Como muitos têm analisado, a pandemia escancarou a desigualdade social que assola o nosso país há literalmente séculos. E a perversidade dessa constatação também ficou clara no meio cultural periférico, como eu bem tenho observado na região onde moro, na zona sul de São Paulo.

De um lado, temos o acesso a museus, cinemas e grandes shows nos centros das cidades para poucos, um privilégio de um terço dos brasileiros (Ipea). Quanto mais distante é o bairro da região central, menos opções culturais e mais indisponível o lazer das áreas nobres da cidade. Para se ter uma ideia, a zona leste da capital paulista, com quase quatro milhões de habitantes (IBGE), um terço de todos os moradores de São Paulo, é a que possui menos equipamentos culturais.

Do outro lado, temos poucos e raros recursos financeiros estáveis e permanentes para produtores e artistas da periferia. Agora na pandemia, o fechamento da cidade deixou os trabalhadores culturais dos subúrbios à míngua. Com muito custo, foi aprovada nesta semana a  Lei Aldir Blanc, para repasse de auxílio emergencial 600 reais a cantores, atores e produtores de cultura. É um dinheiro que não dá conta de todas as contas – isso quando chegar no bolso do trabalhador. Porque agora começa outra luta, para efetivamente receberem esse valor. (Não esqueçamos que Bolsonaro sumariamente excluiu esses profissionais da lei geral de auxílio emergencial).

Na esfera estadual paulista, tramita na Assembleia projeto de lei que prevê auxílio de 1.163 reais para trabalhadores da cultura. Se aprovado, quem tiver conseguido o auxílio federal, receberá a diferença. Por enquanto, são só palavras.  E no governo paulistano, também poucos cuidados com os artistas periféricos. Segundo apuração da Agência Mural, a Secretaria Municipal de Cultura não destinou nenhum valor aos coletivos de artistas nas periferias desde o começo da quarentena até cinco de abril.

Em suma: As políticas públicas dos governos priorizam a manutenção do poder. O mercado cultural exclui artistas periféricos, negros e ainda mais mulheres e a comunidade LGBTQI+.

Mas isso não significa que não exista cultura sendo produzida nas periferias durante a pandemia. Pelo contrário! Como afirmou Milton Santos, “gente junta cria cultura”.E em um momento de isolamento social, a cultura se torna ainda mais essencial especialmente para os marginalizados, que buscam uma voz de conforto em meio ao caos. Aqui na zona sul, eu faço parte do Coletivo Cultural Sem limites, que tem construído uma mobilização da periferia para representar a força do nosso território contra o governo Bolsonaro e tudo o que ele representa. Porque “poesia serve pra bater”, como bem disse Sérgio Vaz, poeta criador da Cooperifa.

A Cooperifa, aliás, conhecida por realizar saraus semanais na zona sul de São Paulo, parou sua atividades por conta da pandemia e, junto com o coletivo Bloco do Beco, voltou as ações para doações de cestas com alimento, álcool em gel e livros.

De doações, a vaquinhas e redes de apoio, o povo da quebrada tem lutado por vida, por soluções que a aliviam o impacto da covid-19. E os artistas, com arte, poesia e ação social, têm estado a frente de muitas dessas iniciativas de solidariedade.

Os obstáculos e desafios que a periferia enfrenta são ingredientes para criatividade e acolhimento. A periferia sobrevive, inventa e se ama a partir da sua vulnerabilidade. Isso não é uma novidade de 2020. O que temos agora de inédito é um movimento coletivo maior, com mulheres e homens fazendo simultaneamente o trabalho de base, um ajudando o outro, dividindo cesta básica, distribuindo máscaras, álcool, ensinando a conseguir o auxílio emergencial, compartilhando conhecimento e autonomia. Este momento de desigualdade aguda, que salta aos olhos, está provocando uma revolução solidária. A rima da companheira poeta Mariana Felix sintetiza o sentimento da periferia: “Faz seu corre e lembra que amar seus iguais também é ser nobre”.

Tenho trabalhado intensamente na distribuição de doações por meio da Campanha Solidariedade Sem-Teto e no fim do dia, minha poesia reflete as pequenas grandes vitórias: “Pra hoje, o cansaço de chegar em casa com a certeza de ter feito o possível em busca de tudo que parece impossível, mas não é.” Vamos juntas e juntos!

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