Os Estados Unidos tornaram-se o epicentro mundial da pandemia do novo coronavírus. Segundo dados da Universidade Johns Hopkins, o número de casos chegou a mais de um milhão e já ocorreram 57,8 mil mortes no país. Os números têm forte simbolismo ao superarem o total de americanos mortos durante toda a guerra do Vietnã, assim como superaram, só em Nova Iorque, os mortos nos atentados de 11 de setembro de 2001. O segundo país mais afetado é a Espanha, com 232.128 casos e 23.822 mortes. Em todo mundo, já são três milhões de infectados e 213.273 mortos.

Donald Trump foi negligente quando a epidemia chegou aos EUA. Resistiu à adoção de medidas de isolamento, chegando a contestar os Estados que se anteciparam nesse sentido. O seu mal exemplo é seguido por Jair Bolsonaro. Assim como Bolsonaro, Trump sempre teve uma postura fria diante das vítimas da pandemia. Ele foi chacoalhado, no entanto, pelos epidemiologistas que assessoram a Casa Branca com projeções avassaladoras sobre a evolução da doença: entre 100.000 e 240.000 mortes no país, na melhor das hipóteses – desde que sejam mantidas as diretrizes de distanciamento social. Candidato à reeleição em novembro deste ano, o presidente norte-americano convenceu-se de que o respeito a essas medidas “é uma questão de vida ou morte”.

A displicência inicial de Trump não foi a única causa da explosão da epidemia. O médico Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, admitiu que o sistema de saúde do país – privado – não está respondendo de forma adequada: “o sistema não está realmente orientado ao que precisamos neste momento. É um fracasso”. Trump também é culpado nesse ponto, pois fez de tudo para fragilizar ainda mais esse sistema reduzindo a proteção aos que mais necessitam. Pelo menos reviu sua posição quando o desastre tornou-se evidente.

Em entrevista ao New York Times, o epidemiologista Neil Ferguson compartilhou com a Casa Branca, na semana passada, resultados de pesquisas que estimam a morte de 8% a 9% das pessoas com mais de 80 anos. “Nós não temos uma estratégia clara de saída. Vamos precisar suprimir este vírus por tempo indeterminado, francamente, até que tenhamos uma vacina”, afirmou. “A transmissão voltará a crescer rapidamente caso as medidas de isolamento sejam relaxadas”, ressaltou ainda. “Os impactos potenciais da pandemia de Covid-19 poderão ser comparáveis ao da gripe espanhola de 1918 e deverão superlotar até mesmo sistemas de saúde de países desenvolvidos caso não sejam tomadas medidas de contenção”, concluiu.

Essas são também as referências científicas que orientam a avaliação sobre o avanço da epidemia em outros países, para informar medidas adicionais de restrição. E foi por aí que Trump, nesta terça-feira, garfou o seu amigo Jair Bolsonaro, já consagrado em todo mundo como o pior presidente no enfrentamento da pandemia, como um bom mal exemplo a destacar. O mandatário americano disse que o Brasil está enfrentando um “grande surto” de coronavírus e que estuda restrições de voos ao país.

Até ontem à noite, números oficiais do Ministério da Saúde confirmavam 79.361 infectados e 5.511 mortos no Brasil. É extravagante que Trump refira-se dessa forma ao Brasil tendo os EUA dez vezes mais mortos. Mas ele se fundamenta nas projeções dos epidemiologistas americanos, no baixo grau de notificação de casos no Brasil e na estúpida atitude do Bolsonaro em tentar ignorar a epidemia e boicotar as medidas de isolamento. A aposta do presidente norte-americano parece ser a de que o Brasil será a bola da vez, assumindo a condição de epicentro da crise de saúde e, quem sabe, superando o número de vítimas nos EUA, para retirá-lo da eleitoralmente incômoda posição de campeão mundial das mortes pelo novo coronavírus. Ensina o ditado: “amigos, amigos, negócios à parte!”.

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