Foto: Divulgação Criolo

Drapetomania é um termo médico proposto em 1851 por Samuel A. Cartwright, médico do Sul dos Estados Unidos. O termo fazia referência a um diagnóstico que visava explicar a tendência dos escravos de origem africana de fugir dos campos agrícolas aonde trabalhavam de forma forçada. Dysaesthesia aethiopica, foi um outro diagnóstico com o qual Cartwright pretendia explicar o “pouco interesse” pela produtividade dos escravos nos campos. Um dos tratamentos propostos era chicotear “um pouco além do normal” aqueles escravos que se revoltassem “sem motivo aparente”. Estas dissertações do médico ficaram registradas no jornal New Orleans Medical da época.

O Blues, Jazz, Soul, Hip-Hop e Rap, entre outros estilos musicais de origem afro, citam o termo para denunciar a naturalização da opressão e a violência sofrida. A ideia de que quem rejeita seu julgamento é um doente, tem origens milenárias, e foi renovada agora com a ascensão da extrema-direita no poder. Jair Bolsonaro já declarou uma vez que “ter filho homossexual é falta de porrada”.

A naturalização da violência para com aquele que deve ser subjugado foi sempre um ingrediente da narrativa fascista. Foi através das artes, da música e em inúmeros casos que essa violência foi desnudada para mostrar seu caráter bárbaro.

Este ano, Criolo, um dos maiores artistas do Brasil, lançou Etérea, um single que junto ao seu videoclipe de lançamento é uma homenagem à arte Queer e chegou justo num momento em que a discussão sobre identidades auto percebidas se fazia mais tensa perante os primeiros meses do governo de Jair. Como bom cantor influenciado pelo Rap, Criolo está plenamente envolvido com as discussões sociais que o atravessam como ator histórico, sem cair em estéticas panfletárias. Começou a se aproximar das comunidades LGBTQ+ quando corrigiu uma letra de uma música gravada há dez anos atrás e quando não se prestou a fazer piadas homofóbicas junto ao apresentador Clemente Nascimento, no programa Estúdio ShowLivre, em 2011. O vídeo de Criolo dizendo que nunca iria usar a orientação sexual de ninguém como chacota acabou se tornando referência do tipo de resposta que se espera de um homem não homossexual diante a esse tipo de situações.

Proximamente o artista vai viajar pela Europa, apresentando “Boca de Lobo”, título de um videoclipe que também abre debates sobre discussões políticas atuais, aonde cada cena retrata um episódio político recente da história do Brasil: a corrupção, a violência sistêmica nas periferias, as lutas das classes oprimidas, são os temas presentes. Tudo retratado dentro de um contexto distópico e sustentado por uma cinematografia impecável de Denis Cisma. Criolo parece ter atingido esse perfeito equilíbrio de uma arte consciente do contexto histórico que ocupa, sem renunciar aos apelos líricos que são necessários para enriquecer a experiência estética do público que o acompanha.

A Mídia NINJA realizou uma entrevista com o cantor para saber um pouco mais de como pensa um grande artista brasileiro sobre o contexto político do país.

Confira a entrevista:

Você pensa que é um rol da arte abrir debates sobre problemáticas contemporâneas?

É do desejo humano, se assim em algum momento se sente tocado para isso. Seja por ser espectador que não se percebe também sangrando por achar que a distância fictícia o protege ou espelho de carne que sente na alma desde pequeno o resultado das desigualdades que escoam na vida de cada cidadão nos pontos mais frágeis da sociedade. Acaba que, por fazer parte do olhar de mundo, isso também se imprime da arte que a pessoal respira, gesta e divide.

Resumindo: sim.

Seu clipe, Etérea, que debate sobre diversidade sexual, foi lançado num momento em que a perseguição contra as pessoas LGBTQI+ se fez mais intensa desde o discurso oficial do governo. Foi casual ou decidiram lançar ele para entrar dessa forma na discussão?

Tem mais de dois anos que fiz essa música e a apresentei para as pessoas que trabalham comigo, tive que aguardar o tempo dela e buscar o caminho mais respeitoso possível para dividir com todos. E, sim, é uma tentativa de contribuir de alguma forma.

Os números são inquestionáveis e cada número de óbito não é algo apenas do que se lê numa planilha, é um sonho, é a liberdade, a vida sendo arrancada do modo mais cruel possível. (Em referencia às mortes sofridas pela comunidade LGBTQI+)

Você viaja bastante pelo mundo. Você acha que essa onda de ódio e preconceito que se apoderou do governo do Brasil é uma tendência mundial ou aqui tem dimensões maiores?

Cada pessoa alimenta sua alma do jeito que dá, do jeito que vem, do jeito que é. Nosso país tem, em cada canto, exemplos lindos de superação, de fraternidade, solidariedade e amor. E isso nutre os sonhos. Algumas outras pessoas se alimentam de uma ideia fechada do que o mundo é ou deve ser apenas do jeito que ela quer que seja, e se isso se passa por se sentir melhor que o outro, então temos aí uma porta escancarada pra todos os tipos de ações que nutrem o ódio. Não é uma questão geográfica simples, mas uma questão geográfico/econômica/cultural da ideia (real), do mundo ser essa grande colônia e um tanto de gente ter a bênção divina para a catequese mundial.

Minha certeza é que o amor é o melhor caminho, composto por diálogo, se assim houver abertura. Mesmo assim se não, o amor é resistente e resistência.

Isso se potencializa se o próprio governo ignora a existência do que alimenta as desigualdades. O ódio é o gigante das almas pequenas!

O que fortalecia você a continuar e não desistir nos momentos difíceis da sua carreira?

Não sei, acho que minha ignorância. As dificuldades cognitivas como um todo sempre foram um funil para outras possibilidades.

Foto: Divulgação Criolo

Para mais sobre os próximos shows do Criolo, acesse: http://www.criolo.net/eterea/#agenda

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