por Tom Grito (@tomgritopoeta)

No dia 28 de junho celebra-se mundialmente o dia do orgulho LGBTIAQ+. Esta data comemora os 51 anos do levante de Stonewall. Na década de 60 a relação entre pessoas do mesmo sexo era crime nos EUA, além disso existia uma lei vigente no estado de Nova Iorque que determinava que as pessoas deveriam usar ao menos três peças de roupa adequadas ao gênero designado no nascimento. O bar The Stonewall Inn @thestonewallinn localizado em Nova Iorque era frequentado pela população LGBTIAQ+ e no dia 28 de junho recebia a segunda batida policial (só naquela semana) na qual as pessoas que não estivessem com ao menos três peças “adequadas” ao gênero designado no nascimento eram presas. Com isto, a população resolveu reagir e uma série de manifestações aconteceram e duraram quase uma semana. No mês seguinte, um grande ato foi marcado para celebrar o orgulho LGBTIAQ+ (#Pride). Assim surgiu a primeira parada LGBTIAQ+.

Orgulho, portanto, é reconhecer-se como válido diante de uma sociedade que costuma reprimir, ainda que para isso seja necessário romper com a norma estabelecida. Costumes e padrões muitas vezes são uma forma de manutenção de privilégios e exclusão de grupos diversos. Hoje, quando a sociedade nega oportunidades de alguns grupos por conta de sua expressão, identidade de gênero ou orientação sexual, está indo contra o artigo 5o. da Constituição Federal Brasileira que estabelece que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Na população LGBTIAQ+ diz-se que quando uma pessoa ainda não declara aos seus familiares ou colegas de trabalho sobre sua identidade de gênero ou orientação sexual ela está “vivendo no armário”. O preconceito com LGBTIAQ+ ou a LGBTIAQ+fobia causa, não somente, a falta de oportunidades para esta população como também o dano emocional de não poder falar de sua vida nos espaços em que acredita que sofrerá preconceito. Neste sentido, o armário passa a ser uma forma de autocuidado ou segurança social. Pense se pode ser feliz alguém que não pode falar de sua identidade ou afetividade. Uma série de danos emocionais podem advir dessa situação. E, por segurança (manutenção de emprego, medo de julgamentos de familiares, medo de ser expulso de casa), muitas pessoas ainda optam por ela.

Jamais vou julgar o armário auto imposto pois vivi anos de minha vida nesta condição e conheço muitas pessoas que durante muito tempo precisam viver assim. Mas um armário muito triste é o que recai sobre nossas cabeças após o falecimento: a subnotificação.

Diversas organizações da sociedade civil fazem o importantíssimo trabalho de gerar dados para mapear e notificar pessoas LGBTIAQ+ que morrem ou são assassinadas no país. Posso citar o trabalho do “Dossiê sobre lesbocídio no Brasil” de Milena Peres, Suane Soares e Maria Clara Dias que encontraram que 126 mulheres foram mortas no Brasil entre 2014 e 2017 por serem lésbicas. Também não posso deixar de citar o trabalho de mulheres como Keila Simpson, Bruna Benevides e Sara Wagner York da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais – ANTRA que divulga anualmente, desde 2017, o Mapa dos Transfeminicídios que aponta que nos dois primeiros meses de 2020, o maior número de todos os anos, 38 mulheres foram mortas. O Grupo Gay da Bahia existe há 40 anos e foi um dos precursores na tentativa de reduzir a subnotificação por meio da produção de relatório anual e em seu site encontrei dados desde 2004. O relatório de 2019 foi organizado por José Marcelo Domingos de Oliveira e Luiz Mott e aponta que a cada 26 horas um LGBTI+ é assassinade ou se suicida vítima da LGBTI+fobia.

De acordo com agências internacionais de direitos humanos o índice de assassinato de homossexuais e transexuais no Brasil é maior do que nos 13 países do Oriente e África onde ser LGBTIAQ+ ainda leva à pena de morte. Mais da metade dos assassinatos de LGBTIAQ+ no mundo ocorrem no Brasil.

Ainda há uma luta contra o apagamento que não foi vencida. Infelizmente ainda não existe uma instituição que notifique as mortes de pessoas transmasculinas e homens trans. Pessoas trans não bináries, assexuais e interssexo muitas vezes ainda não são reconhecidas nem mesmo em vida pela comunidade.

A subnotificação desses dados é uma forma de apagamento dessas histórias.

Certa vez, ouvi de uma amiga lésbica: “Não me deixe morrer hétera”.

Muitas vezes a luta também é apagada a cada vez que um pronome não é respeitado quando um jornalista conta a história desses assassinatos, cada vez que uma viúva lésbica, um viúvo gay não são ouvidos ou reconhecidos. A pessoa acaba por ter também sua vida, história, afeto e memória desrespeitados.

Lutamos durante toda uma vida para podermos sair de nossos armários, olharmos no espelho e nos reconhecermos, andarmos nas ruas de mãos dadas com nossos afetos. Lutamos durante anos para sentirmos orgulho de quem somos e de como amamos. No dia do orgulho LGBTIAQ+ pense sobre a luta de pessoas como nós e como fazer para apoiar e tornar visível cada um de nós. Nossas famílias existem, nossos amores e identidades são válidos. Se for cishétero, respeite!

E quanto a vocês, LGBTIAQ+, cada um de vocês é motivo de orgulho! Sigamos na luta, orgulhosos!

Texto escrito pelo transpoeta Tom Grito para a coluna Transpoetas
Tom Grito é poeta @tomgritopoeta, dedica-se à poesia falada (spoken word/poetry slam) e às microrrevoluções político-sociais onde a poesia incinera, afaga, afeta e transforma. Pessoa não binárie transmasculine. Entusiasta da cena de poetry slams e saraus de poesia no Brasil, participou da fundação do primeiro slam do Rio de Janeiro, Tagarela, em 2013. Em 2017, foi um dos fundadores do primeiro slam de mulheres e LBTs no Rio de Janeiro, o Slam das Minas RJ @slamdasminasrj e em 2019 participou da fundação do coletivo nacional Transpoetas @transpoetas

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