Uma das coisas cafonas do momento é ouvir gente falando que o Brasil não tem jeito.  Raciocínio preguiçoso, acomodado e desmobilizante. Parece até a febre provocada pelo vírus do complexo de vira-lata. Aquele mesmo, o velho conhecido. É certo que o Brasil tem problemas gravíssimos e profundos. Sociais, ambientais e tantos outros, frutos em especial das políticas predatórias financiadas pela elite do atraso. A energia mobilizadora do momento, no entanto, nos exige uma postura de cura. Não simplesmente por resiliência, mas porque temos jeito e muito! As últimas décadas atestam isso.

Gilberto Gil, quando ministro de Lula, apresentou um tratado cultural para ativar o corpo vivo do país. Conceituou o do-in antropológico como papel do Estado para “avivar o velho e atiçar o nosso” na sociedade brasileira. Ele defendia: somos o país da potência solidária, com potencial de todas as nações.  

O olhar seguro de altivez de Gil ao concluir esse raciocínio por si já diz muito. Nos faz lembrar das potências de vozes e corpos negros, indígenas e multiculturais que emergiram desse processo político de do-in antropológico que vivemos. Nos faz lembrar das potências emergentes das periferias e do Brasil profundo, da imensidão criativa e disruptiva que transpira pelos poros sociais desse Brasil, com sede de si e do futuro.

A construção desse processo de afirmação da potência que somos vem sendo ensaiado há alguns séculos, encontrando seu ponto de consolidação em movimentos, por exemplo, como o modernismo materializado, entre outras formas, nas palavras de Oswald, primeiro no Manifesto do Pau Brasil e definitivamente, em seu Manifesto Antropofágico.

Ou nas gambiologias inventadas por essa inteligência desorganizada, orgânica e plural pulsante em nosso tecido social, que mesmo diante da pobreza, da precariedade, reinventa a vida. Sem contar, as forças vivas atuantes nos movimentos sociais e políticos emergentes nas mais diversas épocas, que desafiaram o status quo e produziram lideranças como Luiz Inácio Lula da Silva, que mudou a imagem do Brasil para o mundo e nos permitiu um outro patamar de experimentos e políticas públicas e sociais.

Obviamente que como bem definiu Jessé de Souza, não somos o país da cordialidade racial, pelo contrário. Enfrentamos o racismo estampado nas mais diversas formas, na mais brutal desigualdade social. Ocupamos o nono lugar no ranking dos mais desiguais do mundo, e esses índices sociais têm gênero, cor e orientação sexual. O quadro é desafiador.

Por outro lado, mesmo em condições adversas, nossos movimentos sociais produziram revoluções e negaram a subserviência e as sombras; apresentaram inúmeras soluções para a sociedade nas mais diversas áreas – olha o SUS! Nossos cientistas estão produzindo tecnologias e até mesmo vacinas em condições adversas.

E como bem lembra Guilherme Boulos, “graças ao SUS, o Brasil consegue vacinar 10 milhões de crianças contra a poliomielite num único dia. Se não fosse Bolsonaro, o Brasil seria exemplo mundial da imunização”.

Os avanços que tivemos até aqui, grande parte, foram frutos de uma cidadania organizada que negou o atraso e lutou pelo futuro. Fizeram movimentos de cura. Nosso papel agora segue sendo esse. Não nos esqueçamos das nossas potências. O Brasil com S é maior que o Bolsonaro.

 

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