Foto: SP Invisível

Foto: SP Invisível

Sempre que acordava, João tinha o hábito de arrumar a sua cama, comer alguma coisa, sair de casa e ir ao trabalho. No seu emprego, ele sempre tinha um horário de almoço em que comia nos bares perto de onde estava, porque seu trabalho era em vários lugares, sempre cheio de reuniões e cheio de clientes. Depois, voltava para a casa, usava o banheiro, tomava alguma bebida, fumava seu cigarro para dormir mais tranquilo depois de um dia estressante, e dormia.

Esse era João há uns três anos, antes de uma tragédia acontecer em sua vida e ficar em situação de rua.

Hoje, a vida de João não mudou muito. Toda vez que ele acorda, ele tem o hábito de arrumar a sua cama, comer alguma coisa, sair de casa e ir ao trabalho. No seu emprego, sempre tem um horário de almoço em que ele come nos bares perto de onde está, porque seu trabalho é sempre andando por vários lugares. Depois, volta para a casa, usa o banheiro, toma alguma bebida, fuma seu cigarro para dormir mais tranquilo depois de um dia estressante, e dorme.

Esse é João hoje, depois que uma tragédia aconteceu em sua vida e ele ficou em situação de rua.

Mesmo na rua, João tem uma vida normal, como todo mundo.

A diferença é que sua vida privada era privada mesmo, tudo acontecia no seu carro, no seu apartamento. Hoje, sua vida privada é totalmente pública e tudo acontece na calçada, em sua carroça e embaixo de um viaduto. Quando João tinha sua intimidade respeitada, ele era visto, porque estava dentro do funcionamento da cidade e era lucrativo para ela.

Hoje, mesmo que mais exposto, João é invisível e ignorado.

O João é um exemplo de milhares de vidas que existem por aí, de homens e mulheres que estão em situação de rua com seus hábitos expostos para todos, mas que tem sua história invisível e, muitas vezes, julgada por quem está hoje “em situação de casa”, como aprendi um dia num papo com o Padre Júlio Lancelotti.

Pessoas que vivem o que o João vive sempre foram chamadas de “nóia”, “cachaceiro”, “sujos” ou “baderneiros” nas grandes cidades, como São Paulo. É por isso que hoje, um outro João e seus seguidores têm dito que a cidade fica mais linda quando não tiverem mais “Joões” na rua.

A grande questão é que quem chama a pessoa em situação de rua de “nóia” ou “cachaceiro” também bebe em sua casa, grita, briga, festeja e, às vezes até mais do que os que estão na rua, só que na rua “não pode fazer nada disso” porque isso é coisa de “nóia”.

Quem diz que as pessoas em situação de rua são sujas tem seu banheiro para fazer necessidades. E o banheiro de quem está em situação de rua, é aonde? Adivinhem… Isso mesmo, na rua.

Assim como a vida do João era a mesma antes e depois da rua, a nossa vida e nossos costumes são muitas vezes os mesmos dos que estão em situação de rua. A diferença é que ninguém vê nossa intimidade, já a de quem está na rua, é pública.

Também quero e acho que todos paulistanos querem que São Paulo seja uma cidade linda. Também queremos menos pessoas vivendo nas ruas, ainda mais com o frio de que vem por aí, que matou 12 pessoas no ano passado.

Mas cidade linda não é aquela que toma medidas para colocar a sujeira debaixo do tapete ou de um pano verde, muito menos aquela que trata pessoas como sujeira.

Cidade linda é aquela que respeita a história de cada um, trata a situação de rua com dignidade e entendendo a sua privacidade, a particularidade de cada pessoa e suas necessidades.

Até agora, na questão de rua, São Paulo nunca foi linda como deveria ser. Pelo contrário, cada dia a cegueira aumenta.

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