Encontro de coletores da rede de Sementes, São Félix do Xingu, MT, em 2016. Foto: Isabel Harari / ISA.

A Rede de Sementes do Xingu nasceu, no final de 2007, como desdobramento da Campanha ‘Y Ikatu Xingu, que significa “salve a água boa do Xingu”, na língua kamaiurá, uma das etnias do Território Indígena do Xingu, no nordeste do Mato Grosso. A mobilização reuniu, a partir de 2004, indígenas, assentados, produtores rurais, ONGs, pesquisadores e prefeituras para promover a proteção e a recuperação de nascentes e matas ciliares na região das cabeceiras do Rio Xingu, muito impactada pelo avanço da fronteira agrícola e do desmatamento.

A Rede de Sementes articula núcleos de coletores de sementes de espécies nativas do Cerrado e da Amazônia, em assentamentos rurais, comunidades indígenas e extrativistas. As sementes são vendidas para fazendeiros e empresas interessadas em restaurar áreas degradadas por meio do plantio direto, em larga escala.

“Em 2021, a Associação Rede de Sementes do Xingu [ARSX] completa 14 anos de atuação nas bacias dos rios Xingu, Araguaia e Teles Pires, com 568 coletores distribuídos por 24 grupos de coletas, de 21 municípios. Esses grupos são de 16 assentamentos rurais de agricultores familiares, de 26 aldeias, de três terras indígenas e de seis etnias. A ARSX já espalhou 262 toneladas de sementes de mais de 220 espécies de nativas, gerando R$ 4,4 milhões de renda para os coletores e restaurando 6,8 mil hectares de áreas estratégicas”, conta Bruna Dayanna Ferreira, uma das diretoras da rede. “A Rede é uma diversidade, o nosso carro chefe é a ‘muvuca de sementes’ e também somos uma ‘muvuca de pessoas’”, completa. 

Muvuca de sementes. Foto: Lilla Jessica Brokaw / ISA

A diversidade das gentes e dos seus ambientes é determinante da qualidade das sementes coletadas e da variedade das espécies. A “muvuca” pode ser semeada e manejada manualmente e pode estar associada a uma agrofloresta, de modo que, após algumas colheitas agrícolas, a floresta vai se regenerando, enriquecida de espécies que foram priorizadas na composição da muvuca. Ela também é usada em plantios mecanizados, com plantadeiras de capim ou soja. Assim, fazendeiros recuperam áreas degradadas a um terço do preço do plantio de mudas.

A técnica da muvuca consiste na semeadura direta de uma mistura de diversas espécies de sementes nativas e de adubação verde. Ela é mais econômica e eficaz do que o reflorestamento com plantio de mudas. Enquanto as mudas são difíceis de transportar, demandam tempo de germinação, material, mão de obra, insumos e ferramentas de plantio, as sementes são coletadas, selecionadas, beneficiadas, distribuídas e plantadas em tempo inferior, utilizando menos recursos financeiros e humanos, com menor emissão de gases do efeito estufa. Além disso, as sementes que germinam diretamente no solo geram plantas mais resistentes do que as mudas transplantadas, que exigem maior acompanhamento técnico e manejo.

A renda auferida pelos coletores com a venda de sementes tem feito muita diferença em suas vidas. Embora essa atividade demande treinamento, seleção de qualidade e logística de escoamento, ela é compatível e complementar a outras atividades. Em geral, o trabalho de coleta é feito coletivamente, reforçando laços de família e de amizade. Tornou-se a principal fonte de renda para a maioria dos coletores.

Equipe do ISA em Canarana, MT, prepara muvuca de sementes. Foto: Tui Anandi / ISA

Exemplo inspirador

Nesses tempos bicudos, em que prevalecem a radicalização política e a destruição do meio ambiente, a experiência da Rede é um raro caso de ganha-ganha, que instaura uma cooperação eficiente e produtiva entre as partes envolvidas. E é de se admirar que ela continue agregando parceiros e recuperando mais florestas, apesar da conjuntura nacional adversa.

A Rede de Sementes do Xingu tem inspirado e compartilhado técnicas com muitos outros projetos similares em outras regiões do país. Claro que esse esforço requer adaptações a contextos socioambientais diversos, mas a sua engenharia virtuosa indica um caminho concreto de esperança na recuperação do próprio país.

Disse Deus: “eis que dou a vocês todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com se­mentes. Elas servirão de alimento para vocês” (Gênesis, 1:29).

Muvuca de sementes. Foto: Oswaldo Braga de Souza / ISA

Area reflorestada com muvuca de sementes, em 2006, dez anos depois. Foto: Eduardo Malta / ISA

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