O rio precisa ser olhado a partir da influência de suas marés. Como cria da Maré, que tem cerca de 140 mil habitantes, uma cidade dentro da cidade do Rio banhada por favelas, começo a militar em defesa da dignidade humana diante das tragédias que vi e vivi. A luta por direitos humanos para mulheres negras e faveladas, como eu, não é uma escolha, ela se impõe. O vai e vem de uma maré nos desafia a pensar em quantas barreiras precisam ser vencidas para desaguar em um rio de oportunidades, esperança e plenitude. Precisamos navegar nesse rio com o conhecimento sobre as marés para saber quando é necessário mudar o seu curso.  É uma questão de vida ou de morte.

O Rio de Janeiro é uma cidade em que as suas belezas naturais contrastam com os abismos de contradições sociais, políticas e econômicas. É uma cidade que amarga a perda de suas crianças no caminho da escola, como aconteceu com Marcos Vinícius da Silva, na Maré, em 2018, ou mesmo dentro da escola, como ocorreu com a Maria Eduarda Alves Ferreira, em Acari, em 2017, a partir da ação direta do braço armado do Estado. Os dois adolescentes, negros, morreram com a blusa dos Cieps em que estudavam. Eu estudei no Ciep Prof. Cesar Pernetta, na Maré, e perdi as contas de quantas vezes não tive aula porque havia uma incursão policial. Eu perdi as aulas, mas Marcos Vinícius e Maria Eduarda perderam a vida. É uma decisão política ter ou não ações deste tipo próximas às escolas e garantir melhor qualidade de ensino.

Quando eu tinha 11 anos de idade, ao ingerir água da bica de casa, contraí hepatite e quase morri. A água de péssima qualidade era resultado da falta de uma política de saneamento básico que garantisse o tratamento de esgoto com a destinação correta das nossas águas. Uma pesquisa da Casa Fluminense demonstrou que na região metropolitana do Rio, mais de 2.200 internações foram registradas, em 2018, em virtudes de doenças ocasionadas pela falta de saneamento básico. Temos a Baía de Guanabara completamente poluída por esgoto in natura e rejeitos industriais e até hospitalares. Não se ouve falar em despoluição da Baías de Guanabara e de Sepetiba, não há políticas voltadas para assegurar os recursos hídricos. Ou seja, a falta de saneamento além de causar problemas ambientais, gera o inchaço no serviço de saúde pública. O único plano da prefeitura é o de garantir a privatização do serviço de saneamento básico aumentando o custo do serviço para a população. Em plena pandemia, é uma decisão política melhor o serviço essencial ou terceirizar para gerar lucro a empresas privadas.

Morar na beira da Avenida Brasil, onde em tese passa os ônibus para todos os cantos da cidade, não me garantiu um deslocamento barato e rápido pelo Rio. Para chegar na zona sul, sempre precisei pegar de duas a três conduções. E o a caminho até o centro da cidade, que em tese levaria no máximo 20 minutos, além da passagem cara, ônibus lotado e péssimas condições de manutenção, com o engarrafamento acirrado pelas obras intermináveis do BRT TransBrasil, levava de uma hora a 1h30 em horário de pico. Imagine para quem mora na Zona Oeste. É decisão política deixar a bilhetagem, que garante a informação sobre quanto entra e sai do caixa dos transportes, nas mãos da Fetransport. A prefeitura deu de graça a mobilidade urbana para as máfias dos ônibus, que na pandemia desativou mais de 130 linhas urbanas.

Não há dúvidas de que a primeira decisão para se gerir uma cidade é se a prioridade é articular uma política de vida ou de morte. A partir daí, é preciso reconhecer a realidade para superá-la com soluções concretas que desarticule a desigualdade social como política pública já implementada por gestores do caos, que se comprometeram com os interesses privados e mafiosos. O meu compromisso é com a transformação social atrelada à mudança de perspectiva política. Onde a luta é coletiva. Onde a periferia torna-se o centro das decisões políticas. Onde o lucro jamais se colocará em detrimento da vida. Onde a Maré de esperança segue o curso de um Rio de gente.

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