Por Beatriz Lourenço e Pedro Borges

Não há outra forma de iniciar esse texto sem a reafirmação de seu título, “voto antirracista é voto no movimento negro”, e só pode ser assim, sobretudo em 2020. Não por acaso, as discussões sobre o violento racismo brasileiro passa a assumir um papel importante na conjuntura eleitoral. Dificilmente você verá um candidato posicionado no campo da esquerda ou no campo progressista que não mencione a necessidade da superação do racismo em seu discurso, mas isso é suficiente? Temos certeza que não.

O Movimento Negro está organizado no Brasil há quase cem anos, sempre debatendo o caráter estrutural das relações raciais no país, muitas vezes de maneira solitária.  Se racismo vem sendo debatido com mais frequência pela sociedade, e se episódios como o ocorrido com George Floyd reverberam e causam indignação, é porque estamos há décadas formando militantes, debatendo as relações e travando as lutas. Não há no Brasil força política mais preparada para entendê-lo e para organizar o povo para um projeto de Brasil. Assim, para nós, a primeira e mais importante prática antirracista é o reconhecimento incontestável de que a maior instância da luta antirracista no Brasil  é o Movimento Negro. 

Deste modo, não existe outra alternativa consequente para o verdadeiro voto antirracista do que a escolha de candidatos gestados no seio do Movimento Negro, com práticas e pautas que a ele respondam. Não acreditamos que heróis redentores salvarão o povo. Não cremos em heróis, nós os cultivamos. Desde Zumbi, nossa experiência nega o culto à personalidade e a autocracia; o Quilombo que estremeceu a Coroa portuguesa foi uma construção coletiva. E essa segue sendo a nossa estratégia para combater racismo: a organização popular e comunitária, a construção coletiva de um projeto alternativo e de bem-viver.

Neste cenário, organizações de movimento negro e de periferia, como a Uneafro Brasil, a Agência Solano Trindade, entre outras, se reúnem para disputar o poder legislativo na cidade de São Paulo com a chapa do Quilombo Periférico, encabeçada por Elaine Mineiro e acompanhada de Débora Dias, Júlio César, Erick Ovelha, Samara Sosthenes e Alex Barcelos.

O Quilombo Periférico é uma chapa coletiva, gestada no seio dos movimentos sociais, com a capacidade de representar de maneira real e concreta as violações do Estado no âmbito de raça, gênero, classe, território, sexualidade, entre outras. É a modernidade da luta antirracista no Brasil.

O grupo também é a concretude da independência e autonomia das organizações de movimento negro e periférico. Não é uma corrente, um racha, é o movimento antirracista articulado de maneira própria. É a ousadia de reunir movimentos sociais negros e de periferia sem supervisão e submissão aos brancos.

A nossa tarefa histórica, a partir da perspectiva que apenas nós podemos ter, é a de dirigir o projeto autenticamente popular. Assumimos o dever de dar o rumo e convidamos os antirracistas a construir as pautas que digam respeito ao Brasil. Domingo, somos Quilombo Periférico.

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