Chegamos ao final do quarto mês da pandemia no Brasil próximos de 2 milhões de infectados e de 70 mil mortos. O semi-isolamento, boicotado pelo presidente Bolsonaro e pela pressão do comércio, consegue protelar a quebra total do sistema de saúde, mas não consegue evitar o prolongamento da crise sanitária.

Pela primeira vez na história recente, a maioria da população economicamente ativa está “desocupada”, impedida de trabalhar e relegada à própria sorte. Apesar do auxílio emergencial, que o governo foi obrigado a adotar contrariando a sua própria política econômica e que segura a onda de uma parte da população carente, mesmo com falhas e distorções, milhões de brasileiros estão sem comida, remédio e transporte, não têm como ficar em casa ou casa para ficar e precisam ir à luta, sujeitos à contaminação.

Com um ano e meio de governo, Bolsonaro nos apresenta um desmonte, sem precedentes, de órgãos, políticas e serviços públicos essenciais. Inepto desde sempre, o seu governo tornou-se também entrópico com o agravamento da crise. A interinidade permanente no ministério da Saúde e a oferenda de milhares de cargos técnicos a militares sem formação, fisiologicamente cooptados, são eloquentes exemplos.

Com rejeição da maioria da população, Bolsonaro comprou o centrão para evitar o impeachment. A sua agenda não alcança os principais problemas e se atém a um pacote de inquéritos e investigações sobre negócios e ligações espúrias suas e dos seus três filhos. Com a prisão do Queiroz, operador do caixa dois da família, o Bolsonaro “de raiz” rifou a sua militância mais afoita e “morreu”. O que sobrou, ainda resiste ao uso de máscara e promove o aumento da contaminação, mas veste uma mordaça invisível imposta pelos generais palacianos.

A longevidade desse espectro – que andam chamando de “Bolsonaro Paz e Amor” – dependerá, em primeira instância, da sua própria loucura. Porém, a superação histórica dessa nova desordem se dará com base na capacidade de resistência da sociedade. Olhando assim para esse tenebroso contexto, pelo avesso, temos bons motivos de satisfação e de esperança.

Duvida? Basta assistir ao vídeo noturno do protesto/panelaço na Rocinha, publicado pelos Jornalistas Livres na última sexta-feira (6). Mas há muito mais. Como o levante dos militantes de diversas torcidas organizadas, que foi para as ruas, apesar da epidemia, para se contrapor aos radicais bolsonaristas que as monopolizavam com manifestações para afrontar o regime democrático e o isolamento social recomendado pelas autoridades sanitárias.

São inúmeras as manifestações individuais, familiares e de grupos diversos, através das redes sociais ou de transgressões pontuais, como foi a pixação da expressão “do Bolsonaro” na placa da Procuradoria Geral “da República”, para denunciar a sua subordinação política aos interesses do presidente. Ou da manifestação desesperada do cara que espalhou tinta vermelha no acesso à rampa do Palácio do Planalto. Ou, ainda, da contundente “manifestação de nojo” feita essa semana pelos netos do Luís Gonzaga, contra o uso não autorizado de uma canção dele pelo presidente da Embratur, fazendo papel de palhaço numa live do Bolsonaro.

O protesto se dissemina por diversos setores da sociedade. O CNS – Conselho Nacional de Saúde – divulgou uma nota, dia 12 de junho, protestando contra o desrespeito aos profissionais de saúde pelo Bolsonaro ao incitar invasões dos hospitais de campanha que atendem as vítimas da epidemia. Emocionam as sucessivas manifestações públicas dos profissionais de saúde, que nos representam e nos acodem na linha de frente do combate à epidemia, com inúmeras vítimas também entre eles. São manifestações sempre pautadas pelo distanciamento mínimo e demais precauções recomendadas.

Dia 6 de junho, mais de cem organizações do movimento negro brasileiro anunciaram o seu apoio ao projeto proposto na ONU por países africanos, pela criação de uma comissão de inquérito para investigar a brutalidade policial nos EUA e em outros países. Na véspera, uma multidão vestida de preto e usando máscaras de proteção contra o Covid, tomava a avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, para protestar contra o racismo e a violência policial nas favelas da cidade. O ato terminou com gritos de “Fora Bolsonaro!”

Dia 9 de junho, 400 organizações, lideradas pela SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, lançaram a “Campanha pela Vida, pela Saúde, pela Ciência e pela Democracia”, com uma extensa agenda debates, que não focam no impeachment do Bolsonaro mas na defesa da democracia. A influência dos cientistas é, agora, ainda maior, pois a crise sanitária tornou evidente para todos a fundamental importância da ciência para a vida.

Dia 14 de junho, centenas de mulheres, de diversos setores da sociedade civil, lançaram o manifesto e movimento #mulheresderrubamBolsonaro, com extensa agenda pelas redes sociais. Na mesma data, se realizou a primeira versão on-line da Parada do Orgulho LGBT, que não teve foco no presidente homofóbico, mas na defesa da democracia, como condição da liberdade de opção sexual e de combate ao preconceito e à violência de gênero.

Dia 5 de junho, dia do meio ambiente, a Abrampa – Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente – ajuizou, em parceria com as organizações ambientalistas que integram o Observatório do Clima, um conjunto de ações relativas à política ambiental, em resposta à “boiada” de medidas contrárias à proteção do meio ambiente que o ministro Ricardo Salles prometeu a Bolsonaro na famosa reunião ministerial de 22 de maio. O próprio MPF acionou a Justiça Federal pedindo o afastamento imediato do Salles por improbidade administrativa. O aumento do desmatamento em plena pandemia é um escândalo internacional.

Dia 23 de junho, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo, reunindo várias forças políticas progressistas, as centrais sindicais e outras 40 organizações religiosas, ambientais e culturais lançaram a “Campanha Nacional Fora Bolsonaro”, com a convocação de plenárias e outras manifestações conjuntas. Amanhã, 10 de julho, haverá um primeiro “dia nacional de luta”.

Iniciativa inédita teve a APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – na semana passada, ao dar entrada, com o apoio de seis partidos políticos, a uma ação de descumprimento de preceito fundamental junto ao STF – Supremo Tribunal Federal – para obrigar o governo federal a retirar invasores e instalar barreiras de proteção para impedir o alastramento da epidemia nos territórios indígenas. O, relator, ministro Luís Roberto Barroso, concedeu liminar obrigando o governo a agir. A APIB foi reconhecida como parte legítima para atuar no STF.

Ressalte-se a postura política super generosa dos artistas brasileiros e também de fora, que têm emprestado a sua visibilidade pública a várias dessas iniciativas, além de enfrentarem a desastrosa política de obscurantismo cultural do governo. Também cabe destacar o papel transversal dos jornalistas e comunicadores, que trazem as informações sobre todas essas frentes num momento crucial de isolamento, do que este site Mídia Ninja é um exemplo evidente.

É muito animadora a profusão de telinhas com encontros virtuais que justapõem semblantes muito diversos, representativos de segmentos sociais, ou movimentos, que estiveram mais apartados antes da pandemia, mas que agora, superando as condições específicas de isolamento, conseguem se encontrar em algum espaço-tempo da internet. Tudo indica que a apropriação por diversos movimentos sociais das tecnologias virtuais, que têm se desenvolvido nesses tempos de isolamento, veio para ficar e promoverá um salto inédito nas articulações entre os diversos setores da sociedade comprometidos com a democracia.

No entanto, os espaços virtuais de manifestação e de articulação têm limites para chegar aos que não estão engajados. Não podem substituir o poder de atrair e de impressionar outros segmentos que têm os grandes eventos presenciais, ampliado pela cobertura das mídias abertas. Mas é previsível que as energias de todas essas iniciativas vão se cruzar e se desdobrar de várias formas, inclusive presenciais, conforme as condições sanitárias.

Apesar da tragédia sanitária, da depressão econômica e das suas agudas carências, a sociedade brasileira está viva, ativa e a cada dia mais decidida a livrar o Brasil do desgoverno Bolsonaro, num primeiro momento, para, então, viabilizar a disputa democrática entre os projetos de futuro que emanem desses processos. Os partidos políticos constituídos que não interagirem com eles, tenderão a ficar na poeira da história.

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