Por Ricardo Targino, jornalista, cineasta e um dos fundadores da Mídia Ninja

Nem todo herói usa capa, mas todo brasileiro que usou seu direito a voto e no cara-a-cara com a urna decidiu votar em Lula, ajudou a salvar o planeta e impediu a aceleração de sua destruição interrompendo o ecocídio bolsonarista. Lula irá à COP27 no Egito e sua participação na Cúpula do Clima será sua agenda internacional como presidente eleito anunciando ao mundo que estamos de volta. O Brasil entra novamente em campo quando o conjunto da humanidade se vê diante de sua última chance para evitar o colapso ambiental do planeta.

As eleições do fim do mundo

Quando as urnas da jovem e ainda frágil democracia brasileira falaram, não foi apenas o rumo imediato do próprio Brasil que elas apontaram. Afinal, sobre nossas urnas pesava uma enorme responsabilidade com o conjunto da humanidade. 

O futuro de todo o planeta estava em jogo nas eleições brasileiras, porque a saúde da Terra como organismo vivo que abriga a vida humana depende de nós. Todos os povos do mundo acabarão sendo inevitavelmente impactados pelo projeto que venceu nas urnas, porque a cura da Terra depende muito de nós e de nosso próprio processo de cura como sociedade que pode e deve caminhar na direção de um novo modelo de desenvolvimento com inclusão social, sustentabilidade e compromisso ambiental capaz de tornar-se exemplo de justiça climática para o mundo.

O mundo no fim do mundo

Não há negacionismo capaz de esconder a gravidade da situação em que nos encontramos. Os efeitos da mudança climática previstos para daqui 20 anos já começaram a ser sentidos e os cientistas são unânimes ao concluir que já estamos diante de uma perigosíssima aceleração da crise do clima.

Somos a última geração que pode salvar a Amazônia, território que é peça chave na luta global contra as mudanças climáticas. Sem a proteção de nossa floresta, estamos fatalmente condenados ao aquecimento global e suas consequências dramáticas  e imprevisíveis. 

Sem o cuidado com nossos rios, nascente e fontes, a crise hídrica que já é uma realidade para bilhões de pessoas em diversas regiões do planeta, comprometendo ainda mais o adequado acesso à água, esse bem tão vital e cada vez mais escasso na Terra.

Em junho deste ano, a Organização das Nações Unidas lançou um alerta mundial advertindo que a atual crise alimentar que já atinge diversos países apresentará suas consequências catastróficas ainda no ano de 2023. 

Nada disso é distopia futurista ou roteiro de ficção-científica. São fatos e dados da realidade ao redor de nós quando nos encontremos no cara-a-cara com a urna. O planeta está doente e grita por socorro, enquanto o mundo, em seu cinismo mais irresponsável e suicida, fecha seus ouvidos e finge atuar posando para as fotos que atendem aos planos de marketing mas que nos distanciam ainda mais da solução do problema. 

A hora e a vez do Brasil na luta por justiça climática

Durante anos, o Brasil esteve na vanguarda mundial da luta pela preservação ambiental e fomos para muitos países uma referência no desenvolvimento de políticas públicas e na adoção de medidas concretas capazes de impactar na realidade, melhorando progressivamente nossos indicadores e ganhando a confiança de nossos mais distintos parceiros internacionais. 

Nada nunca mais foi igual desde aquela fatídica noite do golpe parlamentar contra Dilma, em abril de 2016. Perdemos a posição de respeito internacional que gozávamos e vergonhosamente passamos a integrar a asquerosa lista dos países que mais contribuíram para o aquecimento global. 

No que diz respeito ao meio ambiente e ao clima, as devastadoras consequências do golpe fizeram com que deixássemos de ser heróis e nos convertêssemos  em verdadeiros vilões aos olhos do mundo inteiro. Mas o golpe foi só a porta de entrada para uma verdadeira tragédia de dimensões planetárias conduzida depois por Jair Bolsonaro, que criminosamente fez explodir o desmatamento, as queimadas, a poluição dos rios e contaminação das águas, o genocídio dos povos indígenas, o assassinato de ativistas ambientais e dos protetores da vida na floresta. O governo Bolsonaro é responsável também por um apagão das políticas ambientais do país, pelo desmonte do IBAMA e das demais instituições de proteção ambiental, pelo sucateamento da FUNAI e das políticas para os povos indígenas, além de uma ocupação sem precedentes da floresta por organizações criminosas que viram na ausência da lei a oportunidade para atuar predatoriamente no garimpo ilegal, no tráfico de animais, na exportação irregular de madeira e toda uma série de atividades criminosas próprias de piratas que dominaram a floresta. A verdade é que nunca antes na história do Brasil o crime organizado teve tanto controle territorial sobre nossas florestas e áreas de proteção ambiental que são patrimônio da União como tem nos dias de hoje, graças a Bolsonaro.

Para coroar nossa desmoralização, o Brasil registrou em 2021 o maior aumento nas emissões de gases do efeito estufa em quase duas décadas. Os dados do Observatório do Clima revelam que a destruição da floresta Amazônica e de outros biomas responderam por quase metade dessa explosão irresponsável de emissões. 

É desse dantesco inferno que o Brasil da nova era Lula precisa renascer para poder efetivamente exercer sua liderança no mundo no maior desafio já colocado para o conjunto da humanidade e frente ao qual a geopolítica mundial e os líderes das mais importantes economias vem falhando reiteradamente. 

Enquanto a ruína se avizinha de modo cada vez mais acelerado com o colapso ambiental se desenhando no horizonte, tanto os governos quanto as corporações dos países ricos, responsáveis pela maior parte das emissões de CO2 e metano, deixam claro que não estão à altura do desafio nem terão a capacidade ou a competência necessárias para agir na promoção das mudanças urgentes e que precisam ser feitas de modo sistêmico para surtir algum efeito no curso apocalíptico da crise. 

É inútil esperar dos EUA ou da China uma liderança responsável, já que são os maiores emissores e estão internamente amarrados a interesses que os impedem de acelerar a redução das emissões. A China e os EUA, junto com a União Europeia, Rússia e Índia são responsáveis por 58,73% das emissões de CO2. Quase 80% do total das emissões são produzidas pelos países do G20.

A grande injustiça da crise do clima reside no fato de que o dano climático é produzido pelos países ricos, mas suas consequências mais graves e os eventos extremos mais dramáticos são mais sentidos pelos países em desenvolvimento e pelos pobres. Os ricos reconheceram no COP 26 em Glasgow que estão falhando no cumprimento de suas metas ao mesmo tempo em que os países em desenvolvimento fizeram questão de cobrar pelos U$ 100 bilhões anuais prometidos pelos governos dos países ricos para o enfrentamento da crise climática, um compromisso que até hoje nunca foi cumprido nem saiu do papel.

É por isso que a crise do clima só pode ser respondida com uma luta global por justiça climática, capaz de combater a desigualdade entre as nações, fazendo com que os países responsáveis pelo dano climático acelerem as medidas para reduzir suas emissões e financiem as ações de prevenção e redução de danos dos eventos extremos nos países pobres. Haverá de ser um país em desenvolvimento e com uma importância inquestionável dado seu patrimônio ambiental e sua biodiversidade.

Tudo isso precisa ocorrer junto com uma mudança radical na matriz energética de todas as economias do mundo, acompanhada também de uma mudança profunda nos padrões de consumo da sociedade capitalista. Da mesma forma que não há planeta B onde possamos nos refugiar, não há plano B capaz de produzir resultados que evitem o colapso anunciado. 

É aí que o Brasil entra na história, não apenas por sua centralidade e sua importância no equilíbrio ambiental do planeta, mas principalmente porque a volta de Lula ao Palácio do Planalto, sua ida à COP27 no Egito como primeira viagem internacional do mandatário eleito, com o prestígio do qual ele ainda goza, certamente  vai nos colocar nos holofotes da luta global por justiça climática e pode abrir  caminho para essa liderança, tal como um dia o Brasil já liderou a luta contra a fome no mundo. 

Brasil potência ambiental:  A nação que pode liderar o mundo na crise do clima 

O Brasil reúne como país todas as condições para acelerar sua própria agenda de redução dos danos ambientais, reflorestando e recuperando seus biomas degradados, investindo em ciência e tecnologia para assegurar a sustentabilidade de nossa produção, desenvolvendo alternativas de matrizes energéticas limpas e promovendo ações historicamente negligenciadas tanto na área de saneamento básico, tratamento de lixo e esgoto, quanto em nossa matriz de transporte totalmente dependente dos combustíveis fósseis e cuja descarbonização é urgente. 

Eis aí o caminho para um novo tipo de desenvolvimento econômico capaz de acelerar o crescimento ao mesmo tempo em que acelera a preservação da vida no planeta. Portanto, qualquer projeto de desenvolvimento nacional e de reinserção internacional do Brasil precisa passar necessariamente pela afirmação de nosso lugar no mundo como uma POTÊNCIA AMBIENTAL. É por isso que todo planejamento econômico, todos os esforços para aceleração do crescimento, todos os projetos de infraestrutura, todo investimento, toda obra, toda tecnologia, toda nossa engenharia, toda nossa produção de bens e serviços, nossos modelos de negócio, nossa agricultura, nossa matriz energética, nossa malha de transporte, nossa ciência, nosso imaginário, nossas ideias, tudo precisará estar harmonizado e hierarquizado por nossa mais profunda determinação de sermos essa potência ambiental que sirva de exemplo para as demais nações do planeta. 

Depois desses anos de isolamento e desconfiança, estamos diante de uma grande oportunidade para o Brasil fazer a diferença no mundo e ocupar seu lugar de liderança na luta para salvar o planeta. Lugar que parece ser naturalmente seu. 

Essa talvez seja a grande missão do Brasil no mundo: conduzir um necessário e urgente processo de cura que impacte nos modos de vida e restabeleça nossa harmonia com a natureza. 

Talvez  seja essa também a missão de vida do presidente Lula, depois de vencer a injustiça e ser reconduzido ao poder pelo voto de seu povo. 

Talvez não haja outro país nem outra liderança à altura do desafio que nós humanos temos pela frente.

O certo é que é a nossa última chance. 

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