Tem uns clichês que enchem o saco, mas outros a gente repete com vontade. É como o que diz que a “legalização começa em casa”, quase uma variação maconheira de “não adianta fazer yoga e não cumprimentar o porteiro” ou a “mudança vem de dentro”. Se você fuma maconha, com certeza já deve ter ouvido isso em alguma rodinha, antes de algum debate entusiasmado ou de alguma experiência transformadora de alguém que se explanou com a família. E é bem verdade que trocar ideia sobre maconha – sobre as drogas, na verdade – dentro da própria casa é uma etapa crucial do ativismo, que pode ampliar visões e melhorar até as relações a médio/longo prazo, ainda que no começo não seja fácil.

Para mim, foi super difícil bater esse papo. Meus pais eram muito caretas. Meu pai mais, na verdade, eu tinha muito medo de falar sobre isso com ele. Minha mãe também era, mas foi passar um tempo na Alemanha, quando minha irmã teve filho na Alemanha e conviveu com pessoas que fumavam e viviam a vida normalmente, como o namorado dela. Quando ela voltou, já com essa experiência, já deu para conversar de outro jeito. Depois que eu consegui ter esse debate, ficou mais fácil conversar sobre tudo com a minha mãe. Mudou tudo, abri o jogo, pude começar a cultivar.

Mas acho que hoje é um papo bem mais fácil do que há 20 anos, como foi no meu caso. Todo dia tem uma notícia, uma descoberta nova da cannabis. São incontáveis reportagens, vídeos, livros , filmes e experiências que podem ser usadas como gancho ou argumento para uma conversa. Hoje, ficou mole introduzir a discussão sobre a maconha no ambiente familiar. Sem contar que os pais de hoje são da minha geração (tenho 40) ou pouco mais velhos, então muitos são os maconheiros ou ex-maconheiros também. São mais cabeça aberta para falar isso com os filhos, muitos têm até o problema contrário – como conversar sobre maconha com filhos caretas?

O lance é que não poder falar com sobre não devia ser algo só para quem tem pais e mães maconheiros. Sabemos que ainda há muito preconceito e que, por isso, muita gente deixa de encarar o desafio mais próximo de suas vidas, enquanto muitas vezes se banca no ativismo em muitas outras frentes. Mas a legalização em casa deve ser base. E as famílias têm que entender que ouvir os filhos falar sobre drogas têm que ser algo comum como ouví-los falar sobre sexo, por exemplo. 

Da mesma forma que os pais têm um papel educativo sobre a vida sexual dos filhos, também devem ter sobre a relação de seus filhos com as drogas, conversando sobre prevenção ao abuso, redução de danos e outros assuntos. Da mesma forma que devem respeitar a escolha sexual de seus filhos, devem acolher e tentar entender as escolhas dos filhos quando o papo também é esse, principalmente se o recorte for a maconha. 

“Legalizar em casa” é antes de tudo um alívio muito grande. Ainda que você não seja aceito de início, para de esconder o que faz, de levar uma vida dupla, de engolir as próprias palavras. Assume as suas próprias verdades e atitudes – e a partir daí, o debate costuma florescer. 

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