Foto: Midia NINJA

Boulos ter testado positivo para a Covid-19, às vésperas da eleição, impossibilitando a participação presencial no debate da Globo (que bom seria se a Globo tivesse tecnologia para o debate remoto, né?) trouxe uma variável a mais em uma das eleições mais vibrantes dos últimos tempos e evidenciou a importância da vice. O vice de Covas não só não quis debate com Erundina como talvez o próprio Covas não gostaria de enfrentá-la. Boulos tem uma vice que honra o Brasil todo e eu quero falar dessa vice.

É difícil escrever qualquer coisa que faça jus ao papel que Erundina está cumprindo nas eleições. Ela é uma mulher arretada de boa, muitas de nós já sabíamos, mas ela conceder o privilégio de termos esperança, movidos por sua energia, às vésperas de completar 86 anos é algo extraordinário. Frente a tantos baques que estamos vivendo nos últimos anos, muitos/as passaram a acreditar que não há o que fazer.

Não é sem motivo essa desesperança: golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, PEC da desigualdade, reforma trabalhista, reforma da previdência, crise econômica, destruição ambiental, inflação, governos genocidas, racismo, capacitismo, idadismo, misoginia, lgbtfobia e pandemia com governos antipovo e anticiência. É mesmo desesperador e desolador.

E então, chegam as eleições 2020 e a chapa Boulos e Erundina. Eu amo o Boulos, meu querido amigo da Frente Povo Sem Medo, do MTST e companheiro do PSOL. Mas, esse texto é para falar de Erundina. Obrigada, Erundina, por nos ensinar com a sua vida e de forma apoteótica que podemos fazer história, mesmo com os condicionantes e apesar deles, como escreveu seu secretário de educação na Prefeitura de São Paulo, o mestre Paulo Freire.

Quem é essa mulher? Eu vou usar como fonte o verbete Luíza Erundina no trabalho de uma importante instituição de pesquisa e preservação da memória histórica, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas:

Luíza Erundina de Sousa nasceu em Uiraúna (PB) no dia 30 de novembro de 1934, filha de Antônio Evangelista de Sousa, camponês e artesão, e de Enedina de Sousa Carvalho.

… desde menina trabalhou para ajudar no sustento da família, pobre e numerosa. Professora primária, em 1958, com 23 anos, foi diretora de Educação e Cultura da prefeitura de Campina Grande. (…) Começou em seguida a trabalhar, na capital paraibana, junto à Igreja Católica, ajudando no atendimento aos imigrantes e moradores de favelas da periferia da cidade. Nesse período, atuou nas Ligas Camponesas de Francisco Julião Arruda de Paula. Fez mestrado em ciências sociais na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Fez concurso para professora da Universidade Federal da Paraíba e apesar de ter sido aprovada em primeiro lugar, não pôde assumir seu posto devido à acusação de “subversiva”. Transferiu-se então definitivamente para São Paulo, onde, em 1971, foi aprovada em concurso para assistente social da Prefeitura e iniciou paralelamente a carreira de professora universitária, sendo eleita, em 1982 vereadora à Câmara Municipal de São Paulo. Em 1986, elegeu-se deputada estadual constituinte.

(…) Disputou a prefeitura com Paulo Maluf, do Partido Democrático Social (PDS), João Osvaldo Leiva, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), e José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). (…) Governou a maior cidade da América Latina a partir de 1º de janeiro de 1989, o ex-presidente Jânio Quadros, não compareceu à cerimônia de transmissão do cargo.

… Luíza Erundina promoveu uma profunda inversão de prioridades, aumentando o percentual do orçamento destinado à área social. No setor de abastecimento, lançou campanhas de venda de produtos alimentícios a preços mais baixos, criou 33 sacolões e 41 comboios de alimentos. Construiu 48 creches, 32 centros de convivência e 60 campos de futebol de várzea e instalou 86 ruas de lazer.

A despeito da canalização de 33 quilômetros de córregos, as enchentes continuaram castigando a cidade de São Paulo, inclusive com deslizamentos de terras que soterraram a favela Nova República. Tal fato levou Erundina à elaboração, junto com 16 prefeitos da Região Metropolitana de São Paulo, de um plano para o enfrentamento de situações de enchente.

A administração de Luíza Erundina aumentou o número de leitos hospitalares, internações, médicos e unidades de saúde. A taxa de mortalidade hospitalar, que chegara a 7,4% em 1990, caiu para 5% no primeiro trimestre de 1992, ao passo que o índice anual de mortalidade infantil foi reduzido em 7%. Foram construídos seis novos hospitais de grande e médio portes, 31 unidades especializadas e 33 prontos-socorros, ambulatórios ou postos de saúde.

(…) as principais realizações no setor, que resultaram inclusive no recebimento de prêmios de organismos internacionais, foram a construção de casas de cultura na periferia e a ampliação da oferta de serviços das bibliotecas municipais através da utilização de dez ônibus-bibliotecas, da construção de oito bibliotecas e da aquisição de 530 mil livros.

Foram realizados concursos públicos para o preenchimento de vagas, ainda que em caráter provisório, aumentando assim o número de funcionários municipais, que passou de 110.455 em 1988 para 137.536 em 1992. Os maiores aumentos ocorreram nas áreas de saúde, habitação, planejamento, bem-estar social e educação. (…)

O maior legado da gestão de Luíza Erundina na prefeitura de São Paulo foram as realizações na área da Secretaria de Educação, cujo titular foi o renomado educador Paulo Freire. Merecem destaque o aumento do número de matrículas, a criação de 70 novas escolas, a redução do percentual de evasão e de repetência, a alfabetização de adultos e a instalação de microcomputadores em 50 escolas da periferia.

Erundina segue tendo uma história admirável, ocupando várias funções importantes, com destaque para seus mandatos na Câmara dos Deputados, cargo que exerce atualmente de maneira brilhante. Na urgência do momento que escrevo, na possibilidade real de voltar a governar a maior cidade da América Latina, destaco sua experiência à frente da Prefeitura de São Paulo, final dos anos 80 e início dos 90, quando muitos dos/as eleitores/as nem tinham nascido. É preciso lembrar para que não se esqueça e, neste caso, lembrar para que de novo aconteça! Lembrar para acender em nós a esperança de que mudar é difícil, mas é possível.

As prioridades da gestão Erundina na Prefeitura de São Paulo continuam na ordem do dia. Que mulher de visão! Que experiência fantástica! Como ela pode mudar a vida milhões de pessoas com sacolões comunitários, campos de futebol, criação de creches, bibliotecas públicas, postos de saúde, concursos públicos, uma total inversão de prioridades. Temos muito a aprender com Erundina e o campo progressista já sai mais forte dessas eleições. Muito dessa fortaleza devemos à chapa Boulos-Erundina.

Erundina é a antítese e o antídoto a Bolsonaro. Ele não está nem aí para a vida do povo, nega a ciência e diz que vidas negras, pobres, velhas e de mulheres não importam. Ela é velha, mulher, nordestina, solteira e sem filhos. Ela decidiu não se enquadrar no lugar que o patriarcado reservou à mulher. Sofreu todos os preconceitos de ser o que é e continua afirmando o direito de existir movida pelo desejo de transformar essa sociedade fundada na violência e desigualdade. Bolsonaro representa o lado de lá, o projeto elitista, excludente e autoritário que não está nem aí. E daí se já morreram mais 170 mil pessoas? E daí se são velhos/as? E daí?

A vida da Erundina e sua participação nas eleições evidencia o potencial da vida humana, da vida velha e da mulher. Evidencia a importância da coletividade, da aliança entre gerações. Evidencia que nós mulheres não devemos ser usadas apenas para representar, para dar cara de diversidade para uma chapa, mas para uma participação real, verdadeira, inteira. E Luiza, aos 85 anos, junto com Boulos, em uma decisão corajosa e cuidadosa foi para rua pedir votos de forma inventiva, cuidadosa e considerando os riscos da Covid para sua idade. Foi de Erundina, foi com o Cata Votos!

Se Boulos quisesse que Erundina fosse apenas uma representação formal em sua chapa, hoje estaríamos perdidos/as, mas essa é uma aliança verdadeira, real, forte e seremos vitoriosos/as.  São Paulo merece Guilherme Boulos e Luíza Erundina. Lute como ela: mulher, velha, política, nordestina com força e coragem para animar o Brasil a mudar. Erundine-se.

Notas:

  1. Velha pode parecer um termo pejorativo, mas estou usando de forma proposital para defender o direito à velhice e dissociando-a de uma visão preconceituosa, como sendo algo ruim.
  2. Ainda está em tempo de participar dessas eleições, até o último momento lutemos por Boulos e Erundina! Lute como Boulos e Erundina. Cate votos! Vire votos! Nas redes e nas ruas! Nada deve parecer impossível de ser mudado.
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