Por Camila Marins

“As coisas que mamãe me ensinou”. Este é o título do disco da cantora Leci Brandão que foi lançado em 1989. O Brasil vivia o período de redemocratização pós ditadura militar e tinha acabado de passar pela Constituinte de 1988 que contou com muita força da deputada Benedita da Silva nas pautas raciais. Na capa desse disco, Leci segura uma rosa amarela, assim como Lélia Gonzalez, quando candidata, cantava nas ruas e distribuía rosas amarelas ao povo. A última faixa do disco de Leci intitula-se “Saudação a Oxum” e traz na sua contracapa uma foto da cantora com uma camiseta escrito “Sindicalize-se”. Benedita da Silva, quando relatora da PEC das Domésticas, subiu à tribuna do Congresso Nacional com trajes de domésticas, denunciando o racismo e o mito da democracia racial nomeado por Lélia. As mulheres negras na política atuam no mapa das brechas com outras tecnologias e performances, desestabilizando e reinventando a democracia. Afinal, que democracia é essa que deixa a população negra ser a parcela que mais passa fome, sofre com o desemprego, mais morre vítima da violência do Estado seja por fome ou por tiro.

Essa semana, o Rio de Janeiro foi marcado por chacinas patrocinadas pelo Estado que ignora direitos humanos, mata jovens pretos de periferias e enluta mães, mulheres, irmãs, filhas.

O 25 de julho homenageia a Mulher Negra e Tereza de Benguela, liderança do quilombo de Quariterê, no século 18. Também celebra 30 anos de proclamação da data pela ONU como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Ambas as comemorações integram o Julho das Pretas.

A fome, o controle de territórios pelo tráfico ou pela milícia, o abuso policial, o lixão e o valão aberto do racismo ambiental, o desinvestimento na saúde e na educação, o abandono parental e da velhice, a defasagem salarial, a precariedade do serviço doméstico, o assédio e o estupro, a solidão. É este o cenário a que nós, mulheres negras, somos submetidas.

A pesquisa “Violência Política de Gênero e Raça 2021”, do Instituto Marielle Franco, constatou o aumento de candidaturas e de mulheres negras eleitas em 2021, em comparação a 2016. Foram 84.418 candidatas à vereança, com 3.634 eleitas, ou 6% nas novas câmaras municipais. Embora pequena, essa parcela significou quase 700 mandatos a mais.

Somos nós mesmas que estamos avançando, por meio da disputa política e dos movimentos sociais, na conquista dos direitos que nos são devidos pela história e pela Constituição. Precisamos fazer com que a destinação dos recursos do Estado incorpore o senso de urgência que já temos como mulheres negras para a solução dos problemas que nos afligem em primeiro lugar, mas também ao restante do país. Impedir que o rentismo possa mais que a vida. Para começar, acabando com a Emenda Constitucional do Teto de gastos.

Os orçamentos públicos devem refletir as demandas e a verdade inscrita no dia a dia das mulheres negras, nosso direito à cidade e a um transporte público onde possamos viajar sentadas e seguras; a períodos mais longos de licença-maternidade e paternidade, para evitar duplas, triplas, jornadas; ou a efetivação de instrumentos legais já disponíveis, como a lei 11.888, de assistência gratuita para construção de habitações de interesse social, de modo a garantir que uma casa que não vá desabar à primeira chuva de verão. Para que tenhamos comida no prato. Nós, mulheres negras, operamos na lógica da distribuição, e nunca da concentração. Compartilhamos nossas marmitas, nossas casas e roupas com familiares, vizinhas, amigas e colegas de trabalho.

Nós, mulheres negras, estamos na luta por direitos e democracia, nos parlamentos e nas ruas. E não vamos sair. Porque, enquanto estivermos em movimento, este país tem esperança. O Brasil que acreditamos é o Brasil de “Saudação a Oxum” de Leci Brandão. É o Brasil da fartura.

Camila Marins é jornalista, feminista, sapatão, uma das editoras da revista Brejeiras

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