Texto dos TransPoetas Bruno Pfeil (@brunopfeil) e Cello Latini (@latinicello) para a coluna do Movimento Artístico Poético Nacional TransPoetas (@transpoetas)

Bruno Latini Pfeil
Graduando em Psicologia (USU-RJ). Integrante do Núcleo de Diversidade Sexual e de Gênero João W. Nery (USU-RJ). Coordenador da Revista Estudos Transviades (@revistaestudostransviades).

Cello Latini Pfeil
Graduando em Ciências Sociais (UFRJ). Pesquisador do CPDEL (IFCS/UFRJ). Coordenador da Revista Estudos Transviades (@revistaestudostransviades).

Quando se pensa na palavra “trans”, qual é a imagem que se apresenta? E a história que se imagina? Quando nossos colegas e conhecidos se deparam com os debates de gênero, quais os comentários que recebemos, e a quem se direcionam? É pela inexistência de transmasculinidades no imaginário social que pensamos em escrever esse texto, pois, se existir já é tarefa cabulosa, inexistir socialmente, não ser reconhecido por uma identidade que socialmente inexiste, pode ser ainda mais conflitante.

A afirmação das identidades transmasculinas se apresenta enquanto algo de esforço contínuo. Como reivindicar uma identidade que simplesmente não é cogitada? Uma identidade que não conseguiu ser cogitada nem pela equipe jornalística de uma das maiores emissoras de televisão do mundo, em pleno 2019, com transmissão em rede nacional[1]. Às pessoas transmasculinas são oferecidos alguns caminhos, em nenhum dos quais há reconhecimento. Nunca se cogita a existência, por exemplo, de um homem de buceta, de viados trans, de bixas de peito e cinta-pau.

Somos lidos como muitas coisas, mas nunca como pessoas transmasculinas: podemos ser lidos como mulheres cis ou homens cis, de acordo com os marcadores corporais que mais se destaquem, e, a partir dessas leituras, nos são direcionadas violências específicas; mas em ocasião alguma seremos reconhecidos como pessoas no universo das transmasculinidades. Essa identificação está aquém dos símbolos e significados que compõem o imaginário cisgênero.

Por mais que sejamos colocados em caixas que não nos apetecem, que não contemplam nossas experiências, narrativas e vivências, dispomos de estratégias para nos fazermos existir. Independentemente de como sejamos lidos, interpretados e socialmente localizados, nunca deixaremos de ser pessoas transmasculinas – o que, para alguns, pode se aproximar de um perigo epidemiológico[2], ou de uma traição à feminilidade cisgênera. Ou de uma traição à masculinidade viada, uma infiltração em algo que já estava posto, mas cuja fragilidade somente se desdobra na medida em que nos aproximamos. Daí, a importância de haver um dia que celebre nossa luta e resistência, mas principalmente nossa existência: o 20 de fevereiro, Dia de Luta e Resistência de Homens Trans e Pessoas Transmasculinas. Que sejamos reconhecidos por quem somos, por nós mesmos e por quem nos rodeia, e que sejamos referência uns dos outros, nossa própria ancestralidade, pois, se a liberdade de um povo é sua capacidade de se autogovernar, a liberdade de um corpo é sua capacidade de se autodeterminar. Reivindicando nossas transmasculinidades, a despeito de tudo que nos é pré-determinado ao nascimento e de toda a invisibilização que enfrentaremos até sermos levados a sério, continuamos traçando nossos próprios percursos – e, se não encontramos um caminho compatível com nossas existências, inventamos a estrada.

[1] https://midianinja.org/news/reportagem-transfobica-do-fantastico-recebe-enxurrada-de-criticas/

[2] No livro “Irreversible Damage”, Abigail Shrier interpreta as transmasculinidades como uma epidemia.

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