Para quem tem vontade, não irá lhe resultar difícil encontrar os mecanismos que articulam o processo do pós-colonialismo. Isto significa, são mecanismos que continuam a reforçar o imaginário histórico da superioridade da civilização europeia sobre o resto do mundo global. Percebidos esses mecanismos (dentro da academia, dentro da própria intelectualidade de esquerda em alguns casos, na TV e hoje nas redes sociais hegemônicas) não resulta difícil entender que no único fator em que a Europa tem sido superior a partir da segunda metade do segundo milênio, é no poder destrutivo e colonizador. Com uma tecnologia que nem sequer era própria, o poder da pólvora, foram os mais ousados em invadir, assassinar e saquear o mundo ao seu redor.

A torre de Paris, o Coliseu em Roma, a ponte Londrina, as ruas de Amsterdã, Veneza. Tudo nos parece a expressão máxima da arte e da civilização universal. E toda essa paisagem que nos invade nos inúmeros documentários produzidos pelos grandes conglomerados de mídias como a BBC ou a National Geographic, pelas milhares de selfies de turistas que compraram seus pacotes para visitar a nossa “mãe pátria”, não nos permite ter maior familiaridade com maravilhosas obras da arquitetura como a Mesquita Djenne, as fabulosas urbanizações na Núbia, a Mesquita Ashanti, por citar somente alguns exemplos de arquitetura africana. O caminho para a descoberta do que nos é velado, é longo e requer de uma enorme vontade de ter a experiência de enxergar melhor, com mais vastidão, o mundo.

Herdamos, assim, a ideia de uma origem civilizatória provinda do continente que mais tem feito estragos ao redor do mundo. Cenário das piores guerras e catástrofes tecnológicas e climáticas. Esse continua a ser hoje nosso modelo de civilização, e só quem presta ouvidos às vozes periféricas que denunciam os crimes dos quais a Europa foi responsável (quase todos os grandes crimes contra a humanidade dos últimos 500 anos) entende essa ideia de região civilizada no passa de uma farsa, que o bem-estar económico não é mais que uma consequência de séculos de exploração e saqueio contra os povos colonizados e que o bombardeio simbólico que ressalta a ciência ocidetal é também consequência de uma imposição que nasce de um poder consolidado a partir de crimes contra a humanidade.

África, o continente saqueado pela Europa

Quase todo o patrimônio artístico da África foi saqueado pelas potências coloniais e ainda hoje continua na Europa. Para os africanos, a ausência de sua cultura arrebatada permanece traumática hoje.

A África exige a devolução de seu patrimônio artístico e cultural saqueado pelas potências coloniais durante os séculos XIX e XX. Mais de três quartos dessas obras de arte estão na Europa, mas os museus e o mercado de arte relutam em devolvê-las.

A expansão colonial das potências europeias na África subsaariana favoreceu o saque de bens culturais e sua transferência para as metrópoles. As coleções de arte começaram a crescer desproporcionalmente nos principais museus de Londres, Paris ou Bélgica, no esforço de competir para ter as galerias de arte mais bem equipadas. “São objetos que eles levaram com seus mundos, com sua história, com todo o seu potencial sobre a capacidade de criar, pensar, dirigir”, diz Silvie Memek Kassi, diretora do Museu das Civilizações de Abidjan, na Costa do Marfim. E assim, centenas de milhares de obras de arte africana enriqueceram museus localizados a milhares de quilômetros de onde foram concebidos.

Em maio de 2018, o artista nigeriano Jelili Atiku gritou por socorro no saguão do Museu Aquitaine em Bordeaux. “Eu quero ir para casa”, ele gritou. «Benin. Edo… Leve-me para casa. Vestido como um guerreiro de bronze, com os membros amarrados e uma bandeira britânica nos calcanhares, imitou o desespero de um artefato preso no museu, de onde fugiu nu até a cintura, revelando a pele pintada de metal. A performance retratou os esforços frustrados da Nigéria para recuperar os Benin Bronzes, uma coleção de vários milhares de esculturas apreendidas em 1897 durante o saque britânico de Benin City. Atualmente, eles estão espalhados em mais de cem coleções, com o maior número no Museu Britânico.

Durante décadas, os bronzes serviram como emblemas da luta africana para recuperar a arte expropriada sob o domínio colonial. Mais de meio milhão desses objetos – segundo algumas estimativas, mais de noventa por cento de todos os artefatos culturais conhecidos originários da África – são preservados na Europa, onde há muito parecem destinados a permanecer. Há apenas vinte anos, um grupo de autodenominados museus “universais” do mundo declarou que muitas obras roubadas, com o tempo, simplesmente se tornaram “parte do patrimônio das nações que as hospedam”. Em 2018, o ministro da Cultura do Benin descreveu uma restituição significativa como algo tão inimaginável quanto “a reunificação das Coreias do Norte e do Sul”.

Uma placa de bronze de Benin mostrando três oficiais de alto escalão em trajes cerimoniais, um deles segurando um ekpokin, que foi usado para homenagear o Oba. Reino de Benin (na atual Nigéria), século XVI dC. C.

Nefertitti, mais um roubo alemão que continua impune

A africana mais famosa da antiguidade – talvez uma das mulheres mais famosas da antiguidade, ponto – é quase alemã. Na verdade, todos os anos centenas de milhares de pessoas viajam para a capital do país, onde ela vive há mais de um século, para dar uma olhada em seu famoso busto. Claro, estou falando da rainha do Egito, Nefertiti.

O busto de Nefertiti está guardado no Neues Museum em Berlim, na famosa “Ilha dos Museus”, e o governo alemão se recusa sistematicamente a devolvê-lo ao Egito, apesar de as autoridades egípcias o exigirem desde 1925. Para justificar sua rejeição, eles não dizem que Nefertiti é um patrimônio nacional, mas argumentam que ela pertence ao mundo. Em 2011, quando a Alemanha rejeitou pela última vez o pedido do Egito, o subsecretário de cultura declarou: “A arte faz parte do patrimônio humano universal – onde quer que esteja – e deve ser acessível ao maior número possível de pessoas”. E acontece que essa acessibilidade é dada mais em Berlim do que no Cairo… acessibilidade pelo menos para as pessoas que importam, já que muitas pessoas do mundo não têm permissão para entrar na Europa, principalmente pessoas das regiões de onde são roubadas a arte que enche os museus europeus.

E, de fato, foi roubado: as leis coloniais que as nações europeias citam para apoiar suas reivindicações contemporâneas foram baseadas no direito do Ocidente de explorar os “racialmente inferiores”. O museu ilustrado universal celebrando o humanismo europeu só foi possível porque as potências europeias puderam adquirir arte gratuitamente. E eles continuam lucrando: o Neues Museum sem Nefertiti (ou o Pergamon Museum sem o Ishtar Gate) seria um golpe significativo para a indústria do turismo de Berlim e custaria à Ilha dos Museus seu status de patrimônio mundial da UNESCO. E isso não é coisa do passado: a arte está se tornando um investimento cada vez mais importante para os ricos, mas também para as multinacionais diretamente envolvidas na exploração neocolonial. O Iraque foi saqueado não apenas no século 19, mas também após a invasão dos EUA em 2003. Enquanto a proteção da arte pré-islâmica dos ataques do ISIS fornece ao Ocidente uma legitimidade adicional, o lucrativo comércio de arte síria e iraquiana, vendida principalmente para a Europa, o Estados Unidos e Golfo, tão pouco se investigou quanto a destruição de sítios históricos para a construção de bases norte-americanas.

A “Gran Estrela da África”, e o roubo da família imperial

Após a morte da rainha Elizabeth II, aumentaram os apelos para que a família real britânica devolvesse à África do Sul o maior diamante lapidado do mundo.

O diamante, conhecido como a Grande Estrela da África ou Cullinan I, foi cortado de uma gema maior extraída na África do Sul em 1905 e entregue à família real britânica pelas autoridades coloniais sul-africanas.

Atualmente está montado em um cetro real pertencente à rainha.

As demandas pela devolução da Grande Estrela da África e outros diamantes, juntamente com os pedidos de repatriação, se intensificaram desde a morte da rainha. Muitos sul-africanos consideram ilegítima a aquisição das joias pela Grã-Bretanha.

O maior diamante, conhecido como a Grande Estrela da África, foi engastado no Cetro Soberano com uma Cruz Cristã.

“O diamante Cullinan deve ser devolvido à África do Sul com efeito imediato”, disse o ativista Thanduxolo Sabelo à mídia local, acrescentando: “Os minerais de nosso país e de outros países continuam a beneficiar a Grã-Bretanha às custas de nosso povo”.

Mais de 6.000 pessoas assinaram uma petição pedindo que a Grande Estrela da África seja devolvida e exibida em um museu sul-africano.

Um membro do parlamento sul-africano, Vuyolwethu Zungula, instou seu país a “exigir reparações por todos os danos causados ​​pela Grã-Bretanha” e também “exigir a devolução de todo o ouro e diamantes roubados pela Grã-Bretanha”.

A nuvem do colonialismo paira sobre o legado da rainha Elizabeth na África.

De acordo com o Royal Collection Trust, que supervisiona a coleção real da família real britânica, o diamante Cullinan foi apresentado ao rei Edward VII (o monarca britânico na época) em 1907, dois anos após sua descoberta em uma mina particular na antiga província sul-africana de Transvaal.

Arte roubada e a sua restituição

Os museus europeus exibem com orgulho o patrimônio artístico e cultural de todas as partes do mundo sem questionar sua história de origem muitas vezes brutal ou sua responsabilidade por ela. E também sem envolver os descendentes dos donos daquelas peças antes que os colonizadores europeus as saqueassem.

Em 2017, pela primeira vez na história da França, um presidente prometeu uma reparação sem precedentes. “Quero que em 5 anos estejamos em condições de poder restituir a África, temporária ou permanentemente, o seu património cultural”, anunciou Emmanuel Macron para espanto de uma dezena de países que viram em perigo as suas valiosas coleções etnográficas. Os museus e o mercado de arte foram ameaçados e resistiram a qualquer tipo de restituição.

No outono de 2020, a França finalmente aprovou a restituição ao Senegal e ao Benin. “Eles falaram sobre 3.000 objetos, mas infelizmente decidiram devolver 26 para nós”, diz o historiador beninense Gabin Djimassé.

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