A situação do país mudou muito em relação ao período que colocou Luiz Inácio Lula da Silva, e depois Dilma Rousseff, como presidentes eleitos democraticamente pelo voto popular. Esse período entrou na reta final com a aceitação, em 2 de dezembro de 2015, pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (logo condenado por corrupção) de uma denúncia por crime de responsabilidade contra a presidenta Dilma Rousseff, oferecida pelo procurador de justiça aposentado Hélio Bicudo e pelos advogados Miguel Reale Júnior e Janaina Paschoal. Iniciou-se assim, formalmente, o golpe de estado que conseguiu derrubar o governo popular de características progressistas, instituir um estado de cunho neoliberal, para finalmente depredar as conquistas obtidas pelas classes populares (sobretudo no que diz respeito a direitos trabalhistas, sistema de previdência e garantias sociais, constitucionais e individuais).

Esse período, que finalizou de forma catastrófica, foi caracterizado pela disputa de poder entre uma esquerda que tem sua origem no movimentos sindicais (com apoio da comunidade intelectual, artística, o MTST e os movimentos indigenistas, entre outros) frente a uma elite conformada pelas tradicionais oligarquias rurais, as corporações financeiras, as elites conservadoras, religiosas e intelectuais, e finalmente pela corporação midiática e jornalística liderada pela rede Globo. Hoje, olhando em retrospectiva essa batalha cultural e política (entendendo a cultura como política e a política como cultura), vemos que resultou numa contundente vitória da classe conservadora, (aqui no Brasil e também a nível continental) como se uma tempestade tivesse arrasado um imenso campo cultivado com muito esforço, e tivesse deixado só alguns brotes, algumas plantas em pé, que precisamos proteger ainda com nosso próprio corpo, caso for necessário, honrando aqueles que deram suas vidas para articular as conquistas que hoje desfrutamos como cidadãos portadores de direitos.

Porém, as identidades ideológicas não somente não desapareceram, elas foram redefinidas e revitalizadas. Outras pautas se somam hoje às pautas da esquerda. Os campos da batalha cultural se ampliaram em outros, não menos intensos ou necessários. A esquerda se mobiliza na América Latina e no Caribe para enfrentar a ofensiva da direita conservadora neoliberal, financiada e apoiada pelos Estados Unidos, e que colocou a região sob controle por meio de estratégias focadas na desestabilização política e no descrédito de governos progressistas que estavam no poder. Políticos, intelectuais e representantes de movimentos sociais avaliam a mudança desfavorável na correlação de forças que se manifestou nos últimos anos e elaboram planos de ação em todo o continente. No Equador, o movimento indígena, através de uma mobilização massiva, fez revogar um pacote de ajustes econômicos que incluía um questionado aumento do preço dos combustíveis. Na Colômbia, um país identificado pela férrea religiosidade, Cláudia Lopez, uma ativista pelos direitos LGBTQ+, assumida lésbica e hoje casada com sua parceira de vida, conseguiu se eleger como prefeita de uma das cidades mais importantes, se não a mais importante do país: Bogotá. Chile acorda todo dia com mobilizações populares que enfrentam de forma destemida à força militar mais assustadora do continente, os carabineros. Argentina, logo de quatro anos de governo neoliberal falido, elegeu novamente um projeto progressista e popular para atuar desde o governo federal naquele país.

A esquerda precisa refundar o conceito de “política como arte do possível” num novo “A política é a arte de descobrir as potencialidades existentes numa situação concreta, para tornar possível o que naquele momento parece impossível”. É necessário, para isto, fazer uma análise profunda que nos permita enxergar onde reside a fortaleza dos setores populares, hoje excluídos, e de que modo podemos nos organizar num núcleo massivo e participativo, que entenda sua importância histórica e elabore os caminhos que o conduzam a ocupar os espaços definitivos de decisão institucional. Desse modo, conseguimos nos afastar da renúncia à prática política autônoma como uma alternativa ao sistema neoliberal capitalista conservador.

Muitos afirmam que hoje resulta impossível lutar seguindo as táticas tradicionais das lutas sindicais. Isto teria fundamento em que o poder de negociação da classe trabalhadora diminuiu muito, tanto por causa do fantasma da demissão, a escassa parcela de aqueles que podem acessar o trabalho assalariado estável, quanto por causa da fragmentação que sofreram com o novo modelo de desenvolvimento neoliberal. Como contraponto disso, as táticas da direita não se diferenciam muito das táticas clássicas da luta sindical: a greve e o chamado à concentração de massas para ocupar os espaços públicos. As lutas dos movimentos feministas, que hoje é o movimento organizado mais sucedido na resistência ao avanço do neoliberalismo, são também um modelo de organização coletiva referência na hora de pensar em acionar um movimento taxativo para a reivindicação das lutas sociais.

O que parece estar acontecendo na esquerda é um certo tipo de frustração, uma paralisação, consequência de um golpe de shock sofrido pelos militantes ante a surpresa de ver um povo mobilizado na defesa do recorte dos seus próprios direitos e do entregue do patrimônio nacional a preço banal. De novo, é necessário olhar em retrospectiva a violenta guerra cultural e simbólica a que foi submetido esse povo, alienando-o e despojando-o da sua própria consciência histórica.

Como estratégia fundamental, a esquerda precisa divulgar de forma incansável e criativa as realizações econômicas, sociais e políticas da recente experiência governamental, promovendo um debate sereno e construtivo sobre os limites históricos, políticos e ideológicos de cada um dos processos. A esquerda precisa refundar mecanismos eficientes de organização, conscientização e participação política das bases sociais comprometidas com a mudança pós-neoliberal. É preciso construir consenso com segmentos da sociedade que têm demandas e interesses relacionados aos de mudança revolucionária ou progressista. É preciso promover a participação ativa dos povos, de todas minorias e aproximar a juventude oferecendo apoio decisivo para a concretização dos seus anhelos, e estimular seus esforços emancipatórios de toda ação repressiva por parte das instituições capitalista neoliberais conservadoras.

Nem todas as pessoas têm a mesma vocação militante ou se sentem permanentemente inclinadas ao exercício da militância. Há pessoas que preferem atuar em áreas específicas: arte, saúde, direitos humanos, e não dentro de estruturas territoriais. As estruturas orgânicas, então, devem flexibilizar sua visão na hora de dialogar com essas pessoas, grupos e organizações, sem estabelecer valores hierárquicos entre eles e sim alianças com interesses comuns. É necessário o desenvolvimento de narrativas que incluam os não militantes nesse processo de recuperação do espaço perdido. Os partidos precisam se aproximar da cidadania utilizando suas estruturas e colocando-as à disposição daqueles que estão precisando delas (movimentos artísticos, pedagógicos, familiares, comunitários) estabelecendo assim conexões fundamentais para encorpar o campo de atuação simbólica.

Nesse ano de eleições, o desafio da esquerda é restabelecer rapidamente e de forma sólida e consistente, um diálogo com a cidadania, com a juventude, com os movimentos sociais, com as massas marginalizadas pelo fascismo hoje no poder. As mesquinês eleitoralistas não serão uma opção. Um diálogo sincero, pedagógico e transversal pode permitir nos reconectar com os setores populares de modo a construir uma vitória inapelável no próximo mês de outubro. Se a força do movimento organizado dos trabalhadores tem diminuído nos dias de hoje, podemos afirmar que a porção de marginais e excluídos pelo sistema tem aumentado de forma notável. Resulta urgente construir desde zero, novamente, as bases de um movimento de massas, com inclusão das pautas pela igualdade racial, pelas lutas feministas, LGBTQ+, indígenas, dos sem teto, dos sem terra, dos sem trabalho, dentro e fora dos partidos, transversalizando os lugares de fala e sendo fundamental encarnar os valores da honestidade e a transparência. Desarmar as estruturas autoritárias que têm uma distância fatal das classes orgânicas. Parece muita coisa, mas a história das lutas antifascistas e antitotalitárias demonstram que batalhas piores resultaram em vitórias dos setores populares. Como dito anteriormente, o conceito de política precisa sofrer uma transmutação: “A política é a arte de recuperar o paraíso perdido. É o mapa, o barco e o combustível que nos conduz até lá. E é também a guia e o manual que vai nos ensinar a distribuir de forma equitativa as riquezas conquistadas. Até entendermos que ser de esquerda é praticar a solidariedade, a compaixão, a ternura. Tudo isto de forma implacável e inegociável, para deixarmos a marca histórica que inspire outras gerações a levar nosso nome como orgulhosa bandeira de vitória”.

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