Foto: Fernando Frazão / Agencia Brasil

Por Frei Sérgio Görgen

O arranjo econômico de Paulo Guedes vai tropeçar numa saca de milho.

A economia neoliberal parte do pressuposto de que os fluxos de mercadorias, circulação financeira e consumo acontecem em equilíbrio, ou, ao menos, tendem ao equilíbrio, autorregulado pelas leis do mercado. Assim creem. Isto mesmo, é uma crença, embora dita, ciência.

Por isto que os pressupostos neoliberais sempre tropeçaram no alimento. A produção de alimentos – e não há economia nem sociedade sem comida – está sujeita às intempéries e fluxos irregulares de fornecimento.

E como ninguém vive sem comer, alimento e agropecuária são partes essenciais da economia.

Por mais que, nos últimos anos, o neoliberalismo induziu a economia agrícola ao monopólio do agronegócio do grão e a produção de carnes em unidades de grande escala, com o intento de ter maior controle e domínio sobre os fluxos de mercadorias e das oscilações do mercado, e portanto, mais estabilidade nas intempéries, a vida concreta tem mostrado que não funciona.

Não há estabilidade nem de abastecimento nem de preços de alimentos somente com mecanismos de livre mercado. Necessita de ação decisiva do Estado, formando estoques, regulando preços, sustentando a produção e protegendo seus produtores ( de modo especial os camponeses que abastecem a cesta básica) e regulando o abastecimento. Em suma, controlando e suprindo o mercado.

Embora, em favor da verdade, esta situação tenha começado com a acentuação da influência neoliberal no último período da fase dilmista (2012 em diante) é em 2016, com o golpe político, que o abandono total das políticas públicas para a produção de alimentos que abastecem a mesa do povo, se acentuou no Brasil.

O período Guedes/Bolsonaro, então, jogou de vez no abandono e à própria sorte a produção e os produtores de alimentos da cesta básica. No dizer deles, à competição do mercado.

Assim mesmo, ironia do destino em relação à crença, foi a produção agropecuária um dos poucos itens de crescimento econômico e fator de estabilidade inflacionária na economia brasileira já lá se vão 6 anos. Às custas de suor e sangue de camponeses que receberam preços baixos por seus produtos.

Até que veio a super demanda da China por carne, o dólar em alta, a falta de instrumentos de Estado para a devida regulação e… a estiagem longa no sul do país, atingindo todas as cadeias produtivas. E nos manuais de economia neoliberal não constam sequer linhas sobre tais fenômenos e como agir diante deles.

Aí, consequência disto tudo, no ano passado, os volumes de exportação de milho explodiram e, agora, com a estiagem, a produção desabou. Os estoques estão baixos e não há milho suficiente para abastecer o mercado interno. Com dólar alto, também fruto de derrapagens constantes da dupla governante, o custo para importar milho será alto.

Tendências de preços em alta. Já se fala em R$ 55,00 à saca de milho, quando na safra passada não passava de R$ 35,00.

E o milho, além de componente direto na dieta alimentar nacional, é a principal componente na formulação da ração de frangos, suínos e gado de leite, este último, através da silagem.

E os efeitos serão sobre os preços de todos estes produtos e sobre o abastecimento. E prolongados. Escassez e inflação de alimentos à vista.

A classe média e a classe trabalhadora estável sentirão no bolso o tropeço de Guedes na saca de milho. A conta será cara. E os mais pobres, desempregados, subempregados, mal empregados, verão o aumento da fome batendo à porta.

E o governo despreparado e sem instrumentos, nem para ações emergenciais e menos ainda, para ações estratégicas.

A economia de Guedes sofrerá uma queda tropeçando numa saca de milho.

Mas a conta, enquanto a sonolência durar, continuará sendo paga por toda a sociedade.

Frei Sérgio Görgen é frade franciscano, militante do MPA, autor de “Trincheiras da Resistência Camponesa”

 

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