nos fluxos de rua. O movimento recente tem como objetivo a organização política em defesa dos sistemas de som e levanta a bandeira de que SOM AUTOMOTIVO NÃO É CRIME!.

Iniciativas politizadas como essas abriram espaço para outras tantas frentes que atuam até hoje em prol do movimento: A Liga do Funk, conhecida como Escola do Funk, existe desde 2012 e formou centenas de MCs e DJs em São Paulo; Do projeto da Liga, derivou a Morada da Liga, que também voou alto. A casa de formação e moradia coletiva revolucionou a cadeia produtiva do Funk criando e orientando novas(os) artistas e empreendedora(es) do ramo; O Observatório do Funk, de Belo Horizonte, também é uma grande referência. O grupo pesquisa e promove desde 2017 debates sobre a pluralidade do movimento e a constante criminalização que sofre pelo país. Como o Funk é, inegavelmente, também um estilo de vida – com moda e linguagem próprias – dele também derivam conceitos, como é o caso da Mecnologia, que nada mais é que uma gíria para definir a tecnologia que moradores das periferias do Rio de Janeiro desenvolvem para estarem tranqüilos em meio à violência e à escassez de serviços básicos. A ideia tem circulado as comunidades e tem sido estudada por intelectuais das comunidades cariocas.

É por isso e por MUITO MAIS que nós, funkeiras e funkeiros, nos propomos a pensar o futuro do funk. E aproveitamos para chamar a atenção do poder público para o fomento da produção e do desenvolvimento do movimento, principalmente, na formação e educação da juventude envolvida e na regularização e criação de espaços públicos que garantam a preservação de características importantes do movimento, como nossos velhos e consagrados bailes de rua, hoje ameaçados. É preciso pensar coletivamente em políticas públicas que colaborem para que cultura e sociedade não virem inimigas. O Funk é hoje uma das nossas grandes ferramentas de transformação social, patrimônio cultural da nação brasileira. O #funknãoécrime.

Aqui vai um feliz Dia do Funk para toda nação funkeira.
Uma homenagem especial aos saudosos MCs Suel, Goró, Claudinho, Lacraia, Catra, G3, Naldinho, Zoio de Gato, Felipe Boladão, Duda do Marapé, Primo, Careca, Sapão e Daleste.

E aquele grande desejo #LIBERDADEDJRENNANDAPENHA!

“Somos responsáveis por aquilo que falamos e fazemos e não por aquilo que às pessoas vêm ou entendem sobre nós”

De aerolula a aeroína: as falhas na segurança institucional do presidente da República

De aerolula a aeroína: as falhas na segurança institucional do presidente da República

Arte: Diêgo Arthunes / Design Ativistas

Antes de fazer ilações de que o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), estaria envolvido (penso e acredito, sem ironias, de que não está) no episódio da apreensão de 39kg de cocaína em avião oficial do Grupo de Transporte Especial (GTE) da Força Aérea Brasileira (FAB), destinado ao transporte do próprio presidente e suas comitivas, em posse de um militar da Aeronáutica, membro da tripulação presidencial, as duas primeiras perguntas que faço são:

Se, em um voo comercial, passageiros e bagagens, incluindo as de mão, passam por vistoria e Raio X, isso não acontece em um voo presidencial? Não há protocolo de segurança em um voo que poderia estar transportando um Chefe de Estado e/ou assessores do primeiro escalão governamental?

É claro que há tal protocolo. Talvez até mais rigoroso do que aquele com o qual os civis estão habituados nos aeroportos. Se há, como explicar que alguém tenha passado despercebido com tamanha quantidade de drogas? Teria havido conivência de alguém? Teria, o sargento preso, agido em conluio com alguém?

Minhas dúvidas prosseguem, para além do protocolo de segurança de embarque e decolagem de uma aeronave presidencial. Vamos caminhar um pouco pra trás:

Um membro da tripulação de um avião presidencial é ou não é escolhido a dedo? Com certeza, sim. Se não pelo próprio presidente, em pessoa, seguramente pelo seu ministro de estado-chefe do gabinete de Segurança Institucional (no caso, o Gal. Augusto Heleno), a quem incube, por lei, dentre outras atribuições, a segurança pessoal do presidente e de sua família. Daí, pergunta-se:

Que tipo de segurança institucional é essa que permite que chegue perto do presidente da República, como membro da tripulação de um de seus aviões oficiais, um traficante de drogas? O GSI monitora e investiga membros do MST, do MTST, da CUT, do PT, do movimento estudantil, dos movimentos sociais e não teve capacidade de descobrir que um membro da tripulação presidencial poderia ser uma mula do tráfico internacional de drogas?

O Gal. Heleno, sem ter como justificar uma falha de tamanha magnitude de sua parte, primeiro alegou “não ter bola de cristal” para adivinhar que alguém iria embarcar com entorpecentes no avião presidencial. Não precisa bola de cristal, general! Bastava passar a bagagem no Raio X… Depois, tentando remendar a infeliz declaração, alegou ter sido “falta de sorte” o sujeito ter sido preso justamente às vésperas de um encontro internacional como a Reunião de Cúpula do G-20. Pergunto: foi falta de sorte o cara ser preso? Não era pra ter sido preso, então?

Outro aspecto que me chama a atenção é a capacidade da imprensa em utilizar eufemismos, para atenuar o efeito negativo da notícia, a depender da classe social ou da relação do suposto criminoso com o poder. Se um negro, pobre, de periferia, é preso na rua fumando um baseado, logo falam: “marginal, nóiado, tem que prender, mata, espanca.” Mas, se um militar da Aeronáutica é preso, em flagrante delito, praticando tráfico internacional de drogas, em um dos dois aviões oficiais do presidente, a manchete é : “Sargento é detido suspeito de transportar substâncias entorpecentes em aeronave reserva da presidência.” Talvez, se tivesse ocorrido durante os governos Lula ou Dilma, a manchete seria: “Militar foi preso por tráfico internacional de drogas, portando 39kg de cocaína em avião do presidente.” Percebem a diferença?

Já não bastasse a presença do presidente da República na lista de Furnas; as doações ilegais de campanha da JBS (lavadas no antigo partido e posteriormente recebidas por ele); a Wal do Açaí; os disparos ilegais em massa de fake news, por intermédio do aplicativo WhatsApp, pagos com recursos ilícitos oriundos de caixa 2 eleitoral; os laranjas do PSL; o envolvimento com milícias; o vizinho miliciano que assassinou Marielle e que armazenava fuzis em sua residência (situada ao lado da casa do Presidente); os parentes da ex-esposa empregados nos gabinetes parlamentares dos filhos; as sucessivas trapalhadas e deboches dos membros de seu gabinete ministerial, sobretudo por parte dos integrantes do núcleo dos olavetes lunáticos; agora ainda tem tráfico internacional de drogas no avião presidencial! Véi, na boa: é muito B.O. para um presidente da República só, mano!

Sem esquecer do Queiroz, claro! Aliás, cadê o Queiroz? E, por que não lembrar do Adélio? Ah, Adélio, Adélio… Conta a verdade pra nós, Adélio.

Moça Prosa: “Utilizamos o samba como um ato legítimo de denúncia das mazelas da sociedade”

Moça Prosa: “Utilizamos o samba como um ato legítimo de denúncia das mazelas da sociedade”

Juntas, o grupo Moça Prosa mostra resistência no samba de mulheres. Foto: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá.

Feminista e politizado, o grupo de samba Moça Prosa, composto por seis mulheres e convidadas, promove não só rodas de samba mas também debates sobre temas contemporâneos. Tudo começou em 2012, na Pedra do Sal, reduto tradicional de samba no centro do Rio, durante uma oficina de percussão com o músico Vagner Silveira. Desde então não parou mais, apesar das dificuldades que encara para tocar na rua e ter acesso às casas tradicionais de cultura na cidade.

Quatro integrantes do grupo estão desde sua fundação, mas poucas das nove que tocam e cantam vivem exclusivamente da música. A entrevista foi realizada antes de um samba delas no Dida Bar, na Tijuca, zona norte da cidade, com quatro integrantes: Ana Priscila, Jack Rocha, Tainá Brito e Luana Rodrigues. Neste mês, a convidada para o debate nas pausas da roda é a escritora Conceição Evaristo, veja o evento aqui. Negritude, cultura e gênero, dentre outros temas, sempre são abordados por elas.

Na entrevista, elas relatam as dificuldades por conta do machismo institucionalizado na sociedade e também no samba. Falam também sobre as burocracias para realizar atividades nas ruas, embora seus eventos tenham forte apelo na cultura e na economia da cidade gerando renda e empregos para muitas famílias. Assim como outros grupos de mulheres, o Moça Prosa vem ocupando espaço com qualidade musical e posição política, mas sem partidarizar ou institucionalizar o movimento. Não poupam críticas aos governos federal, estadual e municipal que, segundo elas, não dão nenhum incentivo à cultura, muito pelo contrário.

Quais foram os desafios para ganhar projeção e ser chamadas a outros espaços?

Ana Priscila: A gente ia formar um grupo, mas a ideia era muito frágil e conforme nos organizamos e tocamos as coisas foram dando uma potencialidade que nem a gente mensurava. Até hoje enfrentamos muita resistência de aceitação com algumas pessoas e espaços. A Roda que acontecia na Pedra do Sal é hoje no Largo de São Francisco da Prainha, teve uma época que se não tocássemos na Pedra não conseguíamos mais em lugar nenhum.

Jack Rocha: O Moça Prosa ainda não tinha essa visibilidade no início, foi ganhando corpo aos poucos, quando a gente passa ao Largo da Prainha começa a ter entendimento do tamanho da nossa roda. Ganhamos mais visibilidade e corporeidade lá. Hoje temos uma roda todo primeiro domingo do mês em Paquetá e em outros espaços do Rio de Janeiro.

Ana Priscila: Já tocamos no Trapiche da Gamboa, Baródromo, tanto na Praça Mauá como no atual da Lapa, alguns teatros do Sesc, na Portelinha e na Portela com o Projeto de Asas Abertas, Teatro Rival, Bar do Bigode, Bar do Zeca Pagodinho e por aí vai. Tem o evento Viva Zumbi em Niterói, que acontece todo ano no dia da Consciência Negra. Crescemos com os anos, mas isso foi sendo calejado a cada evento.

Elas em samba. Foto: Marcelo Costa Braga

Em relação à profissionalização, o grupo tem assessoria, produção, essas coisas?

Ana Priscila: Essa é uma conversa mais intensa ultimamente, porque as coisas do Moça Prosa foram acontecendo de forma muito orgânica. Nem sempre investimos nisso, então a gente vai vendo a necessidade de se estruturar para atender uma determinada demanda. Muita coisa do grupo é a gente que administra, como nossas mídias sociais, o evento no Largo da Prainha, as contratações para os eventos, ainda está tudo muito sob o nosso controle.

Essa questão do Dia da Consciência Negra, isso se reflete na música e militância de vocês?

Ana Priscila: Já eram coisas nossas, mas foram se tornando bandeira e pauta de fala com o tempo. Não sei se organicamente ou conscientemente vimos que precisamos fincar uma posição enquanto mulheres negras, que estão realizando um evento e reproduzindo uma cultura que era maciçamente produzida por homens. Lutamos para isso porque as coisas não são fáceis de chegar à gente.

Temos dificuldade de ter uma assessoria não porque a gente não queira, mas o retorno do trabalho ainda não possibilita. Seria ótimo. Galgar essas posições é ainda mais complicado. Isso ocorre em virtude de que viemos de outra origem, porque somos negras e as coisas vêm com dificuldade maior, como o acesso a algumas casas. Esse é um debate que sempre fazemos para trazer à luz aos outros e para a gente mesmo.

Muita gente do samba e pesquisadores têm comentado sobre uma crescente participação de novas compositoras na cena. Como vocês enxergam isso?

Luana Rodrigues: Temos uma preocupação muito grande com o repertório, e com esse garimpo de músicas que não trate a imagem da mulher de forma pejorativa e que a apresente com uma posição de destaque ou fale da cultura negra. Nessa busca visitamos compositoras tradicionais que nos trazem inspiração, mas também várias novas, tanto da nova geração mais conhecida como dos grupos que surgiram quase ao mesmo tempo que nós.

Cantamos muitas músicas das meninas que estão no rolé e outras compostas por nós. Então nosso repertório é uma grande mistura.

Ver essas meninas compondo e falando o que a gente se propõe a transmitir desde as mulheres de antigamente é incrível.

Poder falar na nossa linguagem e compor nossas mensagens é maravilhoso. É uma maneira de fortalecer ainda mais o movimento, mostrar que, além de tocar e cantar, podemos também compor músicas que os grupos podem utilizar.

Vocês acham que o meio do samba é machista?

Luana Rodrigues: Totalmente, desde sua origem à sua continuidade. Historicamente é machista, apesar de ter todo um matriarcado por trás: na formação, na origem, de ter nascido na casa dessas mulheres, delas terem sido pilar de sustentação e de colocarem muitos sambas pra cima na origem e na decorrência dele. A mulher sempre ficou no entorno: cozinhando, batendo palma, sambando, fazendo parte da beleza e estética da roda, mas na maioria das vezes fora do lugar de produção ou tocando o samba.

Quando você vira o jogo e vai ao outro lado recebe os olhares de cobrança, críticos, não acreditam que você vai conseguir.

Muita gente achava que não teríamos repertório, perguntavam: como vocês vão cantar samba sem ter nenhum conteúdo machista? Porque são muitos, mas estamos aí com um repertório imenso.

E ainda assim numa roda masculina, por mais que os caras já estejam ganhando consciência, você vai ouvir pelo menos um samba machista. Porque é muito inerente, nós mesmas cantávamos nas beiras das rodas e não nos dávamos conta.

Jack Rocha: O que o Moça Prosa tem feito é utilizar o samba como um ato legítimo de denúncia das mazelas da sociedade, utilizamos nossa narrativa para construir as composições que ressignificam dando outro ponto de vista. Nossa primeira composição, Por ser mulher, damos claramente um recado às mulheres: lugar de mulher é aonde ela quiser, quebrando esse paradigma de “olha só como o samba é só feito pra homens.”

Luana Rodrigues. Foto: Marcelo Costa Braga

Ana Priscila: Uma coisa interessante de termos um samba tão machista, é que apesar dele ter nascido dentro da casa dessas mulheres, as matriarcas do samba, como a Tia Ciata e a Tia Eulália, foi na sua casa onde o Império Serrano foi registrado, etc.

Segundo pesquisa recente realizada pelo Doutor João Grand, através da Rede Carioca de Rodas de Samba, mais de 55% dos frequentadores de samba no Rio são mulheres e ainda assim vivemos um processo de reprodução de um machismo dentro das rodas de samba. Ainda tem este estigma de que mulher que frequenta roda é isso ou aquilo, então estamos num momento muito legal de desconstrução dessas discussões mas ainda é muito latente e há muita resistência.

Há algum movimento institucionalizado ou é algo mais orgânico entre esses grupos?

Luana Rodrigues: Rola uma interação geral entre os grupos, eles confraternizam nas ruas e todos de certa forma se conhecem e se visitam. Galera vem na nossa roda e damos abertura para sentar, tocar e cantar, ou vice-versa. Isso se reflete também nas redes sociais no fortalecimento coletivo dos trabalhos.

Tainá Brito: Somos seis pessoas, mas para compor a roda precisamos de nove, então agregamos outras pessoas. Sempre escolhemos mulheres de outros grupos, como a Ciça (Cecília Cruz) que sempre toca com a gente e é do Samba que elas querem. A Claudia Coutinho também, que é do Império Serrano, assim como a Gisele Sorriso e a Michele Souza. É uma política de fortalecimento e troca porque são musicistas de muita potência!

Não tem nenhuma relação de concorrência ou coisa parecida?

Ana Priscila: Não, já é tão difícil para a gente, não faria sentido. Se não abrirmos as portas para nós mesmas, outros grupos historicamente masculinos não vão abrir. É um papel nosso enquanto roda de samba formada por mulheres, que tem essa predileção de fortalecer a imagem da mulher no samba. Temos que abrir e fazer o possível para abrir portas a outras mulheres, seja tocando com a gente, visitando, compartilhando nas mídias sociais ou só falando bem em outras entrevistas. Sem isso o fortalecimento não virá de fora.

Luana Rodrigues: Aquele clichê que se uma sobe todo mundo sobe nesse caso é real. Se a gente consegue tocar em mais espaços que só homem tocava, pode ajudar a abrir portas para outros grupos de mulheres e vice-versa. Os grupos estão muito juntos nesse sentido.

Tainá Brito: O samba é uma expressão cultural centenária, é difícil falar que o movimento está começando agora. Mas infelizmente essa nova proposta de ter a mulher como protagonista só ganhou destaque há pouco tempo. Sempre teve, mas antes era muito velado. O Moça Prosa só tem sete anos e antes tinham poucos grupos formados majoritariamente por mulheres, e mesmo assim não temos uma abrangência tão grande. Alguns grupos resistem até hoje, como o Negras Raízes. Nos últimos anos vários outros grupos vieram e assim o movimento começa a se fortalecer. Fizemos esse trabalho massivo nos últimos anos e tudo se pauta na representatividade.

Ana Priscila. Foto: Marcelo Costa Braga.

Vocês atribuem a esse movimento um processo político, como se fosse parte do conjunto dos fenômenos que estamos vivendo nos últimos anos?

Luana Rodrigues: Acho que sim. Os grupos já existiam e tinham sua força e representatividade no seu campo, mas o que diferencia é que eram pequenos e só nos seus espaços. A gente vem pra fazer samba, mas não só isso. Trazemos todo um discurso por trás, na nossa roda mensal a gente discute temas políticos: homofobia, feminicídio, doença mental, etc. Levamos algum especialista para falar sobre os assuntos no meio do samba ou nós mesmas abordamos nas nossas falas, já lançamos livros de mulheres, muitas vezes sobre a questão de como é ser negra no Brasil.

Não é uma militância, mas é uma postura que traz uma política atrelada ao samba. Trazemos essas coisas de forma bem leve construída do nosso jeito. Cada uma tem sua vida pessoal, mas ali no grupo ninguém faz militância falando nomes ou palavras incisivas. Trazemos as questões para dentro do samba, o que é uma construção também. É difícil, porque às vezes as pessoas só querem ouvir samba. Não querem discutir ou falar.

Tem muita gente que vai ao samba por conta da pegação, às vezes nem tem tanta afinidade com a proposta ou a música.

Luana Rodrigues: Nosso público é muito autêntico, temos muitas senhoras, senhores, ao mesmo tempo que muitas crianças, além dos jovens que vão curtir na noite. Todo mundo está muito junto, tem a ver com samba, mas também com essa coisa do momento da mulher que está se empoderando e falando que é empoderada.

Tainá Brito: Fazemos parte do mundo contemporâneo, onde qualquer atitude é um ato político. Fazemos de fato samba, mas à nossa maneira. Tem gente que faz samba político nas letras, outros com versos, a gente para a roda e faz um debate com a galera. Nosso movimento é na rua e nos dias de hoje não tem como separar política da vida. Ela faz parte de tudo, do cotidiano, principalmente sendo mulher, não tem muito como fugir. Infelizmente temos que ficar batendo nas mesmas questões, pois assim como o samba já existia antigamente ainda precisamos reafirmar muita coisa.

Jack Rocha: Nosso samba é completamente agregador, a gente utiliza essa narrativa legítima empoderadora, articulando isso sem ser só uma roda de sentar e cantar, trazendo questões quebrando estigmas, preconceitos e paradigmas, levando pessoas para falar na roda, sobretudo mulheres! É o movimento da roda construindo-se, algo muito maior que apenas uma roda de samba, isso é algo particular do nosso grupo.

Tainá Brito. Foto: Marcelo Costa Braga.

Vocês falam que o samba de vocês é na rua, vocês enfrentam alguma dificuldade nesse sentido com burocracias ou falta de incentivo para realização dos eventos?

Luana Rodrigues: Ficamos de outubro de 2018 a abril deste ano sem fazer a roda por falta de autorização, sendo que outros eventos aconteciam no mesmo lugar que o nosso.

O Festa da Raça e o Pede Teresa já foram embargados, né?

Ana Priscila: Em 2017 conseguimos um decreto vindo de um movimento anterior criando o Circuito de Rodas de Samba com um calendário e as rodas isentas de pedir alvará. Só que quem controla o espaço é a Prefeitura, mas quem determina a segurança é o Estado. A Prefeitura deu autorização mas o Estado não, e tem uma resolução conjunta de 2014 (PM, bombeiros, defesa civil, juizado da infância e juventude) fazendo com que qualquer evento de rua precise pedir autorização. E a PM em particular tem o direito de embargar o evento, independente de qualquer autorização.

Foi nessa malha fina que caímos, aí vem um problema porque o samba ao mesmo tempo que é um patrimônio cultural reconhecido na cidade, um dos maiores produtos culturais de exportação, é impedido de ser realizado por causa de trâmites burocráticos. Isso é um grande equívoco, porque, aliás, gera renda com barracas de artesanato, comida, etc.

Existe uma enorme dificuldade de se entender as rodas de samba como um processo de investimento de mercado, uma coisa que gira a economia criativa, como um mecanismo dentro de uma realidade onde as pessoas estão perdendo os empregos todos os dias.

Ser uma forma de sustento direto e indireto para várias famílias. Ainda se encara como uma ocupação irregular, tem pessoas que sequer entendem o trabalho que uma roda de rua dá para ser realizada. No Largo da Prainha começamos a nos organizar com quase um mês de antecedência, é muito trabalho, um monte de gente, muito dinheiro que circula ali. Então, essa falta de expertise seja do poder público e do setor privado, que tem dificuldade em investir nesse movimento cultural e econômico, dificulta muito as coisas. Cada roda que vai à rua é uma batalha e uma vitória.

Qual avaliação vocês fazem da conjuntura política nacional?

Ana Priscila: Vivemos um momento muito complicado, principalmente no que diz respeito à cultura e mais ainda em relação à cultura negra. Estamos sendo extirpadas de todas as possibilidades de se promover cultura. Quando promovemos uma roda de samba, que é um bem imaterial, ancestral, que temos de mais cultural e nacional, só acontece porque seus membros querem muito colocá-la na rua. Não existe nenhum apoio, investimento ou fomento.

Os integrantes são os que correm mais riscos, porque são os que mais investem e podem sair sem um centavo no bolso, além de ser taxados de marginais ou vagabundos. O momento político atual reduz a cultura a vagabundagem e não facilita em nada nesse processo, só deteriora uma coisa que poderia ser crescente. Fomentar mais investimentos, gerar mais renda, mas que na verdade acaba caindo numa ignorância cultural e política.

Luana Rodrigues: É um momento de retrocesso, que traz o samba e a cultura de rua para esse lugar atribuído antigamente à vagabundagem. Um momento político em que temos que ficar caladas, de censura. Se esse movimento político, que infelizmente está numa crescente, chegar na gente não poderemos fazer nossa roda. Com certeza não agradamos o parâmetro que a política acha que tem de ser, porque não atende a boa família brasileira, o cidadão de bem, levanta a bandeira LGBT, feminista, com professores, muita balbúrdia, etc.

Estamos totalmente fora dessa nova política que, obviamente, condenamos. Apesar de não levantarmos bandeira de partidos e afins, levantamos muitas não bandeiras, do que a gente não quer. Não concordamos com nada que está acontecendo no município do Rio, no Estado e no país.

Jack Rocha. Foto: Marcelo Costa Braga.

E como a mídia trata o samba e esse processo todo?

Luana Rodrigues: Em relação ao samba a mídia tem sido mais propícia a mostrar tanto no ambiente da TV em programas específicos, como o que participamos, quanto em jornais escritos, etc. Mas quando falamos de política aí já são dois pesos duas medidas. Vai andando conforme a maré, aquele morde e assopra, que sabemos como funciona e é complicado.

Se você vai tocar em determinados lugares tem que ter uma preocupação com isso, o que posso ou não falar ali. Mas o mais importante é ninguém querer reprimir a nossa expressão. Temos uma moderação, não vamos falar “Ele não” na televisão, mas também não queremos que ninguém chegue e nos fale o que podemos ou não falar. Isso para a gente não interessa.

Ana Priscila: No nosso discurso às vezes nem precisa soltar a frase. Sempre vamos às mídias, porque lugar vazio é espaço conquistado. Se a pessoa chamou, por mais que tenha pensamento contrário, está dando liberdade e vamos para falar mesmo porque queremos ser ouvidas

Não há mídia isenta, meus caros

Não há mídia isenta, meus caros

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Em tempo até de participação do Faustão na criação da narrativa que enterrou o Brasil e aniquilou duas de suas maiores fontes de riqueza (construção civil e petróleo, tendo em vista a venda do pré-sal, desmonte do setor da construção civil, etc), eu quero falar da regulação da mídia.

Agora que atolaram o País na lama miliciana, os conglomerados querem acenar pra uma isenção no quadro. Não há mídia isenta, meus caros.

É impossível para nós mensurarmos como e aonde o acordão nacional começou, mas obviamente passa pela Editora Abril.

A capa da Revista Veja é obviamente a primeira da série de verdades que se seguirão, graças à uma mídia independente e internacional chamada The Intercept Brasil, que mexeu na lama dos interesses econômicos dos conglomerados de comunicação.

Mas o crime está feito. A impressão de Dilma pegando fogo na capa e a simbólica mensagem está dada. Todo mundo nesse País, inclusive do campo da esquerda acha que o “PT é corrupto”, “Lula é ladrão”, “Dilma é raivosa” e que “não foi golpe”.

Como refazer o sentido ético da comunicação? Como fazer entender que o mensalão e o PMDB são problemas de estrutura do Estado e não de um partido? Como contar com o discernimento de um povo que tem grandes limitações em seu aprender e passa por uma profunda crise de identidade?

O brasileiro foi ensinado ao auto-ódio e foi ensinado a submeter o outro. Somos uma nação de submetidos.

Nesse contexto, a propaganda neofascista de grupos de direita e da mídia hegemônica criaram um novo ovo da serpente, só que curiosamente desse ovo saiu uma cobra indecifrável, dissimulada e que sequer ouve seus próprios pais.

Dá pra matá-la com seu próprio veneno? Acredito que não, pois tanto tempo de pós-verdade gera a ausência de confiança na informação.

Daí fica a minha dúvida: No que o brasileiro será capaz de acreditar?

Ave Terrena: “a cultura enriquece debates quando as instituições os empobrecem”

Ave Terrena: “a cultura enriquece debates quando as instituições os empobrecem”

Ave Terrena Alves é atriz, escritora e um dos ícones da representatividade trans no mundo artístico. Em SP, sua dramaturgia leva aos palcos o intenso legado de violência da ditadura civil-militar de 1964 sobre os corpos transgêneros.

Ave Terrena Alves em Uiaras de SP City. Foto: Luciana Bati.

As ditaduras militares da segunda metade do século XX na América do Sul foram consequência de um plano de domínio e controle do continente implementado pelos Estados Unidos através da CIA que se chamou “Operação Condor”. A estratégia visou no treinamento e posterior empoderamento dos militares mais fanáticos com a ideologia conservadora de direita. A consequência disto foram regimes de terror, perseguição ideológica e política, e logo crimes de lesa humanidade.

Considera-se crime de lesa humanidade todo ato de perseguição e atentado à vida de qualquer cidadão por motivos ideológicos, religiosos, racistas e/ou de gênero e orientação sexual. Um crime de lesa humanidade não prescreve nunca, foi assim que Argentina conseguiu abrir os processos contra os militares responsáveis pelos assassinatos de políticos, intelectuais e artistas por parte da liderança militar da ditadura que assolou aquele país durante o período de entre 1976-1982.

Através dos anos e das lutas dos coletivos LGBTQI dos países implicados na Operação Condor, soubemos que o alvo desses regimes também foram essas comunidades, com especial ímpeto nas travestis. As comissões de verdade dos diferentes países revelaram que no Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Brasil, as ditaduras perseguiram, sequestraram, torturaram, estupraram e até assassinaram travestis, dentro de um plano de “purificação” do tipo de sociedade que a sua ideologia conservadora fazia lhes crer que devia se impor nas suas nações.

Foi preciso o passo de muitos anos para que algo floresça de toda essa barbárie. A peça “As três Uiaras de SP City”, poderia se dizer, é um maravilhoso resultado dessa escuridão humana que assolou o Brasil em particular. A sua autora, Ave Terrena Alves, é também um florescer enquanto artista e enquanto ser pensante e afetivo da nossa era.

Nu Ave, peça teatral na Virada Cena Trans. Em cena com Verônica Valenttino e Malka Bijelli. Foto: Alessandra Nohvais.

Ave Terrena Alves é escritora, atriz, dramaturga, roteirista, poeta, diretora e performer, com um vasto, vasto currículo de atuação nessas áreas. Ela é a autora da peça “As três Uiaras de SP City”, montada com o grupo Laboratório de Técnica Dramática e inspirada nos relatórios da Comissão da Verdade. Uma peça transtemporal que gira em torno de Miella e Cínthia (interpretadas pelas atrizes trans Danna Lisboa e Verônica Valenttino), que moram em SP City e trabalham em salões de cabeleireiro, fazem programa e performam em boates. A dupla decide fazer um show musical e, para viabilizar a infraestrutura da apresentação, entram em contato com Valéria, que é militante feminista. No entanto, a Operação Rondão, comandada pelo delegado Rochetti, agrava a já violenta realidade das travestis, mulheres trans e prostitutas da região, com prisões e agressões.

A Mídia Ninja realizou uma entrevista com um dos maiores ícones da representatividade trans dentro do mundo da arte, e, por que não, da politica contemporânea.

Ave Terrena e a importância do teatro:

Penso que na verdade existem muitos tipos diferentes de teatro coexistindo numa mesma época, assim como existem pessoas que vão ao teatro por diferentes motivos. Tem pessoas que vão ao teatro para se entreter, para passar o tempo ou até para consumir um produto. Como diria Brecht, o teatro precisa divertir, de certa maneira, não no sentido só de dar risadas, no sentido de despertar um contato, uma relação direta como o público.

Mesmo quando o teatro trata temas pesados, de atualidade política, desde minha visão, o teatro precisa divertir, para ter assim um contato real, e não só mental, com o público. Tem pessoas que vão ao teatro para se sentirem reconhecidas, e aí que a questão da representatividade entra muito forte. E quando a gente fala principalmente das pessoas trans, tem uma busca por um lugar de auto reconhecimento que nunca antes teve. Toda a tradição artística e cultural não abarca de uma maneira aprofundada e complexa o que tem a ver com o mundo trans. Muitas vezes a forma de tratar a problemática é estereotipada e rasa.

O lugar do corpo trans no teatro

Ir ao teatro também permite uma construção de laços e relações que fortalecem e reúnem diversas trajetórias e permitem uma outra possibilidade de mundo, uma outra possibilidade de sociedade, menos desigual, menos messiânica, que dependa menos de heróis e abra a possibilidade para formas de vida em coletividade.

Esse, para mim, é o grande poder definitivo do teatro, o encontro para a construção de coletividades.

A transformação que o teatro provoca não é unívoca. Quando a gente apresenta uma peça, é a gente que também se transforma. Eu escrevi uma peça que se chama “O Corpo que o Rio Levou”, que a gente apresentou em alguns assentamentos e ocupações de lutas por moradia. E ao apresentar essa peça com os integrantes desses movimentos políticos, nós nos transformamos profundamente porque a peça teve que mudar.

Então eu destaco a importância do teatro não circular só nos espaços convencionais do centros urbanos. Ele deve se irrigar também por outros lugares, porque ai sim ele tem um potencial de construção política bem importante. Devemos estar ao mesmo tempo nos espaços convencionais e nos não convencionais. O teatro ainda é muito elitista, muito restritivo.

O teatro é um compartilhar de presenças, e num mundo cada vez mais virtual e desmaterializado, estar num lugar compartilhando presenças já é em si uma possibilidade revolucionária. Para transcender, para criar interfaces entre as linguagens digitais e as linguagens do corpo.

Hoje em dia está cada vez mais difícil fazer teatro, seguindo as articulações tradicionais de fazer teatro. E sendo que, como agentes intelectuais, estamos cada vez mais sendo desconsiderados, ainda é mais difícil. Mas a gente não deita, a gente segue em frente. Então eu acho que a potencialidade política hoje do teatro é a de valorizar a presença num mundo cada vez mais virtualizado. E a partir dessa presença, criar desdobramentos.

Happening “Segunda Queda”, no SESC Avenida Paulista. Em cena com Verônica Valenttino. Foto: Alessandra Nohvais.

A pessoa que vai no teatro e é atravessada por uma peça, ela leva essa experiência para o seu mundo próprio, espalhando essa nova sensibilidade de várias formas. E não falo só de peças que tratam de conteúdos ideológicos específicos. Estou falando de qualquer tipo de atravessamento que aconteça com uma pessoa.

A cultura tem essa capacidade de propor pautas de formas não convencional dentro da política. Hoje em dia com a crise generalizada e o avanço do autoritarismo, do racismo, da misoginia e da LGBTfobia, fica muito difícil propor pautas políticas nos espaços institucionais. As pautas que dominam o ambiente político hoje são bem empobrecidas e rasas. Então a cultura pode enriquecer os debates quando as instituições os empobrecem.

Por exemplo os slams, as peças de teatro, os saraus, exibições de filmes. Tudo isso é uma possibilidade de a gente lançar as nossas pautas. Criar um ambiente e que elas possam ser debatidas e conseguirmos aprofundar realmente nessas questões.

Sobre representatividades:

Nós travestis, pessoas trans, como um todo, estamos questionando aquilo que se chama de transfake. Como muitas vezes, a vida de uma travesti, de um homem ou mulher trans, como pessoa não binária, interessa como programação dentro do mundo do teatro. Uma peça que trate dessas questões pode despertar interesse. Mas nos temos questionado que somos sujeitas e sujeitos, e que podemos contar nossas próprias histórias pelos nossos próprios pontos de vista, com nossos corpos presentes. Com as nossas ideias sendo debatidas. Para que esses temas não sejam apresentados de forma rasa ou estereotipada, o que, no fim das contas, faz que a sociedade nos veja como pessoas sempre marginalizadas, sempre desgraçadas, sempre objetificadas sexualmente.

Quando uma pessoa trans é representada de forma estereotipada na televisão ou em qualquer linguagem artística, isso acaba sendo responsável pela transfobia e até os assassinatos dessas pessoas. Parece exagero, mas é a verdade. Enquanto não estivermos dignamente representadas, não seremos consideradas seres humanas, sempre teremos que explicar quem nós somos mesmo antes de falar da nossa afetividade.

Quando eu vejo esse teatro moderno falar das “minorias”, eu penso que de “minorias” de não têm nada. Se você pega todas as mulheres, você tem mais da metade da população. Se você pegar a população negra o número também é esse. E se você considerar a população LGBT (pensando também naqueles que não se assumem, que permanecem dentro do armário) também estaríamos falando de uma maioria.

E às vezes também temos o problema de que as curadorias que se interessam por peças que falam sobre as problemáticas das trans, querem ver uma obra higienizada, suavizadada. Acaba que as peças que passam pelas curadorias são pouco aprofundadas nas temáticas do mundo trans.

Às vezes parece que a diversidade acaba sendo mais um produto que se vende, quando na verdade a diversidade é uma realidade.

Se você olha para o Brasil, ele é um país ricamente diverso e essa diversidade não está contemplada nas produções artísticas. A cultura, a arte, elas deveriam ser um reflexo da realidade, não só um lugar para refletir sobre o mundo.

Peças Indicadas pela Ave Terrena Alves para assistirmos esse ano:

Black Brecht (coletivo Legítima Defesa)
Lalodês (capulanas)
Gota d’água preta (direção de jé Oliveira)
Perrengue da lona preta (trupe lona preta)
Buraquinhos (dramaturgia de Jhonny salaberg)
Carne (kiwi Cia de teatro)
Domínio público (com Renata Carvalho em cena)
Dezuó – breviário das águas (dramaturgia de Rudinei Borges e direção de Patrícia Gifford)

Agenda da artista:

FIT (Festival Internacional de Teatro de Rio Preto):
05 de julho às 00h no Espaço Graneleiro: performance ENVELHECER-ME TRAVA?, concebida e atuada por Aretha Sadick, música de Uma Pessoa, figurino de Maria Letícia Manauara, e direção minha. (no espaço Graneleiro)

Dia 10/07 participa às 14h no Shopping Azul – Rodoviária, da mesa “PRODUZIR ENCRUZILHADAS: Corpos da Exceção”, com Aramburo, do KiknTeaatr (da Bolívia) e Va-Bene Fiatsi (de Gana), ainda em Rio Preto pelo FIT.

Dias 11 e 12/07 será apresentada a peça Lugar da Chuva, de autoria da Ave, no SESC Rio Preto às 19h, tb pelo FIT (direção: Otávio Oscar, elenco: Wellington Dias e Raphael Brito, vídeos: Luciana Ramin, direção de arte: Daniele Desierrê).

No segundo semestre:
-Orientando o Núcleo de Texto e Cena na ELT (Escola Livre de Teatro de Santo André)
-Na pesquisa sobre a memória da ditadura civil-militar com meu grupo, o Laboratório de Técnica Dramática (LABTD), agora pra escrever e produzir “Os Barbantes Vermelho e Azul”, sobre as mulheres que entraram na clandestinidade e as pessoas trans que viveram invisíveis durante esse período
– O longa em que atuou, com direção de Eliane Caffé, Carla Caffé e Bero Amaral, que por enquanto se chama “Tlazolteótl”, vai estrear. Atuou com a Preta Ferreira, que está presa arbitrariamente por ser liderança do movimento de luta por moradia
– Proximamente vai publicar um livro de poesia, sem nome definido ainda.
Juan Manuel P. Domínguez é jornalista, escritor e cineasta baseado no Brasil.

Milton e Gil fazem do verão berlinense, uma Delicatessen musical

Milton e Gil fazem do verão berlinense, uma Delicatessen musical

Gilberto Gil. Foto: Marcus Hermes

A programação musical do verão berlinense é sempre um momento ansiosamente aguardado. Além de Phil Collins, Neil Young, ZZ Top, o verão 2019 traz à capital, de uma cajadada só, três medalhões da Música Popular Brasileira: Caetano, Milton e Gil. Apesar da feliz coincidência resultante de aspectos mundanos desses artistas estarem, paralelamente, em turnê pelo Velho Continente, há uma vertente altamente política que envolve as apresentações.

A extinção do Ministério da Cultura foi uma das primeiras medidas do atual governo. Mesmo depois de 6 meses, percebe-se ainda uma grande consternação sobre o desenvolvimento político no Brasil, país que até poucos anos atrás era tido como aberto as culturas, liberal nos costumes e feliz.

Apesar de Caetano Veloso não ter se posicionado em seu show em 25/06, os gritos de “Lula Livre” e a frase de Moreno Veloso “O presidente Lula precisa ser solto para acabar esse sofrimento”, espelhou a ânsia dos presentes. Em maio passado, no Vivo Rio, Milton “Bituca” Nascimento teve a surpresa de Caetano Veloso e juntos, super na improvisação, cantaram “Paula e Bebeto”, mas não antes de Mílton exibir uma camisa do colégio D. Pedro II e ratificar a necessidade de cultura e educação.

O melhor começo

A Casa das Culturas do Mundo – inaugurada em 1957 no contexto da Exposição Internacional da Construção (Interbau) e construída pelo americano Hugh Stubbins – é uma instituição de visibilidade mundial e centro para realização congressos, palestras, filmes, música e eventos que discutem os desafios da contemporaneidade.

Casa das Culturas do Mundo/Terraço. Foto: Sabine Wenzel

Além de estar geograficamente na espinha dorsal política da República da Berlim, a “Casa” é subvencionada pelo governo federal. Por isso, os ingressos são bem acessíveis à inúmeras camadas da população. O custo para a noite de 5/7 com os shows da brasileira Luedji Luna e Milton Nascimento é de 24,00 euros (103,00 reais) e reduzidos, 20,00.

O Festival “Wassermusik” (Música dos Mares, em tradução livre) é um dos melhores festivais da Alemanha e um esperado highlight do verão berlinense.

A edição 2019 (05.-27.07.) sob o lema “Black Atlantic Revisited” foi inspirada no livro do historiador inglês Paul Gilroy “O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência”.

A qualidade e relevância musical, assim como a contextualidade com o que acontece em outras parte do mundo, são algumas das pilastras em foco da curadoria que desde 2006 leva a assinatura do músico, jornalista e crítico de música, Detlef Diedrichsen.

Detlef Diederichsen, curador do festival “Wassermusik”. Foto: Fátima Lacerda

Num dia de calor do “infernal” do verão berlinense, o curador do centro conversou com a Midia Ninja:

Eu já entrevistei jornalistas que conseguem lembrar o dia exato em que, pela primeira vez, ouviram um compositor da música brasileira e o que isso causou neles. O senhor consegue lembrar?

DD: Mesmo ainda quando eu não conhecia nada sobre a música brasileira, eu sempre tinha interesse nas sonoridades que me levaram até ela. Por exemplo, no disco do Santana, “Caravanserai” (1972) tinha uma canção do Jobim (Stone Flower). Eu adorei essa música! “Quem é esse Antooooonio Carlos Jobim?”, eu indagava. Também através de Flora Purim, na formação com Chick Corea, eu percebia uma preferência (por uma sonoridade). Bem depois, quando eu atuava como crítico de música para uma revista, alguém colocou na minha mesa uma pilha de discos selecionados e, nessa pilha, havia um disco do Gil. Era uma edição alemã e ali nada tinha que remetesse ao Brasil. A língua eu identifiquei como sendo a portuguesa. Eu achei super bacana que no disco (apesar de ser uma edição alemã) os dados eram todos português. Nenhuma palavra em inglês.

Entre cientistas, analistas e intelectuais existe uma grande discordância sobre se a música é, realmente, uma linguagem universal. Como foi chegar na música brasileira sem falar português. O quão decisivo foi isto?

Tanto faz! Se eu acho algo musicalmente interessante, é interessante! Quando eu era criança eu ouvia os Beatles e não entendia nada. É preciso um bom tempo até que o teu inglês baste para você entender o texto das músicas nessa língua.

Estamos aqui num olímpo cultural com visibilidade para todo o mundo e em terreno que faz parte da espinha dorsal da política de Berlim como capital da República. É possível se livrar totalmente desse “peso” na hora de alinhavar a programação?

Não sou absolutamente livre de expectativas. Elas são projetadas em nós e nossa programação, especialmente quando temos temas de cunho político. Esse lema “Black Atlantic” possui muitas facetas, é contextual com o tema do racismo, com a opressão do colonialismo; todos esses grandes “campos minados”, nos quais podemos tomar decisões erradas.

Erradas de que forma?

Convidar artistas errados, que se pensa, a priori, integrar bem a programação e não perceber que eles se posicionaram de forma errônea no discurso político. Outra preocupação é se a escolha faz jus ao lema da edição. No caso do “Black Atlantic”, já tivemos uma edição sob esse lema. O questionamento (para 2019) foi, no que podemos acrescentar (na versão Revisited).

Dois dos grandes dinossauros da MPB estarão presentes aqui neste verão. O senhor espera manifestação política durante os dois shows?

Imagino que sim. Há dois anos atrás, eu assisti um show no Gil na Filarmônica de Hamburgo. Lá tinha uma clima totalmente atípico para um show de um artista brasileiro. Haviam muitas faixas exibidas no público. Isso foi bem antes de Bolsonaro. Ouve gritos de “Fora Temer” do público. Gil, entretanto, não se posicionou claramente, mas o fez de maneira poética. Eu imagino que as pessoas que veem assistir o show de Gil tenham um posicionamento específico em relação ao Bolsonaro e como eles veem a atual situação do Brasil. Conta com uma certa tensão no âmbito político da parte de brasileiros no público.

Como se deu a Mélange dos artistas que estarão em Berlim?

A constelação é derivada de um feliz acaso de Milton e Gil estarem em turnê neste verão e terem agendas disponíveis. Milton foi o primeiro que fixamos na programação. Eu gostaria de ter conseguido ter um sambista. Tivemos proposta de Martinho da Vila, mas a turnê não aconteceu.

Eu gostaria de ter esse Trio: Mílton, Gil, Martinho como simbologia da “Face Negra da MPB”, já que a maioria dos representantes da música brasileira que marcam presença por aqui, são brancos, mas todos sabemos que o Brasil é uma nação arco-íris.

Dizem as fontes ligadas à casa que Gil, faz questão de tocar naquele lugar, onde já fez dois show históricos em 2006, ainda como Ministro da Cultura, durante da Copa do Mundo de Futebol. Um no interior do prédio (com ingressos esgotados em uma hora) e outro do lado de fora, quando foram tomados por uma massa humana os arredores do prédio e do jardim.

Minha sede de Milton

Milton Nascimento Foto: João Couto

Assistir o “Bituca” das Gerais no terraço da Casa de Culturas do Mundo será uma experiência eletrizante, para dizer o mínimo. Além da vista fenomenal da Skyline berlinense à beira do Rio Spree, que atravessa a cidade, a raridade da presença do mineiro aqui na capital são alguns dos itens que farão da sexta-feira, dia 05 de julho, um dia memorável. Milton vem lutando com a saúde debilitada, mas ainda continua fiel à frase que ele mesmo eternizou: “Todo artista tem que ir aonde o povo está”. Gil também está.

E dessa vez, assim quis o Deus do acaso, será mais do que “somente” afagar a alma saudosa de quem vive na diáspora. Será a realização do desejo expresso por Tavito na canção “Rua Ramalhete”. “Será que algum dia, eles vem ai, cantar as canções que a gente quer ouvir?!”. Mílton traz para Berlim o repertório do “Clube da Esquina”, movimento que nasceu numa esquina das ruas Divinópolis com a Paraisópolis, em Santa Tereza na capital mineira. Em 1972, o Clube de Esquina 1 e 1978, o 2.

A safra de cantores mineiros reunia o melhor das Gerais: Os irmãos Borges (Marilton, Marcio e Lô), Wagner Tiso, Beto Guedes, Flávio Venturini, Toninho Horta, Tavito. Entre os letristas estavam Fernando Brandt, Ronaldo Bastos e Murilo Antunes.

A ideia de retomar a leitura musical de uma das mais importantes fases da carreira de Milton, é de seu filho, Augusto.

Elis costumava dizer que Milton cantava com a “Voz de Deus”. O timbre de sua voz lembra mais é um trovão que ecoa pelo mundo e incendeia paixões, visita saudades de uma esquina quando o Brasil era um outro país.

Em 2009, (para desespero das equipes de apoio) num show de 3 horas na última noite do Festival de Jazz de Montreux, o multitalentoso e pianista George Duke fez uma coletânea de músicas que influenciaram a sua carreira. No repertório uma versão XXL de “Cravo e Canela”, do CD “Brazilian Love Affair”.

Em 2014, por uma bela coincidência de estar em solos cariocas, eu assisti o esboço do Clube da Esquina no Olimpo da boemia carioca, na Fundição Progresso. No show, Mílton tinha no palco Lô Borges e seu amigo de unha e carne, Criolo.

Anos depois, tê-lo em Berlim e quase no quintal da minha casa é um regojizo sem tamanho. O palco no terraço da Casa das Culturas já está pronto para que o “Bituca”, na reta final de turnê pela Europa, possa dar o pontapé inicial no festival de música campeão em diversividade, coerente e com longa tradição histórica e cultural de Berlim.

Viés ideológico nazista de Bolsonaro

Viés ideológico nazista de Bolsonaro

Foto: Rachel Daniel / Mídia NINJA

Bolsonaro frequentemente afirma que várias decisões anteriores ao seu governo continham um “ viés ideológico”, porém, não esclarece qual. Ele fala especificamente dos governos Lula e Dilma, referindo-se aos mesmos como socialistas e comunistas, mas já chegou até a insinuar o mesmo contra o governo FHC. Tais afirmações não têm cabimento, pois algumas medidas tomadas, tais como o programa Bolsa Família e o aumento do salário mínimo, tiveram cunho humanitário, tendo conseguido reduzir um pouquinho nossa criminosa desigualdade social, onde as seis pessoas mais ricas do país têm mais dinheiro que as cem milhões de pessoas mais pobres.

Com tais afirmações, Bolsonaro quer aparentar que não tem qualquer ideologia. Lembrando as constantes declarações homofóbicas do Presidente da República, eleito com o discurso de combate ao suposto “Kit Gay”, seu viés ideológico fica evidente.

Antes de Hitler, Berlim era uma cidade que respirava ares libertários. Eram famosos os espetáculos com travestis em seus cabarés. O médico e sexólogo Magnus Hirschfeld, pioneiro na defesa dos homossexuais, criou o Instituto para Estudos da Sexualidade e a tese do terceiro sexo, defendendo que todas as pessoas têm variáveis masculinas e femininas. Uma das primeiras medidas dos nazistas, quando chegaram ao poder em 1933, foi destruir o instituto e incendiar sua biblioteca. Antes disso, casais gays, casas noturnas e a comunidade LGBT eram representativas em Berlim.

Em seu livro “Mein Kampf”, Hitler escreveu que o “homossexualismo” era incompatível com o nazismo, pois não permitiria a reprodução da “superior raça pura Ariana”, que era a degeneração da raça e ainda por cima atribuía aos judeus todo esse movimento libertário.

Em 1º de julho de 1934, Hitler comemorou sua ascensão a chanceler da Alemanha, determinando a morte com execuções extrajudiciais de quase cem pessoas. O expurgo ficou conhecido como a “Noite das Facas Longas”. Assim, ganhou o apoio do exército alemão, que exigia inclusive a morte de seu amigo Ernest Rohm, conhecido por sua homossexualidade, líder da milícia de três milhões de camisas pardas, que foi fundamental para a chegada de Hitler ao poder. Rohm foi executado a facadas na cama do seu quarto com outro homem naquela noite.

O Partido Nazista, Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, dominou politicamente o país de 1933 a 1945 e mandou para os campos de concentração milhares de homens gays, que eram identificados em suas roupas de prisioneiro com o “triângulo rosa”.

A homofobia do atual Presidente do país que mais mata travestis e transexuais no mundo é gravíssima. Chegou ao ponto de fazer o Supremo Tribunal Federal, por 8 X 3, criminalizar a homotransfobia como racismo, tipificado em várias condutas pela Lei 7716/1989, conhecida como “Lei Caó”.

Como se não bastassem todas essas evidências, na última segunda-feira, exatamente no mesmo dia da “Noite das Facas Longas”, em 1 de julho, o exército brasileiro e o governo Bolsonaro homenagearam um major nazista condecorado por Hitler. Por todo exposto, o viés ideológico de Bolsonaro está mais do que comprovado: é nazista!

Confira o programa Fumaça do Bom Direito, de André Barros

Tenho depressão, quem não?

Tenho depressão, quem não?

Imagem de Free-Photos por Pixabay

Dedico este texto as minhas amigas Olenir e Wilminha, que me salvam todo dia. Ao Mário que me anima a buscar o sol. A Helga Quagliatto, psicanalista e a Carolina Braz, personal trainer.

“Quando o medo se apossou
Trazendo guerra sem sentido
A esperança aqui ficou
Segue vibrando
E me fez lutar para vencer
Me levantar e assim crescer
Punhos cerrados, olhos fechados
E eu levanto a mão pro alto e grito
Vem comigo quem é do bonde pesadão!
(Iza, Pesadão)

A depressão já é a doença mais incapacitante no mundo. Todos os dias milhares de pessoas deixam de ir ao trabalho e de realizar suas atividades por estarem deprimidas. Não tristes, com o sentido usual do termo, mas doentes. Penso que na atualidade temos maior consciência sobre essa doença. No passado, muitas pessoas podem ter tido depressão sem sequer perceberem, e o pior, ainda eram estigmatizadas como frescas ou histéricas, distorções essas que, infelizmente, permanecem até os dias atuais.

É preciso levar em conta, ainda, o fato de que há interesse no crescimento do número de doenças mentais – e não somente, porque onde tem doença, tem a indústria farmacêutica oferecendo seus serviços, que, diga-se de passagem, já concorre com o supermercado no peso do orçamento. Mesmo considerando tudo isso, é perceptível um crescimento do adoecimento mental e não é difícil compreender suas causas.

Partindo do incômodo com essa realidade, resolvi falar um pouco sobre a depressão. Não com o saber especializado, mas do meu “lugar de fala”: tenho depressão diagnosticada. Além desse lugar como paciente (pior termo para alguém que também sofre com ansiedade hahahahaha). Penso que é importante considerar outros elementos para pensar a depressão. Falo também como professora de história da UFU, que convive todos os dias com estudantes, como militante feminista, socialista, engajada nas lutas sociais e que acompanha militantes, muitos em sofrimento psíquico.

Então o que quero considerar é que não há como falar de depressão sem considerar que vivemos em um mundo doente. É parte do projeto de sociedade dominante em curso nos adoecer.

Conheci a depressão em 2011. Foi muito assustador. Eu era da direção da seção sindical e estava organizando o congresso nacional do ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior). Era uma grande novidade, pois minha inserção no movimento sindical era recente. Tinha trabalhado arduamente para que tudo desse certo e quase tudo deu certo. Eu não estava preparada para suportar o que não podia controlar. Essa foi uma grande aprendizagem na minha vida. Poder errar, poder cair. Ser amparada, amparar. Não controlamos as pessoas de mau caráter, as pessoas que combinam e não cumprem, as pessoas que nos traem na vida pessoal ou política. Mas podemos tentar controlar a forma como lidamos com essas situações.

Pensando hoje, devo ter me confundido com aquela função, como fez o personagem do conto “O Espelho”, de Machado de Assis (super recomendo), que se confundiu com a “farda” que vestia e com as representações que os outros construíram sobre ele. Se eu não era aquilo, quem seria? Afundei. Passei a não conseguir ir nas atividades, nas aulas, nas reuniões. Tive pânico. Tudo se tornou impossível de realizar. Eu tinha me divorciado há pouco tempo e morava com minha filha e filho. Foi desesperador. Queria muito dar conta sozinha, não queria que minha mãe e minhas irmãs me vissem fragilizada. Não queria que ninguém me visse. Acabei me isolando.

Nesse mesmo período minha irmã Rosa foi diagnosticada com câncer na mama, passou por cirurgias, quimioterapia, radioterapia, vindo a falecer no ano seguinte. Éramos duas doentes, mas foi ela quem teve forças para me visitar. Eu quis morrer. Tinha medo das facas e das tesouras e do que eu poderia fazer com elas.

Foi aí que duas amigas em especial entraram em cena. Olenir e Wilminha usaram seus corpos para me sustentar. Me levaram ao psiquiatra (que medo quando soube que precisava ir a essa especialidade médica! Hoje eu amo psiquiatra!!!) e à terapia (que eu já fazia há 3 anos). Foram me acompanhando como se faz com um bebê, para dar conta de andar, comer, fazer saídas rápidas para cumprir alguma tarefa essencial, como uma ida ao banco. Tudo com enorme esforço e sofrimento. E aos poucos, bem aos poucos, depois de 6 meses de afastamento do trabalho eu consegui retornar. Sempre acompanhada, apoiada.

Teve papel importante um amigo, então diretor do Instituto de História, prof. Florisvaldo, que cuidou da minha vida profissional e uma amiga professora Maria Andréa, que dividiu a sala de aula comigo, no retorno ao trabalho. Com a confiança reestabelecida, com apoio de médico, psicanalista, amigas/os e família, eu pude recuperar o gosto por viver.

A depressão “é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente que produz uma alteração do humor caracterizada por uma tristeza profunda, sem fim, associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa, assim como a distúrbios do sono e do apetite” (Dráuzio Varella). Embora seja doença (re)conhecida, ainda é cercada de muito preconceito, o que dificulta a busca pelo tratamento.

Esse foi um grande aprendizado para mim e para minhas amigas. No início, elas diziam para eu não tomar o remédio porque eu ia conseguir superar pela minha força de vontade, que eu devia ir a lugares alegres. O problema é que eu estava bem doente. Não conseguia estar com outras pessoas, muito menos estar alegre. A depressão tem relação com a produção da serotonina. Às vezes, nosso corpo não tem condições de reagir. Às vezes, não conseguimos dormir sem remédios. Sou favorável a usá-los quando necessário, sob orientação médica, pois são remédios controlados, com efeitos colaterais. Causam dependência se usados indefinidamente. Eu usei e depois parei.

Quando uma pessoa quebra uma perna, ninguém tem dúvida de que deve procurar o/a ortopedista. Quando alguém tem pneumonia, não há uma discussão sobre se deve ou não usar antibiótico. Quando está em sofrimento mental, é recomendado ir ao psiquiatra e psicólogo/psicanalista e usar remédios, se necessário. Infelizmente a rede pública, que até tem bons programas, não consegue atender a demanda, o atendimento é demorado e, não bastasse isso, está sofrendo retrocessos profundos na política de saúde mental (inclusive em Uberlândia) e mesmo os planos de saúde não têm muitos profissionais credenciados. É um serviço caro.

A depressão, muitas vezes, se associa a outros transtornos. Eu tive pânico, e a sensação faz jus ao nome. Tudo é aterrorizante. É uma total insegurança. Eu tinha muito medo de cair. E caí algumas vezes. Depois aprendi que em geral a gente não cai, e se cair não machuca tanto, e se machucar, melhora. O pânico é uma crise de confiança. E nesse ponto podemos pensar sobre o contexto em que vivemos e o que afirmamos anteriormente, que a sociedade em que vivemos é produtora de doenças e sofrimentos para as maiorias.

“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente. Tentei chorar e não consegui” (Legião Urbana).

Vivemos em um mundo que produz miséria e desigualdades. Para as crises cíclicas do capital, o “deus” mercado apresenta como saída o austerícidio, menos Estado, mais mercado. Tirar mais da classe trabalhadora. Empregos ainda mais precários, menos protegidos, piores condições de vida.

Quem é de Minas Gerais tem vivido essa realidade com o governo federal e o com o governo Zema. Tirar recursos das políticas públicas, garantidoras de direitos, para dar sinais positivos ao mercado. Na maioria das vezes é mais que sinal, são altas fatias dos orçamentos destinadas a esses tubarões gulosos, enquanto minguam os serviços públicos, garantidores de direitos para as maiorias. Como ter saúde em tempos de rápidas mudanças e poucas garantias?

Você planejou sua vida, pensava em se aposentar, mas o governo quer impor uma “Nova Aposentadoria”, que é o fim desse direito para milhões de brasileiros/as, que adia em até 15 anos ou rebaixa substancialmente o que você iria receber. Você estudou, investiu na sua formação, em seu currículo, mas, a sua bolsa foi cortada. Você quer trabalhar, mas não tem emprego. Você quer fazer um concurso, mas a Emenda Constitucional 95 – que congela os recursos da saúde e da educação, impede que os concursos aconteçam.

Como ter saúde sabendo que os alimentos, a água e até o leite materno estão envenenados e o velho governo Bolsonaro libera, a cada dia, mais agrotóxicos? Vamos combinar que está bem difícil. A saúde das maiorias é incompatível com o capitalismo. Alimentação, saúde, assistência, educação não poderiam ser mercadorias. Mas o capital quer lucrar com tudo. É da sua natureza.

Neste mundo que tudo que não é veloz não é legal, que, segundo Richard Sennett, as relações de trabalho impedem a solidariedade e a confiança e, mais que isso, corrói o caráter, que gera relações de trabalho absolutamente precárias, podendo ser considerada uma nova servidão. Conforme o sociólogo Ricardo Antunes, é preciso considerar os impactos deste contexto sobre o bem estar físico e psíquico do/a trabalhador/a. Soma-se a relações de trabalho precárias e fragmentadas uma dificuldade de identificação com projetos coletivos, o esvaziamento do espaço político como se esse mundo ruim fosse o que melhor pudéssemos ter.

Então, para não parecer que não falei das flores, vou falar sobre o que acho que me salva. Já ressaltei o papel das amizades, daquelas pessoas que sabem de nossas qualidades, mesmo quando delas nos esquecemos. Se eu puder dar um único conselho para estudantes e filhos/as eu digo: conserve amigos/as.

Me salvam também os recursos da psiquiatria e da psicanálise. São recursos caros que eu priorizo pagar, aos trancos e barrancos (rsrsrs). Quando estava bem doente, não morri porque não podia dar esse desgosto para minha filha e filho. Eles/as me salvam. Me salvo fazendo exercícios físicos, há muitos anos, bem aquém do que precisava, com o apoio da Carolina. Hoje vou à yoga, às vezes à acupuntura, tomo chazinhos e tenho muitos sonhos e afetos.

Me salvo no coletivo, desde a adolescência. Nos grupos de jovens, no movimento feminista, no movimento docente, atualmente na militância no PSOL, com a Mídia Ninja. Me salvo quando enfrento os governos nos piquetes e atos. Me salvo na aliança com as mulheres da periferia, que enfrentam o desafio de alimentar sua família, que conhecem a falta e mesmo assim produzem abundância. Porque as mulheres e as práticas comunitárias existem a fome não é maior, é possível a muitos suportarem as carências, as doenças, deficiências, com a total ausência do Estado, muitas vezes com a total ausência dos homens.

A saúde pode estar em um suco, uma sopa, um afeto. Me salvo na relação amorosa e esperançosa (esperança equilibrista) com amigas/os, familiares e estudantes.

É na luta contra as desigualdades e opressões que encontro saúde e coragem, em tempos de adoecimento e medo. É na experiência enraizada nas lutas coletivas e democráticas que me constituo como sujeita que acredita que homens e mulheres fazem sua história, com os condicionamentos existentes. A disputa pelo poder, sem generosidade, é também adoecedora, seja na direita ou na esquerda. Para as maiorias a vida sempre foi difícil.

Se existiu um intervalo no qual houve alguma negociação com suas demandas, a regra é labuta diária. Nos juntemos às/aos que lutam. Vamos com as maiorias, com o povo sem medo de lutar. E se tivermos medo, vamos mesmo assim, apoiadas na confiança que temos em nós e no nosso bonde “Pesadão”, como nos inspira a cantora Iza.

Libertem Preta!

Libertem Preta!

Querem nos amedrontar. E, por isso, precisamos agir. Querem nos silenciar. E, por isso, precisamos gritar.

Foto: Reprodução Jornalistas Livres

Muitos são os ataques e avanços conservadores contra nós. E, por isso, como nos diz sempre a mana Lua Leça, precisamos somar e multiplicar.

No seu discurso como vitorioso nas últimas eleições, o atual presidente disse que iria acabar com os ativismos no país. Não se tratava apenas de palavras ao vento, mas de uma conclamação para que as forças conservadoras ampliassem a perseguição e a violência contra quem luta por justiça e liberdade. Eu me recordo do quanto fiquei indignada e, pouco depois, perplexa com o umbiguismo de determinados setores hegemônicos da esquerda, achando que isso se tratava apenas deles. Pelo contrário. Mais uma vez, os movimentos e ativismos que fazem lutas interseccionais e populares é que viam a mira sendo apontada, literalmente, para eles.

Um dos fatores centrais para a reorganização das direitas e sua ofensiva, foram as ações que faziam os filhos da “ralé”* ascenderem aos bancos universitários, disputando a produção de saber e, portanto, configurando seu próprio projeto de país, o que envolvia mudanças profundas, estruturais, na configuração de classes sociais e de identidade socio-cultural racial.

Ao dizer que não haveria “nenhum passo atrás”, estes movimentos e ativismos não estão apenas com pretensões, estão afirmando a partir de uma realidade.

É bem verdade que estes “filhos da ralé” ainda enfrentavam muitas questões estruturais: violência urbana, seja pelas dinâmicas do tráfico, milícias e policial; postos de trabalho precarizados; encarceramento em massa; desrespeito a direitos constitucionais como acesso à saúde, saneamento, escolas de qualidade, moradia…

A moradia. Um direito garantido na Constituição, fundamental para a qualidade de vida e pleno desenvolvimento, jamais respeitado em nosso país. Está lá, na nossa lei maior. E é importante afirmar isso, mesmo que ela nunca tenha sido “mainstream” no país. Os movimentos de moradia no país são notadamente liderados, em sua maioria, por mulheres. E isso acontece por uma série de fatores, dentre elas este avanço de famílias monoparentais chefiadas por mulheres. E elas decidem ir à luta. Imóveis abandonados são ocupados, demandando o direito à moradia e contra a ociosidade para o lucro diante daqueles e daquelas que só querem o que lhe é de direito: um teto com dignidade.

Na última semana, 4 lideranças de movimentos de moradia do centro da cidade de São Paulo foram detidas, de 9 mandados autorizados. Os mandados foram expedidos a pedido da polícia civil paulista, a partir apenas de relatos anônimos. A investigação começou após o desabamento do edifício Wilton Paes, no Largo do Paissandú, em decorrência de um incêndio. Segundo a polícia, várias pessoas que ali viviam fizeram denúncias de que eram obrigadas a pagar taxas aos coordenadores do movimento que ali se organizava. Sendo assim, iniciou-se uma investigação sobre vários movimentos. Em um dos processos, Dona Carmem Silva, liderança do MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro), foi absolvida, justamente porque conseguiu comprovar com prestações de contas e recibos que todo o valor arrecadado de moradores das ocupações que ela coordena é disponibilizado para melhoria das condições de sobrevivência das pessoas nos edifícios ocupados, além de que não tinha nenhum envolvimento com processos escusos, sendo, inclusive, uma importante, e conhecida, figura que não permite que organizações criminosas adentrem as ocupações que lidera.

Mas, o estado penal não se contenta. Em um inquérito, que os advogados de defesa, tiveram dificuldades para acessar – em um evidente desrespeito a uma garantia constitucional elementar, do direito de defesa – , decretaram a prisão cautelar, por 5 dias, de Preta e Sidney Ferreira (do MSTC), Angelica dos Santos Lima e Ednalva Franco Pereira (do MMPT). Importante frisar que estas lideranças não tem nenhuma relação com a ocupação do edifício Wilton Paes, são de movimentos diferentes, inclusive, e jamais se opuseram à contribuir com as investigações. Mas, como eu disse, o estado penal não se contenta e, então, o “inimigo penal” ** precisa ser combatido.

A criminalidade feminina negra aparece como se constitutiva de como esta representação se estabelece na sociedade.

No caso das mulheres brancas, vistas como vítimas, esta seria uma caracterização. Às mulheres negras e indígenas, a criminalização sempre esteve presente, além de práticas punitivas muito mais severas e de posse de seus corpos. O controle público do corpo feminino negro sempre esteve presente, diferente da arena privada para o controle de corpos femininos não negros.

Um dos aspectos da criminalidade de mulheres negras na Bahia no século XIX era por conta do comércio exercido por elas. As chamadas “negras de ganho” vendiam produtos e uma parcela era entregue aos senhores, ao passo que o restante, muita vez, era utilizado para comprar suas alforrias. Ocorre que estas mulheres tiveram sucesso em suas vendas, chegando a controlar o comércio de determinados produtos.

A preocupação, então, aumentou diante do poderio e exerceu-se controle sobre estas mulheres.

Uma série de taxas, leis, foram criadas e ao desrespeitá-las a criminalização se instaurava, construindo a imagem de mulheres violadoras da ordem, como “baderneiras”. Muitos dos registros de época apontam esta categorização de mulheres negras como criminosas, ofensoras e inadequadas.

A construção, portanto, da criminalidade ligada às mulheres negras vai se desenvolvendo no percurso histórico e seja pelo controle sexual seja pelo controle público, do exercício de suas atividades, com forte fator de confronto e repressão policial.

Por isso, não é algo aleatório uma ofensiva tão violenta diante de um movimento no qual mulheres, majoritariamente negras, exercem liderança política. E se entendemos, para além de um conjunto de palavras reunidas, a afirmação de Angela Davis de que mulheres negras ao se movimentarem movimentam toda uma estrutura com elas, não podemos apenas lamentar e seguir nossas vidas quando estas mulheres são atacadas. Repetindo outra frase já marcante de que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. Portanto, é preciso agir.

Há advogados no caso. Mas sabemos que a mobilização popular é fundamental. Não podemos mais permitir esta imagem construída de mulheres negras como criminosas, quando estão fazendo nada mais nada menos do que lutar por seus direitos. Criminoso é o Estado que desrespeita direitos constitucionais. Afinal, você já pensou quem define quem é criminoso e o que é crime? Um dado: até jogar capoeira, hoje patrimônio nacional, já foi considerado criminoso. E quem disse que lutar por direitos e dignidade é crime? Uma pulga atrás da orelha pelo menos pode ser deixada quando apresentamos o dado de que 68% das pessoas em situação prisional no país são negras, mais da metade sem ensino fundamental completo, no caso das mulheres, mais de 50% sem emprego formal quando presas, apesar de mais da metade delas serem as chefes de suas famílias; ao passo que 84,5% dos juízes são brancos, 64% dos magistrados são homens, e 82% dos tribunais superiores são ocupados por homens.

Reflita. Lutar por um direito não é crime. Não se perca. Rompa o silêncio e se levante contra injustiças. Acione suas redes, acompanhe a página dos movimentos FLM e MSTC, seja soma e multiplique. Seja luta.

Libertem Preta Ferreira!

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*Ralé é um conceito desenvolvido pelo sociólogo Jessé Souza em “A ralé brasileira: quem é e como vive”. Editora ContraCorrente, 2009
**Inimigo penal é conceito desenvolvido pelo criminalista Eugênio Raull Zaffaroni em “Inimigo no Direito Penal”. Coleção Pensamento Criminológico. Editora Revan, 2006

Quem fala demais dá bom dia a cavalo

Quem fala demais dá bom dia a cavalo

Foto: Wikimedia Commons

O ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente), aquele mesmo que se situa na intersecção entre os que integram o núcleo dos olavetes lunáticos (Vélez/Weintraub, Damares, Ernesto) do governo e o núcleo dos que detém o mínimo de inteligência, mas nenhum pingo de decência e caráter (Moro, Guedes), em visita ao Acre nesta semana que passou, foi farto ao proferir acusações e ataques a quem considera adversários de seus aliados locais.

Ele, que já havia questionado, meses atrás, a “relevância” de Chico Mendes para o ambientalismo, ao visitar um ponto de despejo de esgoto in natura no Rio Acre, na região central de Rio Branco (um problema deixado por nossos governos, hei de confessar), disparou: “uma administração que permaneceu no poder do Estado por vinte anos, que teve uma representante que se diz o grande ícone da defesa do Meio Ambiente (…) deixou o Estado nesta situação vergonhosa que nós estamos assistindo aqui.”

O Ministro também teria afirmado que “a florestania defendida e aplicada por aqui foi uma fraude”, alegando tratar-se de “um projeto ideológico petista”. Salles também fez questão de emitir opinião sobre o Parque da Maternidade, ao qual avaliou negativamente: “minha nota é zero para este projeto”.

Paradoxalmente às suas declarações, o ministro fez questão de visitar e fazer fotografias em um dos pontos da Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex Chico Mendes), na Comunidade Porongaba, município de Epitaciolândia.

A área visitada pelo ministro é a área de abrangência da Associação de Moradores e Produtores da Resex Chico Mendes em Brasiléia e Epitaciolândia – AMOPREB. A mesma associação cujo presidente me confidenciou, uma semana antes, que está há três meses tentando uma simples reunião com o secretário de Produção do Estado do Acre, Paulo Wadt, e não consegue. Não é de se estranhar: o lema do atual governo, na área de produção agrícola, é o agronegócio, do latifúndio e dos grandes proprietários de terra, em detrimento da agricultura familiar, dos pequenos produtores rurais.

O ministro falastrão deveria saber que as Resex’s, enquanto espécies do gênero Unidades de Conservação (UC’s), só foram criadas a partir da (e graças a) luta de pessoas como Chico Mendes, Marina Silva e tantos outros. Deveria saber que, na área que corresponde a atual Resex, na época do governo do tio do atual governador, não havia nenhuma escola pública sequer. Que foi graças a luta de Chico Mendes e de um “floresteiro” chamado Arnóbio Marques de Almeida Júnior (mais conhecido como Binho Marques, eleito, décadas depois, governador do Acre) que foram criadas 39 escolas no interior dessa região.

O ministro também deveria saber que somente a partir da eleição dos governos progressistas e de esquerda, os quais ele ataca hoje, é que essa “rede paralela” de escolas – situadas no meio da floresta – foi incorporada à rede pública estadual de educação básica, passando a contar com a atenção e o financiamento público.

Se tivesse mais interesse pela história do Acre e de sua gente, o ministro saberia que tais escolas só funcionavam graças aos recursos de cooperação internacional, essa mesma que o senador Márcio Bittar fez questão de atacar.

A propósito, o senador teria afirmado, dias antes da visita do ministro Salles ao Acre, que o Fundo Amazônia teria sido criado para impedir o desenvolvimento da Amazônia brasileira. Segundo Bittar, a iniciativa, custeada com recursos da Noruega e da Alemanha, é um escândalo: convênios assinados com as secretarias municipais e estaduais de meio ambiente dos estados amazônicos teriam por finalidade que esses órgãos passassem a ser “correia de transmissão” dos interesses estrangeiros no Brasil.

O senador acusou tanto a Noruega quanto a Alemanha de tentarem determinar o que o Brasil pode e não pode fazer na Amazônia, violando a soberania nacional. Para ele, os países mantenedores do Fundo pagam os estados amazônicos para que a região se mantenha no atraso.

Ao que parece, o senador ignora o fato de que, se não fossem os recursos do Fundo Amazônia, não haveria financiamento para políticas, programas e projetos de desenvolvimento, crescimento econômico, geração de emprego, distribuição de renda, redução das desigualdades e promoção da inclusão social de seringueiros, ribeirinhos, extrativistas, colonos e indígenas. Isso porque o governo brasileiro não disponibiliza outras fontes de recursos para tais políticas.

A verdade – essa mesma, que incomoda, mas que sempre prevalece – é que a população dessas regiões era completamente ignorada pelos governos dos aliados dos que hoje governam o Acre e o Brasil (seus aliados, portanto, ministro). As populações das áreas que hoje integram a Resex Chico Mendes – e de tantas outras regiões da zona rural dos municípios acreanos – eram completamente desprovidas da oferta de serviços públicos, não só na área de educação, mas de toda e qualquer sorte de serviços públicos cuja oferta, pelo estado, é obrigatória.

Um ministro que foi responsável pela liberação de 239 agrotóxicos em um período de 6 meses, que já passaram a contaminar a comida que vai à nossa mesa e, via de conseqüência, a prejudicar a saúde de milhões de brasileiros; que já foi processado, julgado e condenado por fraude ambiental, dentre outros absurdos para alguém que comanda a pasta do Meio Ambiente, não detém envergadura moral e ética nenhuma para falar sobre o que quer que seja em se tratando de política ambiental, muito menos de saneamento ambiental integrado (conceito sobre o qual ele não deve ter nenhum conhecimento).

Essa mistura do inculto com a maledicência, que caracteriza as posturas do ministro Salles e da maioria de seus colegas de Esplanada é o combustível desse governo obscurantista, de ode ao grotesco, de apologia à ignorância. É o governo das bravatas, dos arroubos de autoritarismo, das firulas e do supérfluo, em detrimento dos assuntos relevantes. Dos falsos heróis dos pés de barro, dos salvadores da pátria mancomunados com milícias, laranjas e traficantes de drogas. O Acre e o Brasil não merecem esse tipo de gente.

Criolo: ‘O ódio é o gigante das almas pequenas’

Criolo: ‘O ódio é o gigante das almas pequenas’

Foto: Divulgação Criolo

Drapetomania é um termo médico proposto em 1851 por Samuel A. Cartwright, médico do Sul dos Estados Unidos. O termo fazia referência a um diagnóstico que visava explicar a tendência dos escravos de origem africana de fugir dos campos agrícolas aonde trabalhavam de forma forçada. Dysaesthesia aethiopica, foi um outro diagnóstico com o qual Cartwright pretendia explicar o “pouco interesse” pela produtividade dos escravos nos campos. Um dos tratamentos propostos era chicotear “um pouco além do normal” aqueles escravos que se revoltassem “sem motivo aparente”. Estas dissertações do médico ficaram registradas no jornal New Orleans Medical da época.

O Blues, Jazz, Soul, Hip-Hop e Rap, entre outros estilos musicais de origem afro, citam o termo para denunciar a naturalização da opressão e a violência sofrida. A ideia de que quem rejeita seu julgamento é um doente, tem origens milenárias, e foi renovada agora com a ascensão da extrema-direita no poder. Jair Bolsonaro já declarou uma vez que “ter filho homossexual é falta de porrada”.

A naturalização da violência para com aquele que deve ser subjugado foi sempre um ingrediente da narrativa fascista. Foi através das artes, da música e em inúmeros casos que essa violência foi desnudada para mostrar seu caráter bárbaro.

Este ano, Criolo, um dos maiores artistas do Brasil, lançou Etérea, um single que junto ao seu videoclipe de lançamento é uma homenagem à arte Queer e chegou justo num momento em que a discussão sobre identidades auto percebidas se fazia mais tensa perante os primeiros meses do governo de Jair. Como bom cantor influenciado pelo Rap, Criolo está plenamente envolvido com as discussões sociais que o atravessam como ator histórico, sem cair em estéticas panfletárias. Começou a se aproximar das comunidades LGBTQ+ quando corrigiu uma letra de uma música gravada há dez anos atrás e quando não se prestou a fazer piadas homofóbicas junto ao apresentador Clemente Nascimento, no programa Estúdio ShowLivre, em 2011. O vídeo de Criolo dizendo que nunca iria usar a orientação sexual de ninguém como chacota acabou se tornando referência do tipo de resposta que se espera de um homem não homossexual diante a esse tipo de situações.

Proximamente o artista vai viajar pela Europa, apresentando “Boca de Lobo”, título de um videoclipe que também abre debates sobre discussões políticas atuais, aonde cada cena retrata um episódio político recente da história do Brasil: a corrupção, a violência sistêmica nas periferias, as lutas das classes oprimidas, são os temas presentes. Tudo retratado dentro de um contexto distópico e sustentado por uma cinematografia impecável de Denis Cisma. Criolo parece ter atingido esse perfeito equilíbrio de uma arte consciente do contexto histórico que ocupa, sem renunciar aos apelos líricos que são necessários para enriquecer a experiência estética do público que o acompanha.

A Mídia NINJA realizou uma entrevista com o cantor para saber um pouco mais de como pensa um grande artista brasileiro sobre o contexto político do país.

Confira a entrevista:

Você pensa que é um rol da arte abrir debates sobre problemáticas contemporâneas?

É do desejo humano, se assim em algum momento se sente tocado para isso. Seja por ser espectador que não se percebe também sangrando por achar que a distância fictícia o protege ou espelho de carne que sente na alma desde pequeno o resultado das desigualdades que escoam na vida de cada cidadão nos pontos mais frágeis da sociedade. Acaba que, por fazer parte do olhar de mundo, isso também se imprime da arte que a pessoal respira, gesta e divide.

Resumindo: sim.

Seu clipe, Etérea, que debate sobre diversidade sexual, foi lançado num momento em que a perseguição contra as pessoas LGBTQI+ se fez mais intensa desde o discurso oficial do governo. Foi casual ou decidiram lançar ele para entrar dessa forma na discussão?

Tem mais de dois anos que fiz essa música e a apresentei para as pessoas que trabalham comigo, tive que aguardar o tempo dela e buscar o caminho mais respeitoso possível para dividir com todos. E, sim, é uma tentativa de contribuir de alguma forma.

Os números são inquestionáveis e cada número de óbito não é algo apenas do que se lê numa planilha, é um sonho, é a liberdade, a vida sendo arrancada do modo mais cruel possível. (Em referencia às mortes sofridas pela comunidade LGBTQI+)

Você viaja bastante pelo mundo. Você acha que essa onda de ódio e preconceito que se apoderou do governo do Brasil é uma tendência mundial ou aqui tem dimensões maiores?

Cada pessoa alimenta sua alma do jeito que dá, do jeito que vem, do jeito que é. Nosso país tem, em cada canto, exemplos lindos de superação, de fraternidade, solidariedade e amor. E isso nutre os sonhos. Algumas outras pessoas se alimentam de uma ideia fechada do que o mundo é ou deve ser apenas do jeito que ela quer que seja, e se isso se passa por se sentir melhor que o outro, então temos aí uma porta escancarada pra todos os tipos de ações que nutrem o ódio. Não é uma questão geográfica simples, mas uma questão geográfico/econômica/cultural da ideia (real), do mundo ser essa grande colônia e um tanto de gente ter a bênção divina para a catequese mundial.

Minha certeza é que o amor é o melhor caminho, composto por diálogo, se assim houver abertura. Mesmo assim se não, o amor é resistente e resistência.

Isso se potencializa se o próprio governo ignora a existência do que alimenta as desigualdades. O ódio é o gigante das almas pequenas!

O que fortalecia você a continuar e não desistir nos momentos difíceis da sua carreira?

Não sei, acho que minha ignorância. As dificuldades cognitivas como um todo sempre foram um funil para outras possibilidades.

Foto: Divulgação Criolo

Para mais sobre os próximos shows do Criolo, acesse: http://www.criolo.net/eterea/#agenda

O esporte universitário e suas possíveis transformações

O esporte universitário e suas possíveis transformações

Pelo Estudante NINJA, Artur Nicoceli

Foto: reprodução agemt

Corpus Christi ficou conhecido como o feriado em homenagem ao corpo de cristo, que possui o objetivo de celebrar o mistério da eucarística, o sacramento do corpo e o sangue de Jesus. A festividade conta com procissões que acontecem pelo Brasil inteiro, que ocorrem sempre 60 dias depois do domingo de páscoa.

Esse ano, a comemoração ocorreu do dia 20 a 23 de junho. No primeiro dia, a população evangélica, no estado de São Paulo, se organizou para celebrar mais uma vez, a Marcha com Jesus, em que muitos religiosos se uniram em prol de um momento religioso de esperança e fé. Ao mesmo tempo, muitos jovens se uniram também para celebrar o que acreditam na cidade de Americana.

Esses jovens, a partir de 17 anos, seguiram em caravana de diversos pontos de São Paulo para essa festividade sabendo que pela frente haveriam vitórias e derrotas. O diferencial é que eles não estavam se motivando por algum símbolo religioso e sim pelas equipes presentes nos Jogos Universitários de Comunicação e Artes (JUCA).

O campeonato tem o objetivo de juntar estudantes de universidades públicas e particulares, anualmente, para competirem em esportes. O evento conta com mais de mil atletas amadores e assim rompem as barreiras que existem nos esportes tradicionais com relação à intolerância e preconceito.

O diretor geral de esportes da LAACA (Liga das Atléticas Acadêmicas de Comunicação de Artes) responsável pela organização e realização do evento, Rodrigo Chamelette Sanzovo, afirma a necessidade do esporte e das
competições no dia-a-dia dos universitários. “Acredito que produzimos um evento que mexe muito com a emoção dos atletas, faz com que muita gente pratique esportes pela primeira vez, enfim, acho que o esporte transforma a vida nas universidades, seja pela saúde mental, seja por aprender a trabalhar em equipe”.

As atrações das festas do JUCA desse ano foram a drag Glória Groove, e o rapper Djonga. Ambos estão ocupando espaços de representatividade na militância LGBT e negra e assim o evento ressalta a importância do esporte como forma de militância política e social dando espaço para discursos de liberdade e inclusão.

Existe também uma política de universidades entrarem e saírem mediante cada evento anual, por exemplo, A atlética da Universidade Presbiteriana Mackenzie foi punida, ano passado, devido à escalação de jogadores irregulares e foi penalizada a não poder participar nos próximos três eventos, ao mesmo tempo em que foi substituída pela atlética de Comunicações da FIAM/FAAM.

O presidente da Galoco – atlética de comunicação da FIAM/FAAM, Lincoln Uehara, informou que a universidade não era um espaço com cultura de jogos, mesmo tendo em media 15/20 atléticas dentro das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). “Eu acredito que a maioria nem conhecia o JUCA, os que conheciam ficaram completamente extasiados, muito felizes, era gente perguntando o tempo todo sobre o evento, foi sensacional”.

Este ano, o evento contou com a presença das Universidades Anhembi Morumbi, Belas Artes, Cásper Líbero, ECA-USP, FIAM/FAAM, Metodista e PUC. Ao mesmo tempo em que existe a presença dos atletas para competir, também há os estudantes que apenas vão para curtir o evento e participar da torcida a favor de sua instituição de ensino.

Essa foi a primeira vez que o estudante do ultimo ano de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, Murilo Boker, foi ao evento, mesmo com vontade de ir nos anos anteriores de sua graduação. Este ano ele se juntou aos amigos para aproveitar este último ano de faculdade. “Eu iria novamente, o clima é fantástico, o pessoal animado desde o momento que a gente acorda até a hora de ir dormir. Mesmo o banho sendo frio e a gente dormindo muito pouco, vale a pena passar esses dias acordado conhecendo pessoas novas e torcendo pelos seus amigos”.

A LAACA dá a oportunidade de ex-estudantes das universidades também estarem presentes, mesmo não podendo mais jogar, e o Murilo Boker é um desses universitários que afirma que estará presente ano que vem, já formado, para torcer pela Metodista.

(Por Gabriel Elias, Guilherme Tedesco, Henrique Soto e Victor Félix)

Batendo continência pra milícia

Batendo continência pra milícia

Foto: Daniel Marenco

Um país está batendo continência pra milícia. O mundo inteiro já sabe que o ex-juiz Sérgio Moro tramou com seus acusadores a condenação de Lula, a fim de prendê-lo, tirar o ex-presidente da disputa eleitoral e eleger Bolsonaro. Num primeiro momento, a elite brasileira havia pensado que elegeria o PSDB. Entretanto, quando viu que para tirar o Lula e seus sucessores do poder era necessário apoiar o chefe da milícia, não vacilou nem por um instante.

Não sei se a elite brasileira imaginava que Bolsonaro era na verdade “capitão” da milícia. Porém, diante de todas as evidências, a responsabilidade histórica por tudo que vem acontecendo é da elite de milionários e bilionários que dominam o Brasil. Ela que não venha depois dizer que não sabia de toda a sujeira, hipocrisia e gravíssimas violações dos Direitos Humanos desse governo, pois será a grande responsável pela tragédia que passamos hoje no Brasil e por todo o retrocesso que herdaremos.

Depois do vazamento das mensagens pela internet e dos áudios que ainda virão, ninguém com alguma consciência pode alegar que tudo isso era “normal”. Primeiro, Sérgio Moro e Bolsonaro se esconderam e preferiram o silêncio sobre os vazamentos do The Intercept Brasil. Depois, pensando que somos otários, confirmaram as tratativas do caso e tentaram dizer que essa troca de mensagens acerca das peculiaridades e especificidades do processo entre o juiz e o Ministério Público é “normal”.

Depois do fracasso das duas teses defensivas, surgem com a única defesa possível, excluindo-se a confissão e a delação premiada: a alteração das mensagens. Negam o que já tinham confirmado antes! As mensagens são provas diretas de associação criminosa para condenar um ex-presidente da República e tirá-lo da disputa eleitoral. E, pior, de forma totalmente irresponsável, colocando na Presidência da República um verdadeiro bedel, que beija a bandeira dos Estados Unidos da América e bajula o Trump, envergonhando todo um país. Algo completamente desconexo, como se ainda vivêssemos na época da Guerra Fria, numa atitude de sabujismo totalmente descontextualizada em relação ao atual poder das transnacionais.

O julgamento do Lula foi uma total decepção. O STF não vai entrar nem no rodapé da História. Apesar da certeza das provas diretas apresentadas, no mínimo, por evidente dúvida, o Supremo deveria ter colocado Lula em liberdade. Ao menos, até ser totalmente esclarecido a evidente suspeição de Sérgio Moro, ex-juiz do caso e atual Ministro da Justiça e de Segurança Pública do governo Bolsonaro, e a nulidade de todo o processo.

Havia uma esperança de que o STF fosse forte, que não tremeria diante de um governo de milícia. Até o fraquíssimo Congresso Nacional, repleto de parlamentares eleitos na “onda Bolsonaro”, já demonstrou algum descontentamento com o atual governo. Mas a luta continua e muitos áudios ainda estão por vir. Por conta da pressão nacional, do escândalo internacional decorrente da prisão de Lula e da série de trapalhadas desse desgoverno, esse julgamento será marcado. O Supremo terá ainda mais uma chance.
A garantia de que todas as pessoas têm de ser julgadas por um juiz imparcial é universal, está na Declaração Universal dos Direitos Humanos. A liberdade de Lula neste momento é muito importante para a democracia no Brasil.

Confira o programa Fumaça do Bom Direito, de André Barros.

Berlim: 37,5 graus e o sol nunca mais vai se pôr

Berlim: 37,5 graus e o sol nunca mais vai se pôr

Prédio da Câmara Baixa do Parlamento, Reichstag. Foto: Fátima Lacerda

Quarta-feira (26), dia em que os meteorologistas contabilizam o dia mais quente do ano até agora, com temperatura de 37,5 graus em Berlim como “somente” um dos exemplos da onda recorde de calor que acomete a Europa e que esfrega na nossa cara, que a jovem ativista sueca, Greta Thunberg, está muito além do seu tempo como suas reivindicações além da vontade política dos países que regem o mundo. A onda de calor na Alemanha em 2018 destruiu muitas safras, colocou agricultores em situação de desespero. De quebra, mostrou a incompetência da Ministra da Agricultura e deu um tapa na cara do país que caminha em velocidade tartaruga para, de forma irrevogável, extinguir a indústria de extração de carvão mineral e, com isso, diminuir consideravelmente a emissão de Gás Carbono na atmosfera.

Enquanto berlinenses lutavam contra “o ar vindo do Saara” (assim a linguagem dos metereologistas) e na tentativa fracassada em comprar um ventilador, no prédio da Câmara Baixa, o Reichstag, a chanceler Merkel respondia perguntas de bancadas, praxe no sistema de Democracia Parlamentar como o que rege na Alemanha. Entre várias perguntas, a da deputada do Partido Verde, Anja Hajduk. Ela questionou as negociações do acordo entre a UE e os países do Mercosul e mencionou “a deterioração” no Brasil além de instigar a possibilidade do governo alemão usar isso nas negociações, como pressão frente ao governo Bolsonaro.

Em seu vasto legado de uma (para dizer ao mínimo) instigante carreira política, os quesitos posicionamento e texto claro, não serão características a serem lembradas como pilastras no estilo político de Merkel nas inúmeras biografias que ainda serão escritas sobre a filha de pastor evangélico- luterano que cresceu na antiga Alemanha Oriental e frequentou a escola primária na cidade de Templim. Posicionamento claro e concreto faltam em seu portfólio.

Como todos os berlinenses, também a chanceler vem sofrendo com as temperaturas recordes. Além de recentes “ataques de tremor” em eventos oficiais (o mais recente, na quinta-feira (27) em evento no Palácio Presidencial), o foco midiático já se desvia para especulações sobre a saúde da Chefe de Governo e isso será algo a ser falado, discretamente, nas rodas de conversas que varam a noite durante a Cúpula.

Interesses econômicos

Especialmente quando estão em jogo interesses que beneficiam a economia alemã, assegurando empregos também nos países da UE, Merkel se esconde em vocabulário diplomático, vai na maciota. Desta vez, foi diferente. Merkel engatou em formato dobradinha: de não fazer vista grossa frente à situação que ela denominou “dramática”, ao mesmo tempo que declarou que o não acerto do acordo com os países do Mercosul (em negociações que já duram 20 anos), “Não irá assegurar que um hectare a menos de floresta seja derrubado no Brasil”.

Macron para escanteio

Contrariando a praxe do tradicional Eixo França-Alemanha, pro-forma em conjunto (Merkel decide e Macron obedece) alinhavando os caminhos dentro da UE, Merkel decidiu avançar pela lateral. A brilhante estrategista se aliou a outros governantes para agilizar o Acordo de Livre Comércio entre as duas zonas. En passant jogou o ambicioso presidente francês, para escanteio. Macron sozinho na “Casa Europa”.

A carta, enviada para o Presidente da Comissão da UE, Jean-ClaudeJuncker, foi assinada também pela Espanha, República Tcheca, Países Baixos, Suécia, Letônia e Portugal. Seu conteúdo é um sinal de que a hora é essa e afirma que as duas zonas tem a chance de estabelecer um “contrato histórico”. Merkel quer agilizar, mas ficou bem na foto ao se mostrar “preocupada” com os acontecimentos no Brasil, mesmo que seu objetivo de fechar o acordo, com governos democráticos ou desmatadores ou não.

Cartilha para Bolsonaro

Ao responder à deputada, Merkel se referiu a atual situação política do Brasil como “dramática” e garantiu que irá “fazer o que for possível dentro do seu alcance” para “em conversa séria ” alertar o presidente do Brasil sobre questões de Direitos Humanos e do Meio Ambiente. A chanceler é doutorada nesse viés para inglês ver. Com a China, seu principal parceiro depois dos EUA, ela faz isso, há anos.

Alemanha tem que aprender com o Brasil

A resposta de Jair Bolsonaro, não demorou. O eterno candidato e que teima em continuar sua insana e desesperada procura por um palanque, declarou que não irá “ser advertido por outros países” e que a Alemanha precisa aprender muito com o Brasil e citou o “ainda uso da energia fóssil”. O rebate do eterno Messias é tão diferenciado que só faltou ele dizer que o Brasil joga melhor futebol do que a Alemanha e com NEYMAR escalado!

Merkel sai bem na foto por dar (um pouquinho) a cara para bater na reta final de sua carreira política já previamente agendada para terminar em 2021. No âmbito da Política Externa, e pra isso não se faz necessária uma bola de cristal nem uma cartomante por perto, teremos no Japão um novo vexame de um presidente que tem o perfil daquele mala sem alça que vai à festa, convidado por gentileza ou por motivos protocolares, mas que não perde o selo de penetra, como a lama que cola no sapato depois de um temporal no Rio de Janeiro.

Clima do Saara e ânimos exaltados

Berlim, terra plana e sem praia (!!!) sofre com o calor seco que faz necessário andar com uma garrafa de óleo de oliva na bolsa. Só água de coco para manter a sede. Nesses dias, para temperaturas mais amenas, é preciso voar para a Sicília ou para a Grécia. Berlim está sendo massacrada pelo ar quente do deserto do Saara.

Berlim e Freiburg (Sudoeste) são as cidades mais quentes do país. Ao contrário da Cidade Universitária, Berlim não tem brisa, o ar é de péssima qualidade e a cidade fica em polvorosa, a fila das piscinas públicas são intermináveis, os lagos parecem um formigueiro e o clima fica ainda mais árido no convívio do cotidiano.

Um usuário no Twitter, usando a #Hashtag Hitzewelle (Onda de Calor), foi taxativo: ”Não vejo a hora de chegar Outubro, quando escurece cedo e o café quente volta a agradar”, disse ele irritado com o clima inusitado no país, no qual 7 meses ao ano faz frio, porém o período dos meses quentes fica cada vez mais agressivo para saúde física e mental com também para o cenário urbano. Um caos!

Nem mesmo a mulher mais influente e poderosa da política mundial fica livre dos perrengues que o verão de temperaturas batendo recordes. Depois do Ataque de Tremor (o segundo em curto espaço de tempo), Merkel se tornou um dos Trending Topics no Twitter. Mais do que a questão do Acordo entre a UE o o grupo do MERCOSUL, a chanceler terá as câmeras do mundo todo focadas em si. Não serão poucos os políticos de olhar vampiristico e veia masoquista ou mesmo com quadro de crônica síndrome de vira-latas e ávidos para conferir, de perto, a mulher mais o influente do mundo ocidental, finalmente, exibindo fraqueza. Talvez fosse melhor convidar Greta para discutir a crise climática, agendar soluções e medidas para ontem. Não basta “somente” supermercados que abdicam totalmente de sacolas de plásticos e embalagens de qualquer tipo como em Berlim, nem mesmo os da Tailândia (e recentemente de SP) usarem folhas de bananeira para evitar plástico.

Em 2013, o verão berlinense foi batizado como o “Verão do Século”, o mais quente desde o inicio da medida de temperaturas. Essa resenha não foi o suficiente para angariar e encorpar força política e instigar o debate na sociedade alemã. Em 2018, foram 6 semanas de 35-38graus e sem nenhum pingo de chuva. Árvores começavam a se desvencilhar de troncos por não mais poder alimentá-los.

2019

Com o ar do Saara sobrevoando nossas cabeças nesses dias não dá para não vislumbrar um cenário apocalíptico, digno dos filmes do canadense, David Cronenberg ou do alemão Roland Emmerich.

Comparado aos aspectos climáticos resultante da burrice do mundo relutante em não atentar para o lixo ocidental e para o plástico que invade os oceanos, a leitura da cartilha, o ficar de castigo de recuperação na matéria “governar” do Messias pode parecer um detalhe na galopante dinâmica da crise ambiental. Será mais um degrau abaixo no âmbito da Política Externa e nos fará lembrar, nostálgicos e melancólicos daqueles anos em que um brilhante diplomata que atende pelo nome de Celso Amorim, sabia representar o Brasil. Será mais um mico, sim do pai do Edu, do Flávio e do Carluxo, mas os desafios do Zeitgeist não podem esperar.

Para o próximo domingo (30), meteorologistas preveem a marca de 39 graus na capital e a imprensa sensacionalista quer ver mesmo o circo pegar fogo. Não poupa em especulações se Berlim irá chegar a marca dos 40, como se quisesse ter essa manchete na capa, para constar. A previsão do tempo na Alemanha não tem “somente” uma parte do noticiário. Tem um bloco inteiro depois do jornal da TV. Se irá fazer sol ou não é um aspecto econômico que não se despreza nas terras daqui. Com os cenários apocalípticos de Berlim 40 graus, o tabloide Bild instiga, acima do medo (de não conseguir achar um ventilador na loja porque aqui o galo onde canta, dança, mesmo!), ferramenta sem a qual alemães não sobrevivem, o medo, aquela casa onde ninguém vai…

Depois do verão passado e das declarações de Greta, medo, eu também tenho, do que será do planeta Terra.

Amarelo como o futuro que nós construímos pra nós mesmos

Amarelo como o futuro que nós construímos pra nós mesmos

Emicida lança AmarElo ao lado de Pabllo Vittar e Majur (Reprodução/Instagram)

Um negro, um gay e uma pessoa não binária entram em um bar. Mais do que uma piada de mal gosto da década passada, essa descrição caberia numa noite comum da nova juventude brasileira. Isso fala não só sobre a mistura de tribos, para usar outra expressão ultrapassada, mas também a visibilidade destas vivências. E é sobre isso que “AmarElo”, a nova música de Emicida, com participação de Pabllo Vittar e Majur, canta.

O clipe começa com um áudio, um desabafo de um homem negro. Deixando de lado de quem/pra quem é a voz para ignorar a nossa proximidade ou carinho com o personagem, vemos aí a primeira quebra de paradigma. Um homem negro falando sobre seu estado mental, sobre como se sente. A masculinidade como foi construída até então tira dos homens o direito de falar sobre seus sentimentos, mas principalmente mutila os homens negros dessa possibilidade. Em algum momento o homem branco pode ser romântico, sensível, nerd, um príncipe até, mas ao homem negro sobra quase um arquétipo único – o de forte como um gorila, agressivo, violentador de mulheres (como vimos em “Olhos que Condenam”, por exemplo).

A voz do homem começa de forma informal falando sobre não conseguir dormir e, junto das imagens vai escalando para uma verdade nua, crua e vergonhosa – O índice de suicídio entre jovens e adolescentes negros cresceu 12% desde 2016 e é 45% maior do que entre brancos.

As palavras ao telefone são explícitas – algum episódio extremo aconteceu, existe medicação envolvida, há uma pressão para fingir que está tudo bem, tudo isso acompanhado de imagens triviais da cidade, junto a sangue escorrendo pelo ralo lá nos dois minutos e quarenta e nove segundos. É um quadro clássico de uma pessoa depressiva, traumatizada. É um quadro clássico que você daria a um jovem branco, não a um adolescente negro. Trazer isso a tona é extremamente corajoso, mas mais que isso, é necessário.

A mensagem ganha um tom mais efetivo ao ser trazido pela voz de Emicida, um porta voz de um projeto “bem sucedido” dos pretos brasileiros. Qualquer um que prestasse atenção saberia que as idéias articuladas em “Hoje Cedo” eram uma pintura agonizante de sua realidade, mas foi precisa outra letra sobre isso. Aproveito para chamar atenção para o personagem feminino na música de 2013, a mulher que ficou para trás. Quem sabe agora nos ouvem.

O segundo personagem mais conhecido é cantado por Phabullo Rodrigues da Silva, conhecido como Pabllo Vittar. Outro símbolo de sucesso que incomoda, Pabllo tem 24 anos, é nordestino original de São Luiz (MA) e cresce como uma bicha afeminada, uma ofensa direta a tal masculinidade. É a gay que até um tempo todos tinham nojo, indiscutivelmente fora do armário, forçando a sociedade e conviver com um corpo fora do padrão esperado do feminino/masculino.

Um homem gay, drag queen – e não uma mulher trans como muitas vezes foi percebido – que hoje em dia cruza pelas paradas LGBT pelo mundo cantando música brasileira. Um corpo atravessado pelo ódio e preconceito, que é cinco vezes mais propenso a tentar suicídio do que os heterossexuais.

Então, nos deparamos com Majur. Unindo sua voz com Belchior, um timbre comumente entendido como feminino nos conta que tem sangrado demais, chorado pra cachorro e que ano passado morreu, mas esse ano não. Essa letra faz muito mais sentido quando entendemos que Majur é uma pessoa não binária, uma presença que desafia a ideia normativa de gênero representada por homem/masculino e mulher/feminino.

Dentre as bandeiras LGBT, é uma das mais invisibilizadas o que acaba sendo uma pancada na autopercepção e autoestima dos que não se conformam com a forma compulsória de ver os gêneros. É assim mais uma forma de execução silenciosa de nossos jovens. Ter uma artista emergente como Majur cantando neste corpo acena para uma nova era na representatividade.

Apesar de todos estes fatos correlacionados ao sofrimento destas pessoas, AmarElo não deixa espaço para dúvidas – essa música não é um muro das lamentações, não é sobre nossas derrotas. “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes. Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes. É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir”, os versos de Pabllo, apesar de sonoramente leves são a sentença que nós escolhemos: mesmo com as cicatrizes, estamos entrando em um bar, não num beco escuro.

Se comecei ouvindo esta música com olhos marejados, pensando em quantas vezes meu irmão comentou sobre seus episódios depressivos, ao meio levantei e gritei o refrão, meti dança desengonçada, comemorei meu ótimo momento, celebrei minha comunidade, minha família, meus amores e metas alcançadas. Amarelo é a cor da campanha de conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio. Mas também é a cor do sol de um novo futuro que nós estamos criando à rebelia do algoz que quer nos ver sumir.

É uma música histórica para nosso momento histórico.

Tudo nela me empurrou para lembrar que esses episódios não nos resumem. Somos um preto e seu diploma, somos pessoas com deficiência e suas superações diárias, somos bailarinas clássicas se erguendo em meio a escombros, somos uma estilista empregando outros jovens negros, somos dançarinos, somos um negro, um gay e uma pessoa não binária.

Posso até ter chorado demais, mas este ano eu não morro.

As mensagens secretas da Lava-jato: medidas antidemocráticas pairam no ar

As mensagens secretas da Lava-jato: medidas antidemocráticas pairam no ar

Foto: Daniel Marenco

(com colaboração de Itamar de Sá, Ermício Sena, Francisco Nepomuceno e Evilásio Santos)

Diante dos últimas reportagens publicadas pelo jornal investigativo The Intercept Brasil; do controverso desempenho do ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) em oitiva na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal; e pela apresentação de evidências que comprovam a contratação, por empresários brasileiros, de disparos ilegais em massa de fake news, realizados por intermédio do aplicativo WhatsApp, pagos ilicitamente com recursos oriundos de caixa 2 eleitoral, durante a campanha de Jair Bolsonaro (PSL) – evidências estas noticiadas pelo jornal Folha de São Paulo, em reportagens da jornalista Patrícia Campos Mello – uma perigosa narrativa começa a tomar conta das redes sociais e de determinada fração dos veículos de mass media.

Movida por um verdadeiro exército de robôs, trolls, bots, perfis fakes e haters em geral, a milícia digital de Bolsonaro toma as dores de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol e começa a disseminar a história de que as reportagens do jornal The Intercept Brasil e da Folha de São Paulo fazem parte de uma suposta “estratégia” segundo a qual a esquerda (corrupta) teria se aliado aos russos (donos do Telegram – concorrente do Whatssapp – e adversários históricos dos EUA, de quem o Brasil é aliado) para desmoralizar a Operação Lava-jato, tentando macular seus processos de nulidade, anular seus julgamentos, libertar Lula e sustar o processo de “limpeza” da nação.

Essa “desculpa” utilizada pelo séquito de fanáticos apoiadores de Bolsonaro para os graves desvios de conduta e ilegalidades supostamente cometidas por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol – a de que a esquerda, em especial o PT, estariam se esforçando ao máximo para sangrar a luta contra a corrupção – aproximam a direita da máxima maquiavélica segundo a qual os fins justificam os meios. Em verdade, isso foi tudo o que sobrou a eles. Do ponto de vista político, dialogam com a manada de idiotas que os apoiam e, do ponto de vista moral, tentam vender a ideia de que tudo o que fizeram, dentro ou fora da lei, foi para livrar o país de um mal maior.

Por outro lado, Moro e Dallagnol apanham mais do que cachorro de índio nas redes sociais. Até parcelas consideráveis dos veículos de mass media, outrora responsáveis pela criação da aura de “heróis” para aqueles sobre os quais repousam fortes indícios do cometimento de graves ilegalidades, já começam a débâcle. Tal postura ainda está restrita a um universo de analistas, jornalistas e políticos, os ditos “formadores” de opinião que já não formam tanta opinião assim, dada a força da indústria de fake news alimentada por essa mesma grande mídia e pela já citada milícia digital. Mas, trata-se de uma posição que tem ganhado adeptos ao longo das últimas semanas desde a divulgação da primeira reportagem da série intitulada “As mensagens secretas da Lava-jato”.

Além disso, é verdade que, diante de fatos muito graves, até a tática da manipulação da notícia – e via de consequência, da opinião pública – vai, aos poucos, perdendo força. O fato de estarem adotando a narrativa fundada na máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios, aliada a tentativa de descredibilizar o veículo e seus jornalistas, bem como de relativizar o princípio da liberdade de imprensa e do sigilo de suas fontes é ótimo para revelar sua falta de ética, de robustez moral e de compromisso com a legalidade. Em primeiro lugar, porque isso demonstra que estão na defensiva; em segundo lugar porque, ao tentar justificar os erros cometidos, demonstra que já admitiram o seu cometimento. E o fazem com o mais rasteiro dos argumentos. Segundo as teorias da argumentação, já não sobraria mais muita coisa a que eles recorrerem. A julgar pelo alegado volume de conteúdos ainda não revelados, quando estes vierem à tona, será uma questão de tempo até os envolvidos sucumbirem.

Se, diante dessa hipótese, isso vai resultar em uma medida antidemocrática, é uma possibilidade a ser considerada. A revelação do estado de putrefação das entranhas lava-jatistas da Cidadela de Curitiba, aliadas ao laranjal do PSL, aos funcionários fantasmas da família Bolsonaro (já chegam a 17 os parentes da ex-esposa do presidente, cuja contratação, nos gabinetes dos filhos, já foi comprovada), ao envolvimento destes com milícias, ao sumiço de Queiroz e seus milhões em “micheques”, aliado ao pífio desempenho do governo até o momento, não surpreenderia se Bolsonaro ousasse apelar para o fechamento do STF e para a dissolução do Congresso Nacional, arguindo que o seu insucesso se dá em virtude das “amarras” impostas por tais instituições aos seus desígnios de fazer o Brasil crescer, e não em sua completa e indisfarçada incapacidade de promover o bem comum.

O horizonte do país tem, portanto, cor de cinza e gosto de chumbo.

Se a economia piorar muito nos próximos meses, a ponto de roubar mais e mais empregos, precarizar saúde, segurança, educação etc, a ponto de criar um sentimento anti-bolsonarista dentro da fatia da população que apoia o governo, poderemos ser testemunhas de um desastre para a democracia. É preciso que as forças democráticas do país, tanto da esquerda, quanto da direita e do centro, estejam atentas e vigilantes para impedir, tanto o flerte, quanto a concretização de tal hipótese.

#ShowDoPavão: Memes, desinformação e preconceito

#ShowDoPavão: Memes, desinformação e preconceito

A disputa de narrativas sobre a troca de mensagens entre o então juiz federal Sérgio Moro e o procurador da operação Lava-Jato Deltan Dallagnol teve mais um capítulo no último domingo (16/06).

Um grupo de perfis – grande parte com características de propaganda computacional (robôs) – deu popularidade à hashtag #showdopavão no Twitter, a partir tarde de domingo.

A maioria dos posts continha notícias falsas contra o jornalista Glenn Greenwald, um dos responsáveis pelo site The Intercept Brasil que está publicando as conversas entre Moro e Dallagnol. Entre as desinformações espalhadas especialmente a partir da conta @opppavaomisterio estão a acusação de que Glenn defende o nazismo ou que tem relações com os hackers russos que teriam invadido os celulares do juiz e do procurador da Lava-Jato.

A partir de uma coleta de todas as publicações feitas no Twitter com a hashtag #showdopavão entre a tarde e a noite do dia 16, analisamos as imagens que circularam vinculadas a esses posts. Durante as primeiras seis horas do evento, foram publicados mais de 77 mil tweets e retweets, originados de cerca de 18 mil usuários. Esse recorte de tempo mais curto se justifica por compreender a gênese do movimento. Depois desse período atores mais alinhados na defesa de Greenwald entraram em ação, assim como o próprio jornalista, o que deu outra dinâmica ao termo #showdopavão.

Deste conjunto de tweets capturamos aproximadamente 2.500 imagens e, após processamento, disponibilizamos para visualização dinâmica e interativa de tipo “Pulsão de Imagens”. A “Pulsão de Imagens” é uma visualização de dados que utiliza a linguagem JavaScript com biblioteca D3.js (Data-Driven-Documents) e tem como principais elementos analíticos as cores predominantes das imagens, e as interações destas ao longo do tempo.

A visualização foi planejada para ser publicada e executada em um servidor web. O período temporal em horas está abaixo do eixo “X”, que mostra uma escala cromática indo do branco ao lilás; o volume de compartilhamentos da imagem é o eixo “Y”; o diâmetro do círculo que representa cada imagem aumenta ou diminui em função da popularidade do tweet no qual a imagem está vinculada. O usuário pode analisar cada período clicando no controlador e avançando ou retrocedendo a sua exibição. O ícone play exibe a visulização de modo automático. Caso o usuário queira analisar o tweet de origem da imagem basta clicar no círculo e a publicação será aberta em outra aba do browser que estiver usando.

Memes, desinformação e preconceito

As imagens que circularam no Twitter podem ser divididas em dois grandes grupos. Um reúne prints e republicações das supostas articulações de Glenn com hackers para pagar pela vaga de deputado federal que seu marido ocupou quando o deputado eleito Jean Wyllys decidiu não assumir em função das ameaças de morte que vinha sofrendo. Esses prints aparecem nas regiões de verdes e brancos na visualização. Nos cinzas estão imagens do jornalista ao lado de um homem com inscrição da suástica, na tentativa de associar o responsável pelas publicações que lançaram dúvida sobre a imparcialidade da Lava-Jato com movimentos neo-nazistas.

Já outro conjunto aglutina imagens de Glenn Greenwald associado a pavões, como se o vencedor do Oscar e do prêmio Pulitzer estivesse usando as mensagens da Lava-Jato para se promover.

Fica evidente ainda nas imagens da origem do movimento #showdopavão a atuação coordenada de alguns perfis, que avisam que a “Operação” iria começar, como pode ser observado nas imagens dos primeiros tweets. Além disso, festejam o “sucesso” da empreitada.

*Por Fábio Goveia, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e professor visitante da City – University of London. Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic).

‘Nós não fomos educadas para acharmos pessoas trans bonitas’: a vida de uma  universitária trans.

‘Nós não fomos educadas para acharmos pessoas trans bonitas’: a vida de uma universitária trans.

Pelo Estudante NINJA, Artur Nicocelli 

O Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais, segundo dados da ONG Transgender Europe (TGEU). Mesmo assim existem jovens como, A. Saboya, que tem a perspectiva de romper as barreiras de uma sociedade cisgênero e ocupar lugares ainda não alcançados por pessoas trans. Aos 26 anos, ela é a única mulher trans estudante da Universidade de São Paulo (USP), do curso de Formação de Atores (Técnico em Teatro – Eixo Tecnológico: Produção Artística e Cultural e Design) da EAD/ECA/USP. “Na minha turma tinha Manfrin que é não-binarie também e eu. Manfrin trancou o curso esse semestre e provavelmente voltará no ano que vem. Fora a gente, eu só ouvi falar da Marina”.

Marina Matheus é a primeira atriz trans da Netflix Brasil. Ela faz a personagem, Ariel, na série 3%, aparecendo na segunda temporada como uma das principais ativistas responsáveis pela manifestação da sociedade mais pobre da série contra a alta classe – Maralto.

Saboya é estudante do terceiro termo do curso, ela acredita que arte vem se desconstruindo, mas ao mesmo tempo, ainda continua reforçando estereótipos e deixando as pessoas trans de fora de espaços culturais, desde a produção artística até os meios da interpretação. “Nesses últimos anos sinto que isso vem sido questionado fortemente por umas manas incríveis, o que vem abrindo uma brecha – ainda muito pequena, quase uma esmola – para que essas pessoas trans se apropriem da arte também”.

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há quanto tempo ela está assim? nbaby num bando de amapozines doyda doÿda num transtorno de personalidade neurótica na brincandeira d recriar d revolucionar as próprias verdades eu era hamlet não eu era ofélyca aquela q o rio não conservou mas q a overdose d asfalto cinza conservou sim senhora q qr dizer isto bela ofélica? ela pensa no pai, não, não é isso, ela pensa no patriarcado grávida dy uma levante transxfeminizxta segyido das náuseas da normatividade binarie minha irmã deve ser avisada boa noity boa noitchy fiquem coa deusatravescthy y nem mais uma palavra (palavras palavras palavras) sobre isso o resto é silêncio mesmo, mas antes uso das palavras pra compor o meu silêncio bjo tchau y agora minha carruagem #freelasdeShakespeare #asalegresmeninesdeShakespeare @turma70ead #atroz #atriz #nbaby #NB #performatividade #shakespeare #hamlet #hamletmachine #heinermuller #USP #interseccionalidade fotos @caionogali

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Ao mesmo tempo que a artista compreende que existam controvérsias entre o movimento feminista radical e o movimento trans, no seu curso, ela encontra uma ligação interseccional das pessoas trans com o pensamento do feminismo negro. Ainda assim, dentro da USP algumas pessoas ainda não compreenderam o processo de transição de Saboya e continuam chamando no masculino, e já ouviu pessoas trans serem taxadas como “aquela da fala violenta” e “brigona”. Ainda assim, ela fala naturalmente sobre a represália dos estudantes “Como tudo ainda é muito recente, vou aos poucos tentando lidar com isso da maneira mais saudável possível”.

Ela ainda ressalta que existe dentro das universidades uma exotificação das pessoas trans. Esse processo consiste quando os estudantes tratam uma travesti, por exemplo, como um animal de zoológico, de acordo com Saboya, ou seja, como se a presença de aluem não fosse, de qualquer forma, comum. Na conversa com o Mídia Ninja, ela ainda cita a Renata Carvalho, como uma fonte de informação sobre a presença dessas pessoas tem que ser naturalizada na sociedade.

A jovem nos conta um pouco sobre seu processo de transição. Ela sempre teve uma identificação mais próxima com figuras femininas ao seu redor, desde a infância, fosse assistindo televisão ou olhando familiares e colegas. Quando ela se tornou mais velha, por meio do seu trabalho artístico, foi perdendo o sentido ocupar o lugar de “homem” ou do masculino, que até então ela estava. “Enfim, acontece que o teatro foi também me ajudando a entender e a me questionar o que eu era, e o que me segurava neste ser “masculino” que era identificade, uma vez que eu me imaginava e intuía muito mais prazer e alegria de vida assumindo uma não-binariedade ou uma desconstrução desse meu gênero que me foi dado quando nasci”, diz.

“Então olhando as manas ao meu redo e acompanhando o processo de minha amiga, dramaturga, Ave Terrena, fui percebendo que este meu lado “feminino” que eu sempre tendia a esconder dentro de mim, era parte da minha essência, e que eu queria agora deixar isso ser visível para todos e todas”, finaliza. Mesmo o processo de transição de Saboya sendo recente, ela reafirma muitas vezes durante a conversa que existe um problema de preconceito ocasionado pela indústria da beleza. “Nós não fomos educadas para acharmos pessoas trans bonitas. E isso precisa mudar urgente”. Esse processo faz com que muitos e muitas jovens trans façam procedimentos cirúrgicos para se parecerem como o padrão aceito pela sociedade. Saboya comenta que mesmo as pessoas fazendo processos cirúrgicos, uma pessoa trans nunca será a Anitta.

A jovem idealiza um governo que atue na inclusão de pessoas trans na sociedade, criando medidas que reparem socialmente as violências que elas vêm sofrendo. “Um governo que pense para além da transfobia, pense também no machismo e na misoginia, precisamos de um governo que encare as dívidas históricas que temos”. Mesmo com a violência social que as pessoas trans sofrem diariamente, ela se imagina como a Marina, conseguindo encontrar possibilidades de trabalho, ocupando os espaços que não pertencem somente a pessoas cisgênero. Ela comenta sobre ser frustrante assistir alguma peça e perceber que todos os atores são brancos, magros e cisgêneros. “Isso precisa mudar, chega de trabalhar na sombra e na margem da sociedade”, ela ressalta.

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karaumdemokrátyku #haddadsim #elenão

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Saboya estará em cartaz com a peça “Matéria e poesia”, dirigido por Isabel Setti, em que é abordada a obra de Manoel de Barros. Nela trabalha a figura da Antoninha-me-leva é uma prostituta de Corumbá que pra não morrer de fome recebia 3 ou 4 comitivas de homens por dia em sua casa. A peça estréia em julho, do dia 2 ao dia 7 (ter a domingo) na sala 25 da EAD/CAC, sempre às 21h. Na sexta e no sábado haverá também uma sessão extra às 19h. Ingressos gratuitos com retirada 1hr na bilheteria da EAD.

O outro trabalho que está participando é o “Frutas&TRANS-gressão – Histórias para Tangerinas e cavalas-marinhos”, junto com a colega Manfrin. A peça consiste em uma performance sobre uma figura que não é homem, nem mulher e que debate a realidade de um corpo transitório, assim como as questões de identidade de gênero. A peça entrará em cartaz no Teatro de Container no 27 de agosto e 3 de setembro, e também na EAD/USP dias 14, 15, 21 e 22 de setembro.

Por que, Berlim?

Por que, Berlim?

Foto: Fátima Lacerda

“Anjos sobre Berlim
O mundo desde o fim
E nem tanto era um sim
E foi e era e é e será sim”

Ao contrário de Paris, que faz de um tudo para te seduzir com o cenário urbano de gelar a retina, e Roma que, te aconselha a estar cercado de sensações, imagens, cheiros e Fatas Morganas, Berlim não se interessa por você. Pois é.

Berlim, cidade marcada por revoluções, motins, guerras e que foi destruída em 80% pela II Guerra, resultante dos 12 anos do nacional-socialismo Hitler (Atenção Spoiler que não era de esquerda!). Algumas feridas no cenário urbano se encontram cicatrizadas, outras ainda no processo e outras ainda muito abertas pelas esquinas de trânsito e também nas mentes de um povo muito sofrido.

Certa vez, esperando abrir o sinal (ser pego atravessando o sinal aqui custa, no mínimo 130 euros), notei uma pessoa colada numa das ruínas do muro, ao lado do terreno que foi o centro logístico do nacional-socialismo e hoje abriga o Centro de Documentação, “Topografia do Terror” um dos lugares mais visitados da capital. Começamos a conversar e antes do sinal abrir, eu perguntei o que ele achava de Berlim: “Estou tentando compreender” foi sua resposta e a mais profunda que já ouvi.

Placa inaugurativa da rua que leva o nome do mais expressivo líder do movimento estudantil na Alemanha do final do anos 60, Rudi Dutschke.    —    Foto: Christian Könneke

A iniciativa da Mídia NINJA em tornar mais abrangente sua editoria internacional, veio calhar com a ideia de reportar, com frequência, sobre diversas pautas de Berlim. Afinal por que, Berlim? Porque como capital da República ela é o centro político, onde se concentra o poder não “somente” por (ainda) ter Merkel como chanceler (e não como Primeira Ministra como globais insistem em chamá-la), mas porque a Alemanha ainda é a maior potência econômica do bloco da UE.

O número de facetas da antiga ilha e hoje, metrópole é impossível catalogar.

Aqui chegam atrizes/atores desconhecidos e saem como celebridades ou, como no caso de Fernanda Montenegro, recebem a consagração internacional que já lhe era devida há tempos. A atriz chilena Paulina Garcia, eternizada em “Gloria”, filme dirigido por Sebastian Leilo, decerto já tinha o reconhecimento como atriz de teatro, cinema e TV na América do Sul, mas Berlim, ainda mais a Berlinale, mudou tudo. Paulina encantou Berlim. Para Fernanda, a cidade se rendeu aos seus pés, digo, aos seus “olhos esbugalhados” como disse na época um jornalista do jornal local, “Tagesspiegel”.

Berlim pode contagiar tanto que protagoniza histórias como a do diretor chileno, Leilo. Depois da fulminante vitoria do filme na Berlinale, ele ficou por aqui e abriu um restaurante com o mesmo nome de sua atriz predileta no bairro de então subcultura convulsiva de Kreuzberg (e hoje solo dos Hipsters). Lá é um ponto de encontro da cena latino-americana da capital. Há também pessoas que odeiam Berlim e preferem a bucólica e nostálgica Viena no pacote com Schnitzel e Torta de chocolate com cereja.

Será bem difícil ir “se acostumando” a gostar de Berlim. Ou você se identifica com ela de cara ou irá detestá-la.

A visibilidade e relevância político-cultural de Berlim foi ratificada recentemente quando foi exibido o filme que marca a estreia de Wagner Moura na direção: “Marighella” teve première (sem concorrer aos Ursos), mas foi O SINAL que um país como o Brasil, de dimensões continentais, estava sucumbindo numa isolação política sem precedentes desde que o mundo globalizado. E foi naquela noite, ao sair da sala de cinema com Victor, que mora em Londres e vestia uma camisa vermelha que remetia à vigília na porta da PF em Curitiba. Enquanto ele tagarelava com alguém, vislumbrei Jean Wyllys, rodeado de algumas pessoas. Foi a sua primeira aparição em público do ex-deputado do PSOL, depois de deixar o Brasil. Vitor conhece Jean, que apresentou a Fátima e a entrevista exclusiva se tornava factível e foi veiculada na sequência, na versão online da Carta Capital. Berlim é isso. Tudo é possível. Encontros inesperados e surpreendentes que fazem parecer que Berlim é logo ali. Mas só mesmo quem esteve sentado no avião vindo pra cá, sabe como esse lugar é longe de Terra Brasilis. Até segunda ordem, Berlim não terá finalizado a obra do Aeroporto Central. Os voos pingados pela Europa até se conseguir chegar ao Brasil, ainda tem grande conjuntura.

Delicatessen Musical 2019

Na programação do verão berlinense, que pelo calendário inicia hoje, pode-se ratificar que Berlim é mesmo logo ali e pode-se também constatar que esse verão ficará na história. 3 Medalhões da MPB passam por aqui. Começando pelo baiano Caetano, dia 25/06. Figura raríssima na capital e, se não me engano, a última (e talvez a única) vez que passou por aqui foi com Gil promovendo o disco “Tropicália” em 1994, show que aconteceu um dia depois do Brasil ter vencido a Copa do Mundo nos EUA. E como o universo às vezes te dá uma rasteira, eu não fui ao show. Estava de empresária do Olodum em turnê pela Europa. Dia 05/07 tem o “Bituca” das Gerais com “Clube da Esquina” que já assisti nos primeiros dias de 2014 no Olimpo da boemia carioca, na Fundição Progresso. Porém, a expectativa de vê-lo tocar no terraço da Casa das Culturas do Mundo em Berlim transborda qualquer horizonte de um cenário anteriormente pensado.

Para fechar com chave de ouro, o autor de “Toda Menina Baiana” volta no segundo ano consecutivo, depois de deixar os berlinenses na secura entre 2011 e 2018, Gil exercita a cartilha de Milton que ensina que “Todo artista deve ir aonde o povo está”. Considerando o estado de saúde de Gil entre 2015 e 2017, essa superação mostra como ele é Gigante!

Por ironia ímpar, os Medalhões chegam aqui num momento em que a Classe Artística se tornou a inimigo número 1 do cidadão mediano e lacaio de Messias.

Para quem precisa de cultura como instrumento de inclusão, identidade e para perceber seu lugar no mundo, Berlim é lugar.

Além disso, aqui tudo é político: a forma de consumir cultura, alimentos, a escolha da sexualidade ou a ânsia de vivê-la sem medo de ser feliz, a forma de lidar com a vendedora da padaria, enfim: a forma de ver o mundo.

Não há um dia de frio gélido, nem chuva fina com temperatura negativa que impeça berlinenses de irem para as ruas protestar contra um ataque homofóbico ou contra a proibição de cachorros sem coleira no lago ou contra a visita do governador do Rio, Witzel, convidado pela Câmara de Comércio para conversar com investidores ou com os tubarões imobiliários e o vertiginoso processo de gentrificação que torna quase impossível conseguir um apartamento em Berlim. A lista é longa. Há sempre algo para protestar, levantar a voz, se posicionar, testar limites, possibilidades.

A resposta a “Por que, Berlim?” já valeria se fosse “somente” pela bicicleta ser muito mais do que um meio de deslocamento de A até a B. Andar de bicicleta (não para somente dar um rolé pelo condomínio) é um forma de ver um mundo, um posicionamento político já que evita a emissão de gás carbônico, mas também um fator de emancipação, algo ligado com a liberdade que Berlim não oferece, mas possibilita você construir a sua.

Quem veio a Berlim e não levou uma surra de horas andando de bicicleta, perdeu o trem da visceralidade que essa experiência, possibilita.

Berlim é sinônimo de Freiheit (Liberdade), também pessoal e isso não é de hoje. Já durante os “Anos Dourados”, (1924-29) época em que Berlim era a terceira maior cidade do mundo e já era solo que acolhia refugiados políticos, artistas, aqueles que queriam se permitir “ser diferente” ou mesmo viver uma vida tranquila, como fizeram nos anos 1970 David Bowie e Iggy Pop,na época em Berlim gozava de Status de uma ilha cercada pela Cortina de Ferro.

Berlim é e sempre foi lugar para ser e estar como já dizia o Frederico II, Rei da Prússia: “Cada um da sua maneira”. Para a cidade marrenta e tinhosa como Berlim é preciso dizer “sim”, todos os dias. Caso contrário, é melhor tentar Paris.

 

O letreiro do barco, diz: “Berlim, você é maravilhosa”. Foto: Fátima Lacerda

Para quem Bolsonaro está apontando essa arma?

Para quem Bolsonaro está apontando essa arma?

Foto: Reprodução

Por Rachel Daniel / Mídia NINJA

Esse é o encontro da fé com o fascismo: uma arma na mão, um corpo – preto, LGBT, feminino, diferente – no chão e homens rindo e celebrando sua vitória. Todos uniformizados, levando o nome de Jesus no peito. É justamente para isso que o cristianismo fundamentalista interessa ao desgoverno bolsonarista: eliminar a possibilidade da existência da multiplicidade, do coletivo, da misericórdia, do amor, da justiça e da liberdade. É a aliança que faltava para a consolidação do projeto hegemônico/único/indivisível de sociedade.

Nós que crescemos no ambiente religioso sabemos que o que o fundamentalismo mais teme é a subversão do que eles definiram como “boa, perfeita e agradável vontade de Deus”. Fora de sua moral e seus costumes, tudo é passível de morte – simbólica e física. Excluem, demonizam, gritam “Comunista”, “gayzista”, “abortista”, “anticristo”.

Dizem que não há de se levantar outra bandeira, se não a de Jesus, a bandeira única que elimina e assassina outras vozes, outros contextos, outras histórias, mesmo sendo o próprio Jesus, na tradição bíblica, que trouxe a luz outras possiblidades de ver e viver a fé.

Se essa fosse uma marcha com Jesus, a quem ele iria de encontro?

A aliança cristofascista não é capaz de se conectar com a premissa do evangelho, mas é capaz de violentar em nome do evangelho. Jesus não os serve para a mutualidade, para a divisão e desapego material, para a misericórdia e para o encontro com o diferente. Jesus só os serve para um projeto de poder, opressão e morte. Não se deixem enganar. O cristofascismo veio para matar, roubar e destruir. A marcha para Jesus nada serve a Cristo, mas a tudo serve para Hernandes, Malafaias, Macedos, Bolsonaros…

Deixo com vocês as palavras do profeta Isaias:

“Grite alto, não se contenha! Levante a voz como trombeta. Anuncie ao meu povo a rebelião dele, e à comunidade de Jacó, os seus pecados. Pois dia a dia me procuram; parecem desejosos de conhecer os meus caminhos, como se fossem uma nação que faz o que é direito e que não abandonou os mandamentos do seu Deus. Pedem-me decisões justas e parecem desejosos de que Deus se aproxime deles. ‘Por que jejuamos’, dizem, ‘e não o viste? Por que nos humilhamos, e não reparaste? ’ Contudo, no dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados.

Seu jejum termina em discussão e rixa, e em brigas de socos brutais. Vocês não podem jejuar como fazem hoje e esperar que a sua voz seja ouvida no alto.

Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor? O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda. Aí sim, você clamará ao Senhor, e ele responderá; você gritará por socorro, e ele dirá: Aqui estou. “Se você eliminar do seu meio o jugo opressor, o dedo acusador e a falsidade do falar; se com renúncia própria você beneficiar os famintos e satisfizer o anseio dos aflitos, então a sua luz despontará nas trevas, e a sua noite será como o meio-dia.

Isaías 58:1-10

Que Ruah tenha misericórdia de nós e nos use para pregar a liberdade e a pluralidade do amor de Deus para os que ainda estão presos nas garras do fundamentalismo.

A resistência LGBT é uma luta política

A resistência LGBT é uma luta política

Com um homofóbico na presidência da República, nosso dever é ir às ruas, apoiar a Parada LGBT e todos os eventos em prol da comunidade, que sofre com os desmandos desse governo

Foto: Mídia NINJA

É impossível precisar o início da luta LGBT no Brasil e no mundo, uma vez que a discussão acerca da sexualidade e identidade de gênero é tão antiga quanto a humanidade. Mas uma coisa dá para afirmar sem medo: a resistência LGBT é rigorosamente uma luta política e é feita de marcos históricos, como toda experiência coletiva.

Se a resistência dos gays, no bar Stonewall Inn em Nova Iorque, contra os absurdos policiais e toda a cultura de repressão marcou a noite de 28 de junho de 1969 para sempre, a luta da população LGBT no Brasil, especialmente neste ano de 2019, fortalecerá ainda mais o debate sobre a questão de gênero e sexualidade no país.

O motivo de eu grifar o ano de 2019 é conhecido por todos. Bolsonaro ocupa o cargo mais importante do Brasil, é declaradamente homofóbico e personifica o retrocesso. Sim, eu sei que é um erro primário, em qualquer debate, reduzir questões sociais, quaisquer que sejam, às pessoas ou experiências individuais. Mas quando se trata deste presidente da República, o “erro” é justificável.

Primeiro porque o que se esperaria de um presidente é que ele deixasse de lado suas convicções pessoais e governasse pelo país e pelo povo. Bolsonaro faz o contrário. Logo que assumiu a presidência retirou a população LGBT das diretrizes de Direitos Humanos. Ele também proibiu o uso de palavras ligadas ao universo LGBT em qualquer tipo de peça publicitária e de divulgação do governo.

Ou seja, pajubá não pode, mas dizer que ter filho gay é falta de porrada pode?

Aliás, o tom homofóbico do presidente influencia alguns lunáticos e preconceituosos, que o apoiam e se sentem autorizados a cometer crimes de ódio. Só para me ater a um caso mais recente, vejam o que está acontecendo com David Miranda, meu amigo e companheiro de bancada, e seu marido, o jornalista Glenn Greenwald. Depois que Glenn publicou pelo site The Intercept Brasil trechos de conversas privadas entre o então juiz Sérgio Moro e procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, entre eles Deltan Dallagnol, o casal sofre inúmeras ameaças de morte. David, inclusive, relatou tudo à Polícia Federal.

O Brasil é o país onde mais se mata LGBTs no mundo, segundo dados Grupo Gay da Bahia (GGB). Só neste neste ano, foram 126 homicídios. Portanto, em hipótese alguma, Bolsonaro poderia dizer tantos absurdos, como ele fez em em abril deste ano quando afirmou que ‘O Brasil não pode ser o país do turismo gay’.

Nosso país, ainda bem, não se resume ao presidente. Um estudo do Sebrae mostrou que o público LGBT é um dos segmentos com maior potencial de turismo no país, e o Supremo Tribunal Federal aprovou, no começo deste mês, a criminalização da homofobia. Além disso, o acúmulo histórico de lutas da população LGBT, com o protagonismo dos trabalhadores, promoveu – e segue promovendo – mudanças significativas em nosso país.

Os pequenos avanços devem ser comemorados nesse mar de retrocessos. E como resistir está no DNA de toda população LGBT, convido a todos a ocupar a Avenida Paulista neste domingo para uma das principais manifestações políticas do mundo, que é a Parada LGBT. Além dela, outros eventos importantes como a 2ª Marcha do Orgulho Trans e a XVII Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de SP também merecem destaque e presença.

Aproveito para fazer um convite especial. Neste sábado, estarei com o deputado federal David Miranda, as codeputadas estaduais Monica Seixas e Erika Hilton, da Bancada Ativista, e outros convidados para um debate sobre a luta LGBT e o governo Bolsonaro. O evento será às 18h30, na sede da APEOESP, em São Paulo. Vamos juntos!

Mercado da maconha medicinal

Mercado da maconha medicinal

Foto: Mídia NINJA

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA – publicou duas propostas de consulta pública sobre plantação de maconha para fins medicinais e venda de medicamentos de maconha no Brasil. A partir do dia 21 de junho, a sociedade poderá apresentar sugestões de alteração da redação das resoluções.

As resoluções da ANVISA referem-se a medicamentos de maconha que poderão ser produzidos e vendidos no Brasil por empresas. As farmácias de manipulação foram excluídas da venda de substâncias da maconha. O conceito de mercado foi usado frequentemente no debate acerca do tema, inclusive sob o argumento de que o aumento da oferta reduzirá o preço desses medicamentos. A raiz do tema é a saúde, mas a questão da maconha agora é do mercado farmacêutico mundial.

Todos os países possuem sistemas de defesa da concorrência, inclusive para se defender de dumping. O Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência é regido pela lei 12529/2011 e é formado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE – e pela Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda. O sistema tem como finalidade a defesa da concorrência e dos consumidores, com a repressão aos abusos do poder econômico. Assim, está vinculado ao objetivo fundamental da República, estabelecido no artigo 3º, inciso II, da Constituição Federal, que é garantir o desenvolvimento nacional.

Na primeira resolução sobre a plantação de maconha para fins medicinais, a ANVISA estabelece uma série de condições de segurança que vão beneficiar apenas investimentos milionários, impedindo que pequenas e médias empresas, assim como associações de cultivo, entrem nesse mercado. Pelo prazo de dois anos, podendo ser renovado, o cultivo terá de ser em sistema fechado em local não identificado, com sistema de biometria, alarme de segurança e de videomonitoramento por 24 horas em todas as partes, dupla porta com fechamento automático por intertravamento, paredes, dutos e portas com material resistente e janelas lacradas com vidros duplos de segurança etc. A segunda resolução tem muitas normas de farmacovigilância para registro de produção, distribuição e venda de medicamentos de maconha nacionais e estrangeiros, pelo prazo de três anos, que deverão ser incluídos no Sistema Nacional de Controle de Medicamentos.

As resoluções inviabilizam a concorrência nacional e beneficiam as transnacionais da maconha. No dia seguinte ao das resoluções da ANVISA, a empresa canadense Conopy Growth anunciou o investimento de 60 milhões de reais no mercado brasileiro da maconha medicinal, prometendo ampliar para 150 milhões de reais.

O mercado brasileiro já está sendo estudado economicamente no exterior e a estimativa é de 5 bilhões de dólares. O cálculo foi feito levando-se em consideração tratamentos para autismo, epilepsia, convulsões, Parkinson, câncer, depressão, ansiedade, insônia e outras doenças e transtornos. Mas, se forem incluídos remédios de maconha para dores crônicas, o mercado pode ser muito maior. O único medicamento de maconha vendido no Brasil é o mevatyl, para esclerose múltipla, do qual uma caixa pode chegar a custar R$ 2.837,40.

O capitalismo periférico é a condição do Brasil. Isso quer dizer que destruímos rochas e enviamos minério para se produzir no exterior placas de aço para nós importarmos. Aqui, só fica a lama de resíduos tóxicos para matar nossos rios e a população asfixiadas. Não estou falando de socialismo da maconha, pois ainda nem começamos a tocar nas estruturas, no sentido de reduzir nossa terrível desigualdade social. Não estou falando de reforma agrária para plantar maconha.

Depois de tanta luta pela legalização da maconha no Brasil, o que não podemos admitir é um capitalismo periférico da maconha. Temos de plantar maconha ao ar livre, aproveitando que somos um “gigante pela própria natureza”, onde tudo o que se planta, dá! Dessa maneira, será possível fazer nosso medicamento de maconha aproveitando a longa experiência que temos na matéria. Vejamos, por exemplo, o Dr. Carline, grande médico octogenário, um ícone desta luta no Brasil.

A maconha é nossa!

Assista o programa Fumaça do Bom Direito de André Barros

 

 

O caminho da minha (pan)sexualidade

O caminho da minha (pan)sexualidade

Eu sempre soube que gostava de mulheres. Mas foi cedo também que aprendi que isso era motivo de piada. Aos 11 anos, durante o intervalo da escola, um garoto (branco hétero) entrou na sala e viu uma amiga minha sentada no meu colo. Espalhou pra escola toda que a gente estava transando. Foi então a era do bullying. Eu não era apenas uma das poucas pretas do colégio, mas agora também era sapatão.

Eu entendi então que era isso, não havia como fugir disso, eu era sapatão.

Não importa se eu tinha desejo por homens também, eu era sapatão.

Primeiro ano do ensino médio, 15 anos. Me interesso por um cara. Ele se interessa por mim. E então começamos a namorar. Só que minhas amigas, minhas companhias nas matérias eletivas, meus interesses, parte de como eu vestia – era tudo “de sapatão”. Com certeza não a caminhoneira clássica, mas a mana que negava os vestidos, escondia o corpo (alô gordofobia!) e tinha cabelo colorido. Certo dia uma das garotas com quem eu andava percebeu que eu namorava um cara. E disparou na rodinha “pra quem se dizia lésbica há um mês né… Tá aí, louca por um cara”. Tomei aquilo como extrema ofensa, eu louca por um cara. Eu, sapatão, louca por um cara.

Na época eu já fazia terapia, em quadro clínico depressivo. Nas sessões eu estava perguntando pra minha psicóloga porque eu tinha dificuldades de me relacionar sexualmente com esse cara. Eu tinha desejo, vontade, mas me faltava coragem. Terminamos depois de um ano de selinhos sem emoção. Meus próximos relacionamentos foram com garotas, com elas não havia inibição sexual, apesar de parte de mim ainda estar enfrentando o fato de que o selo de lésbica futurista não era mais meu.

Começo a ler sobre bissexualidade enquanto conheço outro cara. Entendia mais o meu corpo, sabia o que queria fazer com ele e aos 17 anos, quis mais. Quis demais. Terminou comigo no nosso aniversário de dois meses porque eu só queria beijá-lo e não o amava. Hoje sei que só namorei com ele porque era isso que se fazia na minha cidade quando você queria dar pra alguém.

Dois meses depois conheci o típico “amor da minha vida” adolescente. Ela era nordestina, morava em São Paulo, judia. Eu a amava profundamente, fizemos planos de morar juntas quando entrássemos na faculdade. Descobri com ela o que era sexo, o que era intimidade emocional, o que era entrega. Apesar disso, foi um relacionamento turbulento, ela se sentia profundamente culpada por gostar de mulher, temia o castigo divino e vivia tentando inventar desculpas pra não se assumir. Vez ou outra me contava que ficava com garotos pra provar que não era lésbica. Terminamos depois de dois anos.

Segui minha pesquisa sobre bissexualidade. Parecia mais próximo do que eu sentia, mas culturalmente não me identificava. Pensei que era um problema da minha formação – hétero-compulsória, vinda de cidade provinciana. Deixei de lado.

Bandeira do Orgulho Pan – Rosa: Atração pelo feminino. Amarelo: Atração por não binários, agêneros, gênero fluídos (e tudo mais) Azul: atração pelo masculino.

De qualquer forma, eu estava focada em outra coisa: perder a virgindade. Já havia transado com outras garotas, mas na minha cabeça enquanto eu não tivesse sexo com penetração vaginal com um homem, eu ainda era virgem. Me faz rir e chorar escrever isso hoje, ao perceber estas e outras situações lesbofóbicas as quais me submeti.

O problema é que eu não conseguia atrair homens. Eu não me sentia interessante para eles, nem fisicamente, nem emocionalmente. Eu já morava em casas coletivas, na iminência de colocar a NINJA no ar quando uma as mulheres da comunidade me deu o conselho que mudou a minha vida: “Não é porque você é assim que você não merece amor”. Assim significava um monte de coisa que eu não tinha feito as pazes ainda. Assim gorda. Assim preta. Assim não-hétero.

Ao fim, transei com um cara. Foi bom. Bem bom. Transei com outras meninas. Foi bom, bem bom. Mesmo assim, sair do armário como bi parecia distante. Achei que quanto mais eu lesse, mais eu me identificaria, mas não bateu. Depois de um ano engatei um namoro com um cara. Tivemos uma relação intensa, um casamento, aberto. Me relacionei com outras pessoas no meio tempo, em sua maioria mulheres. Pensei em deixá-lo por uma delas, mas ela não quis, rs.

O importante é que essa foi a época de superar um trauma. Nas casas coletivas eu estava num lugar onde eu poderia ser eu mesma. Então eu me aprofundei nos símbolos que já eram meus. Eu sou uma mulher. Eu sou uma mulher negra. Eu sou uma mulher negra gorda. E ao longo do tempo, mais do que ser estas coisas, eu as admirava. Eu me achava bonita, sexy, atraente. E achava pessoas parecidas comigo bonitas, sexys, atraentes. E ali, nas pesquisas de pessoas por quem eu me interessava, eu descobri o termo pansexual. Parecia doido demais. Deixei de lado.

2015, 25 anos. Encontro Latinoamericano de Mulheres, Cochabamba, Bolívia. Estávamos dividindo entre nós quem faria a mobilização de cada um dos grupos de mulheres e eu fiquei com diversidade sexual. Quando me vi preparando para falar, entrei em pânico. Falaria o que, contaria o que, com que moral eu convocaria essas mulheres para falar de suas sexualidades? Então me despi na frente delas, desde “achei que não merecia os homens” até “sou uma mulher bissexual”. Terminei em lágrimas e postei a fala no meu facebook. Foi, para minha família e círculo estendido de amigos, a minha saída do armário. Me lembrei então que meu pai já havia demonstrado preocupação para minha mãe quando era mais nova – e se ela for lésbica? A resposta nunca veio.

Ao fim, a fala pública foi um teste/comprovação, eu já sabia que não me identificava como uma mulher bissexual, mas ia falar o que? Numa sala repleta de feministas, das campesinas às trans, ia dizer o que?

Volto pra mesa de estudos. Volto a ler sobre pansexualidade. Paro porque meu preconceito não engolia o “gosta de pessoas”. Era hippie demais pra mim, cirandeiro demais pra mim, milenium demais pra mim. Mesmo assim, meus quatro planetas em capricórnio berravam por organização. Se não é isso, é o que?

Paguei minha língua nos próximos meses. A começar porque finalmente entendi que penetração não era uma prática sexual que me apetecia. Desde sempre não sentia prazer naquilo e honestamente, era uma performance que estava me começando a deixar ansiosa, a ponto de levar a dor. E quando isso sai da equação, os papéis de masculinidade são colocadas à prova. Se não é pra meter, pra que serve o homem (e, convenhamos, algumas mulheres)?

Depois, outra constatação – dos aplicativos de pegação, aos likes no instagram até os crushs da vida real – entendi que meu “gosto” não era linear. Mulheres cis masculinazadas , homens cis afeminados, pessoas não binárias, pessoas trans, dentro e fora do padrão magro-branco-heteronormativo. De novo, todas as que pessoas que eu aceitei depois que eu me aceitei.

Aí é que está, eu de fato, gostava de pessoas. No sentido que a genital delas não era o centro da minha atração sexual e romântica. Sexo é muito importante pra mim, ainda é parte determinante na minha autoestima, mas ter quebrado com a forma normativa de transar me aproximou muito mais de mim. Comecei a entender que me encaixaria numa sexualidade que conversasse com o conceito de quebrar os padrões. Minha existência quebra o padrão do que é desejo (não do que é fetiche!) e logo quero amar pessoas que entendam isso.

Não me restou nada a não ser me conciliar e me orgulhar de ser uma mulher pansexual.

Arte: Carol Rosseti

E de lá pra cá tem sido uma estrada louca. De ouvir de mulheres lésbicas que até ficariam comigo, mas não me namorariam porque eu era promíscua e insaciável. De ouvir de homens que tudo bem, porque eles não tinham ciúme quando eu ficava com mulheres, só com homens. De pessoas LGBT que não acreditavam porque eu nunca tinha ficado publicamente com uma pessoa trans. De pessoas em geral me dizendo que isso era só uma frescura pra não falar bissexual.O que me faz perceber que, mesmo que eu não seja bissexual, vivemos os preconceitos e privilégios parecidos.

Apesar de tentar educar as pessoas (afinal, pansexualidade é um termo que se “populariza” no fim dos anos 90 e tem sua bandeira lançada no tumblr, não é minha gente), o princípio é entender que a pansexualidade pode ser vivida de várias formas, muda a cada pessoa.

Para alguns, não há diferença entre bissexualidade para pansexualidade. Enquanto alguns entendem que a segunda não reconhece diferença entre gêneros, outros pensam que a primeira pode sentir graus diferentes de atração a depender deles. Mas este texto não é sobre uma determinação definitiva sobre a diferença entre estas duas sexualidades (mas este talvez seja).

Este é o texto para contar que a minha trajetória não foi óbvia e que eu vivo a sexualidade na qual eu me vejo.

Procuro desconstruir meu desejo da mesma forma procuro me desconstruir. Pansexualidade para mim é sobre amar gordos, pretos, indígenas, deficientes, trans… Também é sobre ser classe média e desejar pessoas pobres (não o estereótipo de “cafa”, mas sim os que são julgados esteticamente desagradáveis), é sobre ver marombados como pessoas e não como “gado”, é sobre não achar um homem cis menos atraente por ele ser afeminado, ou uma mulher trans menos atraente por ter “traços masculinos”, é sobre não ridicularizar práticas sexuais que fujam à regra, é sobre dar valor a todos os corpos – desde que eles não me queiram morta.

Isso não quer dizer que bissexualidade não pode ser tudo isso também.

Esta não é uma carta de juramento, vocês ainda podem me ver com um homem branco hétero padrão (deixemos o debate do relacionamento inter-racial para outro momento).

Esta é uma carta de amor a mim mesma, a aceitar minha sexualidade com todas suas complexidades possíveis.

Esta é uma carta de uma mulher pansexual.

Eu, uma mulher negra gorda e pansexual.

Obs: Ponham a porra da minha letra na abreviação de vocês, obrigada.

“Há um embate claro no Brasil em relação ao processo cultural”, diz Ricardo Cravo Albin

“Há um embate claro no Brasil em relação ao processo cultural”, diz Ricardo Cravo Albin

Para ele, os avanços tecnológicos são assustadores e, independente do governo conservador atual, a arte sempre estará comprometida às causas sociais.

Foto: Marcelo Costa Braga

Há décadas o musicólogo Ricardo Cravo Albin, de 78 anos, luta em defesa da cultura popular brasileira. É considerado por muitos o maior pesquisador da MPB. Sua carreira ganhou destaque principalmente quando assumiu a presidência do Museu da Imagem e do Som (MIS) na década de 1960, no Rio de Janeiro, onde instituiu uma política de preservação da memória por meio de gravações audiovisuais com os pioneiros do samba carioca e outros músicos brasileiros.

Autor de diversos livros, pesquisador, produtor de programas de rádio e televisão, é fundador e presidente do Instituto Cravo Albin, na Urca, zona do sul do Rio, onde ocorreu a entrevista. O local é repleto de relíquias da música nacional, seja com objetos, como um violão do sambista Cartola e uma sanfona de Luiz Gonzaga, ou com imagens de época, fora o vasto acervo sobre MPB. Na conversa, o estudioso fala sobre a importância do samba na identidade cultural brasileira. Para ele, os avanços tecnológicos são assustadores e, independente do governo conservador atual, a arte sempre estará comprometida às causas sociais.

Você pode contextualizar hoje a importância do samba, levando em consideração que já foi um ícone nacional em termos de cultura?

Quem não consegue imaginar que a definição mais clara do temperamento brasileiro seja o samba jamais entenderá o Brasil. Como disse Gilberto Freyre, ninguém pode entender o Brasil sem um dado fundamental: a miscigenação. A possibilidade concreta que existiu no Brasil que o redime, o constrói e o torna original no contexto das nações da intercomunicação racial que aconteceu quase com exclusividade dentro do nosso país, que é quase um continente. A Argentina é um país absolutamente insosso, como muitos outros, inclusive os EUA, que não absorveu como nós a interacionalidade. Portanto, é fundamental que o gênero mais qualificado fruto dessa miscigenação que é o samba seja considerado o gênero do temperamento nacional.

Você tem um trabalho consolidado em defesa da memória da cultura popular, por que ela é tão importante?

Primeiro por um costume e hábito decorrente de uma visão antecipatória e antecipada em minha idade para aquilo que é fundamental: a preservação do passado e de fontes. Me dediquei desde a adolescência no colégio Pedro II a preservar discos. Naquela ocasião, os meus preferidos eram os da maior cantora da época, que foi a ngela Maria, e acaba de cumprir 90 anos morta. Esse tipo de amor inicial para colecionar os discos me trouxe a maior definição daquilo que me fez cumprir toda uma vida. Isso se acentuou de uma maneira absolutamente inegável, conquistadora e definida, quando assumi a presidência do Museu da Imagem e do Som (MIS), do Rio de Janeiro. Na época não era nada nem ninguém conhecia, e a partir de 1965 entendi com as gravações dos pioneiros do samba, que tive o privilégio de titular, que a memória realmente viva é a que preservava a miscigenação. Razão dos pioneiros do samba terem aberto todas as alas daquilo que o MIS fez no Brasil de preservação da memória audiovisual dos seus pioneiros mais ilustres, definidores em relação à cultura e ao comportamento brasileiro.

Tem alguns pesquisadores, inclusive sambistas, que analisam como um marco a chegada da indústria cultural com as mídias de massa. Como você enxerga essa relação da evolução tecnológica frente a cultura popular?

Evidentemente participo de uma geração determinada e fixa, na qual participei na condição de certa liderança cultural, afinal assumi o MIS, inventei os depoimentos e juntei esse processo impondo ao Brasil a necessidade da memória audiovisual, pois não foi a Fundação Getúlio Vargas que fez como alguns dizem.

Foto: Marcelo Costa Braga

 

 

“Como participante de uma geração em que de fato trabalhei e criei, acho que os tempos contemporâneos são muito assustadores para minha intimidação de desconhecimento.

 

A minha absorção desses novos veículos é muito penosa, me sinto como um analfabeto em relação a esse tipo de possibilidade de entendimento. Isso faz com que tenha muita angústia em relação aquilo que não sei como atingir, me julgo impotente.

É um relato pessoal em relação às ferramentas, mas como você vê o impacto na cultura?

O impacto é total, tão grande que como pessoa sempre participativa das coisas fico fazendo esse preâmbulo de angústia, desconhecimento e analfabetismo. É uma avalanche de muitas informações e impossibilidade de compreensão. Não sou eterno, tenho uma idade já avançada, que pode limitar de uma maneira muito dramática essa minha busca de entender esses novos tempos que estão chegando e me são assustadores.

Como você enxerga o samba hoje em termos de qualidade musical?

Uma amiga muito querida quando eu fundei o MIS criou um conselho de MPB, que foi composto por Jacob do Bandolim, Sérgio Porto, Lúcio Rangel, Edson Carneiro, etc. A Eneida de Moraes, cronista paraense, que fez marca na história do samba e do Salgueiro, dizia uma coisa que eu absorvi a vida inteira: o tempo anda para frente, as pessoas que perderem o bonde do tempo estão simplesmente impossibilitadas de seguir para frente. Estou realçando esse meu exemplo pessoal porque é existente e penoso.

Aqui no seu Instituto tem certo destaque algumas fotos do músico João do Vale. Como você avalia a relação da política com a arte? Ela se faz necessária, é importante?

Qualquer manifestação popular tem, querendo ou não, alguma correlação maior ou menor, talvez até transcendental sem possibilidade de identificação com rigor, com a vida que é política. Existe dentro da história da música e do samba, que começa como crônicas de época. O primeiro samba do Donga, que frequentava esta casa, o Pelo Telefone, é cantado com insistência pela pessoa que mais homenageei nesta casa. Sua viúva, Vó Maria, que participou de toda aquela época, a enterrei no cemitério do Caju aos 103 anos de idade há muito tempo, e ela sempre dizia esse tipo de verdade: o samba registra a vida, e no caso do sambista popular no começo registrou a sua época. O Pelo Telefone é uma crônica de época descritiva com minúcias, inclusive apontando dados políticos e de entendimento censório muito significativos. Lutei contra a censura durante 15 anos e me rendeu um livro sobre como o cutelo viu e caiu sobre a cultura do povo, chamado Driblando a Censura, e comprovei que proibir a alma popular é uma tolice. Ela vai de qualquer maneira para frente, como a vida, a ética.

Aquilo que é considerado hoje imoral, impuro ou pornográfico, anti-social, vai para frente. As coisas mudam para muitos de uma maneira assustadora, era inimaginável ouvir certas coisas de hoje há 380 anos. A dança da garrafa, as mulheres dançando com uma gestualística de sexo explícito, era inteiramente impossível. As coisas mudam e não adianta proibi-las, porque vencem a censura e a proibição.

Foto: Marcelo Costa Braga

Há um desconforto por parte da classe artística e muitos intelectuais em relação a conjuntura atual, qual a sua opinião sobre isso?

Me referia a censura de costumes, de comportamentos pessoais, mas em relação a política sempre existiu. Não de uma maneira absolutamente declarada, como quando veio a música de protesto claramente social assumida. Nesses anos 50 e depois, quando começaram os festivais protestando publicamente, já não com sambistas de origem mas com sambistas classe média universitários. A partir dos Centros de Cultura Popular da UNE tinha toda uma definição política de protesto com atuação socialista, comunista ou de esquerda em geral. Esses anos foram muito politizados de forma clara não imposta, mas absorvida pela MPB. Deu inclusive um fenômeno que foi a participação de Geraldo Vandré no clássico Para não dizer que não falei de flores, que eu estava de júri, e vi toda uma visão de participação política de um público enorme basicamente universitário contra a ditadura da época, contra uma política de direita. Investiram injustamente contra Vandré, com Tom Jobim e Chico Buarque com a canção A Sabiá. Houve esse tipo de divisão, um caso muito cruel porque investia sobre dois grandes autores que, apesar de terem ganhado o festival com uma canção romântica, era uma canção de exílio só que disfarçada, enquanto Vandré era explícito um revolucionário de esquerda.

Foto: Marcelo Costa Braga

Mas e a conjuntura atual?

Protesta através do rap contra os costumes sociais, a vida do dia a dia, liberando toda uma sexualidade e sensualidade totalmente inexistente há 300 ou mil anos antes.

E também uma liberação social pessoal também liberando a parte política.

Desde Cazuza e outros da época do rock tem canções assim, eles insistiram e ganharam em relação ao protesto político muito contundente. Isso ainda existe hoje muito através dos rappers, seja com qualidade artística ou não. É música de qualidade? Sim e não, tudo depende de uma visão geral de um futuro que pode talvez tomar algum partido em relação a estética ou ética política num futuro. É muito difícil analisar qualquer coisa hoje.

Muitos artistas têm se manifestado contra o governo Bolsonaro, principalmente sobre os cortes das verbas para a cultura.

Eles têm toda razão, afinal o que aconteceu no Brasil é a surpreendente assunção da direita explícita que evidentemente joga todo o seu jogo, inclusive incide sobre uma cultura que sempre é mais à esquerda.

Há um embate claro no Brasil em relação ao processo cultural, é um governo de direita contra uma cultura que é sistematicamente mais comprometida às causas sociais.

Você está por dentro do samba de hoje?

Só estou por dentro do samba tradicional, acredito que os velhos sambistas ainda são muito visitados. Gosto em primeiro lugar de Martinho da Vila, meu compadre cuja filha caçula, Alegria, foi batizada por mim. Gosto muito também do Noca da Portela, Monarco, Paulinho da Viola e, sobretudo, do filho de um querido amigo meu que foi um dos maiores sambistas do país, que é o Diogo Nogueira. Uma cantora excepcional é a Roberta Sá, que está fora das antigas, como a Alcione que é um portento como Beth Carvalho, Elza Soares, Clara Nunes, que são insuperáveis. Continuam a causar uma devoção muito forte no espírito das pessoas.

Histórias de quem trabalha nos bastidores do futebol

Histórias de quem trabalha nos bastidores do futebol

Larissa Piauí | Copa FemiNINJA

Foto: Divulgação Mineirão

No Brasil, a cultura do futebol ainda é majoritariamente masculina e machista dentro e fora de campo. Ambiente que falta apoio financeiro e estrutura para mulheres, mas que sobra preconceito e é mais raro ainda ocuparem cargos na preparação física, administração, diretoria.

No interior ou na capital a história não muda muito, pouca estrutura para mulheres nos estádios e representatividade quase ausente nas diretorias e administrações dos clubes são fatos recorrentes. No entanto, a conquista de espaços que antes não eram possíveis encontrar mulheres mostram isso:

Samara Chagas Baccon, preparadora física do Rolândia Esporte Clube na cidade de Rolândia, norte do Paraná, conta a experiência de ser a única mulher a ocupar esse cargo no Paraná e como conquistou este espaço com respeito mesmo diante a dúvidas e obstáculos. Por ser mulher, Samara, enfrenta dificuldades que que homens não precisam passar, como o fato dos estádios não terem banheiro destinado para as mulheres nos vestiários.

 

Isabela Cavalheiro, assessora de imprensa do Paraná Soccer Technical Center – PSTC em Londrina no Paraná, relata o dia dia no clube que tem tradição de ter mulheres como jornalistas e foco em revelar talentos para o futebol nacional e internacional. Apesar de ter confiança e respeito do clube, ainda é um exceção na área e precisa conquistar cada vez mais espaço.

 

A história está mudando e o fato dessas mulheres estarem trabalhando no futebol e com o futebol, já é um sinal disso. O caminho está sendo trilhado aos poucos e mesmo assim já abriu a portas para muita gente, mas ainda é longo e o que é possível fazer neste momento é dar maior visibilidade e credibilidade para as mulheres no futebol.

As mensagens secretas da Lava-jato: crime e castigo

As mensagens secretas da Lava-jato: crime e castigo

Arte: João Pinheiro

Acompanhamos, nesta semana, com atenção e perplexidade, a série de reportagens do jornal investigativo “The Intercept Brasil”. Liderados pelo mesmo jornalista que revelou Edward Snowden ao mundo, Glenn Greenwald – vencedor do Prêmio Pulitzer de Jornalismo – a competente equipe revelou, agora, bastidores de chats do aplicativo Telegram que dão conta de uma suposta trama envolvendo procuradores da República, com atuação na Operação Lava-jato, e o então juiz federal e hoje ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

Imagine você – ou qualquer cidadão comum – sendo acusado por um crime que você alega não ter cometido. Daí, lá pelas tantas, você descobre que o juiz responsável por julgar o seu processo está de conchavo com o promotor ou procurador de justiça/da República responsável pela sua acusação. É de se imaginar que o resultado deste julgamento seria a sua condenação, independente de sua inocência ou culpabilidade.

A série, que já conta com seis reportagens até o momento, traz fortes indícios daquilo sobre o que muitos falavam: a suposta parcialidade do então juiz da Lava-jato.

Ao serem confrontados com tais notícias, os procuradores e o ex-juiz passaram do inicial questionamento quanto à legitimidade dos meios de obtenção dos diálogos (“É hacker!”) para a negação (“Os conteúdos foram adulterados”); daí, para a desculpa (“Foi descuido meu”); para, enfim, o desdém (“Se quiserem publicar tudo, publiquem. Não tem problema”). As sucessivas e conflitantes versões são uma pista da veracidade dos conteúdos. Ao afirmar terem sido vítimas de ataques de hackers, demonstrou-se também o supra-sumo do cinismo e da ironia: quem sempre se utilizou de vazamentos seletivos padecendo da mesma prática.

Não restando comprovado se houve ação de hackers ou não, mesmo que tenha havido, uma coisa é uma autoridade vazar um conteúdo sigiloso para a imprensa, prática de que a Lava-jato sempre se utilizou. Outra coisa é a imprensa repercutir um conteúdo vazado.

Entre uma conduta e outra, existe uma diferença gigantesca. A primeira é criminosa, delito grave. A segunda, não: está fundamentada na liberdade de imprensa e no sigilo da fonte.

Sobre a validade de tais informações como elementos de prova, se comprovada a ilicitude de sua obtenção, elas não serviriam para instruir um processo – administrativo disciplinar ou penal – que procurasse punir Moro, Deltan e demais procuradores pela prática das condutas descritas. É a tal “teoria dos frutos da árvore envenenada” (fruits of the poisonous tree): uma prova obtida ilicitamente contamina todo o processo, maculando-o de nulidade. A prova obtida ilicitamente não pode, sob nenhuma hipótese, prejudicar um réu.

Porém, a recíproca não é verdadeira: pelo princípio da “primazia da verdade”, da “busca pela verdade real”, do “in dubio pro réu”, tais informações, mesmo que obtidas ilicitamente, seriam perfeitamente aceitáveis como prova de nulidade dos atos praticados por Deltan, Moro e demais em desfavor de outrem (no caso, em desfavor de Lula), tanto para inocentá-lo quanto para anular um julgamento. A prova obtida ilicitamente pode, sim, beneficiar um réu.

O fato é que as supostas condutas atribuídas a Deltan Dallagnol, Sérgio Moro e Cia Ltda, reveladas na série de reportagens em questão, se comprovadas como autênticas, configuram atitudes típicas de bandidos togados, pois fariam prova de que teriam agido segundo motivações político-partidárias e ideológicas. Ilegalidades teriam sido praticadas para perseguir políticos com os quais não simpatizavam, forjando provas, combinando ações entre acusador e julgador, dentre outros crimes. São práticas de colusão, que é o conluio ou conchavo entre uma das partes (no caso, a parte acusadora) e quem julga. Se comprovadas, claro estará que o então magistrado feriu os princípios da independência, da isenção e da imparcialidade do juiz, da igualdade entre as partes e da paridade de armas. Uma grave perversão ao Estado Democrático de Direito.

O combate àcorrupção é importante e necessário.

Mas, não se combate corrupção malferindo a Constituição, passando por cima de direitos e garantias fundamentais de investigados, indiciados e réus ou fazendo tábula rasa das prerrogativas dos advogados.

No clássico romance de Dostoiévski, de quem tomo emprestado o subtítulo do artigo, o protagonista, Raskolnikov, acreditando-se destinado a um grande futuro que lhe é subtraido pela sua condição de miserabilidade, assassina uma agiota idosa, que matratava a própria irmã, para lhe retirar os bens. Acreditava ele que, sendo nobres os motivos para o cometimento do crime (livrar a irmã da vítima dos maus tratos e obter a condição material que lhe era necessária para atingir o seu destino), não seria um ato condenável e, mesmo contra lei, não lhe seria próprio o castigo.

Aqui reside o grande questionamento moral do romance e que se aplica a Moro e Dallagnol:

Ainda que os criminosos acreditem que o ilícito que cometeram seja moralmente correto – e mesmo que tenham sido hábeis, até o momento, para ocultar as provas e não serem descobertos – devem eles ser castigados?

As consequências práticas de tais revelações ainda são incertas e imprevisíveis. Segundo os jornalistas que participam desse tour de force, ainda há muito a ser revelado: só teriam analisado 1% de todo o conteúdo que lhes foi entregue. O ministro caindo ou não, Lula sendo liberado ou não, uma coisa é certa: Moro pode dizer adeus a sua futura e prometida vaga no STF. Depois dessa, não passa em uma sabatina no Senado.

Se, por um lado, ainda é cedo para prever todas as consequências dos acontecimentos, por outro, não é cedo para concluir que os diálogos revelados parecem fazer valer a máxima segundo a qual por trás de todo falso moralista, de todo paladino da justiça, de todo arauto da moralidade, vestal da honestidade, palmatória do mundo, chicote do povo, sempre reside um canalha.

No romance de Dostoiévski, atormentado psicologicamente por seus dilemas morais, Raskolnikov confessa o crime, é preso e cumpre sua pena. Se a vida imita a arte ou a arte imita a vida, a nós só resta aguardar o desfecho do presente caso.

Execução por no mínimo 15 tiros não pode ser tipificada como crime banal

Execução por no mínimo 15 tiros não pode ser tipificada como crime banal

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A execução de Anderson Carmo, articulador político e marido da Deputada Federal Flordelis precisa ser investigada com cuidado e veemência pelo poder do Estado do Rio de Janeiro. As indicações de assalto e desavença familiar devem sim ser investigadas, mas há uma possibilidade em especial que também deve figurar no hall de possibilidades: a de crime político.

Além de execução bárbara e caso essa hipótese se concretize, seria mais um caso a se somar a tantos outros crimes políticos realizados no Estado nos últimos tempos, sendo necessária a investigação profunda da relação de criminosos narco-milicianos nesses crimes.

As recentes prisões em São Gonçalo e as recentes movimentações no território demostram a grande instabilidade de segurança na região e a acintosa disputa por território. Os grupos de milicianos atuam de forma consorciada, agindo inclusive com quadrilhas de outros territórios como o já conhecido Escritório do Crime, com forte atuação na zona oeste do Rio de Janeiro.

Os dois principais grupos narco-milicianos da região – Quadrilha do Engenho Velho e Porto Pequeno – objetivamente pretendem ampliar sua atuação e pra isso é necessário o alinhamento das forças políticas na região, por isso é fundamental avaliar a execução de Anderson tendo essa disputa como contexto.

Uma execução por no mínimo 15 tiros não pode ser tipificada como crime banal, sem motivação ou intenções claras. Nesse sentido, é importante avaliar a dimensão de intimidação à ação política dessa família, que se mostrava claramente na disputa eleitoral ao cargo majoritário da cidade em 2020.

Com base política na Câmara de Vereadores, Anderson Carmo e o vereador Misael, seu filho, articulavam a pré-candidatura de Flordelis à Prefeitura e tal fato deve sim ser levado em consideração na apuração do crime, uma vez que é fundamental para a sobrevivência da natureza da ação desses grupos a penetração na vida pública.

O mapa de figuras públicas executadas publicado em 2016 pelo El Pais Brasil retrata o cenário de violência e atuação da “nova” política fluminense. No período pré-eleitoral foram assassinadas 11 figuras políticas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

A partir da CPI das milícias na Assembleia Legislativa do Rio em 2008, presidida por Marcelo Freixo e com relatoria de Gilberto Palmares, uma nova dimensão é descortinada no Rio, o aparelhamento do Estado por milicianos, associações de moradores e executivo do Rio de Janeiro. Tanto Câmara de Deputados quanto Câmaras de Vereadores. Há milicianos eleitos em todo o Estado do Rio de Janeiro.

Mas por que o interesse em assumir cargos legislativos e no executivo?

Além do aparato de cargos e benefícios do Estado, a milícia opera em atividades econômicas ilegais (tráfico de drogas e armas, roubo de carros, venda de proteção policial, exploração de jogos ilegais, cafetinagem, tráfico de influência, construção civil, contrabando e outros) e precisam objetivamente do braço do Estado para se profissionalizarem e não sofrer retaliações em suas operações. A milícia precisa do Estado (Exército, polícia militar, casas legislativas, etc) para funcionar.

Somado a isso, há de ser perceber que há em Gonçalo outras dimensões da disputa, que inserem inclusive os últimos prefeitos e a disputa por terra, interesses locais, principalmente entre famílias tradicionais, que giram ao redor do nome municipal em 2020.

Nesse sentido, é fundamental a avaliação da dimensão dos interesses políticos em questão e a garantia absoluta dos direitos políticos de qualquer cidadão.

Sem dúvida o Governador Wilson Witzel é figura central na apuração não só desse caso, mas em todos os últimos crimes políticos recentes no Estado do Rio de Janeiro. Ao invés de criar um inimigo abstrato que deve ser exterminado, o então governador tem algumas respostas a dar nesse momento, respostas estas que podem ser o limiar entre o Estado democrático de direito e a completa barbárie: quem mandou matar Anderson Carmo? Quem mandou matar Marielle Franco? Patrícia Accioli?

O Estado do Rio submerso em sangue.

Léa Campos: A Primeira Árbitra do Mundo é Brasileira

Léa Campos: A Primeira Árbitra do Mundo é Brasileira

Por Amanda Monte / Copa FemiNINJA

Foto: Arquivo

Asaléa de Campos Fornero Medina, mais conhecida como Léa Campos, é uma mineira de 74 anos que foi a primeira árbitra de futebol profissional do mundo reconhecida pela FIFA. Também é formada em Educação Física e Jornalismo. Mora atualmente em Nova York, nos Estados Unidos.

Sua paixão por futebol começou na época do colégio, quando levava uma bola de meia para jogar com os meninos muito contrariados, pois futebol feminino foi proibido por lei de 1941 a 1979. Anos depois, na época que se formou em jornalismo e trabalhava em rádios mineiras com jornalismo esportivo, concorreu e ganhou diversos concursos de beleza como “Rainha do Carnaval”, “Rainha do Futebol Amador”. Depois da primeira formação, graduou-se em Educação Física e fez o curso da Escola de Árbitros do Departamento de Futebol Amador da Federação Mineira de Futebol , depois de muitos impedimentos começou a trabalhar como árbitra.

Durante o período da ditadura foi presa diversas vezes por ser pega treinando jogadoras mulheres, mas não desistia. Em 1971, teve uma redenção, quando apitou no México um jogo entre Itália X Uruguai. A partir daí surgiram mais oportunidades e começou a ganhar maior destaque nos países europeus e no continente americano. Porém esse maior reconhecimento durou pouco, pois Léa sofreu um acidente de ônibus em 1974, que deixou a árbitra dois anos numa cadeira de rodas e teve que abandonar a profissão. Depois, continuou o tratamento e exames nos Estados Unidos e entre idas e vindas , conheceu seu atual marido o jornalista colombiano Luis Eduardo Medina, com quem se casou e foi morar no país norte-americano.

No ano de 2001, Luis, escreveu a biografia da esposa chamada “ As regras podem ser quebradas” em espanhol. Porém no Brasil, até hoje, nenhuma editora se interessou por uma versão em português do livro.

Depois da recuperação, a ex-árbitra continuou a trabalhar com o esporte através do jornalismo esportivo (algo que ela nunca abandonou) . Atualmente é colunista do jornal Brasillian Press, porém escrevendo sobre política e sempre que pode faz palestras.

 

Foto: Arquivo

Brasil deu primeiro passo para regulamentar maconha medicinal; e agora?

Brasil deu primeiro passo para regulamentar maconha medicinal; e agora?

Demanda por importação de produtos e pressão popular foram primordiais para decisão da ANVISA

Foto: Mídia NINJA

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou por unanimidade nesta terça, 11, as propostas de regulamentação do cultivo de maconha para fins medicinais e científicos, e dos termos para produção, distribuição e comercialização de medicamentos à base da planta. Apenas empresas serão autorizadas a fazer o cultivo.

A decisão foi publicada no diário oficial nesta sexta, 14, e daqui a 7 dias a sociedade civil terá dois meses para dar suas contribuições e, posteriormente, debatê-las em duas audiências públicas, que devem definir os termos das linhas de ação propostas pelo órgão em sua deliberação.

A regulamentação da cannabis para fins medicinais é pauta da instituição há pelo menos 2 anos, quando foi criada a agenda de trabalho até 2020, em que a maconha aparecia como um dos principais pontos. Essa urgência se deve ao crescente número de pedidos de importações de medicamentos à base da erva.

Fonte: Proposta de Consulta Pública / Anvisa

“Mais de 6 mil pessoas pediram importação desses produtos, e a leitura da ANVISA, que ao meu ver é acertada, é que esses produtos importados são caros e de baixa confiabilidade. Então, há interesse da agência em liberar uma produção nacional a partir das empresas que têm interesse”, avalia Renato Filev, doutor em neurologia e neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Essa demanda popular, de famílias e instituições, que precisam da maconha para seu uso medicinal, foi o grande propulsor dessa pauta, adiada desde 2017 pela ANVISA, que prometeu naquele ano o início do processo de legalização da erva para uso terapêutico.

“A manutenção da situação atual poderá levar ao agravamento das consequências apresentadas, tais como: judicialização, o aumento da demanda para autorização excepcional de importação de produtos e a dificuldade de acesso a produtos registrados”, salienta na proposta.

Foram muitos anos de luta para que em 2015 o órgão tomasse a primeira medida nessa direção, quando aceitou a importação de medicamentos com o princípio ativo canabidiol, e dois anos depois o primeiro remédio, o Mevatyl.

Os preços desses remédios, no entanto, são impraticáveis para a maioria dos brasileiros, chegam a mais de 2 mil reais por mês em alguns casos. Estratégias como a judicialização de casos para cultivo caseiro através de habeas corpus preventivo não são incomuns, pois tornaram-se uma medida eficiente para quem necessita do tratamento.

Com a regulamentação, a agência argumenta que uma produção nacional irá colocar mais produtos no mercado e consequentemente a tendência dos preços é cair, tornando-o mais acessível para a população e gerando uma indústria capaz de atender a crescente exigência, em sua maior parte de portadores de epilepsia, autismo, dores crônicas, mal de Parkinson e alguns tipos de câncer.

“A ANVISA deve estar ciente do processo histórico que culmina com essa regulamentação do cultivo de cannabis, reconhecendo o protagonismo dos pacientes na introdução desse uso no Brasil e todo o saber que essas pessoas acumularam ao longo do tempo. Antes da ação estatal ou da vontade empresarial, vêm a necessidade das pessoas que usam a cannabis para tratar as mais diversas moléstias, é essa causa humanitária que deve ser guia desse processo regulatório”, aponta Emílio Figueiredo, advogado e consultor jurídico do Growroom, maior fórum de cultivadores do Brasil.

Como vai ser isso?

Foto: Mídia NINJA

Vamos aos detalhes: foram duas propostas, chamadas ‘Resoluções da Diretoria Colegiada (RDC), 1) regulamentação do cultivo para uso medicinal e científico; 2) registro, procedimentos e monitoramento de medicamentos. A cúpula, que votou favorável por unanimidade, é formada por 4 pessoas, em que cabe a presidência à William Dib, responsável pela relatoria da votação.

Dib já havia antecipado à Folha de S.Paulo os pontos do processo, dando a principal informação que cultivadores brasileiros, hoje na ilegalidade, esperavam saber: a regulamentação é para quem? A resposta é: grandes empresas.

Conforme dito anteriormente, desde 2017 a agência se debruça sobre esse tema e formou-se um grupo técnico para analisar qual seria o modelo da regulamentação brasileira da erva. Os especialistas viajaram para 4 países em que há mercado legal de maconha medicinal: EUA, Canadá, Israel e Portugal.

“No Canadá, eu mesmo tive a honra de visitar algumas facilities de produção, com cultivos indoor e em greenhouse e ver com meus próprios olhos as reações dos técnicos aos locais e processos. (…) Por tudo que vivenciei na época, apostava que teríamos algo na linha do Canadá, dado a ótima impressão que os sítios de produção das empresas que visitamos deixaram nos técnicos da ANVISA”, narra em artigo o neurocientista e empreendedor, Fabrício Pamplona, em artigo essencial sobre essa história toda.

E foi isso mesmo. O Brasil segue o Canadá em seus primeiros anos de legalização, iniciada em 2001 (triste sacar como estamos atrasados), e dá prioridade para grandes empresas fazerem o cultivo, através da determinação de um conjunto de regras complexas, caras e rígidas para a produção da cannabis.

Determina-se nas resoluções que toda a fabricação deve ser realizada in door, ou seja, em ambiente fechado, apenas por pessoa jurídica. A venda só pode ser feita para instituições de pesquisa, fabricantes de insumos farmacêuticos e medicamentos, e fica vetado para pessoa física, distribuidoras e farmácia de manipulação.

Além disso, haverá um rígido monitoramento de toda a produção, desde o plantio, até a colheita, secagem, embalagem, armazenamento e venda. E mais, como uma espécie de “RG”, que tenha rastreabilidade do produto do produtor ao transportador, drogaria e paciente.

Como assegurar isso? “É conta de matemática”, garante Dib para a Folha. “Haverá cotas de produção e, com base nisso, eu sei que ali produzimos mil caixinhas. Com isso, ou tenho mil receitas, ou tenho alguém preso”.

O plano de segurança será duro e cada aspecto, mesmo os básicos, serão inspecionados pela ANVISA, como planta arquitetônica, proteção ambiental, antecedentes criminais dos trabalhadores, não pode haver identificação da empresa, acesso ao local somente com sistema biométrico, portas e janelas duplas, materiais da construção do prédio reforçados e monitoramento por vídeo 24h, 7 dias por semana.

Não terá venda da planta em si, nem de outros produtos, fica restrita a medicamentos na forma de cápsula, comprimido, pó, líquido e solução, somente para pessoas com doença grave, debilitante, sob ameaça de vida e sem nenhuma outra alternativa terapêutica. Dib ainda salientou, a fim de evitar conflitos com os atuais políticos conservadores que estão no poder, de que não está liberando a planta, mas sim medicamentos com sua composição.

De passagem: maconha no Brasil é realmente um perigo, é preciso um prédio nos moldes de prisão federal para cultivar um remédio.

E para pesquisar vai valer?

Para pesquisa, os requisitos de segurança são os mesmos, acrescidos de autorização da agência, projetos específicos com 2 anos de duração, passível de renovação, e relatórios trimestrais.

“Para pesquisar você vai precisar de investimentos de agências de financiamento públicas, que na situação atual do Brasil é possível que não haja interesse. Com isso, é possível que para a universidade realizar pesquisas tenha que ter incentivo de alguma parceria público privada, que acaba sendo atrelado a uma diminuição da capacidade de pesquisa”, aponta Filev.

“Essas pesquisas, em geral, vão ficar voltadas para interesses de regulação, de registros desses medicamentos, mas para uma abrangência maior, em áreas básicas, como psicofarmacológicas, agronomia e botânica, fica mais mais difícil”, completa o pesquisador.

Que mercado é esse?

Como mencionado no início, há uma demanda de pelo menos 6 mil pessoas importando medicamentos do exterior, mas a capacidade desse mercado alcança cifras de fazer inveja e atiçar a cobiça de muitos investidores que, com o passo dado pela ANVISA essa semana, já cresceram os olhos para o Brasil e abriram as carteiras.

Gráfico retirado do artigo “Um mercado regulado para os grandes”, de Fabrício Pamplona, já citado nesse texto.

Com potencial para alcançar quase 5 bilhões de dólares no país, esse mercado já vem fazendo bilionários em todo o mundo e agora vê por aqui uma nova oportunidade de fabricar mais dinheiro.

Um dia após a decisão da agência, a empresa canadense Canopy Growth anunciou que fará um investimento de 60 milhões de reais em terras tupiniquins, com promessa de expansão para 150 milhões no futuro, através do seu braço farmacêutico, a Spectrum Therapeutics. A organização já tem investimentos na Colômbia, vizinho que está à nossa frente na regulamentação da cannabis medicinal.

E o governo com isso?

Foto: Mídia NINJA

Já sabemos que o governo Bolsonaro não é o mais simpático a qualquer tipo de flexibilização em relação às drogas ilícitas, ao contrário, em seu pouco tempo de presidência, já está marcado pelo endurecimento da lei de drogas, através do seu Ministro de Cidadania, Osmar Terra, autor das proposições que, entre outras coisas, passa a facilitar internações compulsórias de usuários de drogas e aumenta a pena para crime de tráfico.

Nessa toada, ele não deixou barato. Terra chamou a ANVISA de irresponsável e que a está indo “contra a lei, contra as evidências científicas e contra o Congresso e o Governo Brasileiro”. Sua opinião foi seguida pelo Conselho Nacional de Medicina (CNM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que alertaram para “o alto risco envolvido nessa ação”. De acordo com as organizações, “o uso de Cannabis sativa L. in natura e seus derivados não garantem efetividade e segurança para seus pacientes”. Apesar disso, a CNM aprovou em 2014 a indicação de CBD para crianças com epilepsia. Vai entender.

Além disso, a repórter Natália Cancian, da Folha de S.Paulo, noticia no podcast Café da Manhã desta quinta-feira, 13, que apesar do caráter independente da agência, ou seja, imune à qualquer intervenção do governo, em breve uma cadeira da diretoria da ANVISA deve estar vaga e Bolsonaro deve nomear um novo nome, que, se alinhado aos seus interesses, pode pedir vistas do processo e adiar ainda mais sua tramitação.

 

Moro contra Lula

Moro contra Lula

Foto: Agência Brasil

Antes de toda essa tecnologia de celulares com vídeos, mensagens e áudios flagrando crimes, as provas diretas desses fatos eram muito raras. Objetivamente, as provas de um crime são diretas ou indiretas. As formas dessas provas podem ser testemunhais, documentais e agora também por meio de vídeos, mensagens e áudios de celulares e computadores em geral.

Quando uma testemunha diz ter visto fulano desferir três tiros na cara de beltrano e este morrer, trata-se de uma prova direta de um crime. Uma prova que sempre foi muito rara. A grande maioria dos crimes é desvendada através de provas indiretas, como quando uma testemunha vê alguém correndo com uma faca na mão perto de outra morta a facadas. Hoje, temos vídeos, mensagens e áudios que gravam um crime com todas as suas circunstâncias. Daí, a única defesa é provar a falsidade das mensagens.

O juiz Sérgio Moro conversava sobre os processos contra o Lula com o órgão de acusação, o procurador da República Dallagnol. Um juiz não pode ser parcial, ele não pode ter parte. Para ser justo, o juiz precisa julgar com imparcialidade.

O vazamento de mensagens de celulares sem autorização judicial é crime e, o autor, sendo descoberto, deve ser condenado neste crime. Mas as mensagens, que não foram contestadas por seus interlocutores, demonstram que o então juiz Sérgio Moro aconselhava, conversava, discutia decisões de todos os tipos sobre a liberdade de pessoas com o acusador. O juiz atuava como assistente de acusação e o procurador como assistente de condenação.

Moro e Dallagnol tramaram a condenação de Lula, isso está demonstrado nas mensagens.

São provas irrefutáveis e diretas desses fatos, que não podem ser contestados, exceto com a prova da falsidade das mensagens.

Sobre a Lava Jato, a corrupção, ainda mais no capitalismo periférico brasileiro, é uma regra. Com raríssimas exceções, ninguém acumula mais de 50 milhões trabalhando, em toda obra bilionário de engenharia existe comissão, isso faz parte do negócio. A única forma de esconder essa corrupção endêmica do capitalismo é blindando seus crimes sem investigá-los e se, por algum acidente, alguma coisa vier a público, impedindo sua divulgação através da cumplicidade da mídia de mercado. É evidente que todos os presidentes do Brasil na história sempre souberam disso tudo.

Agora, para criminalizá-los como qualquer pessoa, precisamos demonstrar os fatos através de provas. Lula foi condenado por um triplex que nunca foi registrado em seu nome e a reforma da cozinha de um sítio de um antigo amigo dele. Esses são os fatos provados. Esses fatos, data venia, são fracos, como disse o procurador Dallagnol em troca de mensagens com o juiz Sérgio Moro sobre a denúncia que seria oferecida contra Lula. Mais fracos ainda para condenar a 12 anos de cadeia em regime fechado um Presidente da República. Nunca na história desse país foi condenado criminalmente um Presidente da República.

Para finalizar, basta jogar um pouco de xadrez para saber que você precisa derrubar as peças que estão na frente do Rei. O rei nesse tabuleiro é o Lula, que venceria facilmente Bolsonaro. O xeque-mate disso tudo foi a nomeação do ex-juiz Sérgio Moro para Ministro da Justiça e da Segurança Pública da República Federativa do Brasil.

Rio de Janeiro, 14 de junho de 2019

Assista ao programa Fumaça do Bom Direito

Taça das Favelas coloca futebol de várzea no centro

Taça das Favelas coloca futebol de várzea no centro

Primeira edição do torneio em São Paulo mobiliza milhares de jovens jogadores das periferias

Foto: Matheus Akio

A primeira edição da Taça das Favelas em São Paulo colocou a várzea no noticiário, nas capas dos jornais e, depois de quase 20 anos, em transmissões ao vivo na televisão. Jovens de 14 anos ou mais, de diversas periferias da capital, tiveram prestígio e destaque tanto quanto jogadores badalados dos grandes clubes brasileiros.

Promovido pela Central Única das Favelas, CUFA, do empresário Celso Athayde, um dos nomes mais fortes na articulação e desenvolvimento de atividades culturais, esportivas e de assistência social nas quebradas de todo o Brasil, o campeonato superou as expectativas dos organizadores.

Torcida organizada da Favela 1010, time da zona oeste que disputou a final masculina. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

As fases seletivas da Taça das Favelas mobilizaram cerca de 2880 competidores, nas categorias feminina, igual ou acima de 14 anos, e masculina, de 14 a 17 anos. 96 equipes lutaram para se destacar e alcançar o título do torneio, que teve a grande final no Estádio do Pacaembu, entre Complexo Casa Verde e Paraisópolis, entre as meninas, e Parque Santo Antônio e Favela 1010, nos meninos, com vitória de Casa Verde e PSA.

Esses números revelam a grandiosidade do futebol de várzea de São Paulo, mas não a realidade em que vivem esses jogadores, muitas vezes sem estrutura para jogar e treinar, sem recursos para transporte, materiais e para manter-se no esporte, mesmo entre aqueles que chegaram longe na competição.

“Quando começamos, não tinhamos lugar para treinar. Eram só 7 meninas no início, hoje temos uma escolinha, que é o PS9, Complexo Casa Verde, em uma base de 90 meninas das comunidades próximas”, conta a treinadora e presidente do Complexo Casa Verde, Daiane Silva. “Treinamos todos os dias, temos pessoas que colaboram com a gente com materiais, pãozinho, lanche, suco, mas nada de dinheiro”.

Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

A falta de verba para custear o mínimo é o principal problema da grande maioria das equipes, principalmente das femininas, em que a visibilidade e apelo popular é menor, tornando ainda mais complicado parcerias para investimentos em infraestrutura.

“Só de pisar aqui, chegar aonde a gente chegou, temos que nos aplaudir. Foi na garra, na vontade, no coração e força de vontade, porque treinar a gente não treina, o campo de várzea não é como o campo profissional, tudo isso pesa”, explica a jogadora e artilheira de Paraisópolis, Marluce Aureliano. “A gente precisa de incentivo e apoio, porque sem isso não chega em lugar nenhum”.]

Jogadora de Paraisópolis, Marluce é artilheira da equipe na competição. Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

Apesar disso, milhares de pessoas atravessaram a cidade até o Estádio do Pacaembu e fizeram uma linda festa, mostrando que não é só time grande que tem torcida organizada. Mesmo as equipes eliminadas no decorrer dos jogos, marcaram presença para celebrar o futebol de várzea.

“A minha favela, de 32 equipes, chegou em terceiro. Foi uma vivência incrível, não tenho o que falar, foi algo inesquecível na minha vida, vamos levar pra sempre”, comemora a treinadora Kenia Paloma, da Favela Parque Santa Madalena. “As meninas foram eliminadas nas semis, mas foi uma conquista enorme, por isso que eu trouxe uma torcida nossa aí para vibrar nosso terceiro lugar, porque nós somos de favela mesmo”.

Jogadoras de Paraisópolis se consolam após derrota na final. Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

“Não temos estrutura nenhuma, é fazendo rifa, arrecadando dinheiro para comprar fardamento, bola, material, transporte para ajudar as meninas, porque a maioria delas não tem como se manter. A gente conseguiu levar a equipe para Taça das Favelas, e a classificação em terceiro lugar para nós é uma vitória, estamos aqui como se tivéssemos ganho o primeiro lugar, porque se você ver a dificuldade que a gente passa na nossa favela, de 32 equipes chegar em terceiro é uma vitória”, avalia a treinadora.

Pisar pela primeira vez no estádio do Pacaembu não é exclusividade somente dos jogadores, muitos torcedores conheceram pela primeira vez o complexo na final do torneio, uma união entre torcida e time que, atualmente, não se vê nem nos grandes clubes de futebol.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

“É um orgulho ver a nossa quebrada chegar em uma final dessas, representando todas as comunidades. A gente tem pouca ajuda, tem uma estrutura até legal, conseguimos jogar bola lá e em outras comunidades, só que aqui é outro nível, a molecada entrando no estádio, é um sonho para todos, não só para meu irmão, que está jogando pelo Rio Pequeno, mas para todas as favelas. Espero que, independente de quem seja, suja um novo craque para o Brasil nessa Taça das Favelas”, diz o torcedor da Favela 1010 / Rio Pequeno, Jefferson Roberto.

O sucesso da competição foi celebrado por Celso Athayde, que se disse surpreso com o tamanho do futebol de várzea em São Paulo, e já prometeu a realização da segunda edição da Taça das Favelas em 2020, oportunidade de ouro para a garotada que sonha em um dia pisar nos maiores campos de futebol do mundo e para o poder público entender demandas dos clubes amadores, estreitar laços e criar políticas públicas para desenvolvê-los.

Foto: Matheus Akio / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

 

Acompanhe as jogadoras da Seleção no Instagram!

Acompanhe as jogadoras da Seleção no Instagram!

Por Karen Rodrigues / Copa FemiNINJA

Em épocas digitais, seguir mulheres referentes nas redes sociais é de lei. E pra dar uma forcinha na febre Seleção Feminina, compartilhamos aqui – É hora de seguir a equipe do Brasil no instagram!

Cristiane Rozeira – Atacante – @crisrozeira

Se é a dona e proprietária do jogo de estréia que você procura, suas buscas acabaram!

Marta Silva – Atacante – @martavsilva10

Aqui você fica por dentro dos eventos que ela participa – lembre-se que ela é embaixadora global da Boa Vontade da ONU. De quebra, conheça seus cachorrinhos Zoe e Zeca que também contam com um perfil no instagram.

 Aline Reis — Goleira – @alinereisfutbol

A Aline Iniciou sua carreira no clube brasileiro Guarani, no qual jogou por 7 anos e teve passagem pelo Ferroviária. Agora você acompanha ela no insta.

Bárbara — Goleira – @barbaragol1

Fora do Brasil ela já atuou na Suécia e Alemanha e desde 2017 está no Kindermann, em Santa Catarina.

Letícia Izidoro — Goleira – @leticiaizidoro94

A  Letícia sempre defendeu clubes do futebol nacional, hoje mantém contrato com o Corinthians, onde foi campeã brasileira em 2018.

Letícia Santos — Lateral – @2leticiasantos

Você pode vê-la em campo pelo SC Sand, no Campeonato Alemão de Futebol Feminino e no Brasil esteve no XV de Piracicaba e São José.

Tamires Cássia Dias de Britto — Lateral  – @tata_dias10

Jogando na Dinamarca pelo Fortuna Hjørring, a Tatá é medalhista de Ouro em Toronto 2015. Há boatos de que ela está vindo para o Brasil para a próxima temporada!

Mônica Hickmann Alves — Lateral – @monicahickmann

Depois de passar pelo Orlando Pride (EUA) e Madrid (ESP) a Monica está agora no Corinthians!

Kathellen Sousa Feitoza — Zagueira – @kathellensousa

https://www.instagram.com/p/Bx5XyJiocfH/

Atualmente joga pelo Bordeaux, da França e durante a juventude esteve no Louisville Cardinals e UCF Knights.

Daiane — Zagueira – @daianemedeiros_07

Contratada pelo Paris Saint-Germain desde 2018, ela foi uma das últimas convocadas para seleção, depois da lesão do Fabi Simões

Tayla Carolina — Zagueira  – @tayla.92

https://www.instagram.com/p/ByerBN9hmYm/

Tem passagens por clubes nacionais como o Santos, onde conquistou diversos títulos, dentre eles o campeonato da Copa Libertadores da América. Hoje está no Benfinca (POR).

Thaisa Moreno — Meia – @thaisamoreno

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Game day ⚽️🙏🏼

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A volante é natural de Xambrê/PR e é jogadora do Milan, participando de seu segundo mundial.

Formiga — Meia

Formiga a brasileira que já participou de todos os mundiais não têm um perfil (😢), mas para nossa felicidade ela está sempre em fotos no perfil de suas companheiras de seleção.

Andressinha — Meia – @andressinha95

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🤩⚽️ . . . 📸@renerfoto

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Nova, mas com história!  Segunda Copa, jogou pelo Kindermann de 2010 até 2015 e disputou a Libertadores de 2018 pelo Iranduba (AM). Atualmente está no Portland Thorns FC.

Luana — Meia – @luanabertolucci10

https://www.instagram.com/p/ByI3uiqBlef/

Atualmente defende o Hwacheon KSPO WFC, da Coreia do Sul e a é sua primeira disputa em uma Copa do Mundo pela seleção feminina principal.

Andressa Alves — Atacante – @andressaalves9oficial

No Barcelona desde 2017, já passou pelo Boston Breakers (EUA) e o Montpellier (FRA). É uma das medalhistas de ouro do Pan 2015.

Debinha — Atacante – @debinhaa7

Parte do North Carolina Courage (EUA) desde 2017, ela já foi do  Avaldsnes (NOR) e Dalian Quanjian (CHI). Nos times brasileiros, já passou pelo São José e Portuguesa.

Bia Zaneratto — Atacante  – @biazaneratto

Bia está na seleção desde a última Olimpíadas e hoje está no time Sul Coreano Hyundai Red Angels.

Raquel Fernandes — Atacante – @raquelfernadez07

Começou a carreira no Atlético Mineiro, aos 15 anos. Desde 2014, defende a Seleção Brasileira Feminina, quando disputou a Copa América do Equador.

Geyse Ferreira — Atacante – @geyse_ferreira

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⚽️🙏🏽🇧🇷

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A Geyse está hoje no clube português Benfica, onde marcou 16 gols nos seus primeiros quatro jogos.

Camilinha — Lateral – @camilinha94mp

Estreando em Copas do Mundo, a meia-atacante é parceira de Marta no Orlando Pride.

Ludmila da Silva — Atacante – @ludmiladasilva09oficial

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⚽️💪🏿❣️

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Em 2017, ela se tornou a primeira brasileira a jogar pelo Atlético de Madrid, da Espanha, onde deve ficar até 2020.

 

Quem são as últimas 10 melhores jogadoras do mundo FIFA

Quem são as últimas 10 melhores jogadoras do mundo FIFA

Por Emília Sosa | Copa FemiNINJA

Fotos: Ailura, Andreas Nilsson, Fernando Frazão/Agência Brasil, Noah Salzman

O FIFA Best Awards é um evento anual que acontece desde 1991, que visa premiar os melhores personagens de diferentes categorias do futebol, que inclui melhor jogador, melhor goleiro, melhor técnico masculinos e, melhor jogadora e melhor técnica feminina. A votação acontece em diferentes etapas, com 25% da participação dos torcedores através de votação online, e os outros 75% dividido entre técnicos das federações filiadas à FIFA, capitães das seleções e um pequeno grupo de jornalistas esportivos desses países.

Apesar de ser um grande e tradicional evento no mundo futebolístico, a categoria feminina começou a fazer parte desta votação somente em 2001 quando aconteceu a ascensão do futebol feminino.
A primeira mulher a vencer esse prêmio foi a americana Mia Hamm, conquistando seu segundo troféu no ano seguinte. Mas, o nome mais citado entre as premiações foi o da brasileira, Marta, vencendo seis vezes o prêmio, incluindo o último, no ano passado.

Segue abaixo uma relação das 10 melhores jogadoras do mundo FIFA dos últimos dez anos:

Marta – Brasil (2018, 2010, 2009 e 2008)

A maior vencedora do prêmio nos últimos 10 anos é a brasileira Marta que possui 4 dos últimos dez títulos e, seis em toda a sua história. Participando de sua quinta Copa do Mundo, ela saiu do interior de Alagoas para conquistar o mundo. Precisou viajar três dias de ônibus para ter a sua primeira chance de jogar em um time feminino, e foi no Vasco da Gama que encontrou essa oportunidade. Apesar da pouca valorização do futebol feminino no país, Marta se consagrou a melhor jogadora de futebol do Brasil. Atualmente faz parte do elenco do Orlando Pride, clube dos Estados Unidos.

Lieke Martens  – Holanda (2017)

Uma jovem jogadora holandesa que se consagrou quando foi protagonista ajudando a Seleção Neerlandesa na conquista da Eurocopa feminina em 2017. Recebeu o prêmio de melhor jogadora do mundo pela FIFA no mesmo ano. Atualmente atua no Barcelona na Espanha.

Carli Lloyd – EUA (2016, 2015)

Norte-americana que já venceu o prêmio de melhor jogadora do mundo FIFA duas vezes consecutivas. Atuou diretamente na conquista do terceiro Mundial dos Estados Unidos em 2015 que aconteceu no Canadá. Marcou três gols do meio de campo na vitória dos Estados Unidos contra o Japão na final do campeonato. Hoje Carli joga pelo Sky Blue FC dos Estados Unidos.

Nadine Kessler – Alemanha (2014, 2013)

Após as duas conquistas como melhor jogadora, em 2017, Nadine foi nomeada conselheira da UEFA para incentivar o desenvolvimento do futebol feminino na Europa, com a função de supervisionar o esporte e contribuir para o crescimento da modalidade. Com 28 anos de idade, Nadine teve uma aposentadoria precoce devido a uma lesão.

Abby Wambach – EUA (2012)

Fez parte da seleção dos Estados Unidos que ganhou o ouro nas Olimpíadas de 2004 em Atenas e 2012 em Londres. Bastante conhecida pelos seus gols de cabeça, inclusive um dos mais memoráveis foi contra o Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo Feminina. Abby está aposentada.

Homare Sawa – Japão (2011)

Venceu o prêmio após conquistar o título da Copa do Mundo de Futebol Feminino em 2011 com o Japão, onde ganhou o título de melhor pontuadora. Hoje com 40 anos Homare defende o INAC Kobe Leonessa, clube de futebol feminino japonês.

NOVOS RUMOS
Com a grande divulgação da 8ª Copa do Mundo de Futebol Feminino, que acontece neste ano, a FIFA decidiu incluir mais duas categorias para no prêmio The Best do futebol feminino. Agora a melhor goleira também será premiada além da escolha da seleção com as melhores jogadoras da temporada.

Todos esses feitos são grandes conquistas para as jogadoras de futebol, que durante anos viveram às sombras do futebol masculino, muitas vezes jogando em situações precárias e sem o reconhecimento merecido. A Copa do Mundo Feminina de 2019 veio para quebrar paradigmas e abrir novos caminhos para o futuro de futebol feminino no mundo.