Foto: Divulgação

A primeira coisa que me chamou atenção no livro “A festa da insignificância”, de Milan Kundera, publicado pela Companhia das Letras em 2013, foi a capa feita por Alceu Chiesorin e Dominique Corbasso que além de ser muito bonita esteticamente, é uma capa dura.

Talvez eu tenha começado a ler Milan Kundera pelo livro não mais comum. Geralmente, as pessoas começam a lê-lo por “A Insustentável leveza do ser” ou “A brincadeira”. Estou falando isso para dizer que esse é o primeiro livro que leio do autor, então me desculpem se deixar passar algo da história de vida dele.

Outra coisa que me chamou atenção foi o título. Fiquei curiosa para saber o que era essa tal festa. Um detalhe: fui pesquisar os outros livros dele e percebi uma admirável criatividade para a escolha dos seus títulos. Queria tê-lo como colega  no meu trabalho.

Bom, depois de quatorze anos fora da cena literária, Milan publicou esse romance. Um livro leve, de fácil leitura, com 134 páginas, que conta a história de quatro (?) amigos que conversam sobre coisas insignificantes, banais e que me provocaram, em diversos momentos, risos e alguns questionamentos.

O primeiro deles é sobre o quanto damos importância para coisas tolas no nosso dia a dia. O quanto de energia gastamos pensando e produzindo conclusões que simplesmente não nos servirão para nada. Uma dessas reflexões me chamou atenção bestamente. Ela é sobre o fato de um dos amigos sempre pedir desculpas.

“As pessoas não podem se atirar uma sobre as outras sempre que se encontram. Em vez disso, tentam jogar no outro o constrangimento da culpabilidade. Ganhará o que conseguir tornar o outro culpado. Perderá aquele que reconhecer sua culpa. Você  vai pela rua, mergulhado em pensamentos. Em sua direção vem uma moça, como se estivesse sozinha no mundo, sem olhar nem para a esquerda nem para a direita., indo direto em frente. Vocês esbarram. Eis o momento da verdade. Quem vai insultar o outro, e quem vai se desculpar? É uma situação-modelo: na realidade, cada um dos dois é ao mesmo tempo o que sofreu o esbarrão e o que esbarrou. E, no entanto, há os que se consideram imediatamente, espontaneamente, os que esbarram, portanto culpados. E há os outros, que se veem sempre, imediatamente, espontaneamente, como os que sofreram o esbarrão, portanto no seu direito de acusar o outro e de fazer com que este seja punido. Você, numa situação como essa, você se desculparia ou acusaria?”.

Eu acho que me desculparia. Já pedi desculpas no começo desse texto, até.

Segundo, os amigos devaneiam sobre umbigos, morte, festas, paqueras, relação com a mãe, pessoas procurando alguma motivação para vida e sobre Stálin. Sim, Stálin! Milan é um tcheco radicado na França. Foi militante do Partido Comunista. Foi expulso duas vezes (como alguém consegue essa proeza?). Ele é bem ressentido com o domínio da URSS sobre a  Tchecoslováquia. Para ele, esse momento é desalentador e arruína o país culturalmente.

Daí, o questionamento que me surgiu foi: por que um autor que escreve sobre insignificância traz Stálin, pessoa que, para ele, não foi nada insignificante, várias vezes em sua obra?! Mas quem é insignificante merece páginas e páginas de um livro? Essa é uma contradição para mim. Talvez eu, de fato, não tenha entendido.  Na verdade, eu fiquei na dúvida se ele não escreveu esse livro simplesmente para falar mal do Stálin?!

Não sei se gostei de ter conhecido Kundera através de “A festa da insignificância”. Fiquei com a impressão de que ele é um ex-militante de esquerda ressentido e que poderia ter feito terapia, superado e ter feito uma crítica mais contundente ao que ele considera errado no período de Stálin. Apesar disso, vou ler “A brincadeira”. Vai que eu mude de ideia.

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