Qual o destino traçado para uma mulher que não conseguiu percorrer o caminho imposto socialmente – ser mãe e construir uma família – se não a solidão?

Foto: arquivo pessoal

A mulher já nasce com o destino ideal construído pela sociedade: o de ser mãe e construir uma família. Quantas vezes nós nos deparamos pensando sobre a centralidade da maternidade em nossas vidas? É assim que Damaris, uma mulher de 40 anos, moradora de uma cidade na costa da Colômbia, é levada a se confrontar com o seu pior eu.

A cachorra, livro escrito por Pilar Quintana, colombiana, traduzido por Livia Deorsola, publicado pela primeira vez no Brasil em 2020 pela editora Intrínseca, com ilustração de Felipe Freitas na capa, me prendeu em dois dias para saber o final e me deixou até agora digerindo. 

O livro, por ser escrito por uma latino-americana, narra a realidade de um povo não muito diferente da nossa, brasileiras e brasileiros. A situação precária de trabalho, a vida paupérrima, a divisão em classes em que a maioria dos empregadores são brancos e os empregados são negros, leva-nos a nos reconhecermos e a entrarmos, de fato, no romance facilmente.

A obra trata também da questão da natureza e de como ela afeta a vida daquele povoado. A história é toda contada dentro das alterações ambientais e climáticas. A dependência daquelas pessoas para alimentação e economia era baseada no que a natureza poderia oferecer. Eles se deparavam com questões como o lixo trazido pela maré alta, o envenenamento de animais sem um motivo explícito e as altas temporadas com visitas de turistas.

Um outro ponto é o patriarcado. De forma muito peculiar, ele é abordado transversalmente na obra. Qual o destino traçado para uma mulher que não conseguiu percorrer o caminho imposto socialmente – ser mãe e construir uma família – se não a solidão?

Damaris, negra, pobre e sem instrução, é casada com Rogelio por muito tempo. Sentia-se só e vivia a grande frustração de não conseguir ser mãe. Ela fez todos os tratamentos naturais possíveis e acessíveis, mas o filho, que viria para alegrar um casamento, concretizar o seu destino e dar sentido à sua vida, não veio. Para ela, era como se ela tivesse fracassado como mulher.

A personagem, em nenhum momento, questiona-se se Rogelio poderia ser estéril. Para ela e para todos ao redor dela, ela era o problema.

Damaris, solitária, resolve mudar o próprio destino e adotar uma cachorra, que chamou de Chirli, nome que seria da sua filha.

Tudo o que ela havia projetado para sua filha foi sublimado na cachorra em forma de expectativas. Chirli acabou sendo criada como uma criança, mas não respondia da mesma forma. E, pior, acabou ficando prenha, ou seja, conseguiu realizar um dos maiores sonhos de Damaris: ser mãe.

Cheia de dores e vítima do patriarcado, Damaris não consegue alcançar os sonhos planejados por outros para ela.

A construção social imposta para as mulheres leva a personagem, que era uma mulher bondosa e se esforçava para tal, a descobrir que seu pior monstro não está em meio à mata, mas dentro de si. Afinal, o que se pode esperar quando se é humano, demasiado humano?

Edição: Mídia NINJA e Ana Clara Ferrari, jornalista


 

 

 

 

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