Sistema de represas da Cantareira, em São Paulo, durante a crise hídrica, em 2014. Foto: © Adriano Fagundes

Havia uma expectativa de recuperação da economia após dois anos de retração por causa da crise sanitária. O avanço da vacinação tende a normalizar os serviços, mesmo diante da gestão desastrosa da pandemia. Há uma demanda mundial crescente por commodities e dinheiro disponível para investimentos, mas o risco Brasil isola o país dessas oportunidades.

A cesta básica já aumentou 58% neste ano, muito acima da inflação, levando ao desespero milhões de pessoas que não têm mais como comer. Nem morar. Nem viver.

Com o aumento de quase 7%, em média, anunciado nesta segunda-feira (30), o custo da energia elétrica também disparou, afetando, principalmente, os consumidores mais pobres, tanto na conta de luz, quanto no seu repasse para o preço dos gêneros e serviços de primeira necessidade. O aumento do custo da energia gera uma reação em cadeia e posterga para 2023 as expectativas de crescimento efetivo da economia. A tendência é de que o problema continue, e há ainda o risco de apagões até o final de outubro, se não chover. 

O nível médio dos reservatórios de água no centro-sul do país é o mais baixo já registrado. O fornecimento de água já está sendo racionado em várias cidades. Nesta semana, a hidrovia do Tietê deixou de operar diante do baixo nível do rio, encarecendo o custo do transporte de produtos. A escassez de chuva impactou a safrinha do meio do ano e as fortes geadas agravaram a situação, queimando roças, pastos e florestas.

A incidência de focos de incêndio está em níveis inéditos no Sul do país. Além do impacto nos preços, haverá desabastecimento, em especial de hortifrutigranjeiros.

Seca atinge Território Indígena do Xingu (MT), em 2016. Foto: © Rogério Assis / ISA

Causas humanas

Estamos no período mais seco do ano, mas a crise hídrica que assola a maior parte do país não pode ser considerada uma estiagem sazonal normal. Ela vem sendo engendrada há anos. O efeito La Niña, decorrente do aquecimento das águas do Oceano Pacífico, contribui para agravar a seca, mas ele próprio se intensifica com efeito estufa. Não estamos diante de um fenômeno climático aleatório, muito menos de uma maldade demoníaca, mas de uma resposta da natureza a ações humanas predatórias e continuadas, uma tragédia anunciada.

No mês passado, o IPCC, que reúne centenas de cientistas climáticos de vários países e subsidia as discussões sobre o tema na ONU, publicou um relatório alarmante. Ele foi divulgado no mesmo momento em que ondas de calor e tempestades violentas assolavam Canadá, Estados Unidos, China, Rússia e Europa. E o seu recado é que estamos atingindo um nível de impacto das mudanças climáticas dez anos antes do previsto em relatórios anteriores. Não existe mais dúvida científica de que as ações humanas, como a queima de combustíveis fósseis e a destruição das florestas, são as principais causas do aumento da temperatura média na superfície da Terra.

Esse relatório também prevê a ocorrência de secas mais intensas e frequentes na maior parte da América do Sul. Os períodos de chuva serão mais curtos e intensos. O avanço do desmatamento já está afetando os chamados “rios voadores”, que trazem parte das chuvas da Amazônia para o centro-sul do continente. A destruição de nascentes e da cobertura florestal na bacia platina associa-se ao desmatamento no sul da Amazônia para engendrar a crise hídrica atual.

O desmatamento na Amazônia vem crescendo continuamente, desde 2017, com saltos seguidos durante o governo Bolsonaro. De agosto de 2020 a julho de 2021, o chamado “calendário do desmatamento”, o bioma perdeu 10.476 km² de florestas, área que equivale a nove vezes a cidade do Rio de Janeiro. O número é 57% superior ao registrado no período anterior, entre  2019 e 2020, quando 6.688 km² foram devastados. Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon, que utiliza imagens de satélite e de radar para monitorar a Amazônia desde 2008. O desmatamento e a incidência do fogo também cresceram nas demais regiões do país.

Floresta é fundamental para manter regime hidrológico. Chuva nos arredores da Terra Indígena Yanomami (RR). Foto: © Lucas Lima / ISA

Negacionismo

O governo Bolsonaro atribui a culpa pela crise hídrica ao fenômeno La Niña ou fala do efeito estufa como se fosse um ente fantasmagórico, sem relação com as atividades humanas.

Para não ter de reconhecer sua responsabilidade pela crise hídrica e não pagar o preço político de reprimir a ação criminosa dos predadores, o governo omite a contribuição do desmatamento e dos incêndios florestais, que afetam o regime hídrico amazônico e continental.

Porém a situação seria ainda pior se fossem “naturais” as causas da crise, pois estaríamos sujeitos à total imprevisibilidade, impotentes diante de uma ameaça devastadora. Sendo antrópica, ou seja, humana a sua causa principal, é a própria ação humana que pode – e deve – revertê-la. A persistência das atividades predatórias, o negacionismo e a inação só agravam a situação, retardando e onerando a sua reversão.

Essa postura de negação da crise, ou das suas causas, vai além do governo federal. Os estados a sentem mais próxima, mas suas políticas próprias são capengas. Grupos políticos e empresas mais afetos ao mercado mundial percebem os ônus impostos pelo retrocesso ambiental, mas ainda há os que os fomentam em proporção ainda maior, como a bancada ruralista, que promove projetos de lei para facilitar a grilagem de terras públicas, a invasão e a predação das Terras Indígenas e fragilizar o licenciamento ambiental.

A essas alturas, o negacionismo destaca-se entre as causas antrópicas da tragédia climática. O tempo urge, em todas as dimensões da crise hídrica. As eleições do próximo ano serão uma oportunidade para dar rumo ao país e condições para a sua recuperação, no sentido amplo da palavra. Porém a agudeza da crise promete desdobramentos mais imediatos, que poderão aumentar, ainda mais, o custo da devastação.

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