Os recentes acontecimentos, onde destaca-se claro a morte do menino João Pedro, revelam um Estado do Rio de Janeiro em colapso. Não há saída possível se não avançarmos numa agenda de substituição no próximo ciclo eleitoral da receita que acabou com o Rio de Janeiro e claro, isso só será possível se tivermos um pacto social.

Há de se denunciar hoje, a partir dos instrumentos de controle do Estado (corregedoria, Defensoria Pública e Ministério Público, Comissões de Direitos Humanos da OAB e Alerj e instituições da sociedade civil como Anistia Internacional e Justiça Global) os acontecimentos recentes de genocídio e barbárie em diversas áreas do Rio. Há relatos de invasões e operações policiais em Belford Roxo, Manguinhos, Vidigal, Chapadão e neste artigo vou me ater às duas operações recentes que chocaram o Rio de Janeiro, uma no Complexo do Alemão, na madrugada do dia 16 de maio, que deixou 13 mortos na comunidade e mais recentemente, na madrugada do dia 18 de maio, a execução de João Pedro dentro de casa, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro.

Militarizou-se por anos os territórios de favelas e assentamentos populares desse estado, num projeto falido, já realizado internacionalmente importando o modelo americano de combate ao narcotráfico em território latino-americano (México, Bolívia, Colômbia) e que levou boa parte da sociedade a acreditar que por exemplo as unidades pacificadoras do então governador Sérgio Cabral iriam solucionar um problema sistêmico e de caráter racial do país.. Paralelo à isso, a ausência de controles dos aparelhos policiais e graves indícios de corrupção ao longo dos anos fez com que a agenda do Estado passasse por prioritariamente adquirir armamento bélico e construção de operações policiais hollywoodianas de baixa eficácia (apreensões, prisões e reinserção de criminosos).

Nos últimos anos avançamos nada no debate da reinserção social e muito menos no debate da política de drogas que continua minimizando o debate central: quem são as figuras que estão por trás da cadeia econômica do tráfico e quem financia as mortes nas favelas enquanto os grandes traficantes gozam de tranquilidade fora das favelas. Mata-se o “camelô do tráfico” e na ampla maioria das vezes seus vizinhos, os moradores.

Nesse rastro de alternância de agenda, em plena pandemia de COVID-19, o Estado do Rio de Janeiro executou 13 “suspeitos e/ou moradores”, expondo moradores, retirando o direito dos moradores do Complexo do Alemão a furarem seu isolamento, obrigando uma comunidade a reconhecer corpos nas vielas, na chuva. Cenas da negligência estatal e resumo da conivência da sociedade com essas mortes.

No mesmo sentido, João Pedro é executado com uma bala do Estado em casa. Vejam bem, há de negar o termo “bala perdida”, pois a bala tem nome sobrenome e pode responder pelo nome do governador.

No mesmo momento que os cemitérios do Estado abrem 12 mil novas gavetas funerárias para enterrar as futuras vítimas de COVID-19 e enquanto hoje, 800 pessoas esperam por um leito de UTI, a gestão de Witzel, que passa por uma crise profunda em meio à denúncias de corrupção, o seu braço policial, legitimado pela política da gestão atual, amplia o número de corpos, tornando oficialmente um necrotério a céu aberto. Sob sua tutela, o Rio alcança número recorde de mortes por policiais, num aumento de 92% da letalidade em operações, que também aumentaram.

João Pedro, assim como Ágatha, assim como Marcos Vinícius, são retratos de um estado policial, fascista, genocida, que assassina pobres e que possui um governador que comemora execuções. Estamos hoje em luto pelos familiares, pelas 2852 mortes de COVID-19, pela negligência do Estado pelo racismo institucional e social que assola o Rio de Janeiro e o País.

Somos oficialmente o país que enterra os seus sem desculpas e sem pudores. Na porta do necrotério o Rio de Janeiro irá escrever “há 132 anos enterrando os seus moradores pela origem pobre e pela cor da pele”.

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