Foto: Marcello Casal / Agência Brasil

Caros leitores…

Espero que todos tenham tido ótimas festas de fim de ano, e que tenham começado bem o seu 2020, um ano que assim como o ano passado, devido ao governo opressor e genocida do nosso país, será provavelmente de muita luta. Pois bem amadxs, ando lendo seus comentários e percebi que existe uma galera que pauta sobre luta de classes que não entende muito bem o motivo de termos que pautar e enfatizar também outras lutas. Deste modo, decidi então por conta disso tudo escrever nesta coluna por que a luta de classes no Brasil está também ligada às questões de raça e gênero, a intersecção dessas lutas. Tenho a compreensão de que este é um assunto bem complexo e que, portanto, terei que dividir por partes para que essa coluna não vire um livro.

Bom, uma coisa que eu sempre acho valido é que as pessoas entendam sempre algumas questões sobre territórios e contextos geopolíticos. Dessa forma nós temos primeiro que analisar que a luta de classes será de diferentes formas e contextos em cada país, e vermos as condições em que se dá a luta de classes no nosso país para termos uma melhor compreensão sobre este assunto. A primeira coisa que nós temos que fazer é nos perguntar coisas básicas sobre este tema, como: Quem está na pobreza? Quem está em posição de vulnerabilidade econômica e social? E qual a cor da pobreza? Para aí analisarmos as respostas dessas perguntas.

Pois bem, para isso vamos dar uma breve olhada em um dado: segundo o informativo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), entre os 10% que possuem os menores rendimentos per capta no Brasil, os negros representavam 75,2% desta parcela, enquanto os brancos eram apenas 23,7%. Já no caso dos 10% que possuem os maiores rendimentos per capta do Brasil, essa situação se inverte, pois os brancos representavam 70,6% desta parcela, já os negros eram só 27,7%.

Analisando estes dados, por exemplo, nós podemos ver que a questão da luta de classes também está ligada a raça, e isso se dá por toda uma questão histórica onde pessoas negras africanas foram arrancadas de suas terras, trazidas à força para o Brasil, foram escravizadas e depois do fim de sua escravidão jogadas ao relento, muitas vezes tendo que ainda se submeter ao trabalho escravo para sobreviver, sem terras, sem o mínimo de condições financeiras, apenas jogadas para a sobrevivência. E ainda hoje existe um sistema que oprime, agride, mata e prejudica a vida de pessoas negras de diversas formas como, por exemplo, fazendo com que seja extremamente difícil a ascensão social e econômica dessas pessoas montando uma estrutura que seja completamente racista.

Portanto, meus caros leitores amigxs, nós podemos ver que a questão racial no Brasil é uma das questões mais fortes e ainda muito vigente em diversas pautas e causas, como nas opressões a mulheres, pessoas LGBTQI+ e de classe, em que sempre os maiores afetados é o povo negro devido a toda nossa herança histórica. Portanto a luta de classes no Brasil vai e deve sempre abordar a questão racial por ser algo histórico, que é mundial, mas que inclusive é mais forte por sermos até mesmo o segundo país com maior diáspora africana devida a imensa quantidade de escravos trazidos pra cá.

Penso eu que quando pautamos essa luta de classes pautada por Marx devemos pensar quem ele era, em que contexto ele vivia, pra quem ele pensou essa luta e de que forma. Pois Marx era um homem branco, ocidental e europeu, logo ele não contextualizou em seu modelo de luta a vivência e a realidade de outras etnias. Também não levou em consideração as diferenças sociais, geopolíticas e geoeconômicas de cada localidade. Inclusive por isso muitas pessoas do movimento negro tem adotado cada vez mais o pensamento do socialismo africano por acharem que a luta de classes pautada por Marx não os representa.

Gente, eu sei que esse assunto pode parecer um pouco espinhoso e complexo (e olhem que eu ainda nem entrei na pauta de gênero), e por isso mesmo, eu resolvi dividir essa coluna em partes, pois ainda temos muito o que debater sobre isso. Na próxima coluna continuarei falando sobre por que a luta de classes vai e deve pautar sobre raça e depois entrarei no porquê também vai e deve pautar sobre gênero.

Espero que vocês tenham curtido essa leitura e nos vemos daqui a 15 dias. Abraços a todos vocês, e como ja diria o pessoal do coletivo Poetas Vivos, fiquem bem, fiquem vivos. Axé!

— Meu nome é Valentine, JAMAIS Valentina
E vai ter resistência trans sim… na Mídia Ninja.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Ivana Bentes

Branquitude em Revolta

Juan Manuel P. Domínguez

"Discriminação e racismo se tornaram uma política de Estado", diálogos de quarentena com Adriana Salvatierra

Juliana Cardoso

Lei Maria da Penha: o modo de fazer feminino

Liana Cirne Lins

Paternidade Ativa Feminista

André Barros

Blindador-geral da República

Laryssa Sampaio

Não devemos nos calar, não devemos naturalizar

Boaventura de Sousa Santos

Uma saída para o Brasil

Rachel Daniel

Juventude Evangélica: a aposta do futuro reacionário no país?

Daniel Zen

Palavras soltas ao vento

Eduardo Sá

“A questão da fome é real se houver um impasse e não se encontrar uma saída”

André Barros

Bolsonaro é culpado

Márcio Santilli

Grilagem online só pode aumentar desmatamento

Eduardo Sá

"A população brasileira está comendo cada vez pior", alerta ex-diretor da FAO

André Barros

Negacionismo judicial

Daniel Zen

Um feminicida não pode ser ídolo em nossa sociedade