Em momentos onde o espírito do mundo entra em colapso as pessoas tendem a estar aquém de si mesmas . Quando os sonhos são substituídos pelo medo e pela destruição, ou mesmo quando os ideais são trocados por distopias, a tendência é que façamos menos do que aquilo que realmente poderíamos fazer. Com isso, as potências transformadoras se reduzem. Mas, na última quarta-feira, imersos em uma apoteótica e iluminada performance político-cultural, Caetano Veloso e convidados mobilizaram afetos e imaginários, abrindo o calendário de ativismo no Brasil de 2022 e inaugurando o ano político que vai transformar as vidas de todos brasileiros.

Milhares de pessoas atenderam ao chamado de um dos maiores artistas vivos em todo o mundo que, com a vitalidade invejável de seus 80 anos, liderou o maior ato em defesa do meio ambiente já realizado na história da capital brasileira. O chamado “Ato Pela Terra” ocupou a Esplanada dos Ministérios e reuniu artistas, ativistas, comunicadores e movimentos sociais contra o chamado “Pacote da Destruição” que pretende arrasar com o meio ambiente, ampliar o massacre dos povos indígenas e envenenar o prato de mais de 210 milhões de brasileiros. A mobilização também deu uma grande contribuição para a estética das manifestações políticas ao incorporar um espetáculo com performances artísticas e instalações a um ato. Povos originários, tradicionais, de terreiro, cristãos, jovens, ativistas LGBTQIA+, além de uma enorme diversidade de bandeiras e lutas, participaram do hibridismo irretocável deste ato-performance e contribuíram na retomada da esperança em um Brasil que vai ser feliz de novo. O verdadeiro espírito do Brasil estava presente, fortalecido e feliz com aquela ode à força transformadora da cultura brasileira.

A articulação, comandada por Caetano Veloso e dirigida pela atriz e produtora Paula Lavigne, mostrou o real poder de nossa cultura implicada na política ao ocupar as páginas dos jornais mais importantes do mundo, garantir minutos nos horários mais disputados da televisão brasileira e dominar as redes sociais nas vozes dos maiores e mais importantes veículos da mídia independente, em especial a Mídia NINJA. Este último, que também atendeu ao chamado de Caetano e do qual tenho a honra de ser colunista e colaborador, sabe bem como reunir política e cultura em doses exatas e atuais. Com uma tradição de duas décadas na produção cultural, o mesmo time que lidera a Mídia NINJA participou ativamente da produção deste ato que me fez lembrar outro também mobilizado pelo mesmo time: o Existe Amor em SP. Força mobilizadora que colaborou com a vitória de Haddad à prefeitura de São Paulo, em 2010.

Caetano e seus convidados apontaram diversas incoerências do Brasil. Entre elas, um cenário onde milhões de pessoas voltaram a um lugar de insegurança alimentar no país que também é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Também é importante destacar o reposicionamento da cultura como eixo central na reconstrução dos afetos para alcançar transformações sociais urgentes ao Brasil. Outra contribuição exemplar foi dada por Paula Lavigne: durante o Ato Pela Terra, Lira votou a urgência do PL 191 que quer garantir a mineração em terras indígenas. Neste momento, Paula pediu às milhares de pessoas que apontassem seus celulares para o Congresso repudiando Lira e o projeto. Uma aula sobre como enfrentar os “Podres Poderes” que querem nos matar “de fome, de raiva e de sede”, parafraseando o cicerone deste acontecimento.

Assistir a Caetano Veloso, Paula Lavigne, Mídia NINJA, artistas e milhares de pessoas levantando-se contra a destruição do planeta, lembrou-me Vladimir Safatle quando diz que “a verdadeira tarefa política é a reconstrução dos afetos”. Este ato histórico nos distancia de discursos que constroem o medo através da destruição. O que aconteceu na última quarta, em Brasília, não apenas inaugura os atos de 2022, mas nos faz acreditar que podemos impedir o sequestro de nossos símbolos nacionais e que sabemos quais sao as mais importantes responsabilidades globais que o Brasil carrega: a defesa do meio ambiente e da vida. Caetano, sintetiza tudo isso em uma frase: “O Brasil tem alma, o Brasil tem gente, o Brasil resiste”. Nós sabemos: o Brasil tem jeito e será feliz de novo.

OBS: A primeira frase deste artigo é a transcrição de um comentário do filósofo Vladimir Safatle, no programa Café Filosófico, citando Theodor Adorno e seu texto intitulado “Dialética Negativa”

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