“Djanira” é uma mulher livre e, também, uma erva natural. Estamos em um conturbado 2019, mas podemos chegar, mais fortes, ao futuro

“Djanira” é uma música antiga dos compositores baianos Arnaldo Almeida, Jarbas Bittencourt e João Luís e que a conterrânea e minha amiga Ily selecionou para o seu disco de estreia “Voo Longe”. Uma música que até então era uma brincadeira, serviu de pretexto para fazer uma história com alegria sobre as hipocrisias e questões mais profundas e nada festivas que cercam esse tema para um clipe de “Djanira”, que aqui se personifica numa mulher livre e também na erva natural.

Não fazemos aqui, com Djanira, apenas um ato pró-descriminalização da maconha, mas também à liberdade. Djanira é um clipe afetivo e feminino, colorido e alegre, dentro de um Brasil que pode ser possível enquanto estivermos em um estado laico e no dia que formos dirigido por um governo moderno, preocupado com a economia, a saúde e a sociedade democrática – e não com os atrasos que emperram nosso avanço para um mundo mais globalizado e livre de hipocrisia e censura.

Fazia sentido, inclusive pra agenda do Supremo Tribunal Federal, que tinha em pauta a discussão da descriminalização da maconha agendada para junho passado. Em manobra política do presidente, Dias Toffoli adiou pro fim do segundo semestre. Enquanto estávamos prestes a finalmente debater no Supremo, vemos representantes do poder se prestando a um desserviço moralista e que não enxerga o tamanho do benefício que sua legalização poderia trazer.

Qual não foi nossa surpresa, no dia do lançamento do clipe Djanira – que dirigi e escrevi para -, o governador do Rio de Janeiro ameaçar prender quem estiver fumando maconha na praia.

A reação foi uma profusão de memes e até um “maconhaço” foi organizado no Facebook na praia. Witzel, o governador, chegou ao absurdo de responder e dizer que deslocaria policiais para fiscalizar. Numa cidade e num Estado com uma infinidade de problemas e uma sensação de total abandono tanto do poder municipal quanto do estadual – e qualquer um que está morando no Rio de Janeiro pode confirmar isso -, chega a ser um deboche e uma afronta tal preocupação diante de um assunto que já está muito avançado em diversos lugares do mundo, incluindo os Estados Unidos que o atual presidente não cansa de correr atrás.

Witzel, no entanto, agiu mais de má-fé do que se imagina. Sua “criativa proposta” veio como reação ao caso do morador em situação de rua que, supostamente, após um surto, esfaqueou duas pessoas (que vieram à óbito) na Lagoa, bairro nobre da zona sul carioca. Assim, Witzel usa a tragédia para estimular ainda mais o desconhecimento da sociedade civil sobre as drogas e, de quebra, diante da comoção, ganhar aval para implementar uma política higienista de detenção e internação compulsória de usuários recreativos da maconha e dependentes químicos.

Caros populistas, o empreendedorismo da cannabis já é uma realidade e uma realidade muito lucrativa e com potencial econômico ainda incalculável em alguns lugares do mundo.

Na última segunda, foi a vez de Nova York descriminalizar o uso da maconha. A erva ainda serve como base para remédios eficazes em diversos tratamentos médicos – há vários casos de pacientes aqui no Brasil que precisam e sofrem com a burocratização para conseguir trazê-los de fora.

Mas precisamos ir mais adiante do terreno dos privilégios de um branco morador da zona sul que gostaria de fumar sua maconha tranquilamente. Porque enquanto nós, brancos, aplaudimos o por do sol, há milhares de jovens negros encarcerados por um baseado. Além da questão econômica e medicinal, debater a descriminalização da maconha se faz ainda mais urgente no Brasil, que assim como nos Estados Unidos, criou uma política de criminalização da erva com claro intuito de excluir a população negra por meio do encarceramento de jovens, negros e pobres desse (e daquele) país.

Não é necessário ir muito longe para entender as distorções no tratamento da questão – já se sabe, causadas pelo racismo – quando um branco e um negro são detidos com drogas. Basta ver a diferença nas manchetes da mídia e na conduta policial. Um filho de uma desembargadora foi solto, com ajuda de influência da própria, mesmo tendo sido apreendido com ele 130 quilos de maconha, enquanto um morador seguia preso por portar 69 gramas de maconha até que o ministro do Supremo, Luis Roberto Barroso, ordenou que fosse libertado. Na ocasião, Barroso atacou a política de combate às drogas, criticou o sistema prisional e sugeriu que “talvez seja o momento de pensar em uma correção de rumos”.

Há produções muito interessantes e recentes como “13a Emenda”, de Ava Duvernoy (a mesma diretora do excelente e necessário “Olhos que Condenam”), e “Baseado em Fatos Raciais”, conduzido por Fab 5 Freddy. Estão todos na Netflix e comprovam que a política antidrogas, criada nos anos de 1920, é, para além de moralista, também e sobretudo racista. E é preciso que todos e todas nós, principalmente brancos privilegiados, tenhamos isso muito bem compreendido na luta pela descriminalização das drogas.

Num momento em que diversos países do mundo como Canadá, Estados Unidos e Uruguai, utilizam a legalização do cultivo e consumo da maconha para impulsionar suas economias – e estamos falando em investimentos da ordem de mais de 1 bilhão de dólares – e ajudar em diversos tratamentos de saúde, incluindo epilepsia e câncer, vemos no Brasil hoje uma política muito atrasada com campanhas de comunicação sobre a maconha que remetem à política de drogas do regime militar. Uma tática comumente utilizada em regimes que se valem do medo e do pânico para endossar discursos de ódio.

O objetivo de políticos como esses a gente sabe: atender a bancada conservadora e seguir a política de criminalização da população negra, enquanto por aqui 39 quilos de cocaína voam por aí em avião presidencial. A discussão também deveria ser sobre isso. Escutar a população deveria ser obrigação de quem preside um país. Mas debater com a sociedade não parece fazer parte do novo governo – e isso a gente sabe desde a campanha eleitoral, quando não participou de nenhum debate entre candidatos, algo jamais visto desde a redemocratização.

E temos visto o mesmo comportamento em todos os demais assuntos. O Brasil não gosta de democracia? É o que parece ao excluir membros da sociedade civil, especialistas e técnicos de áreas específicas em comissões do do governo e substituir por militares e políticos de seu partido, um traço de regime autoritário. Foi assim com o Conselho Nacional de Política Sobre Drogas e mais recentemente, vejam só, com a Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, que investiga crimes relacionados à ditadura, que agora tenta reinventar a seu modo, à extrema-direita.

É inaceitável que o Brasil ainda esteja dando tantos passos pra trás.

E é triste que estejamos vivendo o pior momento desde a redemocratização para andar pra frente, incluindo a descriminalização da maconha, quando ela poderia ajudar a reduzir o número de 13 milhões de desempregados, beneficiar a vida de milhares de pessoas com tratamentos medicinais e utilizar a polícia para outros fins mais inteligentes que garantam a segurança dos cidadãos, e não reforcem a guerra civil que já vivemos.

É necessário reagir. Nossa resposta, pra isso, aqui, é amor e liberdade. “Djanira” é resultado de uma soma de esforços, um trabalho coletivo muito bonito, que soma nossos discursos por uma sociedade (mulheres, negros, lgbtqs, educação e Djanira) livre e reúne essas mulheres tão fortes para mostrar que estamos juntos por um país mais feliz e maduro. Estamos em um conturbado 2019, mas podemos chegar mais fortes ao futuro.

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