As trabalhadoras domésticas foram vítimas de preconceito de classe, de raça e de gênero pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, no dia 12 de fevereiro. Em um seminário em Brasília, justificando a alta do dólar, ele afirmou: “empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa danada”.

A fala do ministro indigna-nos, mas não nos surpreende. Ela compõe a mentalidade elitista, racista e machista do governo Bolsonaro, que, vamos combinar, não está descolada da sociedade brasileira. Aqui, se pensa e pratica que há um lugar para cada uma: nasceu mulher, preta e pobre vai servir na casa grande. O peso da escravização de quase 4 séculos não foi superado no pós “abolição”. Persistiram “quartinhos de empregada” menores que banheiros, refeições com restos de comida, legislação trabalhista que mantém persistente desigualdade em relação a outras categorias profissionais. Essas diferenças percorreram todo século XX, sendo a PEC das Domésticas aprovada no Senado Federal somente em 2013 e com itens regulamentados em 2015.

Tenho um vínculo forte com o trabalho doméstico. Quando criança e adolescente, na minha pequena cidade, sendo a segunda filha de sete (as cinco primeiras mulheres), eu era doméstica. Doméstica como a maioria das meninas pobres da minha geração, como minha mãe, minhas tias e minha avó. Lavar, passar, cozinhar, cuidar de crianças e limpar casa eram tarefas rotineiras. Às vezes, em troca de comida, outras, de um dinheiro trocado. Mamãe nos enviava a casa “dos outros” para “ajudar”. Desse tempo só me recordo de abusos e que eu nem sabia que, de fato, eram. Abusos sexuais de patrões, abusos de crianças e de adolescentes que não foram ensinadas a respeitar trabalhadoras domésticas, abuso de patroas que exigiam padrões de limpeza bem superiores ao que elas mesmas praticariam.

Como eu já tinha tendências “feminazi”, lembro de, um dia, jogar água na casa inteira de uma patroa e, por algum desentendimento com a mesma, deixar toda alagada e ir embora. Sim, existia exploração. Sim, existe e continua existindo muita resistência. Resistência incomoda, mesmo na esquerda. Lembro-me do susto que levei quando uma advogada de um sindicato de trabalhadores/as – considerada de esquerda – disse que a única categoria que ela não defendia era das domésticas: “elas comem na casa da gente e ainda processa?”. Nunca esqueci. Nunca perdoei.

Depois, minha relação com o trabalho doméstico passou a ser de negação, não só o trabalho remunerado, como o trabalho em casa. Virei militante e negava o trabalho doméstico. Fui fazer outros trabalhos, inclusive o trabalho na roça, mas doméstica eu não queria ser.

Quando ingressei na universidade, fui estudá-lo, o pensava como a pior forma de trabalho: repetitivo, mal remunerado, desvalorizado. Na pesquisa de campo, com fontes orais, fui convidada a rever minha posição, a aceitar como uma forma de trabalho que as trabalhadoras domésticas consideram digna. Esse é o tema da minha vida. Da graduação ao doutorado estudando as experiências de mulheres que têm como centro o trabalho doméstico, como domésticas ou donas de casa em tempo inteiro.

Quem não é doméstica também pode aprender acertar o papel higiênico dentro da lixeira, lavar seus próprios pratos, suas cuecas e sobretudo, no caso do ministro, não dar palpite sobre o que não sabe.

Mas voltemos ao ministro: sua afirmação não é só preconceituosa, como também mentirosa. Embora domésticas tenham direito de ir aonde quiserem, inclusive à Disney, elas não estavam, a não ser excepcionalmente a trabalho, como afirmou uma importante representante da categoria Creusa Maria Oliveira, da Federação Nacional dos Trabalhadores Domésticos (Fenatrad) e do Sindicato dos Trabalhadores Domésticas da Bahia: “se a economia estivesse indo bem, quem sabe as empregadas não estariam indo à Disney com as famílias para quem elas trabalham? Pelas condições de vida das domésticas no Brasil, quando elas viajavam com os patrões e para olhar os filhos dessas famílias”.

Estamos falando de uma categoria com mais de 6 milhões de trabalhadoras, de acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (2019), sendo a maioria esmagadora de mulheres e negras, que mesmo com os avanços na legislação (antes da Reforma Trabalhista de Temer, já que depois, os direitos do conjunto da classe trabalhadora vieram abaixo), não atinge 30% de carteira assinada em 2019.

Os salários das domésticas no período entre 2012 a 2019 sofreram poucas variações. A média, em 2012, era R$ 825,254 e, em 2019, passa a ser R$ 907,78. Esses valores são insuficientes para a garantia das necessidades básicas – é válido lembrar que é crescente o número de trabalhadoras chefes de família e/ou que são responsáveis sozinhas pela criação de seus/suas filhos/as. Isso significa que, com essa renda, o lazer das domésticas fica bastante restrito e ir à Disney – para as que tivessem esse desejo – se torna bastante difícil. Nesse sentido, não procedem também os memes que circulam na internet que corroboram a fala de Guedes de que, nos governos do PT, as domésticas iam a Disney. Nem a Disney e, muitas vezes, nem a passeios dentro da própria cidade em que vivem.

Trabalho doméstico tem a ver com desigualdade: quanto maior a desigualdade, maior a possiblidade de terceirizar o trabalho doméstico. Enquanto preparamos a revolução socialista e feminista, para que os bens sejam socializados e o trabalho doméstico compartilhado por homens e mulheres e entre as gerações, devemos, no mínimo, reconhecer essa importante profissão, digna como qualquer outra, e participar de suas lutas por direitos, inclusive por melhorias na remuneração. Direito ao descanso e às férias remuneradas, tão duramente conquistadas.  Quem não é doméstica também pode aprender acertar o papel higiênico dentro da lixeira, lavar seus próprios pratos, suas cuecas e sobretudo, no caso do ministro, não dar palpite sobre o que não sabe. Precisamos avançar muito ainda para reconhecer o ataque às trabalhadoras domésticas como um ataque a todas nós e afirmar #somostodasdomésticas.

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