Mãe guerreira. Heroína. Lutadora. Dedicada. Protetora. Paciente. E sobretudo: explorada. 

Sim, adoramos receber elogios e homenagens. Afinal, somos sim mães guerreiras, dedicadas, lutadoras, protetoras, pacientes. É normal querermos ver nossa dedicação reconhecida e homenageada. Mas não parece ser isso que acontece no Dia das Mães. 

Essa data é um reforço da exploração, fundada na divisão sexual do trabalho, que força mulheres a terem na maternidade uma sobrecarga de tempo e responsabilidades que não seria necessária se houvesse justa divisão do trabalho de educação dos filhos e filhas. 

Há muito se tem dito que é preciso parar de naturalizar essa divisão injusta do trabalho dedicado à educação das crianças. Dar banho, alimentar, orientar tarefa, levar para o médico, para o colégio, fazer compras das necessidades, acompanhar o rendimento escolar, administrar uniformes e materiais escolares a cada início de ano podem parecer tarefas triviais, mas consomem uma parte significativa dos nossos dias. 

Aliás, nesse Dia das Mães em quarentena, com o isolamento social, os homens que coabitam com seus filhos (lembremos que 11,6 milhões de famílias são compostas por mães solo) estão experimentando algo inédito: o estresse de acumular tarefas domésticas e tarefas relativas aos filhos que, se matriculados na rede particular, estão vivenciando a novidade da educação à distância imposta pelas condições emergenciais atípicas. 

Nesse contexto, muitos têm sido os pais que, ao mesmo tempo, se gabam e se queixam de ter tido a “produtividade” reduzida, presos que estão às tarefas comumente delegadas à mãe ou à empregada doméstica. 

Essas queixas sobre o decréscimo da produtividade são reveladoras: elas comprovam o quanto a noção de produtividade é excludente de todo o trabalho imposto às mulheres e que – como agora alguns homens estão constatando – consome parte significativa do tempo da mulher. 

Quando exaltamos a figura da mãe guerreira, muito mais do que prestar homenagens, estamos normalizando algo que deveria ser excepcional, como tempos de guerra. 

Nós, mães, preferimos que a homenagem venha em um compromisso de mudança, na assunção de novos padrões comportamentais intrafamiliares e sociais que tornem o sacrifício da mulher não uma regra, mas exceção. Mas para isso é necessário que os pais, ao invés de nos presentear com um eletrodoméstico para facilitar o trabalho explorado, dividam igualmente, com justiça, as atividades relativas à criação e educação dos nossos amados filhos e filhas, valendo-se do critério objetivo do tempo dedicado a cada tarefa. 

Enquanto isso não ocorrer, odes às mães guerreiras e heroínas não passarão de hinos à sociedade patriarcal, fundada na exploração da mulher e na injustiça de relegar à mulher o trabalho não reconhecido como produtivo, fechando para ela a possibilidade de investir seu tempo também em outras tarefas que podem lhe dar prazer ou impulsionar sua carreira, quando do seu desejo.

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