A molecada da Ceilândia atacou de novo

Foto: Henrique Correia

— Felipe Qualquer
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Os anos 2000 chegaram com uma nova e potente geração dedicada ao RAP no solo mais relevante para o movimento no centro do Brasil. Murica é um dos expoentes, cria das batalhas do Relógio – em Taguatinga – e do Museu – em Brasília – e destaque no Youtube como ‘rapper da métrica mais doida’, deixou pra trás as centenas de plays no freestyle para acumular milhões em seu primeiro álbum solo ‘Fome’. Agora, vem o segundo ato, o inédito ‘Sede’ lançado em primeira mão no S.O.M, o Sistema Operacional da Música. Com produção de MK e participações de PRS o Peres, MAT e PG 400 a mixtape é a evolução do rapper como poeta e ser humano.

Viela 17, Liberdade Condicional, Guind’Art 121, Tropa de Elite e DJ Jamaika são só alguns dos nomes que fizeram história no Rap da Ceilândia, periferia do Distrito Federal. Cidade que tem como origem um programa de erradicação de invasões na capital do poder. E as novas gerações não estão decepcionando. Entre os nomes está o Puro Suco, coletivo de PRS , MK e criativos da música, produção e comunicação, do qual faz parte Murica. Juntos lançaram em 2019 o primeiro álbum ‘Rataria Popular Brasileira’, além de singles e clipes como ‘Cascavel’ chegando a meio milhão de views.

O diálogo entre os beats do MK que passeiam pelo Jazz e R&B com alma de boombap, timbres brilhantes, ambiência clássica e bass cheio de personalidade, com as histórias e profecias do jovem Murica, entram suave como um anel de cigano no dedo. Um álbum inédito com 10 faixas que expressam uma virada de chave na história do compositor. Se ‘Fome’ foi o retrato da infância cheia das ausências e vontades mil, ‘Sede’ representa a necessidade de dignidade, de ter o mínimo. Do lugar de onde crianças que mal tem saneamento básico (quase metade da população de acordo com o Instituto Trata Brasil) e são forçadas a estudar online. Gente sedenta de futuro, mas que precisa matar a fome pra continuar sonhando.

“O plano foi dar aquele tom elegante, clássico, de terno e gravata. Música feita diretamente da 3 da Ceilândia pra aguçar os sentidos, com efeitos que provocam o sensorial com um som jazzístico que mostra nossa vivência, criando nossa onda”, falou MK por telefone com a Ninja.

A poética é resultado natural do crescimento de Murica que ganhou relevância nacional nos últimos dois anos chamando a atenção de gênios como Rapadura, Marcelo D2 e Japão. Transitando entre as sinuosas diferenças sociais do Distrito conheceu a vida digna, contas pagas, comida na mesa, condições mínimas de saúde. A obra é um mantra pela abundância, a primeira vez em que o artista fala abertamente em dinheiro.

Com a cabeça pensando no último volume, cheio de referências, o álbum pode evocar Racionais citando Renato Russo, andar no Opalão azul e até se inspirar em Elis Regina nos 20 anos Blue. Na literatura o crítico socialista do início do século XX Antonio Candido empresta alguns pensamentos. ‘Enquanto houver tanta desigualdade, a literatura sempre será um artigo de luxo, uma espécie de bolsa Louis Vuitton feita para o desfrute de uma elite incapaz de democratizar a leitura e a instrução’, diria se visse a persistência desse pensamento em pleno XXI.

As ideias de Murica passam longe do individualismo capitalista “Porque o mais malandro dos malandros era simples, sempre coletivo”, canta. O álbum que foi pensado por completo ganha logo menos um documentário e clipes para as faixas de destaque.

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