Foto: Reprodução / Twitter Luis Arce

Neste domingo (8), Luis Arce Catacora e seu vice, David Choquehuanca, tomaram posse de seus cargos, em La Paz. Choquehuanca chamou à unidade e pediu o fim da intolerância, marca do cenário político do país no último ano. Arce, por sua vez, criticou a gestão de Jeanine Añez, prometeu lutar por estabilidade econômica e governar para todas e todos. Emocionado, o novo presidente da Bolívia pediu um minuto de silêncio em homenagem aos mortos nos massacres perpetrados pelo governo transitório em Sacaba, no departamento de Cochabamba; em Pedregal, na região de La Paz; e em Senkata, na cidade de El Alto. Este último, é justamente o tema deste texto.

Os 11 meses de golpe na Bolívia foram muito mais do que uma tentativa neoliberal de retomada do poder para privatizar o patrimônio público e restabelecer o poder político e econômico das elites tradicionais bolivianas. O governo de Jeanine Añez, autoproclamada presidenta da Bolívia no dia 12 de novembro de 2019, dois dias após a renúncia forçada de Evo Morales, promoveu um retrocesso racista profundo pelo país, além de uma série de crimes contra a humanidade. “A própria sociedade boliviana não sabe o que houve aqui. Nosso trabalho tem sido narrar esse absurdo e isso tem chocado muita gente”, afirmou Franklin Gutierrez Zárate, subdiretor do Centro de Formación y Realización Cinematográfica (CEFREC), em La Paz.

Se a própria população ainda esfregava os olhos diante do surrealismo golpista que a Bolívia atravessava, uma missão observadora internacional como a nossa* não poderia sucumbir à arrogância de comprar o que víamos pelo valor de face. Por isso, partimos para uma extensa agenda, que acumulava conversas com senadores, ativistas de direitos humanos, vítimas dos massacres cometidos pelo governo provisório, lideranças partidárias e comunitárias. Uma semana que valeu por mês e meio.

No segundo dia de missão, depois de reuniões burocráticas no Tribunal Superior Eleitoral de La Paz, almoçamos rapidamente e seguimos para a cidade de El Alto, a 4 mil metros de altitude. A população desta região se divide basicamente entre dois povos indígenas, Aymara e Quechua. É uma das cidades mais populosas da Bolívia e um lugar que, não só sofreu muita repressão no início do golpe, como foi palco de um dos atos mais brutais do governo transitório: o massacre de Senkata, que aconteceu no dia 19 de novembro de 2019.

Respondendo à crise política que se instaurava, a população de El Alto começou uma manifestação em Senkata, no dia 19. A polícia e o exército chegaram com tanques, helicópteros e armamento pesado para utilizar contra a população, incluindo munição ativa. Uma verdadeira operação de guerra. Isso tudo, apoiado pela presidenta que, três dias antes, havia assinado o famigerado decreto 4078, eximindo agentes do estado de serem penalizados por quaisquer abusos praticados durante operações “de restabelecimento da ordem e da estabilidade pública”. Pelo fogo do Estado sob um governo não-eleito, dez manifestantes morreram. E esse nível de violência não foi caso isolado. Nas duas semanas subsequentes ao golpe, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) contabilizou 36 mortos e mais de 800 feridos em protestos por toda a Bolívia.

“Quer sobreviver? Pede ajuda a Evo Morales”

Em uma galeria de lojas, onde manequins sem cabeça ostentavam roupas de verão num frio de 10 graus, subimos três lances de escada até chegar a uma sala de cerca de 15 metros quadrados. O espaço era um mostruário de decoração de festas de casamento com algumas cadeiras dispostas em meia lua. Pouco a pouco, o silêncio tétrico do ambiente foi entrecortado por buenos días sussurrados e o arrastar das cadeiras sobre o piso de cerâmica. Parentes de vítimas e sobreviventes do massacre iam entrando na sala sem parar.

Cerca de 20 pessoas se organizaram no pequeno espaço. Uma a uma, as vítimas começaram a narrar, entre soluços e pedidos de desculpas – não só pelas lágrimas, mas pela crueza das descrições –, a tortura, as ameaças de morte e as ofensas racistas e misóginas, que sofreram nos dias que se seguiram ao massacre. “Enquanto aguardávamos para ver nossos familiares, nos chamaram de delinquentes, perros, índios e masistas [em referência aos militantes dos MAS, o partido de Evo Morales].”, contou uma jovem que teve o companheiro e o cunhado presos.

O absurdo não parou nas forças de ordem. Alguns feridos foram retirados dos hospitais por membros de milícias de extrema-direita. “Enquanto aguardava atendimento no hospital, um grupo tentou sequestrar a minha maca. Nessa hora, minha esposa chegou e impediu que isso acontecesse. Mas eles a atacaram, a agarraram pelo cabelo e a arrastaram pelo chão. À noite, os militares invadiram o hospital e levaram alguns feridos. As enfermeiras, para salvar algumas pessoas, mudaram a data de entrada no hospital. Não sabemos para onde e nem por quê levaram essas pessoas.”, contou um jovem senhor de bengala com a voz trêmula.

O ambiente pós-golpe ficou tão tóxico, tão racista, que chegou ao ponto da negligência médica. Muitos profissionais de saúde se negaram a administrar anestesia aos feridos, intercalando insultos a comentários sádicos, como: “Quer sobreviver? Pede ajuda a Evo Morales”. “No dia seguinte, chegou o cirurgião e me deu o orçamento da minha cirurgia – eu necessitava um implante de platina. Quando falei que era muito caro, ele me perguntou: por que você não pede o dinheiro pro seu papai Evo?”, completou o senhor.

Uma moça jovem contou que na Ciudad Satélite, um grupo de apoiadores do golpe montou bloqueios nas ruas e pedia o RG a quem passasse. Um desses grupos entregou seu companheiro e cunhado à polícia, dizendo que eles eram de Senkata e planejavam um ataque à Ciudad Satélite. Não bastasse, os dois foram ameaçados de imolação: “Meu marido e meu cunhado foram torturados. Queimaram partes da roupa e das mãos e na delegacia eles continuaram apanhando.”

Na delegacia, seguiram os maus tratos, conforme familiares das vítimas tentavam levar água e comida para os detidos. Foram horas de espera, entre mais e mais insultos racistas. Uma das jovens que conversava com a gente relatou que, na delegacia, uma policial gritou: “As pessoas de El Alto são uns ignorantes. Não entendem nada. Não vamos atender vocês”. Depois de horas esperando, vizinhos do centro de detenção se juntaram à intimidação: “Eles saíram com pedaços de pau na rua. E [ao invés de reprimi-los] a policial nos perguntou: ‘por que vocês sempre criam problemas? Se continuarem assim, prendemos vocês também’. Enquanto algumas pessoas agradeciam a polícia pela ‘protegê-las’ da gente, uma velhinha disse: ‘o que esses índios estão fazendo aqui? Esses caipiras deveriam estar mortos’.

Abundaram também relatos de agressão a idosos e até o violento e simbólico corte das tranças das mulheres de pollera, trajes típicos do altiplano boliviano.“Não existe perdão nem esquecimento para o que aconteceu aqui. Nós exigimos justiça”, indignou-se um senhor, depois de contar ter sido baleado por um policial branco sorridente. Na fala e no semblante dessas pessoas, sinais de tortura. As sequelas do trauma coletivo vão desde pesadelos e síndrome do pânico a tentativas de suicídio.

O governo de Añez quis negociar com as vítimas, prometendo uma indenização às famílias, caso elas abdicassem de responsabilizar o governo. Acuadas, algumas pessoas acabaram aceitando o trato, mas o grupo que escutamos se negou a entrar na negociação. “Nos disseram que iriam custear os prejuízos e pagar indenização, mas que o governo não se responsabilizaria publicamente pelo ocorrido. Não tínhamos como aceitar isso.”, disse uma das vítimas.

Segundo Marisol Rodríguez, presidenta da Associação de vítimas de Senkata, a ideia do governo de Añez era sumir com as provas e as denúncias de violência. “O que acontece é que nós temos as provas nos nossos corpos e isso eles não podem apagar, nem calar”, sentenciou. “O ministro da justiça [Alvaro Coimbra] disse que nós havíamos trocado tiros entre nós mesmos. E isso é totalmente falso. Os policiais e militares que estavam aqui naquele dia sabem muito bem que as balas vieram do governo de Jeanine Añez, com o consentimento de Arturo Murillo [Ministro do governo], Carlos Mesa, Camacho e toda a direita. Todos eles são cumplices e responsáveis pelo fato de que aqui hoje existam feridos, órfãos, pessoas mutiladas e famílias destruídas. Os uniformes da polícia e do exército estão banhados de sangue. Sangue das pessoas mais humildes”.

O grupo de comunicadores indígenas Bolívia Ahora, que acompanhou nossa missão, fez um minidocumentário relatando o massacre de Senkata, que se tornou peça fundamental para a conscientização de parte da população boliviana nos dias que antecederam as eleições. Ainda que seja forte e didático, ele não contém nem um terço dos relatos que ouvimos ao vivo dessas pessoas naquela salinha, no dia 16 de outubro.

“A direita tomou o poder para roubar e saquear nosso povo, para matar e humilhar. Sendo assim, não vai querer soltá-lo”, alertou Marisol, pedindo que nosso grupo estivesse ciente da força que um segundo golpe poderia ter.

O que a direita certamente não esperava – talvez pelo pouco conhecimento que têm do seu próprio povo – é que a resposta viria à altura da dor causada pelo massacre, devolvendo o MAS ao poder já no primeiro turno. Ao cabo das eleições, Luis Arce e David Choquehuanca foram declarados vencedores, com 26,27 pontos à frente do segundo colocado, Carlos Mesa, um dos pivôs da articulação que deu início à sangrenta crise política de 2019. Uma vitória incontestável, que Marisol antevia já naquela tarde fria, em El Alto: “Eles humilharam nosso povo humilde porque eles querem voltar a viver como nos séculos passados. Mas nós não vamos voltar a viver essa situação. Não vamos permitir mais mortes, mais maus-tratos. Nós não vamos permitir porque passamos o pior, vivemos a morte, a humilhação e as torturas. E, ainda assim, estaremos de pé quantas vezes mais forem necessárias”.

*Este texto faz parte de uma minissérie sobre como e em que contexto aconteceram as eleições de 18 de outubro de 2020, na Bolívia. Leia o texto anterior Sete dias na Bolívia: Diário de uma revanche popular.

Sete dias na Bolívia: diário de uma revanche popular

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