Com a crise da água no Rio de Janeiro, a população carioca ainda recebe em sua casa água com cheiro, cor e gosto de terra. Desde o início do mês de janeiro, houve um crescimento na procura por água mineral em mercados que aumentaram os preços e, como forma de controlar a venda do produto, limitaram a compra de garrafas por pessoa.

A crise da CEDAE, companhia responsável pelo abastecimento de água no município do Rio, se iniciou um mês depois que a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei, proposto pelo governo Bolsonaro, que facilita a privatização de empresas estatais de saneamento básico. A decisão do Brasil de privatizar vai na contramão da tendência mundial.

Reestatizações crescem cada vez mais porque serviços prestados por empresas privadas do setor são ineficazes. Falta de transparência e elevação de tarifas são algumas questões apontadas. Ao mesmo tempo, o governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, afirma em entrevistas que a privatização da CEDAE é a única solução para contornar a crise.

A quem a privatização interessa?

Não a Lucileide dos Santos, moradora de São Cristóvão, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, que vende água mineral e outras bebidas para complementar a renda durante os finais de semana, no Centro da cidade do Rio. Quando um serviço público é vendido às instituições privadas, o lucro passa a ser prioridade e famílias pobres são as mais atingidas. Lucileide compra lotes de água mineral e vende em um dos principais pontos turísticos do Rio de Janeiro, a Praça Mauá.

No verão de 40 graus da cidade, é ela e tantos outros vendedores com as suas barraquinhas que matam a sede dos que decidem visitar o Museu do Amanhã e o mural do artista Eduardo Kobra, ou curtir o carnaval do Rio de Janeiro que começa, oficialmente, neste sábado. Mas no momento, o dinheiro que consegue com esse trabalho quase não dá para matar a sua sede e dos seus filhos que não têm água potável para beber em casa. Por isso, Lucileide precisa desembolsar uma grana a mais para comprar água mineral para beber e não só para vender.

Para não morrerem de sede e nem arriscarem a saúde – já que não possuem a opção de ficarem doentes porque precisam trabalhar -, Lucileide faz trabalhos extras e, ainda assim, se endivida ao comprar água. Enquanto conversava com ela, me disse que estava devendo R$ 100 para um revendedor de galões de água mineral, já que não tinha como pagar. A saída, muitas vezes, é conversar e comprar fiado, porque a conta do dinheiro que arrecada vendendo água, e do dinheiro que precisa para comprar água mineral para beber, nunca fecha.

A água para Lucileide está tão próxima, ali na sua barraca, mas ao mesmo tempo muito distante.

São aqueles os responsáveis pela produção de celulares como Iphone que sequer têm um. São os que costuram as roupas de marcas famosas e ganham um salário – ou não – que não dá para comprar pelo menos uma peça. E são os que trabalham vendendo água e não têm uma gota para beber em casa diante de uma crise.

Lucileide é uma mulher negra, mãe, moradora de um bairro da zona norte do Rio de Janeiro e representa a grande parte da população que está sofrendo com o desmonte da CEDAE. A crise é muito maior do que imaginamos. O meu recado é: pense e reflita sobre aqueles que vão matar a sua sede numa visita a um ponto turístico no Rio de Janeiro ou num bloco de carnaval na “cidade maravilhosa”. Quem são essas pessoas?

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