Na campanha para o segundo turno, Bolsonaro valorizou os eleitos pelo PL e pelos demais partidos da sua coligação


Por Márcio Santilli

Valdemar da Costa Neto é o presidente do Partido Liberal (PL), que acolheu Jair Bolsonaro como candidato à reeleição. O presidente perdeu para Lula, mas o PL elegeu 99 deputados federais e será a maior bancada na composição da Câmara dos Deputados na próxima legislatura. O PT terá 69 cadeiras.

Esta é uma numerologia preliminar. O grupo de transição, coordenado pelo vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), tem representantes de 13 partidos políticos, que vão do MDB ao PSOL. Outros, como o PSDB, o Cidadania e o União Brasil, poderão vir a participar da composição do ministério, ou serão eventuais aliados no esforço de reconstrução nacional pretendido por Lula.

Na campanha para o segundo turno, Bolsonaro valorizou os eleitos pelo PL e pelos demais partidos da sua coligação, alegando que teria, num eventual segundo mandato, mais apoio político do que no primeiro, o que seria provável, mas também para insinuar que, se Lula se elegesse, não teria sustentação política para governar, o que agora se comprova como sendo falso.

Foto: Saulo Cruz/Agência Estado

Sossega-leão

Terça-feira (8), dez dias após o segundo turno, Valdemar veio a público para dizer que o PL não reconhece a vitória de Lula e que aguardaria a divulgação de um relatório do Ministério da Defesa sobre o funcionamento das urnas eletrônicas nas eleições para, então, pronunciar-se em definitivo. Só que o PL não contestou e nem apresentou provas de qualquer irregularidade na votação e na apuração, tanto do primeiro quanto do segundo turno. Quem tem competência legal para fiscalizar o processo eleitoral, além do Ministério Público Eleitoral, são os próprios partidos políticos, e não o Ministério da Defesa.

Ao mesmo tempo, Valdemar anunciou que o PL fará oposição ao governo Lula e convidará Bolsonaro para ser o seu presidente de honra e candidato à Presidência em 2026. A manifestação foi oportuna, pois Bolsonaro estaria irado com notícias publicadas pela imprensa sobre um possível interesse de parte do próprio PL em integrar a base de sustentação do governo Lula.

O visível constrangimento do Valdemar na terça-feira indica que ele deve ter sido compelido por Bolsonaro a se posicionar. Estão entre os eleitos pelo PL muitas figuras ligadas diretamente a Bolsonaro, mas a maioria da sua bancada é historicamente ligada ao fisiologismo político e deve sua eleição às emendas ao “orçamento secreto” e a outras benesses derivadas do apoio sempre dado aos governos. São dois PLs em um.

A urgência da fala de Valdemar visa segurar Bolsonaro e os seus no PL. Um eventual rompimento, agora, jogaria por terra a integridade da bancada. Além da tal presidência de honra, Bolsonaro receberia um salário invejável e teria uma casa em Brasília, bancados pelo fundo partidário. Ficaria numa situação confortável para liderar a oposição a Lula, mantendo-se em palanque até as próximas eleições. O partido também lhe proveria a assistência jurídica necessária para defendê-lo na enxurrada de processos que o envolvem.

Barata-voa

Mas Valdemar sabe bem que o que segura Bolsonaro não segura a banda fisiológica do PL. Por isso mesmo, acrescentou mais uma ambiguidade à sua fala, insinuando que Lula terá que contemplar apetites fisiológicos do partido porque “nenhum presidente pode ignorar uma bancada de 99 deputados”. O que ele não disse é que os pleitos fisiológicos têm um preço político para serem atendidos. Valdemar acha que tudo bem. E Bolsonaro?

O que se vê pela frente é uma tensão permanente no PL. Se o atual presidente da República topar a proposta de Valdemar, teria que expurgar uma parte da bancada ou conviver com a cooptação pelo governo de segmentos do partido, que teriam o valor agregado de poder tensionar a retaguarda do próprio Bolsonaro. Se ele não topar e decidir pela fundação de uma agremiação própria, deixaria o PL remanescente muito à vontade para aderir à base governista.

Enquanto não se define o perfil e o destino do PL, ele será um terreno fértil  para incursões pontuais do governo Lula. Com uma base majoritária já formada, não lhe seria difícil negociar condições razoáveis para fustigar Bolsonaro. Veremos!

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