Por incrível que pareça, Jair Bolsonaro, presidente eleito e candidato à reeleição no Brasil, convocou o corpo diplomático para tentar vender fake news sobre o sistema eleitoral brasileiro. O encontro aconteceu nesta segunda-feira (17), no Palácio do Planalto.

Foto: Clauber Cleber Caetano | Agência Brasil

O sistema de votação eletrônica começou a ser implantado no Brasil em 1996 e se aplica a todos os níveis de eleições, dos municípios à União, para funções executivas e legislativas, assim como para qualquer outro tipo de consulta popular, como o plebiscito. Em todos esses anos, escrutinando votos de milhares de candidatos, a única denúncia de fraude alegada contra o sistema é a de Bolsonaro.

O locus institucional para discutir o sistema eleitoral é o Congresso Nacional. Bolsonaro cooptou uma maioria de congressistas através do Centrão, mas não convenceu nem a própria base sobre retroceder ao sistema de voto manual, muito mais propenso a fraudes. É um assunto interno e impróprio para se pautar em uma reunião com embaixadores, mais ainda há 70 dias das eleições.

Ensimesmado

Bolsonaro sequer tem noção do tamanho da bobagem que fez. Isolado e desacreditado mundialmente, ele é useiro e vezeiro em fazer campanha eleitoral em agendas e eventos internacionais. Nunca pega bem, a não ser para os seus seguidores mais radicais. Mas agora ficou ainda pior, às vésperas das eleições e com um assunto eleitoreiro: um palhaço, fazendo um circo de horrores com o corpo diplomático.

Todos nós sabemos que Bolsonaro só não deu ainda um autogolpe porque não tem cacife para isso, embora faça campanha por isso desde que assumiu (ou desde que nasceu, levando-se em conta o seu amor pela ditadura militar). Mas, ao convocar o corpo diplomático, sem provas, como se os embaixadores fossem tão idiotas quanto os que frequentam seus cercadinhos, ele oficializou o seu intento sinistro perante o mundo todo.

Procedendo assim, Bolsonaro oficializou, também, a reação mundial contra um eventual golpe. Mesmo considerando as ausências dos representantes dos nossos principais parceiros internacionais (EUA, China, Argentina e União Européia), oficializado ficou. Embora convidados, os presidentes do STF, Luiz Fux, e do TSE, Edson Fachin, não se dispuseram a participar do circo. Fachin chegou a reagir à farsa com um “Basta!”. A reação da mídia mundial foi a pior possível, claro.

Espasmo

Dizem que há um grupo de generais seduzidos pelo fervor golpista de Bolsonaro, do qual Braga Neto, candidato à vice; Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa; e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional; são os principais expoentes. Mas é improvável que a maioria do alto comando tope uma aventura golpista. Para tentar compensar, Bolsonaro se empenha em armar e incentivar milícias, facções policiais ou militares para atentarem contra a democracia e a vida das pessoas, falsificando apoio social ao golpe.

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom | Agência Brasil

Eduardo Bolsonaro, filho 02 do presidente, logo após a sua eleição para deputado federal em 2018, disse: “Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo”. Mas a questão não é promover uma quartelada; a questão é o que fazer no dia seguinte.

Do ponto de vista do dia seguinte, o desastre diplomático desta segunda-feira foi ainda maior, na própria perspectiva golpista. Bolsonaro não ganhou nenhum aliado e armou todos os seus potenciais adversários. Além do isolamento político, que já está dado, e da rejeição da maioria absoluta do povo, um segundo governo Bolsonaro, oriundo do suposto autogolpe, teria que enfrentar sanções econômicas inéditas na história do país.

Hora da verdade

O fato político concreto é que Bolsonaro perde as eleições em todas as pesquisas eleitorais, inclusive as realizadas por institutos financiados por ele. Esse quadro se mantém estável há muito tempo e é muito alto o percentual de eleitores definidos, que apontam nomes em sondagens espontâneas. Para completar, a rejeição a Bolsonaro beira os dois terços que não o apoiam. Este fato se interpõe, também, aos excitados generais.

Consciente da sua inevitável derrota nas urnas, Bolsonaro já declarou que será preciso “agir antes”. Vamos ver como tentarão impedir a expressão da vontade das urnas. Vamos até quando as ondas perturbadoras, produzidas pelo poder declinante, poderão sufocar essa vontade majoritária. Além de presidente, Bolsonaro também é candidato a presidiário. Quem viver, verá!

Vamos ver, nas próximas semanas, até onde irão as ondas perturbadoras provocadas pela estrutura de poder em declínio. Vamos ver como tentarão impedir a expressão nas urnas da consolidada vontade popular. Mas, para o Brasil, só há um caminho viável: em outubro, os eleitores farão suas escolhas e, no início do próximo ano, os eleitos serão empossados, com o endosso do corpo diplomático e da opinião pública mundial.

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