O tempo fechou! Após 15 meses de um governo bizarro que se acha no direito de afrontar e quem quer que seja o tempo inteiro, a crise econômica persiste e uma nova crise política se avoluma, ambas estando, agora, agravadas pela gigantesca crise sanitária do coronavírus.

Bolsonaro se debate no inferno astral do pior momento do seu governo, quando suas atitudes reiteradas, de suprema irresponsabilidade frente à pandemia, vão erodindo o que ainda lhe restava de popularidade.

Mas Eduardo Bolsonaro, que virou deputado federal com votação milionária na carona do pai, não está nem aí. No meio desse fogo todo, resolveu endossar, publicamente, a tese de que a pandemia é uma armação do governo chinês para derrubar a economia mundial e impor a sua hegemonia.

Só que Eduardo é filho do presidente e a China é a principal parceira comercial do Brasil, fundamental para reduzir o impacto e viabilizar a saída da depressão econômica em que o país mergulha outra vez. Eduardo mais parece uma das bestas do apocalipse!

O embaixador da China reagiu de imediato, em nota oficial, repudiando a acusação do deputado: “uma ofensa ao povo chinês”. E exigiu um pedido oficial de desculpas do governo brasileiro. Instalou-se, então, um enorme auê.

Bolsonaro ainda tentou minimizar, dizendo que a opinião do filho não expressa a opinião do governo, sem dizer nada sobre a acusação e sobre o pedido de desculpas. Mas não adiantou, pois o chanceler Ernesto Araújo – “um idiota”, no dizer da Rede Bandeirantes – desqualificou publicamente a nota do embaixador e endossou a postura do deputado.

Felizmente, os presidentes da Câmara e do Senado apresentaram, imediatamente, um pedido de desculpas ao povo chinês em nome do povo brasileiro. Até a Frente Parlamentar da Agropecuária, conhecida como bancada ruralista, esteio parlamentar do governo, emitiu nota criticando a posição do Eduardo, sem citá-lo, e enaltecendo a parceria comercial com a China.

Bolsonaro já fez um monte de gentilezas para os ruralistas e vice-versa. O isolamento internacional do governo nas agendas ambiental, climática e de direitos humanos chegou a preocupar os ruralistas, como no pico das queimadas na Amazônia, mas depois eles relaxaram, achando que o que mais lhes interessa são os negócios da China, supostamente imunes a essas agendas. Agora, com o tiro do Eduardo na China atingindo o estômago do Brasil, parece que os ruralistas começam a perceber que a decadência civilizatória do país sob o atual governo dilapida nossas relações, inclusive comerciais, com o mundo inteiro.

Se não perceberem, pior ainda! Os ruralistas são os que mais têm o que perder com o naufrágio do país. Tenho dito e repito, para incluí-los entre os destinatários da mensagem: Bolsonaro não tem condições de conduzir o Brasil numa crise múltipla como essa em que mergulhamos. O país precisa, mais do que nunca, de união, mas Bolsonaro se alimenta da divisão.

Não adianta os ruralistas se iludirem achando que o problema são os filhos do presidente. Eles são realmente alucinados, mas a raiz do problema é o próprio Bolsonaro Na sua ética primitiva, ele prefere causar danos enormes ao país a confrontar a maluquice genética dos filhos.

“Quem pariu Mateus que o embale! ”Não há como esperar tanto, mas talvez eles financiem uma parte do material para isso.

Márcio Santilli é filósofo. Sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA). Autor do livro Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais. Deputado federal pelo PMDB (1983-1987) e presidente da Funai de 1995 a 1996.

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