A tentativa de golpe no Brasil confirma uma tendência de época que tem um histórico de longa data na América Latina: as forças da direita e da extrema direita não hesitam em atacar violentamente os governos democráticos para impor seus programas pela força. No Peru, um governo sem legitimidade deixa pelo menos 48 mortos nos protestos desde a tomada de posse, há 30 dias, o que dá ao governo da Dina Boluarte o triste número de quase duas pessoas mortas por dia. Um verdadeiro banho de sangue que ainda pouco indigna.

A segunda-feira 9 de janeiro foi um novo dia trágico nas mobilizações populares contra o governo da presidente Dina Boluarte e o Congresso que controla a direita. A repressão aos protestos deixou pelo menos doze mortos a tiros da polícia na região serrana de Puno. Desde que os protestos recomeçaram em 4 de janeiro, Puno foi o epicentro das maiores mobilizações, mas não o único local onde elas ocorreram. No fechamento desta nota, os confrontos e mobilizações massivas continuaram por lá.

Estas são as primeiras mortes desde o reinício dos protestos em janeiro. Em dezembro houve 28 mortes, 22 delas baleadas pelo exército e pela polícia. E houve 485 feridos, segundo relatório da Ouvidoria.

Em menos de 40 dias de mandato, 45 morreram em protestos, incluindo seis menores de 15 a 17 anos. Todos os mortos são das regiões mais abandonadas do interior do país. Talvez por isso os meios de comunicação de Lima, cúmplices ativos do golpe de estado, fechem os olhos ao massacre. A Cruz Vermelha, a Anistia Internacional, a própria CIDH, os presidentes do México, Colômbia, Argentina e Bolívia se uniram na condenação de Boluarte. Mas o presidente de fato não informa ter recebido a advertência.

Em 14 de dezembro, Boluarte declarou estado de emergência por um período de 30 dias. Essa medida, além de restringir os direitos constitucionais relacionados à liberdade de reunião e trânsito, também permitiu a intervenção da Polícia Nacional do Peru e das Forças Armadas. A caçada tem sido sangrenta: organizações sociais denunciam tortura, presença de atiradores, uso de armas não autorizadas, entre outras violações dos Direitos Humanos.

As mobilizações exigem a renúncia de Boluarte, a realização de eleições imediatas e a libertação de Castillo.

A presidenta redobrou a aposta fazendo declarações arrogantes contra os manifestantes: “Estão saindo em protesto contra o quê, não se entende o que estão pedindo (…) estão pedindo é um pretexto para continuar criando o caos.” O governo voltou a declarar estado de emergência na região, assim como havia feito após a destituição de Castillo.

De fato, a selvagem operação repressiva contra os indígenas levou a Procuradoria Geral do Peru a anunciar que Boluarte está sendo investigado por sua responsabilidade em 28 das 46 mortes ocorridas nos protestos.

Nesse contexto de intensificação das mobilizações, o governo decidiu nesta segunda-feira proibir a entrada no país do ex-presidente boliviano Evo Morales, acusando-o de promover protestos em Puno, zona fronteiriça com a Bolívia. Apontam também, sem argumentos sérios, de apoiar supostas intenções separatistas das populações andinas do sul. Morales foi descrito como “uma ameaça à ordem interna e à segurança nacional”. Essa proibição se estende a outros oito cidadãos bolivianos.

O governo justificou esta proibição incomum contra Morales na Lei de Migração, que afirma que pode ser aplicada contra aqueles que “ameaçam ou perturbam a ordem interna”. É acusado de interferir nos protestos por ter comentado que se trata de uma “insurgência” contra “o Estado colonial”, e por pedir que “cesse a repressão”. Os acusadores de Morales apontam que o projeto Runasur lançado pelo ex-presidente boliviano para promover a articulação das populações nativas e organizações populares visa promover a separação das populações indígenas do sul dos Andes do Peru.

Em nota, o Movimento pelo Socialismo (MAS) descreveu as acusações contra Morales como “um ataque promovido por um grupo de poder ilegítimo manchado com o sangue de nossos irmãos indígenas assassinados por exigir democracia e justiça social”. E rejeitam a criminalização do projeto Runasur.

Rafael López Aliaga, um extremista ligado ao Opus Dei, assumiu o cargo de prefeito de Lima com um discurso racista e pesado. Mas o mais perigoso é a linha sucessória: se Dina cair, José Williams, militar de direita que preside o Congresso, ficaria à frente do executivo. Esse seria o plano completo: Castillo na prisão, Boluarte fazendo o trabalho sujo e o direito vindo para ordenar e “pacificar”.

A luta tem duzentos anos: Lima contra as regiões, a capital branca do vice-reinado contra as cidades plebeias do interior, a bonança do establishment econômico contra a demanda por justiça do centro e do sul dos Andes. Peru sangra até a morte, mas os gritos parecem não incomodar a ninguém ainda.

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