Arte: Pedro Inoue / Design Ativista

Quando ainda em janeiro de 2019, a ministra Damares atreveu-se a dizer que meninas usam rosa e meninos azul, uma onda de reação tomou conta das redes, levantando ali também um amplo debate sobre se sua declaração seria ou não cortina de fumaça para desfocar a atenção pública sobre o plano ultraliberal do governo, ávido pela aprovação de propostas relacionadas à redução do Estado e de direitos.

Muitos defenderam, com argumentos lúcidos e bem embasados, que declarações como essa seriam usadas como técnica diversionista, numa alusão a estrategistas militares que fazem uso disso para tentar esconder suas forças por trás de uma nuvem de fumaça.

Fato é que desde então, declarações racistas, machistas, homofóbicas, grosserias gratuitas e outras com conotações fascistas têm ocupado o noticiário e as discussões públicas nacionais, absolutamente livres de pudor. Sem contar as mentiras. Em 492 dias de governo, Jair Bolsonaro ultrapassou a marca de mil declarações falsas ou distorcidas, segundo o contador do Aos Fatos que checa sistematicamente as falas do presidente passíveis de verificação desde a posse.

Passado quase 1,5 ano de governo, fica evidente que esse conjunto de declarações serve como técnica de mobilização social e disputa cultural que, paulatinamente, vai fortalecendo uma base radicalizada e que servem como gatilhos que despertam e empoderam todo tipo de arbítrios e preconceito em franco diálogo com o racismo estrutural de que a sociedade brasileira ainda padece.

Um dos efeitos mais graves desta disputa é um acampamento mobilizado por um grupo bolsonarista, em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, que reúne pessoas em grupo de Telegram a partir do chamado “Lembre-se, você não é mais um militante, você é um militar, um militar com uma farda verde e amarela, pronto para dar a vida pela sua nação”.

Matéria publicada pelo Congresso em Foco revela que entre as bandeiras promovidas pelo movimento estão o ¨extermínio da esquerda”, fim da corrupção, o respeito à soberania nacional e a insurreição contra medidas de distanciamento social adotadas por governadores como forma de impedir o avanço da pandemia de Covid-19.

Sabemos que este governo vem adotando como estratégia de combate à pandemia a política de imunização de rebanho, nome horroroso, mas que traduz bem sua intenção de contágio em massa pela doença e a partir daí,´salve quem puder´. Suas declarações públicas, desde que chamou a COVID-19 de gripezinha, vêm demonstrando isso.

Os efeitos dessa política, sabemos, é a higienização social. Pobres, populações em situação de vulnerabilidade crítica e, sobretudo, negros são as vítimas mais atingidas. Estima-se que no Brasil, pretos e pardos representam quase 1 em cada 4 dos brasileiros hospitalizados com Síndrome Respiratória Aguda Grave (23,1%), mas chegam a 1 em cada 3 entre os mortos por Covid-19 (32,8%).

A subnotificação é outra estratégia de Governo. Sabe-se que no mundo a subnotificação é uma realidade. No entanto, o Brasil é o país que menos testa entre os mais afetados. Ranking incompatível a um país que ocupa espaço no ranking das 10 economias mais importantes do mundo.

Não é segredo para ninguém o desprezo que o presidente ostenta para com pandemia, assim como pelos indígenas, quilombolas e outras minorias. Quando ousa um ´E daí´, diante da pergunta sobre os índices de mortes, e ainda diz que não é coveiro para tratar do tema, há de se constatar que, como na ditadura, a subnotificação pode ser tática para esconder o custo de vidas humanas que pagaremos pela opção política que estão fazendo.

Nesse sentido, tudo leva a crer que esse governo aposta no caos como tentativa maquiavélica dos fins justificam os meios. E para isso, segue mobilizando sua base social, levando a crise política a outro patamar.

Há quem considere essa estratégia mais instintiva do que racionalmente inteligente. Só sei que subestimar a besta fascista nunca foi a melhor opção. A história brasileira recente é que o diga.

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