Por Camila Marins

E sou eu, sapatão negra, uma mulher?

“Sapatão”. Foi desta forma que uma mulher agrediu a chef de cozinha Isabela Duarte, no Museu do Amanhã. A agressora ainda se autointitulou falsamente como “desembargadora”. Mesmo com a ocorrência na Delegacia, a lesbofobia não foi considerada como agravante no momento do registro. A mídia divulgou o fato como homofobia, apagando novamente a lesbofobia envolvida. É preocupante como a sociedade continua a apagar nossas identidades. E é importante ressaltar que a agressora é uma mulher branca que saiu incólume do estabelecimento e da Delegacia, mesmo ela xingando os próprios policiais, de acordo com relatos.

Infelizmente, este não é um caso isolado no Brasil. Durante a ditadura civil-militar, havia uma charge que expressava: “É sapatão, para o camburão”. Em 2023, completamos 40 anos da invasão do Ferros Bar, um levante de lésbicas contra a violência policial e a censura. Em 2016, aconteceu o espancamento brutal e o assassinato de Luana Barbosa, mãe, trabalhadora, lésbica negra e periférica que estava levando seu filho para o curso quando, após uma abordagem policial, reivindicou o seu direito como mulher a passar pela revista por uma policial feminina. Mesmo levantando sua blusa para mostrar que era mulher, os policiais a agrediram e, em vez de levá-la para o hospital, a conduziram para a Delegacia, impedindo o atendimento médico e a possibilidade de sobrevivência.

Ano passado, durante o processo eleitoral, quando fui candidata a deputada federal pelo PT, por uma decisão dos movimentos sociais de lésbicas, recebi ameaças e discurso de ódio nas redes sociais. Em uma publicação com uma foto ao lado da atriz Marieta Severo, escrevemos a palavra SAPATÃO e o Twitter considerou violação aos termos de conduta e bloqueou minha conta em plena corrida eleitoral. Ou mesmo quando eu caminhava pelas ruas e me diziam: “Mas você não precisa dizer que é sapatão. Para que isso?” ou “Se elege primeiro e depois fala da sua sexualidade”. Recusei-me a aceitar essa violência e esse apagamento, mas obviamente que enfrentei as consequências da lesbofobia e do racismo.

Segundo uma pesquisa do Data Labe, 8 em cada 10 pessoas negras e LGBTQIAP+ foram vítimas de discurso de ódio no Rio de Janeiro. E quando o discurso torna-se ato?

As palavras também constituem dispositivos e disparadores de violências e violações de direitos humanos, tentando legitimar falas e agressões. Precisamos de políticas públicas que falem sobre o combate à LGBTQIAP+fobia nas escolas, nos meios de comunicação, nos equipamentos públicos, nos locais de trabalho, nos sindicatos, nas associações e em todos os espaços.

Para reconstruir o Brasil, é preciso uma política de alianças que seja necessariamente irmanada com um projeto político social e econômico de garantia de direitos e de reparação à população negra, LGBTQIAP+, indígena, quilombola, ribeirinha.

Quanto nos afirmamos sapatonas, estamos disputando o discurso e a palavra. Estamos criando brechas para a construção de outros imaginários, um mundo livre de lesbofobia. Estamos, sim, nos afirmando sapatonas e afirmando nossas identidades.

Agora, existem perguntas que não calam e precisam ser respondidas: que mulher negra sairia impune de uma situação dessas como a agressora saiu? E eu, lésbica negra, sou uma mulher?

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