Ninguém faz luta política se a barriga queima de fome.

Sem dúvida a luta pela derrota do Bolsonarismo no Brasil é uma luta estratégica. Temo, contudo, que passemos os próximos 23 meses que temos até as próximas eleições lutando pelo impeachment.

A derrota de um projeto como o Bolsonarismo, nunca foi na história da humanidade uma corrida de velocidade, mas uma maratona. Esse projeto, infelizmente, já tem suas raízes fincadas no seio do povo brasileiro.

Não tenho acordo com a “prioridade” que a esquerda parece ter elencado na luta pelo impeachment. Me explico.

Não há – e o resultado das eleições de ontem parece confirmar – correlação de forças na institucionalidade para um impeachment no Brasil. Há sim uma insatisfação e desaprovação do governo, mas não há condições de se fazer a pressão política massiva que seria necessária e só é possível nas ruas.

A internet privada, da forma como é, nunca dará conta de suprir o papel das manifestações populares. É a organização política que nos leva para o outro “nível” da luta. E nem isso estamos podendo fazer agora.

Alguns irão dizer: O problema é a unidade! Não tivemos unidade na candidatura de Baleia Rossi, esse que, por sua vez, teve menos da metade dos votos de seu oponente. Aliás, que nunca se comprometeu publicamente com o impeachment.

Há muita ilusão quanto à seriedade das instituições políticas no Brasil.

Muito pouco ou quase nada do que acontece no parlamento o povo tem acesso. Há outro problema que é anterior à isso, pouca ou nenhuma compreensão do nosso sistema político a população tem atualmente.

Aqui não é a Europa com suas instituições de longa data forjadas em meio às revoluções democráticas liberais conquistadas pelas lutas populares.

Muito menos aqui é os EUA, que enfrentou uma guerra civil tendo como centralidade a disputa pelo fim da escravidão e o modelo econômico. Nós, o Brasil, foi um dos últimos países a abolir a escravidão.

Mesmo assim, há, hoje, aproximadamente, 370 mil pessoas em território nacional trabalhando em regime análogo à escravidão.

Sinto em dizer que a maioria dos políticos brasileiros é, na verdade, coronel de algum território ou setor da economia. Ouso dizer que a grande maioria dos políticos brasileiros sequer sabem a história do próprio Brasil.

A triste verdade é que nós temos um monte de herdeiros, Tancredo e Aécio Neves, Dória pai e filho, Leites, Collors, Magalhães. É tanto nepotismo na política brasileira que a representatividade dos parlamentos não é questionável: é inexistente.

Sim, de Dória a Bolsonaro, todos, intervém com emendas e promessas nas eleições das casas legislativas brasileiras.

O establishment republicano quer vender a ideia de que não fizeram a mesma coisa sempre que foi preciso para se manterem no poder.

A população não é burra, pelo contrário, cada vez mais, desconfia de Bolsonaro. Há uma rejeição aos partidos que no último período estiveram com a máquina estatal nas mãos, os partidos da “ordem”.

O povo precisa do impeachment, mas precisa comer antes. A luta pela manutenção do auxílio emergencial e a implementação da renda básica é a única forma de impedir um caos social no Brasil.

Na luta prática política sempre temos que ter prioridade. Não se trata de opor as duas lutas, mas da inevitável hierarquização de prioridades.

Nesse momento, a prioridade é a fome e a vida das brasileiras.

Unidade com programa e eixo político claro Retorno do Auxílio Emergencial Já! Renda básica e Vacina para viver!

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