Quando alguém vem defender política proibicionista, um contra-argumento sempre certeiro é questionar a posição do álcool na guerra às drogas. Colocá-lo em comparação com a maconha, por exemplo. “Ah, mas essa é batida!”. Sim, porque é real. E, infelizmente, continuará sendo enquanto a política de drogas não for mais racional e humana, ao invés manter lucros e estruturas de poder, de violência, de corrupção. Afinal, porque uma droga é proibida e a outra, não? Quando o papo é álcool, estamos falando da substância mais usada do país, presente no seio de grande parte das famílias brasileiras. E, sim, de uma droga muito mais destrutiva que a maconha: a mais ligada aos danos de saúde ligados à morte, segundo o 3° Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2015 e publicado em 2017.

Considerado um dos maiores sobre o tema já feitos no Brasil, o levantamento ouviu 17 mil pessoas com idades entre 12 e 65 anos, em todo o Brasil. Segundo o documento, mais da metade da população brasileira nessa faixa etária declarou ter consumido bebida alcoólica alguma vez na vida. Aproximadamente 46 milhões (30,1%) informaram ter bebido pelo menos uma dose nos 30 dias anteriores e cerca de 2,3 milhões de pessoas apresentaram critérios para dependência de álcool nos 12 meses antes da pesquisa. Os dados também mostraram que 4,4 milhões de pessoas discutiram com alguém sob efeito do álcool nos 12 meses anteriores à entrevista, sendo 2,9 milhões de homens e 1,5 milhões de mulheres. 

Já sobre a percepção quanto ao risco das drogas, os pesquisadores da Fiocruz apontaram como preocupante o dado de que o brasileiro atrela mais risco ao crack (44,5%) do que ao álcool (26,7%), sendo que o álcool segue no topo do ranking da “substância mais associada, direta ou indiretamente, a danos à saúde que levam à morte”. Afinal, além de doenças decorrentes do próprio alcoolismo, como a cirrose, sabemos que são vários os danos sociais, como acidentes, atropelamentos, casos de agressão, violência doméstica, e por aí vai. 

Na mesma pesquisa, a maconha aparece também como a mais utilizada, mas entre as ilícitas: 7,7% dos brasileiros afirmaram já ter usado pelo menos uma vez na vida. A erva foi utilizada por aproximadamente 2,2 milhões de indivíduos, pelo menos cinco vezes mais do que qualquer outra substância. Sobre a percepção dos brasileiros, 57,2% acha que o uso espaçado (uma vez por mês) representa um risco grave, enquanto 31,7% consideram leve/moderado. E aí, para fechar a série de pesquisas, vamos a uma última pesquisa, também de 2015, publicada na revista científica norte-americana “Scientific Reports”, que mostrou que a maconha é quase 144 vezes menos mortal do que o álcool. Ou seja: vemos de longe que o parâmetro para liberar uma droga e proibir outas não é saúde nem individual nem pública. 

É claro que o uso abusivo de qualquer substância deve ser tratado com responsabilidade, e com a maconha não é diferente. Por isso é tão importante falar em redução de danos, cultivo caseiro e conversar abertamente sobre o assunto, sem preconceito seletivo para usuários de uma ou outra substância. Agora, é claro: muitos de nós, maconheiros, sabem, pela experiência, que os danos da erva são mais controlados que os do álcool. É mais incomum ver alguém, depois de fumar baseados a noite inteira, bater na esposa, resolver arrumar uma briga, sair dirigindo de forma imprudente pelas ruas. 

A parada é que temos, lado a lado, as duas drogas mais usadas do país. Uma, ainda que perigosa, lícita e socialmente aceita. Controlada por empresas gigantescas, apoiada por agentes públicos e programas estatais. A outra, ilícita, entregue às mãos do tráfico, no centro de uma política racista, genocida e carcerária. Usada como trampolim político para conservadores, com usuários presos e estigmatizados e temida pela indústria farmacêutica por seu potencial medicinal.

Quais, então, os critérios para que a forma como o poder público lida com álcool e maconha sejam tão diferentes? A quem interessa que os tratamentos sejam assim e assado? Se agora o interlocutor não souber responder, talvez reflita que a proibição defendida por ele pode não ser baseada nos direitos à saúde e à segurança pública. E, quem, sabe, passe a questionar se outros modelos não poderiam ser mais justos e respeitar as escolhas de cada cidadão. 

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