Por Diogo Nogueira

Os esportes paralímpicos para atletas em cadeiras de rodas têm uma história recorrente desde o princípio, dado em 1960, possuindo uma variedade relevante no cenário desportivo que nos encontramos: A esgrima em cadeira de rodas; o basquete em cadeira de rodas; o tiro com arco em cadeira de rodas; rugby em cadeira de rodas; o atletismo em cadeira de rodas; o bocha; o tênis de quadra e de mesa em cadeira de rodas; e o halterofilismo em cadeira de rodas. Vamos conhecer tais fundamentos:

Esgrima em cadeira de rodas

A esgrima adaptada é tradicional nos jogos paralímpicos, organizada em 1948, aplicada por um neurologista alemão chamado Ludwig Guttman (considerado o pai do movimento paralímpico), na cidade de Stoke Mandeville, no Reino Unido, visando reunir soldados pós Segunda Guerra Mundial com lesão na medula espinhal.

Evento tão bem sucedido, que chegou aos holandeses 4 anos mais tarde, se iniciando um reconhecimento internacional, para estar nas primeiras paralímpiadas da história, em 1960, e não sair mais. Incluso a pessoas com amputações, lesão medular ou paralisia cerebral, o esporte é uma luta mais estratégica que outras existentes, exigindo rapidez e frieza para atacar o adversário sem sua “guarda” mantida. Objetivo: tocar o adversário.

Classificação da esgrima em CR (cadeira de rodas): atletas avaliados de acordo com a mobilidade do tronco. Divididos em três classes: Sendo A, B e C.

Categoria A – Atletas com mobilidade no tronco, com amputação e limitação de movimentos em critério

Categoria B – Atletas com menor mobilidade no tronco e pouco equilíbrio

Categoria C – Atletas com tetraplegia, com dificuldades no movimento do tronco, mãos e braços

Provas:

Florete – Disputa que depende de quem tocar na ponta da lâmina no tronco do rival

Espada – Sai na frente quem toca a ponta da arma em qualquer parte acima da cintura do rival

Sabre – Qualquer toque em qualquer parte da lâmina acima do quadril vale ponto ao competidor

A princípio, as mulheres entravam apenas no modelo florete, para com o passar do tempo, haver uma maior ampliação.

As pistas medem 4m de comprimento, por 1,5m de largura, com as cadeiras fixas no chão, sem possiblidade de se movimentar no assento da cadeira, sentados firmemente, e também sem permissão de mover as pernas gerando impulso. As disputas podem ser individuais ou entre equipes.

Homem branco de cabelo castanho preto, usando um agasalho todo amarelo representando o Brasil, em uma mão segurando a medalha de ouro conquistada, e um ramo flores na outra simbolizando a honra dos jogos paralímpicos.

Ouro em Londres para Jovane. Foto: Luciana Vermell/CPB

O campeão paralímpico da esgrima em cadeira de rodas em Londres 2012, Jovane Guissone, conquistou a prata em Tóquio. O atleta teve sua vida revigorada graças a sua ida para o esporte da esgrima após uma fatalidade ocorrida em 2004, sendo vítima de um tiro na coluna durante um assalto que o tornou paraplégico. 4 anos depois de se encontrar na modalidade, na sua oportunidade de medalha, foi merecidamente coroado com um ouro formidável, como ilustra a foto acima.

O brasileiro ainda colecionou momentos de glória antes do ouro em 2012, tendo duas medalhas, uma na copa do mundo de 2011 (bronze) seu primeiro pódio na modalidade, e uma prata no ano seguinte.

Guissone, morador da periferia da cidade de Esteio, na região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, vivia grandes dificuldades com acessibilidade, mas com orgulho de onde veio nunca se esqueceu da sua origem, até que foi mais visto, mais reconhecido após seu feito nas paralímpiadas de 2012.

É o 2° colocado no ranking mundial nas provas de espada e 10° nas de florete na categoria B. De maneira recente, o atleta ganhou mais uma medalha nas paralímpiadas de Tóquio, dessa vez de prata, seguindo uma trajetória a se prestigiar.

Bocha

Modalidade vindo do que anteriormente era chamado de lawn balls, uma espécie de bocha jogada na grama, essencialmente dentro das paralímpiadas. Apareceu no Brasil apenas na década de 1970, entrou no torneio paralímpico apenas em 1984, destinada a atletas com grande grau de paralisia cerebral ou deficiências severas.

A competição tem como objetivo lançar bolas coloridas, vermelhas ou azuis, o mais perto possível de uma da cor branca (jack ou bolim), com os atletas intactos em suas respectivas cadeiras de rodas restritos a um espaço demarcado para os arremessos. O competidor que alcançar a esfera mais próxima da branca ao final de cada rodada ganha 1 ponto. Há ainda a autorização de usar as mãos, pés e instrumentos de auxílio, contando também com ajudantes (calheiros) em caso de atletas com maior comprometimento dos membros.

Classes: todos os atletas ficam necessariamente em suas cadeiras de rodas, sendo divididos de acordo com o grau da deficiência e da necessidade de auxílio no ritmo das provas. Dependendo da escala de deficiência, é permitido o uso de uma calha para dar mais propulsão à bola. Os tetraplégicos que não conseguem movimentar braços ou pernas, usam uma faixa ou capacete na cabeça com uma agulha na ponta, com os calheiros auxiliando na canaleta, pondo à sua frente para que empurre a bola pelo instrumento com a cabeça. Em alguns casos, os calheiros são parentes de cada atleta.

Categorias: BC1, BC2, BC3 e BC4

BC1 – Opção de auxílio de calheiros (deixá-lo firme na cadeira e entregar a bola)

BC2 – Não recebem assistência

BC3 – Deficiências maiores, usam instrumento auxiliar, podendo ser ajudados por pessoas mais íntimas

BC4 – Outros tipos de deficiências de grau maior, mas que não possuem auxílio, nenhuma assistência.

O local em que é jogada a bocha, é chamado de “cancha”, com 26,50m de comprimento e 4m de largura.

As bochas são mistas, sem qualquer separação por gênero, homens disputam com mulheres, a separação se dá apenas por classe.

Disputas individuais e em pares: possuem direito de 4 rodadas de lançamento das bolas, vence quem faz mais pontos na partida

Disputas em grupo: Acumulam 6 rodadas de lançamento das bolas, vence quem faz mais pontos na partida.

O atleta José Carlos Chagas em torneio de bocha em Tóquio. Foto: Matsui Mikihito/CPB

Tiro com arco em cadeira de rodas

O tiro com arco adaptado é incluso para múltiplas deficiências, podendo ser disputado por pessoas com amputações, paraplégicas, tetraplégicas, paralisia cerebral, doenças disfuncionais e progressivas, como a atrofia muscular e escleroses, com problemas nas articulações e entre outras. Uma das primeiras modalidades a surgirem nas paralímpiadas.

As regras do tiro com arco paralímpico são praticamente as mesmas do esporte olímpico, tendo como objetivo acertar as flechas o mais perto possível da parte central do alvo, formado por 2 círculos concêntricos, posicionado a 70m de distância, o mais externo vale um ponto, e o centro 10 pontos. Quanto maior a proximidade da flecha ao centro, maior é a pontuação obtida.

As duas classes: W1 e open

W1 – Atletas com deficiência grave, em três ou quatro membros

Open (arco recurvo, distância dada de 70m, e composto, distância dada de 50m) – Atletas com deficiência em um membro (superior ou inferior), ou dois membros (inferior ou superior do mesmo lado).

As provas consistem em modelos individuais, coletivos (três arqueiros em cada time), e ainda do modo misto: Reunindo homens e mulheres em confrontos. Competição dividida em partes como: Round classificatório, onde os atletas atiram 72 flechas e se classificam ao final com a soma dos pontos, e o Round eliminatório, sendo disputado até chegar as finais e o vencedor ser definido.

Curiosidade: o Brasil ainda não sentiu o gosto de uma medalha no referido esporte paralímpico tiro com arco.

Atleta HERIBERTO ALVES ROCA durante provas eliminatórias do tiro com arco dos jogos paralímpicos de Toquio que ocorrem. Foto: Matsui Mikihito /CPB.

Tênis de quadra em cadeira de rodas

Semelhante com o esporte convencional, o tênis de quadra em cadeira de rodas se diferencia, sobretudo, na regra dos dois quiques, que alerta o atleta cadeirante que precisa mandar a bola para o lado adversário, antes que toque no chão pela terceira vez. As cadeiras utilizadas são esportivas, adequadas para melhor equilíbrio e mobilidade.

Há a possibilidade de uso de acessórios que podem ajudar no melhor desempenho competitivo, como faixas de tórax e cintura, facilitando guiar a cadeira de rodas.

Classes: requisito essencial de diagnóstico com deficiência a locomoção, devendo ter total ou substancial perda funcional de uma ou mais partes do corpo, ficando incapaz de disputar tênis no modelo convencional

Open ou aberta – Atletas obrigatoriamente com deficiência nos membros inferiores, contendo provas simples, duplas e duplas mistas.

Quad ou aberta – Atletas com deficiência em três ou mais extremidades do corpo. Com provas simples, duplas e duplas mistas.

A cadeira de rodas é considerada o corpo do tenista. Dessa forma, se a bola tocar no assento do atleta há a perda de ponto no jogo. Sem permissão também para usar qualquer outra parte do corpo como mediador na hora do saque, focando apenas na raquete.

O tênis em cadeira de rodas é o esporte adaptado para PCDs com mais crescimento no mundo, estreando nas paralímpiadas de 1992, em Barcelona, chegando ao Brasil em 1985. Uma parceira entre a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) e o CPB (Comitê Paralímpico brasileiro) oferece maior qualidade e apoio aos atletas.

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Eleita melhor tenista paralímpica de 2016 pela primeira edição do prêmio Brasília Esportes, Natália Mayara Azevedo da Costa, quando tinha apenas 2 anos foi atropelada por um ônibus na calçada e teve que amputar parte das pernas. O que só foi o começo para sua volta por cima até ser reconhecida como um dos maiores nomes do tênis em cadeira de rodas no Brasil.

Nas paralímpiadas de 2016, no Brasil, teve uma campanha de brilhar os olhos, até mesmo quando perdeu pra britânica Jordanne Whiley. Tinha o sonho de levar a primeira medalha de ouro na modalidade para o Brasil, mas estava diante de uma adversária dura e teve uma saída digna de uma campeã, compensada por seus treinos tão pesados antes de todo o jogo.

Em 2018, mesmo enfrentando lesões no cotovelo direito, participou do Open de tênis para cadeirantes, e a brasileira bravamente chegou longe, faturando o segundo lugar na ocasião. Infelizmente, ela não participou das Paralímpiadas de 2020 em Tóquio, mas torcemos por sua participação em Paris.

Tênis de mesa em cadeira de rodas

O tênis de mesa estreou nas paralímpiadas incluindo pessoas em cadeira de rodas, logo na primeira edição de 1960, em Roma. Os atletas cadeirantes que costumam competir são os de paralisia cerebral, sem marcha funcional com ou sem apoio e amputados, tendo as disputas divididas dos andantes para cadeirantes, com jogos individuais, em duplas (não existe tiebreak), ou em grupos. O saque para a categoria de cadeirante é diferente, com a mesma regra do tênis de quadra. Todos possuindo o direito de 2 saques, e em seguida quem é o sacador da vez é o adversário, não quem fez o ponto na jogada anterior.

As partidas possuem o mesmo modelo de cinco sets definindo o vencedor no game geral, só que com cada um deles limitados a 11 pontos, contanto que tenha a diferença de 2 pontos, o que vencer 3 sets primeiro garante a vitória.

Quanto maior o número da classe, menor é o comprometimento condicional do atleta, dada a análise do equilíbrio na cadeira de rodas e a habilidade de segurar a raquete. Para as pessoas cadeirantes os números referidos são: 1, 2, 3, 4 e 5.

Atleta Cátia Oliveira na semifinal da classe 1-2. Foto: Rogério Capela / CPB

Cátia Oliveira, 6 horas antes de ser convocada para a seleção brasileira de futebol para o sub-17, sofreu um duro acidente no seu estado natal, São Paulo, tornando-a paraplégica. Porém continuou em busca de seu sonho, e seu objetivo foi realizado, só que em outra modalidade.

A brasileira representa o Brasil em trajetória vencedora no tênis de mesa em cadeira de rodas. Em 2013, estreou na modalidade, e em 2016 chegou às paralímpíadas do Rio, motivada e confiante, ela amadureceu com uma experiência única com o torneio paralímpico.

É a primeira brasileira a ganhar o mundial de tênis de mesa paralímpico, ficando com a medalha de prata, em um alcance que era inédito antes, feito localizado na Eslovênia. A paratleta foi homenageada no mesmo ano de seu ineditismo, 2018, com o prêmio de atleta paralímpico do ano de tênis de mesa.

Já nos jogos paralímpicos de 2020, em Tokyo, dá pra se dizer que iniciou uma coleção de medalhas em sua carreira, sentindo o gosto da de bronze numa disputa com classe unificada, perdendo pra sul-coreana Yeon Seo, por 3 sets a 1.

Atletismo em cadeira de rodas

As cadeiras de rodas fazem parte do equipamento dos atletas, em provas de campo e na pista, necessárias a ajustes de dimensões, devendo ser ligeiras, com características indicadas dentro das regras impostas pela CPI (Comitê Paralímpico Brasileiro).

O primeiro torneio paralímpico no atletismo foi organizado como parte das corridas em cadeiras de rodas para os veteranos da Segunda Guerra Mundial. Estando no cronograma desde a primeira edição, as provas destinam-se a atletas com todos os tipos de deficiência.

As classes referidas aos paratletas cadeirantes são as últimas, do 51 a 58. São separados de acordo com sua deficiência, como é em toda modalidade paralímpica, se agrupam apenas pessoas associadas às mesmas categorias, ou seja, são cadeirantes com cadeirantes.

2 paratletas sentados em suas respectivas cadeiras de rodas, 1 negro e outro branco. O da esquerda, usando uma roupa azul com detalhes verdes, e o da direita com blusa toda vermelha. Ambos presentes em uma prova de pista, com olhos atentos a linha de chegada.

Foto: CPB

Os atletas da classe T51 a T54 (provas de pista) possuem cadeiras de rodas com espécie de guidão para que o atleta o direcione melhor, para muitos, similar a bicicletas.

Em pistas planas e sem obstáculos tem as provas de 100m, 200m, 400m e 800m, as duas últimas necessitam de cadeiras acolchoadas, próprias pra ocasião, sendo realizadas em pistas planas. O acompanhamento médico é obrigatório, acompanhando a frequência cardíaca e o ritmo das provas.

As cadeiras de rodas precisam ser adaptadas com três rodas, uma dianteira e duas traseiras, um freio, puxadores manuais, se alinhando a distância de corrida e estilo da pista. Os atletas também usam acessórios, como luvas, capacetes e cinto de segurança. Ainda existem tipos de cadeiras de rodas com alto nível de estruturação, contendo fibra de carbono, porém sem permissão para qualquer dispositivos que podem afetar o desempenho biológico do competidor.

Ariosvaldo, o Parré

Foi em Planatina, no Distrito Federal, que Parré conheceu o atletismo. Nascido em Campina Grande, na Paraíba, conviveu com a paralisia desde seus 18 meses de vida. Começou no basquete em cadeira de rodas, e em 2002 se encaixou no atletismo.

Presente nos jogos paralímpicos de Tóquio, tem o prazer de comparecer em sua quarta paralímpiada, já colecionador de 11 medalhas em jogos Parapan-Americanos, 6 ouros e 5 pratas, em mundiais tem um bronze no campeonato de 2013, na França.

Nas paralimpíadas de 2012, garantiu uma final nos 100m, ficando em quinto lugar, na classe T53, repetindo o feito na edição de Tokyo, disputa que culminou em um quarto lugar para o brasileiro.

Hoje, é um homem orgulhoso de si próprio, ciente que atingiu um reconhecimento marcante em sua vida, por ser um velocista, não por ser alguém com deficiência.

Texto produzido em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube 

 

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