Outro dia peguei um Uber e entre uma conversa e outra começamos a falar sobre o governo Bolsonaro. Ele comentou que em seu trajeto paulistano, de 10 pessoas que carrega diariamente, 8 apoiam o atual presidente. Um papo até então agradável sobre o carnaval ganhou ares severos, com jatadas de ódios, quando comentou sobre as manifestações próximas chamadas pelo presidente via WhatsApp. Na defesa bolsonarista, toda a série de memes que circulam também pelas redes já estavam na ponta da língua: que o vídeo compartilhado criminosamente por Bolsonaro era antigo, de 2015; mas que se dependesse dele os congressistas e os ministros do STF mereciam ser metralhados; a mídia só mente (salvo exceções reforçou), o dólar e o preço da gasolina não são de responsabilidade da presidência, Bolsonaro tem coragem de só falar a verdade e ainda bem que existem as redes agora como fonte de informações.

Sabemos que a trupe miliciana fascista conseguiu capturar bem o sentimento anti-sistêmico das últimas eleições e que ainda paira na sociedade. Mais que isso, construiu uma rede potente de propaganda que faz com que ele só fale para os seus. Não à toa veio a público corrigindo a versão de seu disparo, dizendo que o vídeo divulgado, na verdade, era do passado. Aos olhos dos formadores de opinião aquilo soou como uma falta de inteligência sem tamanho já que o vídeo continha imagens da facada das eleições de 2018. No entanto, para sua base, o motorista de Uber, seu argumento era alimento de defesa em muitas discussões.

Que a mídia corporativa trabalha sob interesses privados, isso denunciamos há muito tempo. No Brasil, 05 famílias dominam cerca de 50% deste mercado. Mais que isso, a esquerda brasileira trabalha há anos por uma agenda de democratização que visa ampliar a pluralidade de vozes e a diversidade de opinião nos meios de comunicação. Igualmente uma Reforma Política que garanta maior representatividade no Executivo e Legislativo e menor influência dos lobbies poderosos do poder financeiro que controlam o Congresso Nacional, entre outras agendas estruturantes e fundamentais para mudanças de fato sistêmicas no Brasil.

Ora, se trabalhamos com essas agendas organicamente há tempos, como capturar esse sentimento anti-sistêmico de maneira responsável diante da conjuntura que está colocada? O momento, sabemos, é profundamente grave. E exige de nós coragem, resiliência política e serenidade. No entanto, diante desta crise, temos uma oportunidade única de apresentar nossas agendas no seio da sociedade, fazendo trabalho de base necessário, levando esses debates aos rincões, se engajando com as bandeiras que merecem atenção. Somos milhares de aquilombada/os em movimentos e organizações cidadãs e muita gente está se entrincheirando em colaboração diante desta gravidade.

É hora de seguirmos com o debate político propondo uma agenda contra-ofensiva que temos acumulada. Defender a liberdade de expressão, mas a democratização dos meios em consonância; Resistir e avançar urgentemente, combinando inteligências e se articulando em redes para otimizar recursos e somar esforços. ¨Vai passar¨, como já profetizou Chico, outrora. Não podemos, entretanto, ficar só na defensiva diante dos fatos.

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