Por Helena Martins e Bia Calza

A matemática dos votos no primeiro turno deixa claro: a situação de Bolsonaro é bem mais difícil do que a de Lula. O atual presidente ficou atrás do petista por seis milhões de votos. Para virar, Bolsonaro tenta pescar em mares distintos: virar voto de evangélico que votou em Lula, mas não muito convicto; conquistar a população de baixa renda e as mulheres; intoxicar o eleitor que se absteve a ponto de mobilizá-lo a votar no segundo turno. Lula tem que evitar perder esses votos e ampliar, garantindo não só a adesão formal dos candidatos, mas dos apoiadores deles. Os primeiros dias da campanha no segundo turno mostram, portanto, que esta será uma guerra de rejeições. Como parte central dela, as primeiras movimentações escancaram os desafios associados às comunicações, particularmente ao ambiente digital. 

Além do já perceptível maior volume de desinformação, há uma diferença em relação aos temas e à dinâmica das redes. Ao longo do primeiro turno, mobilizaram o debate político nas mídias digitais o ataque às urnas e a associação de práticas de corrupção ao ex-presidente. Agora, ganham espaço conteúdos mais duros sobre o comportamento dos candidatos e um apelo às questões de ordem moral e religiosa. No caso do público evangélico, de um lado, apoiadores do presidente Bolsonaro ligam Lula ao satanismo, além de continuarem a  campanha em torno dos conteúdos que já conhecemos: aborto, ideologia de gênero, drogas e suposta perseguição aos cristãos. De outro, um resgate de um vídeo de Bolsonaro na maçonaria ganhou ampla projeção. O tamanho do impacto que pode ter em sua base evangélica é ainda difícil de mensurar, mas o incômodo está posto, como evidencia o fato de o candidato ter se pronunciado sobre o tema.

A pauta da maçonaria, que surgiu de forma espontânea, acabou virando rapidamente um dos assuntos mais buscados no Google, e mobilizou eleitores anti-Bolsonaro em diversas redes. No Twitter, por exemplo, entre a base de 43 influenciadores pró-Lula monitorados pelo Observatório das Eleições, foram coletados 228 tweets sobre o assunto na terça-feira (4). Entre os cinquenta perfis bolsonaristas monitorados, apenas 16 tweets mencionavam o assunto, o que mostra que o bolsonarismo buscou silenciar sobre ele.

Entre os perfis evangélicos, apenas Silas Malafaia se dedicou ao assunto no dia, enquanto André Valadão, Nikolas Ferreira e Marco Feliciano se calaram. A campanha anti-Bolsonaro percebeu o flanco aberto e intensificou os ataques. Surgiram, então, diversos conteúdos associando Bolsonaro ao Baphomet, figura mítica que acompanha o presidente no encontro com maçons registrado no vídeo. Na quarta-feira (5), a tag “Baphomet” estava entre os assuntos mais comentados das redes. Dada a situação factual que o vídeo retrata, muitos conteúdos desafiam a classificação entre desinformação proposital, malinformation, misinformation ou simples ironia. 

Desordem informacional e o papel das plataformas

No segundo turno, a dinâmica que temos visto lembra mais aquela de 2018. O bolsonarismo vai se unificando e apelando diretamente para questões religiosas e as chamadas pautas morais com o objetivo de gerar desgaste do adversário. A esquerda, que ainda se mostra surpreendida, parece buscar a mesma estratégia, como o caso do vídeo ilustra. Apela ainda para acusações em torno da religião, inclusive com desinformação como no caso da associação de Damares Alves ao satanismo, e adota conteúdos com estética memetizada, ambas estratégias típicas da direita. 

Por um lado, essa situação evidencia a centralidade da religião na vida dos brasileiros hoje. As emissoras de televisão e rádio são amplamente ocupadas por fundamentalistas. Mas há uma questão que precisa ser posta para que a resposta ao cenário atual não seja adotar os mesmos procedimentos que fazem regredir a consciência social: por que esse tipo de conteúdo, inclusive desinformativo, faz sucesso nas redes, a ponto de se tornar quase uma necessidade utilizá-lo? 

Mais do que mentiras, o que a estratégia de desinformação promove é uma desordem informacional, um desencontro, de modo que a verdade, as instituições tradicionais e seus portadores parecem afetar pouco uma parcela da população, diuturnamente bombardeada por conteúdos que as afetam de outras formas, especialmente no campo dos valores. Há, nisso, uma profunda dimensão ideológica, no sentido da ideologia como conjunto de crenças. Uma questão antiga, mas que é renovada em novos processos comunicacionais. Ora, aquela parcela da população tem permanente contato com pensamentos semelhantes, pois inserida em bolhas algorítmicas, o que a torna pouco permeável ao diferente e ao contraditório.

A disputa em torno da informação, portanto, não é nova, mas as plataformas digitais que organizam a conversação hoje devem ser colocadas em primeiro plano nessa análise do sucesso de conteúdos simplistas ou desinformativos. Tais plataformas não são neutras, produzem o que temos chamado de regulação tecnológica, o que afeta até mesmo a forma do que circula nela. São conteúdos rápidos, padronizados (as dancinhas ilustram isso), permeados de humor, que promovem uma quase indissociação entre o público e o privado. Além disso, baseadas na economia da atenção, as plataformas estimulam a promoção de conteúdos que geram engajamento, ainda que para isso, como é muito comum, promovam conteúdos extremistas ou mesmo desinformativos, que chamam a atenção das pessoas. 

Tanto a demanda pela produção constante quanto o tratamento de dados têm se pautado por uma ética de mercado. Interessa às plataformas e às demais empresas envolvidas nos diversos negócios associados a tais práticas que os usuários se mantenham permanentemente conectados, clicando para produzir informações sobre eles mesmos e os outros. Informações que, posteriormente, serão processadas por grupos que as usarão para, entre outras possibilidades, oferecer anúncios ou conteúdos políticos. Ainda que todos os grupos estejam se valendo desse instrumento, eles não são tratados igualmente pelas plataformas. As principais delas comprovadamente promovem mais conteúdos de direita, conforme pesquisas feitas sobre o Facebook, o YouTube e o Twitter.

Todo esse cenário evidencia que a sociedade deve discutir o funcionamento das plataformas digitais, que cada vez mais controlam o espaço onde se dá boa parte do debate público, superando a visão da neutralidade e do livre mercado de ideias. A regulação das plataformas digitais, nesse sentido, é uma agenda que se mostra cada vez mais necessária. Uma regulação que promova diversidade, equidade, transparência, inclusive em relação à mediação algorítmica dos conteúdos. Obviamente, isso se a eleição consagrar o candidato preocupado com a democracia, pois o que esse cenário também mostra é que é impossível dissociar o problema da comunicação do da política.

Helena Martins é professora da UFC. É editora da Revista EPTIC. Coordenadora do Telas – Laboratório de Tecnologia e Políticas da Comunicação e integrante do Obscom / Cepos.

Bia Calza é mestranda em Ciência Política na Universidade de Brasília e estrategista em comunicação política da Avaaz.

Esse artigo foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições 2022, uma iniciativa do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação. Sediado na UFMG, conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br.

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