Thelma Assis foi adotada, cresceu numa família humilde e lutou muito pra se tornar médica. Conquistou bolsa integral e maratonou entre quatro hospitais pra conquistar seu sonho. Um grande feito considerando um país com um sistema totalmente racista como é o Brasil. E mesmo assim, sua profissão é reduzida, por ser anestesista e já foi confundida como “auxiliar” por ser preta. Ela é apaixonada pelo samba, ritmo popular brasileiro e preto, saído das periferias. É passista na Escola Mocidade Alegre, de São Paulo, bailarina formada e já dançou profissionalmente por sete anos. Perdeu o pai no ano passado e já ficou até 12h numa cirurgia sem sair nem pra ir ao banheiro. É uma verdadeira guerreira!

Thelminha foi a melhor jogadora dessa edição histórica que trouxe à tona temas sociais importantíssimos como o feminismo e o racismo. Além de ser a única mulher indiscutivelmente preta e a única da “Pipoca” ou “anônima” que restou na casa, esteve presente em todos os grandes momentos da edição. Deu aulas de racismo estrutural, venceu a maior prova de resistência, foi líder duas vezes e decisiva pra virada mais sofrida do jogo: o entendimento de que feminismo sem o antirracismo não passa de mais uma luta superficial, que abre brechas para todos os tipos de injustiças sociais secularmente cometidas contra pessoas pretas, inclusive as mulheres.

A luta de classe, a luta contra o machismo, a homofobia, o capacitismo, a gordofobia e tantas outras, ganham mais visibilidade por existirem brancos nessas categorias. Mas a única luta que ainda tem muita dificuldade de ser notada e aceita, por incluir majoritariamente pessoas pretas, é a do antirracismo. O irônico é que quem mais morre, seja por ser pobre, mulher, gay, trans e etc, são os pretos. Vejamos como a questão racial foi desenhada no próprio Big Brother Brasil 20.

A primeira virada do jogo foi a do feminismo, quando a maioria das mulheres da casa, com exceção da Boca Rosa, se voltaram prontamente contra a maioria dos homens. Mas embora a Thelminha tenha feito a participação mais épica, falando pro macho mais branco e pivô da história, autor da frase: “só não comi ela (a Mari) porque não tava com fome”, o quanto ele era escroto e teria vergonha das suas atitudes quando saísse, foi pouco vangloriada dentro (e fora) da casa. O holofote foi todo dado às mulheres brancas. A partir daí, ela ainda perde o pódio de “melhor amiga” pra um homem branco e duas mulheres brancas, quando Marcela explicita que tinha “mais afinidade” com Ivy e até com a Gabi (que ela nunca foi muito próxima) do que com a Thelminha. Mas nunca apontou um erro da Thelminha e acusou Gabi de reproduzir uma personagem que deu certo em edições passadas. Então por que tem mais afinidade com ela do que com a Thelminha?

Já na segunda virada, a do antirracismo, Thelminha escolhe estar ao lado do Babu, enquanto suas “amigas” brancas o atacam violentamente com piadas racistas. Thelminha é escolhida pra ser monstro e a essa altura já era a primeira opção de voto do Daniel e da Ivy, membros do próprio grupo que a havia “amparado” – a comunidade hippie. E ambos com a mesma desculpa: “ela não fez nada, mas tenho menos afinidade com ela do que com pessoas que nem eram do grupo”. Por quê? É nesse momento que Rafa e Manu acolhem Thelminha, defendem Babu e criticam o restante do grupão da comunidade hippie. O maior diferencial das duas brancas foi justamente ficar do lado dos pretos.

É preciso lembrar que a Thelminha sempre foi silenciada pelos membros do seu grupo mesmo quando ela tinha as melhores leituras do jogo. Nas festas, nas conversas, nos jogos, era notório como ela era “deixada” por brancos que eram ou nem eram do seu grupo. Sempre foi subestimada, chamada de “planta” e quando confrontava alguém, era “arrogante”. Mas quando as brancas confrontavam a mesma pessoa, foram “lacradoras”. Até quando venceu a maior prova de resistência da edição, seu mérito foi relativizado pela branca adversária, como se “tivesse deixado ela ganhar”. Também foi acusada de “não ter berço”, de ser sem educação, de ser “chaveirinho de branco”. Thelminha foi muito criticada por ter votado no Babu em detrimento da Rafa, mas o Babu deixou claro que faria o mesmo pelo seu amigo branco e machista (acusado de estupro), Felipe Prior. E ambos com motivos plausíveis: foram eles que estiveram juntos nos momentos mais difíceis de ambos. Mas a mulher preta não pode “errar”, pois ela não merece ser perdoada.

Com o Babu tendo sido o único homem a se manter na casa até a semifinal, mesmo depois de enfrentar 9 paredões sendo recordista de todas as edições, o público deixou claro que entendeu parte do recado: Não é todo e qualquer homem que deve ser “eliminado” numa virada feminista, nem toda mulher que deve se manter invicta, mesmo puxando a bandeira. Especialmente se nesse contexto existem mulheres brancas com práticas racistas. Porém, ainda há um longo caminho de aprendizado pela frente, quando esse mesmo público resolve eliminar o homem preto em detrimento de uma mulher branca que apesar de ter feito um bom jogo e acolhido os pretos, não deveria receber mais méritos do que os próprios pretos que sofrem a violência.

Mas o Babu é homem e talvez por ter se manifestado de maneira machista algumas vezes, mesmo se reconhecendo e aberto à desconstrução, tenha sido eliminado nessa reta final. Se foi este o maior motivo, a coerência nos leva a crer que a Thelminha, sendo mulher e preta, com uma trajetória incrível na vida e no jogo, só pode ser a grande campeã da edição. Caso não vença, o país vai mostrar que só entendeu o feminismo branco, porque o racismo ainda está pulsante e vivo, como em 2019 que no mesmo ano levou Bolsonaro à presidência e tornou a Paula, acusada formalmente de racismo, campeã.

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