Vacinação da faixa etária foi autorizada em junho, mas jovens de aldeias em terra indígena no Amazonas ainda não foram imunizados; lideranças denunciam atraso generalizado da vacinação indígena, que deveria ser prioritária: “Mais uma mentira do governo”

Vacinação no território Yanomami, em Roraima, onde segue com lentidão; apenas 0,15% dos jovens entre 12 e 17 anos receberam as duas doses. Foto: Condisi Yanomami/Divulgação

Por Diego Junqueira e Joyce Cardoso, da Repórter Brasil

Mais de oito meses após a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizar a vacinação da Covid em adolescentes de 12 a 17 anos, os jovens indígenas das aldeias do Vale do Javari, no oeste do Amazonas, ainda não receberam uma dose sequer. As vacinas estão paradas há quatro meses em uma câmara fria em Manaus, à espera da distribuição pelo Ministério da Saúde.

A aplicação da vacina nessa faixa etária foi autorizada pela Anvisa em 11 de junho, exclusivamente para o imunizante da Pfizer naquele momento, mas só foi incorporada pelo governo federal no plano de vacinação três meses depois.

Com isso, enquanto adolescentes de municípios como Manaus e São Paulo se vacinaram a partir de agosto, os indígenas desta faixa etária tiveram de esperar até outubro, quando a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) iniciou a distribuição das doses. A secretaria não explicou os motivos para esse atraso. Os jovens do oeste do Amazonas, contudo, esperam até hoje.

“O governo federal disse que o atendimento a indígenas na pandemia era uma prioridade, mas essa é mais uma mentira, porque na prática isso não vem ocorrendo”, diz Beto Marubo, representante da Unijava (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) em Brasília.

Um exemplo disso é que as doses de Pfizer para os adolescentes do Javari foram enviadas para a Secretaria de Saúde do Amazonas, em Manaus, no início de outubro, mas até hoje não chegaram aos jovens. Isso porque o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Vale do Javari, braço do Ministério da Saúde, decidiu não retirá-las da capital, alegando falta de aeronaves para transportar as doses até as aldeias, segundo informou a prefeitura de Atalaia do Norte (AM).

Procurada, a Sesai, responsável pela saúde indígena no Ministério da Saúde, não comentou sobre a falta de aeronaves e disse que o atraso se deveu às “condições especiais” de transporte e armazenagem da vacina da Pfizer na região, onde as aldeias estão dispersas geograficamente. “No caso do DSEI Vale do Javari, que utiliza apenas modais de transporte aéreo e fluvial para chegar às comunidades indígenas, as condições logísticas se chocaram com as especificidades do imunizante”, disse a Sesai, em nota enviada à Repórter Brasil.

Apesar de promessas de priorizar a imunização de indígenas, jovens aldeados do Vale do Javari não receberam nenhuma dose da vacina contra covid. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Apesar da declaração, esse imunizante pode ser transportado e armazenado por até 31 dias nas mesmas condições da maioria das vacinas aplicadas no SUS – ou seja, entre + 2ºC a + 8ºC, equivalente a um refrigerador comum –, segundo a fabricante. À reportagem, a Pfizer afirmou ainda que atuou junto ao Ministério da Saúde para orientar profissionais de saúde quanto ao transporte e condições de armazenamento.

Segundo a Sesai, a vacinação dos indígenas que vivem na zona urbana de Atalaia do Norte começaria no dia 12 deste mês – três dias depois de ser questionada pela Repórter Brasil sobre o atraso. Já a vacinação para os que moram nas aldeias começaria dia 14. No entanto, lideranças locais desmentiram. “A vacinação aqui no município [para os adolescentes indígenas] começou na sexta [18]. Dentro da área indígena, não tem previsão”, disse Gilberto Marubo, membro da Organização das Aldeias Marubo do Rio Ituí, que está em Atalaia.

A prefeitura de Atalaia do Norte confirmou também que os adolescentes indígenas aldeados ainda não foram vacinados. A Sesai foi questionada sobre o novo atraso e uma previsão de nova data para a vacinação dentro da terra indígena, mas não respondeu. Há 913 jovens de 12 a 17 anos no Vale do Javari, segundo a secretaria.

Enquanto esses adolescentes continuam desprotegidos, as mais de 900 doses de Pfizer direcionadas a eles estão armazenadas desde outubro na câmara fria da secretaria estadual de saúde do Amazonas, em Manaus, a mais de 1.100 km de Atalaia. Após 8 meses sem um plano de distribuição, a Sesai informou agora que vai usar doses de Coronavac na região, “dada a sua maior validade e facilidade de manejo e transporte”. Fabricada pelo Instituto Butantan, a vacina pode ficar até 12 meses na faixa entre + 2ºC e + 8ºC. A aplicação da Coronavac no público de 6 a 17 anos foi autorizada pela Anvisa em 20 de janeiro.

O descaso também afeta a vacinação das 1.293 crianças de 5 a 11 anos da região – a maioria vivendo nas aldeias. Segundo a coordenadora de imunização de Atalaia do Norte, Gercilene Alves, as doses pediátricas da Pfizer para as crianças aldeadas já estão à disposição do DSEI no município. Esse tipo de dose pode ficar em freezer comum por até 10 semanas, diferentemente da vacina para adolescentes e adultos, cuja recomendação é de 31 dias. Mesmo com essa facilidade do prazo maior, a vacinação das crianças também não começou no Javari.

A Repórter Brasil tentou contato por telefone e mensagens com o coordenador do Dsei Vale do Javari, Jorge Oliveira Duarte, para comentar a falta de aeronaves e o atraso na vacinação, mas não recebeu retorno.

Vacinação lenta

Embora façam parte do grupo prioritário de vacinação da Covid, a vacinação dos indígenas caminha mais lentamente do que no restante do país, conforme mostrou a Repórter Brasil em dezembro.

Lideranças indígenas do Vale do Javari – região com mais mais de 26 povos indígenas e que abriga o maior número de isolados do mundo – denunciam também a lentidão na aplicação da terceira dose entre os adultos e idosos. Segundo o último boletim da Sesai, dos 3.139 indígenas maiores de 18 anos, apenas 692 (22%) receberam a dose de reforço até 5 de fevereiro.

“Estamos aguardando a terceira dose. Sabemos que a vacina chegou [à sede do município] há muito tempo, no início do ano, mas ainda não foi feita a terceira dose nas aldeias”, diz Paulo Marubo, coordenador da Unijava.

Para Sesai, fatores como dispersão geográfica dificultam a vacinação no Vale do Javari; “as condições logísticas se chocaram com as especificidades do imunizante”. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Nos últimos quatro meses, três anciões morreram após contraírem a doença, segundo os indígenas. “Tínhamos 15 anciões na aldeia Maronal [do povo Marubo], e agora são 12. É uma comunidade pequena, estão em estado de comoção”, diz Êpatxô Manoel Chorimpa, presidente da associação do povo Marubo no alto rio Curuçá.

“Um velho é uma biblioteca que se vai. Para nós essas mortes são um prejuízo tremendo enquanto povo Marubo, que tem na base da educação os conhecimentos ancestrais”, diz Beto Marubo, da Unijava em Brasília. “Nossa preocupação é que os jovens adoeçam assim como os velhos”.

No Dsei Yanomami, em Roraima, a vacinação também está lenta. Apenas 8 dos 5.519 jovens entre 12 e 17 anos (0,15%) receberam as duas primeiras doses. Considerando todos os 112 mil adolescentes indígenas aldeados no país, 70% já receberam a primeira dose e 25%, a segunda. Os dados contrastam com os do restante do país, em que 77% dessa população está com a primeira dose e 50%, com as duas, segundo o ministério. A pasta não comentou os atrasos na aplicação da segunda e terceira dose dos indígenas.

Publicado originalmente em Reporter Brasil