Em 1989, com 14 anos, entrei no mercado de trabalho. Meu primeiro emprego foi como office girl na falida Companhia Energética de São Paulo, atividade que consegui por meio de uma ONG chamada Patrulheiros do Caxingui.

Eu trabalhava para o departamento de engenharia, distribuía radiogramas (meio de comunicação rápida da época) entre os prédios da empresa, que ficavam na região da avenida Paulista. Para isso, todos os dias eu percorria a avenida Angélica, as ruas Haddock Lobo, Bela Cintra, Consolação, Augusta e a avenida Paulista. Era cansativo, mas eu adorava saber que conseguiria garantir o sustento de casa.

O preconceito racial e social que eu sofria a todo momento era o que cansava e doía. Era evidente a preferência da chefe pela moça mais clara, fosse pela forma carinhosa como ela tratava a outra funcionária, fosse pelo fato de as atividades trabalhosas sobrarem sempre pra mim.

Hoje, mais de 30 anos depois, as pessoas ainda acham que trabalho braçal tem que ser feito por pretos. Recentemente uma mulher preta foi discriminada por um atendente de vagas para trabalhador em Santa Catarina. Sem nem perguntar, ela ouviu rispidamente que “não tinham vaga para limpeza, cozinha ou costura”. A mulher tinha formação superior. E isso incomoda.

Era o mesmo incômodo que eu, adolescente preta, causava naquele escritório. A maior comprovação da injustiça racial e social que eu sofria aconteceu no dia da avaliação semestral de trabalho, quando os menores eram analisados para a contratação definitiva. Certa da minha competência e de ter desenvolvido um bom trabalho, fui até o prédio da empresa onde ficava o supervisor, um homem bruto e mal humorado. Tão logo eu me sentei, começaram as perguntas que nada tinham a ver com as tarefas desempenhadas, a clássica pergunta que partia de uma certeza preconceituosa: “Que tipo de drogas você usa?”

Em seguida, ele me estendeu uma folha com o timbre da empresa em que estava escrito: “Relatório Profissional Patrulheira Jussara Basso: A menor em questão é relapsa, insubordinada e usuária de entorpecentes etc.” Era um relatório enorme, cheio de mentiras absurdas e preconceitos. O homem ordenou, então, que eu voltasse ao escritório apenas para pegar minhas coisas e ir embora. Ele finalizou o ataque calunioso dizendo que ali “não era meu lugar e que, para ser alguém na vida, eu tinha que abandonar a marginalidade”.

Saí chorando em silêncio. Lembrei de todas as dificuldades que enfrentava todo dia, ao sair de casa às cinco da manhã pra conseguir chegar ao trabalho às oito, e da correria no caminho de volta, para entrar na segunda aula do colegial noturno. Mas a humilhação não tinha acabado. Ao chegar ao prédio onde trabalhava, fui escoltada pelo bombeiro civil até a sala onde guardava minha mochila com o material escolar. Fui obrigada a abrir a bolsa e fui acusada de ter furtado uma caneta. Na verdade era um marca-texto que eu tinha comprado para fazer um resumo da aula de português.

Pensei em gritar, mas a voz não saiu. Ninguém me defendeu. Eu me lembro até hoje dos olhares dos senhores engravatados e das senhoras de salto alto, olhares que me incriminavam e me odiavam. São os mesmos olhos racistas que – 30 anos depois – condenaram a modelo Bárbara Querino por um roubo que sempre negou ter cometido. Ela foi inocentada em um dos processos e aguarda a resolução do outro caso, parado na Justiça. Bárbara ficou quase dois anos presa injustamente porque teria sido reconhecida como a ‘criminosa negra do cabelo cacheado’’.

Com o tempo compreendi que meu cabelo cacheado, minha pele preta e todos nós periféricos somos sistematicamente oprimidos. Mas também entendi – e carrego comigo até hoje – que eu não deveria nunca mais me calar. Porque eu sou uma de milhões. Transformei a dor em força,  e segui de cabeça erguida na luta de onde nunca mais saí! É impressionante como historicamente a força é uma exigência de sobrevivência para nós mulheres pretas!

Falta muito para diminuirmos o abismo racial e periférico no Brasil. Para se ter uma ideia, as previsões indicam que apenas daqui 70 anos brancos e negros brasileiros terão uma renda equivalente, segundo pesquisa da ONG Oxfam. E essa igualdade só vai vir com muita luta, muita batalha política, ação coletiva e com mais mulheres negras periféricas ocupando a política e o poder!

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