Por Fabíola Brigante Del Porto*

Eleições são o momento em que os cidadãos têm a oportunidade de pensar o que querem para suas vidas e para o país. Até 2014, na realização de eleições presidenciais pós-ditadura, nunca nos preocupamos com o quão democráticos eram os principais candidatos e seus “lados”. Isso era um pressuposto da disputa eleitoral de uma democracia que se consolidava e deixava o passado autoritário para trás. Desde a posse do presidente Bolsonaro, em 2019, a defesa da democracia foi voltando à cena e, agora, com a largada oficial da disputa eleitoral de 2022, ela ocupa o centro do nosso debate.

Não se pode dizer que as tendências autoritárias do então candidato fossem ignoradas em 2018: conforme pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha pouco antes do segundo turno, 75% dos eleitores identificavam Bolsonaro como o mais autoritário dentre os dois candidatos. Também não se pode dizer que a sociedade brasileira não apoiava a democracia: de acordo com o Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), pesquisa realizada imediatamente após a eleição presidencial pelo Centro de Estudos de Opinião Pública da Universidade Estadual de Campinas (CESOP/UNICAMP), quase 70% dos eleitores brasileiros escolheram a democracia como melhor forma de governo contra apenas 15% que disseram que uma ditadura poderia ser melhor “em algumas circunstâncias”, 5% que afirmaram que tanto fazia o regime e, 10%, que não souberam responder.

Gráfico 1 – Preferência por regimes políticos (%)
Brasil – 2018

        Fonte: ESEB, 2018. 

Como nesse cenário majoritariamente democrático, o ex-capitão defensor da ditadura militar brasileira pôde ser eleito presidente? O ESEB nos dá uma pista através de uma segunda pergunta sobre o apoio à democracia: quando perguntados sobre o grau de concordância com a frase “A democracia tem problemas, mas é o menos pior de todos os regimes”, o apoio à democracia caía para pouco mais de 50%. Sem o estímulo à lembrança da ditadura, a convicção sobre a superioridade da democracia pelos brasileiros diminuía.

Gráfico 2 – “A democracia tem problemas, mas é o menos pior de todos os regimes” (%)
Brasil – 2018

        Fonte: ESEB, 2018. 

Mas isso ainda não é tudo. Segundo o artigo de Mark Setzler, publicado na Brazilian Political Science Review (2021), embora os eleitores do presidente Bolsonaro partilhassem, em 2018, com o então candidato, o menor apreço pela democracia, essa questão teve um peso menor na decisão eleitoral dos brasileiros em comparação à ideologia e ao partidarismo, sobretudo em relação ao chamado antipetismo. Ou seja, no cenário de elevada polarização política em que nos encontrávamos (e ainda nos encontramos), o posicionamento dos candidatos em relação à democracia foi tratado como uma questão de menor importância, ou mesmo superada, pelos eleitores.

Enquanto o jogo eleitoral opôs lados adversários e não inimigos e, mesmo em contextos de crise, o regime democrático não era questionado, consideramos a consolidação da democracia brasileira como algo acabado. Em 2018, Bolsonaro foi eleito mesmo com sua aberta exaltação da ditadura militar brasileira. Sua eleição foi possível, entre outras coisas, pelo nosso ainda frágil apoio à democracia como um valor em si. Mas, com os olhos voltados para outubro próximo, sua vitória em 2018 também contribuiu para nos relembrar de que, na decisão eleitoral, a defesa da democracia não pode ser tomada como uma questão menor.

*Fabíola Brigante Del Porto é pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (CESOP) da UNICAMP

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Esse artigo foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições 2022, uma iniciativa do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação. Sediado na UFMG, conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br.

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