Diálogos de quarentena com Felipe Neto

Arte: Cris Vector

A cultura é sempre portadora de valores ideológicos, explícita ou implicitamente. Em alguns casos, são diretamente obras de propaganda que não apenas encobrem sua ideologia, mas a expressam expressamente, a fim de alcançar uma maior divulgação. Em outros, a ideologia é percebida apenas através da leitura simbólica de um produto cultural cuja embalagem é entretenimento. Uma interpretação extrema é a que atribui a todos os produtos culturais, mesmo aos mais inocentes, uma intenção ideológica ao considerar que o entretenimento impede que os destinatários pensem sobre os assuntos que realmente lhes interessam. Seria transmitir a ideologia dominante através da cultura, usando a mídia, a fim de alcançar maior controle social.

Na Escola de Frankfurt, Benjamin seguiu uma direção diferente da de Adorno e Horkheimer e considerou que a fotografia e o cinema, o jazz e a música popular poderiam servem para modificar a consciência da massa, justamente por sua possibilidade de transmissão em massa. Benjamin viu uma oportunidade de usurpar do capitalismo a ferramenta de controle social para ajudar a aumentar a conscientização entre as massas. Nesse sentido, as redes sociais seriam análogas ao cinema ou ao jazz enquanto potenciais transformadores de consciência. E parece ser nessa perspectiva que Felipe Neto vem trabalhando suas mídias sociais desde 2012, quando começou a criticar duramente o governo do PT.

Desde então, o youtuber tem se envolvido em todos os debates sociais e políticos de atualidade. Recentemente em entrevista no Roda Viva, Felipe assumiu uma autocrítica pelos seus posicionamentos durante as manifestações que acabaram com o golpe parlamentar no governo da ex-presidenta Dilma Rousseff. Para Felipe, errar é possível, enquanto exista a consciência do necessário que é continuar aprendendo. Pelo Twitter, Felipe Neto se manifestou sobre as críticas que tem recebido por parte da esquerda, pelo fato de ter criticado o PT e o ex-presidente Lula no passado. Apesar das críticas, o PT apoiou o levante do youtuber e compartilhou seu vídeo.

“É hora de unir forças, não há outro caminho. Obrigado à comunicação do partido, pela mensagem tão emblemática. E um aviso a todos da esquerda: eu não sou liberal no Brasil. Eu não defendo menos Estado e nem favorecimento aos detentores de capital. Sigamos”, disse ele.

A Covid-19 acelerou ainda mais o processo de introdução das redes sociais na intimidade e no cotidiano das pessoas. As redes tornaram-se hoje fontes de informação e interconexão. Vários autores e pensadores alertam sobre o perigo da concentração de capital de informação em poucas mãos (a corporação Google e o megapólio Facebook). Em entrevista, Felipe Neto se posiciona sobre esse assunto e, como de costume, sobre a atualidade social e política do Brasil durante a pandemia da Covid-19.

Entrevista com Felipe Neto:

Youtube forma parte do Google, que hoje está sendo acusada de criar um monopólio da informação dentro dos canais digitais de veiculação. Como você enxerga a plataforma Youtube, considerando que existem outras com uma abrangência bem inferior como Dailymotion e Vimeo? Qual você acha foi o segredo que disparou Youtube em relação às outras plataformas?

A ideia de monopólio, ao meu ver, não é verdadeira. A informação hoje está distribuída em inúmeras frentes diferentes no ambiente digital. Além dos inúmeros veículos de imprensa, os maiores propagadores de notícias e informações hoje não pertencem ao Google: Facebook, Twitter e Whatsapp. Quanto ao Youtube, podemos dizer que ele se consolidou como liderança absoluta no consumo de vídeos na internet, principalmente quando falamos de entretenimento, fidelização de canais e aulas (tutoriais). O Facebook e Instagram lutam por fora, mas possuem outra forma de consumo, assim como o TikTok.

Acredito que o grande segredo do Youtube ter disparado nessa liderança foi que a plataforma enxergou que precisava profissionalizar o mercado de produção audiovisual pra internet e criou o sistema de remuneração para os criadores. Foi isso que possibilitou o investimento e o surgimento de youtubers e empresas 100% dedicadas na criação de conteúdo para a plataforma.

Há uns anos atrás surgiu na Argentina e no Chile um projeto para criar uma mídia latino-americana que substituísse o Facebook. Qual o potencial que você enxerga na região para a criação de mídias digitais?

É impossível prever qual será o próximo grande hit da internet, mas hoje em dia é muito mais complicado de competir num ambiente de redes sociais do que era na primeira década do século. Criar algo novo precisa oferecer uma solução nova para algo que as pessoas ainda não sabem que procuram. Foi o caso do TikTok, que ainda assim levou anos para se consolidar. Eu não acredito que a simples oferta de uma rede social nova, baseada em geolocalização, vá resultar em grande sucesso.

Netocracia é um termo criado pelo tecnólogo sueco Alexander Bard. Basicamente o termo diz respeito do poder de concentração de capital simbólico que um “líder de opinião” (como você) pode possuir e que condiciona a opinião que outros atores das redes sociais poderiam ter. A crítica à netocracia é que ela pode acabar afastando esses líderes de opinião dos temas que verdadeiramente envolvem a população geral de uma nação. Ou seja, esses líderes de opinião, com tanto poder, poderiam acabar falando de coisas que não formam parte das problemáticas cotidianas do cidadão comum. Até que ponto você se cuida com isso?

Eu não sei como as coisas andam fora do Brasil, mas dentro do nosso cenário, o que aconteceu foi exatamente o oposto. Com um presidente fascista e um cenário de autoritarismo e opressão crescendo a cada dia no país, uma parte considerável de quem tem voz na internet estava em silêncio. Foi preciso que alguns “líderes de opinião”, como eu, fossem a público e cobrassem, exigissem que todos se posicionassem contra o fascismo, para as coisas finalmente começarem a andar na oposição digital do país. Eu acredito que carrego uma grande responsabilidade com o fato de ter tantos seguidores e essa responsabilidade é a de estudar o máximo possível para poder acompanhar o desenrolar político e social da nossa nação e influenciar, dentro dessa minha grande bolha, questões como: liberdade, combate ao preconceito, luta por mais igualdade social e justiça.

Uma crítica às mídias novas e às digitais é o da superprodução de informação. Parece como se todo dia tudo mudasse de uma forma muito rápida e nada fosse estável. Quais temas você acha que permanecem sempre na sua agenda? De quais temas você acha que precisa falar de forma recorrente? E quais temas ainda não abordou e acha que urgentemente precisam ser falados?

Nesse momento, a luta é pela manutenção da liberdade do povo brasileiro e o combate ao projeto fascista de poder que está em desenvolvimento. Quase toda a minha energia de enfrentamento está voltada para isso, mas o Brasil também tem gravíssimos problemas resultantes de um governo tão nefasto. Nossa ministra de Direitos Humanos e Família se recusa a criar campanhas de conscientização sexual para jovens e prefere investir em ações falando para que adolescentes não façam sexo. Nosso ministro do Meio Ambiente está vendendo e destruindo a Floresta Amazônica de uma forma aterrorizante. Os povos indígenas do Brasil estão seriamente ameaçados por um governo que abertamente diz que os odeia. A política internacional do Brasil está controlada por lunáticos que acreditam que a Terra é plana. Não temos ministro da Saúde no meio da maior pandemia do século e o presidente repete a todo momento para as pessoas saírem pras ruas como se nada estivesse acontecendo. Estamos enterrados em tantos problemas que é impossível combater a todos eles. O sentimento do brasileiro consciente é de puro desespero.

O filósofo Byung-Chul Han fala do perigo de jogar informação da nossa vida privada nas redes sociais. Que isto poderia ser usado num futuro (e já foi usado com fins políticos) para a criação de um “big data” com propósito de controle da população. Como você sendo alguém com tanta exposição pública lida com sua vida privada?

Meus seguidores reclamam bastante que eu mostro muito pouco da minha vida pessoal nas redes sociais. Eu sou um criador de conteúdo no Youtube, trato meu canal como uma emissora, uma empresa. Tudo que crio lá é pensado e tento ao máximo evitar essa linha de “reality show”. Acho que um dos grandes motivos de estar há tantos anos consolidado no Youtube é porque meu foco sempre foi no conteúdo que eu produzo e não em como mostrar minha vida pessoal pras pessoas. Quero que o público goste do que eu faço, não de quem eu sou no dia a dia.

Quanto ao “big data”, é algo de que dificilmente podemos fugir e que denota a importância de se ter governos atuantes e que intervêm para o bem estar da população. Não fosse a investigação americana sobre o Facebook e o envolvimento no vazamento de dados para empresas como a Cambridge Analytica, será que isso teria sido corrigido? É preciso que governos se comuniquem cada vez mais pela preservação e manutenção da segurança pública dentro do ambiente digital, pois já vimos que o total liberalismo resulta em venda de dados pessoais e até mesmo manipulação de eleições.

Marcia Tiburi, Jean Wyllys e Debora Diniz, entre outros, tiveram que sair do país por causa das ameaças das milícias bolsonaristas. Você já foi ameaçado? Como está sendo seu presente a partir de seus posicionamentos políticos?

Já fui ameaçado e já tive que tirar minha mãe do país, pois ela também foi ameaçada. Essa foi uma ameaça mais séria, mas lidamos com ameaças menos sérias o tempo inteiro. A militância orquestrada pelo Olavo de Carvalho e as lideranças que ele estabeleceu no país é extremamente violenta. Eles acreditam que estão numa guerra contra o comunismo, são reacionários da Guerra Fria. E, infelizmente, pessoas que acreditam estar batalhando numa guerra são capazes de fazer qualquer coisa para vencê-la. A situação no Brasil está piorando a cada dia e pode explodir a qualquer momento.

Como o Coronavírus tocou sua vida? Tem alguém conhecido que se contagiou da doença?

Por sorte, nenhum amigo ou familiar passou por isso, apenas conhecidos mais distantes. Eu estou sem pisar na calçada há mais de 3 meses, bem como a maioria dos meus familiares e amigos mais próximos. O mais importante, nesse momento, tem sido cuidar da saúde mental. O isolamento é um remédio amargo e com inúmeros efeitos colaterais, mas é o único capaz de conter o avanço da doença. Infelizmente o nosso presidente se recusa a aceitar isso e o Brasil segue batendo recordes de mortes no mundo. Já somos o segundo país com mais mortos e os números não param de subir.

O mundo vê com muita preocupação a forma como o Brasil vem lidando com a pandemia? Qual é sua avaliação da situação?

Temos um presidente fascista e louco. Ele demitiu o ministro da Saúde porque este era um médico e pediu para as pessoas respeitarem o isolamento. O presidente não queria isolamento, então o mandou embora. Em seguida, nomeou outro médico, mas este também se posicionou a favor do isolamento e ainda se recusou a colocar a hidroxicloroquina como tratamento oficial, justamente pela falta de amparo científico. Então, o presidente também o demitiu. Como solução, Jair Bolsonaro colocou o Ministério da Saúde para ser conduzido por militares obedientes, que colocaram a hidroxicloroquina como tratamento oficial e não falaram mais em isolamento. A situação é de caos. O Brasil está com o número de mortes crescendo a cada dia e todas as cidades começaram a abrir o comércio, shoppings, praças e eventos. Nós temos o pior presidente do mundo no combate à pandemia e os brasileiros conscientes estão em pânico. Não sabemos o que vai acontecer.

“Influenciador que não se manifesta agora é cúmplice. Estamos oficialmente contra um regime fascista e quem se cala contra o fascismo é fascista. Ponto final” foi um chamado seu a outros influenciadores. Esse chamado teve alguma repercussão? Soube de alguém que mudou seu posicionamento a partir dessa fala?

Diversos influenciadores começaram a se posicionar depois deste vídeo, mas não acredito que foi simplesmente por causa do meu vídeo. Não quero e não preciso desse crédito. Meu vídeo foi apenas um elemento no combate ao fascismo. Acredito que o Brasil inteiro está percebendo a realidade, abrindo os olhos e saindo para o combate contra o autoritarismo e a opressão. Só isso importa.

Em uma entrevista com Danilo Gentili você falou que as pessoas precisam ter a humildade de pedir desculpas. Como você sentiu o pedido de desculpas do ex-presidente Lula a respeito das suas falas sobre o Coronavírus e a importância do estado?

Eu não acho que seja hora de falar do Lula. O ex-presidente não exerce qualquer cargo público hoje e não estamos em um período eleitoral que tenha influência sobre sua posição. Estamos no momento de combater um fascista louco diretamente responsável pela morte de milhares de brasileiros nessa pandemia. Precisamos de união nesse combate.

Você defende a criação de uma frente antifascista, que envolva toda a esquerda de forma simultânea. Como vê o posicionamento de Ciro Gomes, de rejeitar qualquer aproximação ao maior partido de esquerda do país?

Na verdade, Ciro Gomes vem defendendo a união de toda a esquerda na frente antifascista e a esmagadora maioria dos políticos do PT hoje no Congresso estão juntos nessa frente. Não é hora de debatermos sobre lideranças políticas, a disputa entre Lula e Ciro, ou as consequências dessa união. A hora é de derrotar o fascismo, custe o que custar. Qualquer político que se recusar a enxergar isso, é porque é um politiqueiro que só consegue pensar em vitória e poder.

Quem o influenciou mais nos seus posicionamentos políticos dentro do seu mundo privado?

Eu sou progressista, então tendo a me comunicar mais com políticos progressistas. Contudo, eu ressalto, até mesmo aos meus amigos políticos, que não irei endossá-los publicamente. Talvez um dia isso mude, mas não é a hora.

Como você vê o futuro do Brasil daqui a dois anos? Consegue fazer esse exercício lúdico de futurologia?

É impossível prever, porque Jair Bolsonaro é uma bomba relógio. Nós sabemos que vai explodir, só não sabemos ainda onde ela vai explodir e quais serão as consequências dessa explosão. A única coisa que eu sei é que, sem uma frente ampla antifascista, sem uma luta firme contra esse lunático, o Brasil será derrotado.

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