Texto do TransPoeta Ralph Duccini para a coluna do Movimento Artístico e Poético Nacional TransPoetas

Demétrio como muitos homens trans, transmasculines e não-bináries, teve sua vida tirada no dia 17/05/2020. Sem estatísticas para medir a dor de seus semelhantes, o fez no dia em que se comemora a visibilidade Trans e Travesti.

Trans, preto e periférico, sentiu na pele as opressões do cis-tema falocêntrico, branco, europeu e heteronormativo. Em muitas de suas falas (disponíveis na internet, em entrevistas e vídeos próprios) Demétrio relatou a violência que sofria, tanto pelos olhares da sociedade, quanto pela violência de Estado, que muitas vezes se apresentava na forma de abordagens policiais. Falava sobre as referências que vivia (enquanto sentia falta de outras) a respeito da masculinidade preta. Falava sobre a luta diária de quem vive nas periferias do Brasil. Relatava em inúmeras postagens a invisibilidade dos Homens Trans Pretos e a inacessibilidade ao mercado de trabalho.

Desenhava, fotografava memórias e dançava de uma forma de deixar sem ar quem assistia e era fotografado. Foi e é referência. (Na publicação de seus 4 anos de administração hormonal, dia 26 de março, registrou em postagem do Instagram🙂

“Morar em periferia é um desafio pra construção da masculinidade do homem preto ainda mais por ser um lugar hostilizado. Por anos reproduzi uma masculinidade que não me representa e não representa a maioria de nós transmaculines e que me causou desastres na vida e vai causar em nossos corpos até onde der.

Em uma sociedade racista, o homem negro trás a escravidão impressa em seu corpo e com ela vários atributos associados aos criados ”supermasculinos”. O negro mesmo que não saiba disso, mesmo que tente buscar outras significações e corporeidades, será visto e terá de uma forma ou de outra dialogar com essas expectativas.”

Questionava também a sua masculinidade, enquanto sujeito sentia-se pressionado pelos estereótipos que a sociedade impõe ao “ser homem”. Um sistema de opressão e controle (e distribuição) de poder em que o cis-tema enquadra os corpos e as vivências. Uma experiência nociva para homens trans e pessoas transmasculinas, que sofrem diariamente o machismo, o falocentrismo e que, muitas vezes, se sentem coagidos a reproduzir aspectos desses comportamentos como constituintes de identidade ou como atitude auto-defensiva, uma ação de proteção em lugares em que as delimitações de gênero são estreitas e hostis, bem demarcadas e muitas vezes com penas muito caras para quem ousa descumprir ou questionar.

Demétrio se permitia a dúvida e o aprendizado. Se questionava e questionava toda a sociedade onde estava inserido. Essa sociedade brasileira, estruturalmente racista, eugenista e que até hoje segue em marcha com o extermínio das vidas pretas, indígenas, periféricas e LGBTIA+. A hipermasculinização que o cis-tema esperava enquanto homem preto o afligia. Mas acreditava na mudança, acreditava na auto-transformação e em dias melhores.

“Me descobrindo, entendendo o que é ser um homem sem masculinidade tóxicas. Sendo negro periférico, vivendo com homens cis e super reproduzindo todo o role machistas e agora entender que não necessito disso para ser o cara que sou.

O tempo passa e encontro com pessoas incríveis que me ensinam que não necessito desse role e com o tempo aprendendo mais e mais. Porém também encontro com gente de bosta que ama apontar o dedo e falar merda.

Não sou perfeito, nem quero ser. Porém o homem que fui ontem não é o que me tornarei amanhã e assim vai.”

Sua luta, Demétrio, não foi em vão. Nossas vidas não são em vão. No dia de seu aniversário, 20/05/2020 te aplaudimos e saudamos, como fez a sua mãe, numa ação tão sincera e crua como a mensagem que nos deixou. Afirmando a necessidade do apoio e da aceitação de corpas dissidentes nessa sociedade declaradamente adoecida, expondo suas fraturas que adoecem o psicológico e matam quem é diferente desse padrão inventado. Expondo seu luto com toda a dignidade de uma mulher guerreira ressaltou a importância dos cuidados com a saúde mental; Falou sobre a depressão, a ansiedade e a possibilidade de transtornos e traumas que são afligidos a tantos corpos trans, negres, perifériques e quase nunca é citada ou tratada com a seriedade e respeito com a que se deveria.

Seguimos lutando pelas nossas vidas. Privades da sua dança, mas repletos na lembrança dos seus sonhos e de sua luta. E privades de tantos outros sonhos que deixaram esse mundo tão cedo.

Em relatório organizado pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 85,7% dos Homens Trans (e pessoas transmasculinas) pensaram em cometer suicídio. Segundo o mesmo relatório, dificuldades de relacionamento com a família, abuso e dificuldade de inserção em empregos, abuso sexual e moral são recorrentes e atingem diretamente a qualidade de vida psicológica e social de pessoas transmasculinas:

“…No que se refere às relações familiares, percebe-se como estas se desenrolam em meio a negociações nas quais, por vezes, a identidade de gênero dos sujeitos não é respeitada: 55,56% dos entrevistados disseram que os pais reprovam sua transexualidade e 40,74% afirmaram que os pais não respeitam o nome social. Estes dados apontam para a dificuldade de reconhecimento que os homens trans possuem mesmo no âmbito privado (…) Tais situações provocam fissuras nessas relações e, ao mesmo tempo, o distanciamento familiar dificulta a trajetória desses homens tanto financeiramente (comprometendo seu processo de transição), quanto psicologicamente, (comprometendo sua autoestima, uma vez que a negação de suas identidades de gênero configura-se como uma violência psicológica que tem reflexos no próprio âmbito da saúde dos homens trans)”.

Segundo o filósofo Albert Camus, a única questão filosófica realmente importante a ser discutida, diante do absurdo que é a relação do ser humano com o mundo, é o suicídio. Se vale a pena ou não a vida a ser vivida. Mas me pergunto que vidas são essas dispostas a morrer, que encontram na sua auto-negação (que em muitos casos é imposta e sistêmica) seu sentido. Vidas que não só são apresentadas diante o fato da sua própria mortalidade e efemeridade, mas também são vidas contidas, vidas marginalizadas, discriminadas no direito primordial de ser. Essas que são agredidas apenas por existirem, vendo seus direitos sendo negados e ameaçados. A rejeição por parentes e amigos a partir do início transição, e os próprios desafios apresentados durante o processo de transição, como a passabilidade, são circunstâncias apontadas em vários estudos que aumentam o risco de suicídio de pessoas Trans. A dificuldade em se gerar futuro, vendo as oportunidades sendo negadas, a dificuldade de acesso a programas de assistência médico-psicológica e de grupos de apoio também. Fruto do desrespeito e da invisibilização cis-têmica, uma precarização existencial é pré-determinada às vidas transmasculinas que vão sendo apagadas uma a uma dentro do nosso cotidiano. Contudo, é importante ressaltar: não há nada de errado em ser uma pessoa Trans, mas há algo de muito errado na forma como a sociedade nos trata.

Também é possível perceber, principalmente num país racista, como é o Brasil, que as questões étnicas, territoriais e sócio-econômica também influem na taxa de mortalidade (ou expectativa de vida) de pessoas trans. Segundo relatório anual da ANTRA (Associação Nacional de Trans e Travestis):

“Acreditava-se que durante a pandemia do COVID-19, os índices de assassinato poderiam diminuir como aconteceu em outras parcelas da população, pela necessidade do isolamento social colocado em muitas cidades/estados. Mas quando vemos que o assassinato de pessoas trans aumentou, temos um cenário onde os fatores sociais se intensificam e tem impactado a vida [dessas pessoas]”.

A maioria das pessoas assassinadas no Brasil (trans ou cis) são negras, em sua grande parte residentes de territórios periféricos, comumente negligenciados e hostilizados pelo Estado e por uma parcela da população. Se criam estigmas sociais de ódio e de retirada de direitos humanos que vão se sobrepondo junto à  própria biografia e somam-se os pesos. Ainda no relatório do primeiro quadrimestre de 2020 a ANTRA pontua os números que tanto nos doem: 64 assassinatos (todos de mulheres trans e travestis), 11 suicídios, 22 tentativas de homicídio e 21 violações de direitos humanos. Além de 6 casos de mortes relacionadas ao COVID-19. Esses são os números notificados.

Vemos nossas vidas em risco e ainda assim seguimos buscando juntes a construção de meios para viver e sorrir. Continuamos na luta diária pela existência, garantindo o privilégio de sobreviver. Mas nós que aqui estamos, nós que aqui ficamos sobre essa terra não podemos mais deixar que passem despercebidas essas mortes. Precisamos nos amparar ainda em vida, como rede de multiplicidade que somos, para recriar e construir o significado coletivo da nossa existência enquanto pessoas trans. Discutindo e questionando os mitos e a construção da masculinidade, (derrubando o falocentrismo e o capitalismo) pelo direito à vida aos nossos corpos e corpas. Ocupando e criando novos espaços para que possamos viver e construir nossas próprias identidades.

“A precarização de determinada parcela da população faz parte de um plano global genocida para exterminar vidas que enfrentam processos históricos de vulnerabilização, a fim de cumprir o plano de defesa da propriedade privada de uma casta superior pautada na branquitude empresarial, que se diz cristã e é neoliberal, e de garantir a manutenção dos privilégios egoístas de uma elite racista e conservadora, cis-hétero-centrada”. (BENEVIDES, Bruna, 2020. Nova Pandemia, Velhas Mazelas)

Fontes e links:
https://www.brasildefato.com.br/2020/01/29/em-2019-124-pessoas-trans-foram-assassinadas-no-brasil

https://www.brasildefatope.com.br/2020/01/29/a-violencia-marca-a-vida-das-pessoas-transexuais-conheca-historias-de-quem-enfrentou

https://revistaladoa.com.br/2019/01/noticias/estudos-revelam-altos-indices-de-suicidio-entre-homens-trans-no-brasil-e-eua/

https://www.huffpost.com/entry/the-truth-about-transgend_b_8564834

https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12889-015-1867-2

https://antrabrasil.org/assassinatos/

https://antrabrasil.org/2020/01/29/lancado-dossie-sobre-assassinatos-e-violencia-contra-pessoas-trans-em-2019/

https://williamsinstitute.law.ucla.edu/publications/suicidality-transgender-adults/

https://www.instagram.com/tv/CAbE9dilhn5/?igshid=1kzhhm68waj74 (Link para o vídeo disponibilizado pela família de Demétrio em sua conta do Instagram, hoje @demetriocamposvive)

https://www.instagram.com/p/B-M_ebunrZM/?igshid=17o3z0x4g1lx7 (Citação sobre vivência homem trans preto e masculinidade retirado dessa postagem)

 

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