Mark MacGann, ex-executivo da Uber, vazou mais de 124.000 documentos que revelam como a Uber infringiu a lei, enganou a polícia e os reguladores, explorou a violência contra motoristas e fez lobby secreto contra governos em todo o mundo. A investigação foi liderada pelo The Guardian com o ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos).

Foto: Alamy [via The Guardian]

Por Kaio Duarte

Neste segunda-feira (11), um patrimônio de arquivos confidenciais relevou a história da líder da mobilidade urbana global. Desrespeitando as leis, enganando a polícia, explorando a violência contra motoristas e pressionando secretamente os governos, a Uber segue rumo a sua expansão global agressiva.

O vazamento abrange a administração de cinco anos de Travis Kalanick, cofundador da empresa, que forçou o funcionamento da empresa ao redor do mundo, ignorando as regulamentações de táxi e leis. Os dados da investigação mostram os apoios e importunações da Uber com primeiros-ministros, presidentes, bilionários, oligarcas e barões da mídia.

Os arquivos vão de 2013 a 2017, incluindo mais de 83.000 e-mails, mensagens do WhatsApp e iMessages, que mostram a comunicação ríspida e explícita de Kalanick com sua equipe de executivos. Entre as mensagens expostas, mostram a ciência dos executivos da Uber sobre as violações da lei.

“Somos apenas ilegais”, diz um dos executivos em tom de ironia. Em outra troca, Kalanick diminuiu as preocupações de seus colegas ao enviar motoristas da empresa para um protesto na França, colocando-os em risco de violência contra os taxistas furiosos. “A violência garante o sucesso”, ele retruca.

Logo após a publicação da investigação, o porta-voz de Kalanick manifestou-se dizendo que “Kalanick nunca sugeriu que o Uber deveria tirar vantagem da violência em detrimento da segurança do motorista” e que seu envolvimento nestas atividades, eram falsas acusações.

Macron, o presidente francês, é citado nos documentos devido sua secreta ajuda a empresa quando era ministro da Economia. Permitindo ao Uber acesso irrestrito e frequente a ele e sua equipe, ambos haviam feito um “acordo” sigiloso com seus oponentes no gabinete francês.

Amigável com alguns e debochados com outros, os executivos da Uber eram menos generosos com políticos menos receptivos ao modelo de negócios da empresa. “Um verdadeiro comediante”, disse um dos executivos a colegas após o prefeito de Hamburgo na época, Olaf Scholz, insistir que a empresa deveria pagar um salário mínimo aos motoristas.

Após conhecer Kalanick, o então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, mudou completamente os seus discursos após seu encontro com a empresa no Fórum Econômico Mundial em Davos. “Liberdade para trabalhar quantas horas quiserem, gerenciar suas próprias vidas como quiserem”, diz Biden sobre o que a empresa oferta aos trabalhadores.

Os escândalos e erros da empresa nos Estados Unidos, desde espionagem aos funcionários públicos a vazamentos sobre o mau comportamento de seus executivos, têm sido objeto de livros, séries de televisão e investigações jornalísticas.

Em resposta ao vazamento, a Uber admitiu “erros e equívocos”, mas disse que se transformou desde 2017 sob a liderança de Dara Khosrowshahi, atual presidente-executivo. “Não temos e não vamos dar desculpas para comportamentos passados que claramente não estão alinhados com nossos valores atuais”, afirma Khosrowshahi.